Pesquisadores criam pílula anticoncepcional com 30 dias de duração

Cápsula criada por cientistas chega ao estômago, não é digerida e libera a droga contraceptiva gradualmente

Postado em: em Ciência

​O anticoncepcional oral é um dos medicamentos mais consumidos por mulheres, que precisam seguir a orientação de ingerir a pílula diariamente. 

A fim de simplificar esse método contraceptivo, pesquisadores americanos desenvolveram uma cápsula que libera a droga que evita a gravidez aos poucos, durante um mês. Experimentos iniciais, feitos com porcos, tiveram  resultados positivos e, segundo a equipe, abrem as portas para  testes com humanos.

No estudo, publicado na última edição da revista Science Translational Medicine, os cientistas explicam que uma recente pesquisa mostrou que até metade das mulheres que tomam contraceptivos diários relata ter esquecido de tomar o medicamento pelo menos uma vez durante um período de três meses. 

A partir de então, os pesquisadores decidiram desenvolver um método que continuasse sendo ingerido oralmente, mas em um espaço maior de tempo.

Giovanni Traverso e sua equipe desenvolveram uma cápsula composta por seis bastões, unidos por um núcleo com revestimento elástico. Os bastões são carregados com o contraceptivo levonorgestrel, já prescrito para mulheres. Uma vez no estômago, se desdobram e ganham extensão maior, o que ajuda a cápsula a permanecer no órgão, onde pode liberar a droga ao longo do tempo.

Os cientistas testaram a metodologia em porcos. Como comparativo, mediram a presença da droga na corrente sanguínea de animais que receberam a nova cápsula e na de animais que receberam o remédio de forma tradicional. 

No caso do  comprimido, a dosagem do contraceptivo diminuiu, no organismo das cobaias, após seis horas. Para a forma de liberação prolongada, a equipe observou concentrações do medicamento por até 29 dias.

Segurança

Graças aos resultados positivos, os cientistas pretendem dar continuidade à investigação. Os próximos passos incluirão a ampliação dos processos de fabricação do dispositivo e avaliações de segurança. “Nossa cápsula representa um grande avanço no sentido de fornecer às mulheres um contraceptivo mensal. Para muitos, isso pode ser difícil de acreditar. Mas nossos dados pré-clínicos nos encorajam nesse caminho”, frisa Giovanni Traverso.

Para Jordanna Diniz, ginecologista do Centro de Medicina Fetal (Cemefe), em Brasília, o estudo norte-americano mostra dados interessantes, que podem gerar um método de aplicação de contraceptivos com importantes vantagens. “Acho interessante que eles utilizem como base o levonorgestrel, que não induz a danos, como a trombose, ao contrário de outros contraceptivos, que usam uma combinação de drogas”, justifica.

A médica indica outra vantagem do método proposto. “Esse tipo de entrega do medicamento também poderia aumentar a adesão das pacientes ao método oral, que é menos complicado que outros, como o DIU e os injetáveis. A pílula ainda é o mais seguro, mas temos essa resistência, pois a maioria esquece, e o medo de engravidar é grande”, explica.

Segundo Jordanna Diniz, os cientistas parecem ter encontrado uma maneira de aplicar o medicamento com mais praticidade e sem efeitos colaterais, mas a metodologia precisa ser mais estudada. “O  polímero usado nessa cápsula mostra-se resistente ao suco gástrico, a digestão propriamente dita. Essa característica é importante, mas é necessário analisar em testes com pacientes se elas terão uma boa aceitação e se ocorrerão efeitos colaterais. Sabemos que o uso de medicamentos pode gerar complicações quando eles interagem com outras substâncias, como bebidas alcoólicas. Outro ponto importante é o preço, que não pode ser muito alto, pois o remédio precisa ser acessível para a população”, pondera.

A ginecologista ressalta ainda que outros pesquisadores têm conduzido estudos com o objetivo de aprimorar as estratégias de contracepção. “Temos visto recentemente alguns especialistas se dedicando à pílula para os homens, por exemplo. Acredito que podemos ter a esperança de que outras opções surjam e que as atuais melhorem cada vez mais”, opina a médica.


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