EU TE VEJO

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​Eu te vejo, paciente leitor!

Todos os dias.

Eu te vejo esticando o corpo mal dormido no colchão repleto de calombos, praguejando contra a inconveniência do despertador. Te vejo debruçado sobre a mesa, pensando na prestação que já venceu. Depositando fé nos números que jogou. Eu te vejo sonolento, sacolejando num ônibus entupido de gente apressada, vencendo a tentação do sono, que lhe seduz pender a cabeça no ombro vizinho.

Como o olho que tudo vê, vejo você entreolhando as crianças brincando no tapete da sala. A brincadeira tem alegra, mas não te convida.

Te vejo meditando a vida no corredor do hospital, comparando suas desgraças com as tragédias alheias. Te vejo polindo uma estante cheia de livros que você nunca abriu. Te vejo escrevendo belas cartas de amor, endereçadas a gaveta, e que nunca serão lidas. Te vejo apagando sua existência num cinzeiro entupido de bitucas de cigarros. Te vejo engolindo suas lamurias diárias numa boa dose de álcool. Te vejo comprando roupas caras, para ir à festas pobres, de onde sairá tão desfigurado quanto os mendigos que você ignorou na chegada.

Eu te vejo! Mesmo que não perceba. Eu te vejo inseguro, trancafiado em condomínios velados por seguranças. Tanto quanto vejo, nos porta-retratos espalhados pela casa, onde alguém com a face bem semelhante a sua sorri, mas está bem distante da caricatura que você é agora. Eu te vejo dando likes em flores que alguém postou, mas deixando secar as flores de seu próprio jardim. Eu te vejo celebrar a doença curada. Te vejo solicitando amizades em redes sociais e ignorando um “olá” a quem senta ao seu lado. Te vejo comprando tv cara, para assistir conteúdos miseráveis. Te vejo comovido por um drama na tela da TV, mas, insensível a quem chora ao seu lado. Te vejo procurando Deus numa porção de lugares, menos dentro de si mesmo. Ah! Eu te vejo também, atrás do volante daquele automóvel luxuoso, driblando em ruas esburacadas, negando no sinal, a moeda que pagará o suborno na próxima blitz. Te vejo injetando no tanque, um combustível mais caro que seu carro. Te vejo pagar pela vida toda uma moradia dita popular. Te vejo pomposo estirado na poltrona, acreditando ter conquistado tudo e que agora é só aguardar pela morte.

Te vejo no trânsito, nos becos, assaltando ou sendo assaltado. Te vejo partindo mais do que chegando. Te vejo nas cicatrizes que a tinta apaga nos muros, nas gírias de seu português ruim. Te vejo cantarolando velhas melodia que a dialética atual assassinou. Te vejo comprando antidepressivos para superar um breve momento de tristeza. Te vejo pintando os cabelos para parecer mais jovem e reivindicando preferência, por ser velho demais. Eu te vejo pendurando preces no varal. Te vejo tatuando ao avesso da pele, uma dor que assombra. Te vejo preparado para qualquer guerra que se levantar, mas, absolutamente imaturo para a paz. Te vejo descumprir promessas que não devia ter feito. Te vejo meditar se liga ou aguarda a ligação. Te vejo dizendo frases que deveriam ser assassinadas. Te vejo assassinando o diálogo com o silêncio que cultivou. Te vejo casar-se com o trabalho e fazendo da família a amante que procuras esporadicamente. Te vejo. Por Deus eu te vejo tão mesquinho, apequenado para as coisas da vida. Te vejo tratando o seu caso como diferente. Te vejo sair de casa pensando em praticar o bem, e retornar frustrado, pelas tantas maldades que cometeu. Te vejo decidido a ser um bem melhor no dia seguinte. Eu te vejo! Te vejo, sempre que me olho no espelho.


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.