Do feminicídio ao canal de denúncias no app: a jornada do Magalu contra a violência

Iniciativas viralizam em meio ao crescimento no número de denúncias recebidas desde o início da pandemia

Postado em: em Economia

Uma campanha do Magazine Luiza chamou a atenção da população para um problema que atinge milhares de mulheres há muito tempo: a violência doméstica.

 A mensagem era simples e direta: “Ei moça, finja que vai fazer compra no app Magalu. Lá tem um botão para denunciar a violência contra a mulher”.

O curioso é que esse canal de denúncia existe desde março de 2019 no app da rede varejista. Então por que repercutiu tanto? 

É que houve salto de 40% no número de denúncias recebidas pelo telefone 180 em maio. 

O mais perigoso é que esse aumento aconteceu em plena pandemia de coronavírus, quando as mulheres estão trancadas em casa com seus agressores. 

O crescimento foi ainda maior no canal de denúncia do app do Magal: cerca de 400%.

Como funciona esse canal? É preciso abrir o app Magalu, ir em “Sua conta” e lá no fim da lista clicar na opção “Denuncie violência contra a mulher”. 

Ao fazer isso, o usuário vai para o botão de denúncia, que liga para o telefone 180, do governo, ao ser acionado.

Mas só dá para ligar? Por enquanto, sim. Mas o Magazine Luiza vai ampliar nesta semana as opções para o denunciante relatar casos de violência. Veja abaixo:

  • 180: disque-denúncia que funciona diariamente, 24 horas por dia
  • Chat de denúncia do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos
  • 190: telefone da polícia

O que muda com isso? Pelo chat, a denúncia poderá ser feita por escrito, opção que não existe hoje nas chamadas ao 180. O 190 deverá ser acionado em casos de emergência, quando a polícia deve ser chamada.

Por que essas mudanças? Ana Herzog, gerente de reputação do Magazine Luiza, e Pedro Alvim, gerente de mídias sociais, disseram que a varejista já planejava criar outras opções de denúncia.

“A gente percebeu que as pessoas confundiam a utilização do 180. Não adianta ligar para esse número achando que a polícia vai aparecer, pois não vai”, afirmou Herzog.

Alvim disse que também há dúvidas sobre quem pode denunciar e que tipo de caso pode ser relatado. 

“Percebemos que há uma confusão, as pessoas pensam que é só a vítima que pode denunciar, mas qualquer um pode fazer isso. E não são apenas casos de violência contra mulher, independe de gênero.”

Mas o que uma rede varejista tem a ver com denúncia de violência? Para começar, segundo Ana Herzog, o Magazine é uma empresa de alma feminina, fundada por mulheres e que, até bem pouco tempo atrás, era presidida por Luiza Helena Trajano. 

“A Luiza sempre foi uma defensora das causas do empoderamento feminino. A empresa tem políticas voltadas para as mulheres, como o cheque-mãe, licença maternidade estendida.”

A preocupação com a violência contra a mulher aconteceu de forma trágica, em 2017, quando Denise Neves Anjos, gerente de uma loja do Magazine Luiza em Campinas, foi esfaqueada e morta pelo marido. Foi então que a luta contra o feminicídio se tornou uma bandeira de Luiza Helena Trajano.

“Essa morte chocou a empresa inteira. A Luiza decidiu agir rápido, um mês depois criou um conselho formando por pessoas que já atuavam nesse tema e foi aí que surgiu o canal interno de denúncias para funcionárias do Magazine Luiza”, afirma Ana.

Como essas funcionárias são atendidas? De várias maneiras. Em alguns casos, segundo Ana, a funcionária só precisa de orientação sobre como ter acesso a serviços públicos. 

Em outros, ela precisa de companhia para ir até uma delegacia. Também há casos mais graves, em que a colaboradora precisa de apoio financeiro para ficar longe do ex-companheiro.

Quantas denúncias o canal interno já recebeu? Criado em 2017, o canal de denúncia de violência acompanhou quase 400 casos. 

Desse total, 315 estão encerrados (a funcionária saiu da empresa ou rompeu o ciclo de violência). Outros 54 estão sob monitoramento semanal (não romperam totalmente o ciclo de violência). E há 27 casos classificados como críticos.

As denúncias internas também subiram? Curiosamente, não. Entre os motivos para esse comportamento é que vários dos motivos que causavam brigas com o companheiro deixaram de existir na pandemia, como sair para trabalhar, usar salto alto, passar batom, ciúmes de colegas de trabalho.

Mas esse movimento também pode ser atribuído a outro fator: muitas das denúncias eram feitas por gerentes ou colegas de trabalho da funcionária agredida. 

Como esse contato deixou de existir com as lojas fechadas, essas denúncias também caíram.

E como tudo isso ajudou na avaliação positiva do Magazine Luiza? Ana e Alvim citam uma série de medias que foram adotadas pela varejista no meio da crise, como fechamento rápido das 1.100 lojas, compromisso com a não demissão de funcionários, redução de salários desde os cargos mais altos, o lançamento de um programa para sellers do marketplace, o Parceiro Magalu. 

“Nesse momento de crise, muita empresa ficou paralisada diante das incertezas e imprevisibilidade. As marcas que não paralisaram, que trouxeram soluções, se destacaram. O Magalu ofereceu frete grátis para produtos de mercado logo que a quarentena foi decretada, por exemplo”, diz Alvim.

*6Minutos


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