O ARTISTA E O LOUCO

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​Lhe contarei uma história, paciente leitor, a quem tributo meus sinceros cumprimentos.

Dois personagens.

Vidas que talvez nem se entrelaçaram, mas, embora eu não tenha a menor pretensão de trazer o fim destas laudas cá para o início, por certo o leitor haverá de compreender bem a analogia que proponho.

Os feitos destas duas figuras certamente jamais se apagarão com o tempo, pois estão eternizados na memória mundial. Sendo assim, sabemos bem o fim.

Os chamarei pela singela alcunha de “artista” e o “louco”. Já antecipo minha defesa, diante dos tribunais dos críticos, que é compreensível encontrarmos mais artista no louco ou vice-versa, ou não, fica a entendimento de quem, por ventura lê estas rasuras.

O artista nasceu num pequeno vilarejo. Um dos seis filhos de um alfandegário que lhe propunha rígida disciplina. Era criança extrovertida, bastante asseada para os costumes da época. Exímio apreciador das artes. Recebeu aulas de canto e até se apresentou com o coral de sua igreja. Nesta época cogitou se tornar padre.

Já o louco era uma criança atarracada, um dos sete filhos de um alcoólatra falido, que o vício levou precocemente ao túmulo. Era completamente irritadiço, esquecido e sem qualquer refinamento. Foi contra sua vontade que entrou para as aulas de música. Um jovem de temperamento difícil que, frequentemente se desentendia com o pai.

O artista era um menino pródigo que sonhava ingressar na escola de Belas Artes de seu país, aplicando, em sua mocidade, todas as suas economias em tal sonho. Chegou a vender aquarelas em pontos turísticos, na tentativa de financiar o sonho de ser um renomado pintor. O que foi em vão, pois, foi rejeitado. Foi quando alistou-se de maneira voluntária no exército, para servir como mensageiro em frente de batalhas, sendo condecorado por bravura, chegando até a receber a Cruz de Ferro.

O louco era estabanado, aéreo e com boa aptidão para destruir tudo que tocava. Era um solteirão que dormia em lugares bagunçados e sujos, mal se banhava e possuía um hábito nojento de cuspir a todo momento e em todo lugar. Assim como o pai, possuía invejável apetite etílico e sua cabeleira estava sempre revolta.

Já o artista, era avesso às bebidas e cigarros. Também se tornara vegetariano. Era apaixonado pela sétima arte, sobretudo o filme Branca de Neve e os sete anões. Amante dos animais e de leitor apaixonado, escrevera um livro. Seus cabelos andavam sempre impecavelmente bem penteados.

Na primeira apresentação relevante ao público, o trabalho do louco foi tido propriamente como uma maluquice. Embora altamente impactante.

Quanto ao artista, levou o público ao delírio na primeira vez que lhe falou efetivamente.

O louco, obviamente, não era compreendido e em depressão tentou suicídio. No entanto, cerca de vinte mil pessoas compareceram ao seu funeral, quando a pneumonia, associada à cirrose resolveu o levar.

Já o artista, passou seus últimos instantes, entocado, como um rato e é bem certo que seu cadáver se espalharam entre tantos outros anônimos.

O louco, paciente leitor, era ninguém menos que Ludwig van Beethoven.

Já o artista era Adolf Hitler.​