Novos dilemas: furar a quarentena é um direito individual ou deslize ético?

Falta de regras claras para lidar com a quarentena no Brasil pode contribuir para as diferentes interpretações

Postado em: em Cotidiano

Como classificar a atitude do jovem casal que, em plena pandemia, decide aproveitar a manhã ensolarada de domingo para colocar a roupa fitness e sair correndo pelas ruas de São Paulo? Ou das pessoas que têm frequentado as praias no Rio? 

Ou de todas aquelas que Brasil afora - inclusive em Franca, é possível identificar muitas delas -vão sem máscaras aos supermercados ou a outros lugares de grande circulação de pessoas?

Desdém pela própria vida, despreocupação com a coletividade, falta de ética? Ou trata-se apenas de uma escolha individual que, como tal, deve ser tolerada?

Há tolerância possível, no entanto, quando a suposta escolha individual ameaça a saúde de outras pessoas ou incentiva um comportamento de risco? 

Afinal, muitas das pessoas que veem as outras circulando pelas ruas se perguntam: “se elas podem, por que eu não posso?” E transformam esse questionamento em ação, indo para a rua.

Tensão coletiva

Para a psicanalista Cláudia Serathiuk, a falta de regras claras para lidar com a quarentena no Brasil contribui para as diferentes interpretações que as pessoas dão à situação. “Não há como você esperar que todos sigam os mesmos padrões, porque cada um tem uma régua própria”, ela diz.

Mesmo quem tenta seguir a orientação de só sair de casa para o essencial pode ter diferentes interpretações a respeito, avalia Cláudia. 

Ela própria tem saído para caminhar algumas vezes por semana, no bairro de Curitiba em que mora, por considerar que é uma atividade essencial para manter a saúde mental.

“Escolho horários de pouco movimento, uso máscara e atravesso a rua se vejo alguém vindo no mesmo lado”, descreve a psicanalista. Mesmo com todos esses cuidados, ela não se sente à vontade. “Sei que algumas pessoas me julgam e, além disso, fico com medo de alguém passar perto demais ou de ser assaltada, pois tenho escolhido caminhos mais isolados.”

Certo ou errado?

Cláudia tem dois irmãos que moram na Nova Zelândia, onde o governo estabeleceu regras muito claras para a quarentena e a contaminação pelo coronavírus foi rapidamente controlada em decorrência da obediência da população a essas determinações.

Muitos outros países impuseram critérios para exercícios físicos na rua: apenas em determinados horários, em escalas por faixa etária ou dentro de um determinado raio de distância da residência, por exemplo.

Como o Brasil não adotou referências que pudessem padronizar o comportamento, vivemos em meio a uma grande zona cinzenta, em que os conceitos de “certo” ou “errado” são relativizados e dependem de interpretações pessoais.

Um teste para a ética

Não é só a lei que serve como referência de comportamento, entretanto. O convívio em sociedade exige atenção ao fato de que, além das atitudes ilegais, há também as imorais e as aéticas.

Não foi por acaso que, embora não tenha descumprido nenhuma lei, a musa fitness Gabriela Pugliesi recebeu duras críticas ao promover uma festinha em casa e divulgar alegremente cenas do evento.

Mas o que é ética, afinal? De acordo com definição do dicionário Michaelis, trata-se do “ramo da filosofia que tem por objetivo refletir sobre a essência dos princípios, valores e problemas fundamentais da moral, tais como a finalidade e o sentido da vida humana, a natureza do bem e do mal, os fundamentos da obrigação e do dever, tendo como base as normas consideradas universalmente válidas e que norteiam o comportamento humano”.

Como tem ressaltado o historiador Leandro Karnal, é nos momentos de crise e de grandes dificuldades – especialmente guerras, revoluções e epidemias – que a ética é de fato verificada. “Quando está tudo bem fica muito mais fácil ser ético”, diz Karnal.

Discurso mais duro

Formadores de opinião com grande exposição pública, como Gabriela Pugliesi, têm responsabilidade multiplicada no que diz respeito a influenciar as ações dos outros.

Para tentar convencer as pessoas sobre a gravidade da pandemia, a médica geriatra Ana Claudia Quintana Arantes, especialista em cuidados paliativos que se notabilizou por falar da morte de forma aberta e direta, decidiu adotar nas redes sociais uma posição dura contra aqueles que passaram a desrespeitar a quarentena por “motivos fúteis”.

Ao postar uma foto de uma praça em São Paulo lotada, ela legendou: “Certo está o nosso prefeito que contratou mais coveiros e abriu mais covas e abriu mais vaga em cemitério. Será mesmo necessário…”.

Quando uma seguidora comentou que não havia motivo para preocupação, porque “a mortalidade desse vírus é baixíssima”, ela respondeu: “A mortalidade baixíssima pode pegar você. E aí é ficar 100% morta. E calada.”

Ciência não é valorizada

A falta de informação poderia ser uma das explicações para as atitudes de boa parte da população? Mas como, se os meios de comunicação têm dado amplo espaço às notícias e orientações relacionadas à pandemia?

Para o professor de filosofia Alexandre Meyer Luz, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), é preciso lembrar que a pandemia envolve os mais diversos aspectos da vida – psicológicos, culturais, políticos, econômicos e sociais –, e que cada pessoa age motivada pela soma das circunstâncias e referências individuais.

A relação com a informação é um desses ingredientes. Assim, o que ocorre muitas vezes é a decisão de não validar fontes consagradas ou de menosprezar o conhecimento científico. 

“De um lado, as perguntas sobre o valor da informação e sobre o que é uma boa fonte se tornaram mais complexas no novo cenário de circulação de informações que vivemos. De outro, a nossa educação dedica pouca atenção a fazer o indivíduo compreender o que faz uma fonte de informação ser melhor do que a outra”, descreve o professor.

“A maioria dos brasileiros não foi ensinada a entender as características dos processos de investigação que fazem com que uma fonte de informação como a ciência seja, com justiça, considerada uma boa fonte”, conclui.

*6Minutos


Artigos Relacionados