​Não carregue lixo

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Uma das minhas alunas estava em prantos, porque não passou para a segunda fase do vestibular.

Cheguei perto e perguntei: O que aconteceu? Ela me encarou e me perguntou: E agora, o que eu faço?

Devolvi a pergunta: Quantos vestibulares você ainda fará?

Resposta: Mais três.

Disse-lhe: Então não carregue lixo. O que passou, morreu. O que passou, não pode atrapalhar o que vem.

Ela sorriu espantada: nunca ouvi isso, falado desse jeito.

Continuei: Então, ouça de novo. Não carregue lixo. Se fez algo, não há como consertar. O que fará sim, essa é a parte importante.

Continuou: Sabe! Eu me pressionei demais. Muita coisa me atrapalhou também: meu cachorrinho morreu, o pessoal ficava me chamando para a balada. Não tive tempo para nada, nem ir à aula eu conseguia. Quando ia, não conseguia ficar. Sei que o senhor vai achar que são desculpas. Desculpe, mas não é.

Para quem ela pedia desculpas? Para mim? Para ela mesma? Para o tempo que acredita perdido? Como diria meu grande amigo Neto: “arrependimento custa caro para o bolso e para a alma”.A pior expressão que existe é: desculpe-me. Por quê? Porque vem posterior ao fato. Ninguém desculpa ninguém, apenas pro forme. Na verdade, remoerá o fato, tanto, tanto, tanto, que um dia jogará na cara do outro o lixo que remoeu. Carregar lixo é comprometer o futuro, por causa do passado. E o passado dói, se você, impaciente leitor, permitir.

Assim ocorre com o vestibular, assim ocorre com a vida. Minha aluna passou um ano mergulhada nas próprias fantasias, esquivando-se de uma responsabilidade, que a atingiria, com dia e hora marcadas. Na verdade, eu deveria ter estudado, mas, mesmo não estudando, eu tinha esperança. “Quem sabe / faz a hora / não espera acontecer”. Parodiando: Quem não sabe / não escolhe a hora / se será atropelado pelo que acontecer.

Desculpe-me, professor. Pensei: Passará o ano inteiro no cursinho, arrependida do que não fez. Custará caro para a mente, o corpo, o bolso e a alma. O problema são as desculpas que arrumará para si mesma. Pior ainda, procurará passar em uma faculdade qualquer e resolver se matricular. O arrependimento e as desculpas virão depois da formatura. Como uma desculpa que puxa a outra, uma mentira que puxa a outra, o lixo puxa o outro.

Mudando drasticamente de assunto, num belo dia, você acorda e sai de casa, chega ao trabalho, um amigo vem e lhe diz que não só falaram, escreveram muitas coisas sobre você. Construíram propositalmente uma imagem devastadora de você, manipularam seus supostos amigos contra você, ofenderam-no, desrespeitaram-no, tentaram manchar sua honra e sua história, ou seja, tentaram recolher o próprio lixo e o jogaram em cima de você.

Alguns dos envolvidos, um dia, serão atropelados pela verdade. Diante dela, pedirão desculpas. No raso, você desculpará, mas no fundo, no fundo o fará? Ou pensará: Quem me traiu uma vez, trairá de novo. Quem disse que era meu amigo, não é. Quem me desrespeitou, desrespeitará novamente. Quem tentou macular a minha história, tentará de novo. Isto é, mesmo com um sorriso esquivo, carregará o lixo que lhe jogaram em cima.

No nosso dia a dia, os invejosos, os medrosos, os desonrados carregam seu lixo emocional na língua posando de vítimas. Não têm a lucidez de uma jovem vestibulanda. Não se engane, atento leitor. O dono do lixo, que tenta atingi-lo, tem nome, sobrenome, endereço, carteira de identidade e profissão. Lixo, de tanto se remoer, solta chorume. Lixo fede e chorume contamina. Coitado de quem o armazena. 


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