Um dia já foi maíte

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​Agora virou abrilite, sintomas da vestibulite

Chilique” de vestibulando em maio sempre foi “normal”. A rotina atropelava. Era o momento dos olhares perdidos, quartos trancados, longas conversas com o travesseiro, longos desabafos com os professores e amigos, irritação até com a respiração dos pais, choro até em propaganda de margarina. Bom dia, diz a mãe preocupada com as “pirações” do filho(a). Papo reto: “Só se for para vocêeeee”. Em seguida, o desabamento: “Não aguento maissssss”. Eram os sintomas da “maíte”, que agora virou “abrilite”. Antecipamos as crises existenciais adolescentes. Em janeiro, já começa a vestibulite: “Topo qualquer faculdade. Qualquer uma”.

Extremos: balada, namorada(o) x noite acordado(a), desesperado. “Chuto o balde e espero o milagre ou me mato de estudar e espero o milagre”. O “cara do” lado é muito melhor que eu. Minha nota caiu no primeiro simulado: não vou passar. Isso em abril. “Vou fazer dez vestibulares, para não fazer cursinho”. Isso já em abril.

Muitas escolas abriam turmas em maio. Havia o fenômeno: muitos alunos descobriam que era possível deixar de namorar a vaga na universidade e se casar com ela. Outros, sem explicação plausível, rompiam o relacionamento. As escolas não abrem mais. Era inimaginável uma crise existencial já em abril. É verdade que o relacionamento com a vaga era estilo montanha russa. Há alguns anos, o sonho era casar com as universidades públicas; agora não, agora topam o vale tudo, até entrar na faculdade da esquina, o negócio é ser universiotário. Haverá em maio vestibular em um “montão” delas. Resultado: a “maíte” dançou, virou abrilite.

As crises existenciais causadas pelo “imediatismo” trazem consigo excesso de café. Vestibulando confunde ficar acordado com estudar, apostila com bíblia, aula com reza. Único assunto: neste ano, acho que não vai dar. Parece participante do BBB. O único assunto é: “Quem vai para o paredão”. O resultado ruim no simulado dispara o gatilho: “Fui mal, desisto”. Isso em abril.

Ansiedade, depressão, desespero, medo, desânimo, frustração, olhares perdidos. Psicólogos, psicopedagogos e psiquiatras nunca tiveram tantos jovens nos seus consultórios. Há um mês, durante a Oficina do Pensamento, no Criar, uma aluna expôs sua condição de vestibulanda: aos 16 anos, trazia consigo a problemática de uma senhora de 40, com cinco filhos e dois empregos para sustentar a casa, tal a pressão e responsabilidade que colocou sobre seus ombros. Eu e o psicólogo, mesmo acostumados com comportamentos de vestibulandos, saímos assombrados. O que nós, pais e mestres, estamos fazendo? Estamos criando a juventude mais velha da história, a mais doente: a geração Rivotril? Ou a turbinada, à espera de um milagre: a geração Conserta, Ritalina? Ou a conectada, desconectada: um caminhão de informações e nenhuma capacidade de decodificação?

O papa Bento XVI falou sobre a realidade da universidade “utilitarista”. Quem pode contestá-lo depois das evidências? Alunos do quarto ano da medicina da USP tentaram o suicídio e dois de universidades particulares conseguiram. A USP até criou o movimento #DAUSPRACASA (sobre o qual já escrevi).Quem pode contestar a realidade: a escola de informação matando a escola de formação? O ENEM encaixotando a criatividade em nome de um modelo? Um aluno, no terceiro colegial, não conseguir escrever um texto, em 30 linhas, na sua língua natal? Já em abril, acha que não conseguirá. Refaz provas de anos anteriores para saber como a banca examinadora se comporta, porque, de um ano para outro, a universidade não cria nada de novo. O negócio é manter o negócio. Um vestibular a cada trimestre. Resultado: vestibulite.

Outro dia ouvi uma frase absurda dita com seriedade por um aluno frustrado. A “educadora” disse em sala de aula: “Vá lá aprender a escrever e volte aqui que eu te passo no vestibular”. Pergunte a um aluno se ele tem uma estratégia para estudar, se pensa em si como um ser humano e não como um simples vestibulando. Pergunte se um dia pensou que, se não estuda agora e não aguenta a pressão, se terá estofo para suportar o peso de uma boa universidade? Talvez lhe espante, meu despreocupado leitor, com a resposta. Digo que entrar na universidade é difícil, ficar nela é muito mais difícil. Não interessa. Não é à toa que as crises existenciais chegam cada vez mais cedo e um jovem parece cada vez mais velho. Maio virou abril. A pressão virou depressão. A ansiedade virou desespero. Universitário não sabe redigir. A abrilite tomou o lugar da maíte, sintoma imediato da vestibulite que, infelizmente, lá na frente virará outobrite. Em 2017, outobrite virou setembrite. Tenho medo que, neste ano, setembrite vire agostite. E, se acontecer, vamos esperar que um aluno se suicide, para lançarmos uma campanha? Qual seria?


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