Que as crianças cantem livres

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Acredito que passar por uma eleição e aceitar um novo candidato que por muitas vezes não foi a sua escolha, seja como aprender a gostar de um novo perfume. Eu sei que isso talvez seja uma comparação inapropriada, mas talvez delicada o suficiente assim como o momento pelo qual nós estamos passando. Imagine só, em seu aniversário, um dos seus melhores amigos lhe presentear com aquele perfume caríssimo que está super na moda, mas que é extremamente doce e não combina em nada com a sua personalidade. Mas como ele trouxe de outro país e você gosta muita dessa pessoa, você quer agradá-la, e se esforça pra isso.

Penso que talvez seja exatamente isso que falte com a democracia, respeito com a opinião alheia. Não é errado ser oposição, mas é errado sim não aceitar o que foi escolhido por uma votação, e transformar isso em uma guerra. Acredite, a democracia apesar de justa ela nunca vai fazer 100% das pessoas felizes.Comecei a votar desde os meus 16 anos, assim que esse direito foi me dado, mas minha consciência política foi mudando muito com o tempo. Tive o privilégio de crescer em uma família em que se debatia, se explicava e discutia esse assunto sempre! Opiniões não eram minorizadas, e cada argumento sempre foi ouvido como até hoje é. Tive exemplos de avós que liam os jornais todos os dias, e debatiam sobre tudo aquilo entre eles, e conosco. Minha avó sempre contava essa história em que o pai dela ‘obrigava’ os 5 filhos a sempre discutir uma das matérias do jornal na hora do almoço, era a forma que ele achava para que sempre se interessassem a estarem informados. E ela cresceu ensinando isso pra gente, essa herança familiar linda de intelectuais e jornalistas.

Talvez o presidente eleito não tenha sido a minha ou sua escolha, mas com certeza o nosso dever independente disso é aceitar e principalmente fazer a nossa parte para que o impacto disso seja positivo. De certa forma ‘aplaudir’ o que for feito de bom (assim como o fiz em outros governos em que os que estavam no poder não eram os meus candidatos), e reivindicar aquilo que não concordamos. Mas além de ser a eleição com mais polaridade da história do Brasil, com certeza foi a eleição em que com esse acesso tão fácil a opiniões se tornou quase insuportável sobreviver até o final desse segundo turno. Piadinhas e provocações, na minha opinião, são extremamente desnecessárias nesse momento. Que tal tentar mudar o mundo à sua volta? Ensine sua família, amigos e alunos a não serem intolerantes. Ensine como é importante cuidar do meio ambiente. Ensine como a guerra é algo que o nosso país nunca passou, e que não seria legal que acontecesse. Ensine como o trabalho engrandece. Ensine como ler é importante para saber argumentar e viver. Ensine como amar pode ser tão fácil, mais fácil ainda que essas comparações baratas que estão acontecendo. Ensine que todos têm a sua chance de fazer a diferença, e que nunca concordaremos com a opinião dessa diferença 100%.

Li uma coisa ontem que me fez resumir tudo isso: A gente não gosta de todo mundo. A gente não concorda com todo mundo. A gente não é amigo de todo mundo. Mas temos que respeitar todo mundo. Indiretamente, a linda Gisele Bundchen escreveu essa semana: “O futuro é uma tela em branco. Cabe a cada um de nós escrevê-lo e co-criar a realidade na qual queremos viver. O que está acontecendo no mundo hoje é simplesmente um reflexo do que está acontecendo no interior de cada um de nós. Sejamos o exemplo do que queremos ver no mundo, afinal ele mudará quando nós entendermos que a mudança começa primeiro dentro de cada um de nós. Quer respeito? Respeite. Quer amor? Dê amor. Quer honestidade? Seja honesto. Se quisermos um mundo melhor, precisamos primeiro criá-lo dentro de nós mesmos.”

Acredite, tudo que vimos e ouvimos nesses últimos tempos foi ódio e intolerância, até daqueles que estão brigando por ela. Amizades e famílias serem desfeitas por tudo isso. A minha opção política não é aquela que chegou nem sequer ao segundo turno, mas infelizmente, independente das nossas escolhas, temos arcar com o nosso presente. E como estamos vivendo e coexistindo nesse mundo juntos, espero que ao invés de tanta guerra como já foi visto nesses últimos tempos, possamos mostrar com exemplos o que é melhor para todos nós! E quem sabe aprender a usar aquele perfume que achávamos tão ruim.

*Esta coluna é semanal e atualizada às quintas-feiras.