Ensaio sobre a velhice

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Queira você ou não, todos iremos envelhecer! Lamento lembrá-lo de tal amigo leitor, a quem tributo meus cumprimentos, mas, é um fato. A questão é, você está realmente preparado para esta nova fase? O estado, como um todo, está mesmo apto a recebe-lo em sua velhice?

            “O futuro é o passado preparado”, mencionara o filósofo Pierre Dác. De pleno acordo, proponho refletirmos sobre tal.

            Honestamente, e isto é uma opinião particular, vejo a situação dos idosos, no âmbito geral, com muita tristeza. Ora! É deprimente se imaginar trabalhando diariamente, emprestando a própria saúde na labuta de se honrar as expectativas que se cria em torno do “chefe de família”, para envelhecer esquecido às margens de uma estrada que somente segue em frente sem tempo para amparar as vidas que murcham ao redor. Já que mencionei família, se multiplica, nos dias atuais, o número de filhos e netos que retornam à proteção dos mais velhos depois de terem partido do lar e constituído famílias, ou seja, regressam ao lar sustentado por uma pífia aposentadoria, munidos de agregados. Isto talvez explica a quantidade, cada vez mais alarmante, de idosos que reintegram ao mercado de trabalho, sob as talas dessa chibata estrutural, no intuito de, senão sanar, ao menos suavizar a situação de desamparo, no qual se encontram os seus, prolongando ainda mais, o merecido descanso, pelo qual trabalhara a vida toda.

            Lamentável é saber que boa parte de nossa velhice, passaremos em filas de hospitais, esperando aquela consulta com um especialista, talvez, engajado num emprego qualquer, afim de complementar a renda. Além é claro, de ter que conviver com a nítida inversão dos valores sociais, desta juventude que desconhece qualquer conceito da palavra respeito.

            Ao leitor, permito divergir, aliás, todo debate é sempre bem-vindo, porém, em minha defesa, digo que não faria qualquer sentido escrever, ou, mesmo rasurar, se não fosse regido pela sinceridade. Mas, o que vejo em nossa sociedade, são idosos, tendo sobre os ombros surrados a responsabilidade de uma família inteira, se privando de confortos necessários a uma boa velhice. Isto sem mencionar a quantidade de idosos que são, literalmente esquecidos pelos familiares, por quem dedicara sua vida. Idosos, cujos únicos amigos que possuem agora, são os enfermeiros, os acompanhantes, a quem compartilham os resquícios de uma vida que se esvai.

            Voltando ao pensamento de Pierre Dác, eis que surge uma questão: Como estamos preparando nosso futuro? Será que dedicamos algum tempo, ou, mesmo dinheiro, em atividades que nos assegurariam uma velhice saudável? E nossa alimentação? Será que temos trabalhado nossa espiritualidade, para não amargarmos um envelhecimento medíocre e deprimente?

            Entretanto, nem tudo são espinhos, pois, há uma parte considerável de idosos que souberam de fato preparar o futuro, e que gozam os dias atuais com espiritualidade, com aquela sensação de dever cumprido. São pessoas que encontraram na velhice o poder da juventude. Pessoas que contrariam as expectativas catastróficas e encaram os últimos dias de sua existência sorrindo.

            Todavia, é importante mencionar que cabe a nós, que hoje somos jovens, proporcionar um envelhecimento saudável aos nossos idosos, ouvindo aquelas histórias que ele já lhe contara uma dezena de vezes, lhe emprestando todo o respeito do mundo, destituindo-os de responsabilidades que não mais condizem com sua idade e, acima de tudo, transmitindo-lhes amor.

            Aos idosos de hoje, tributo meu profundo respeito e admiração, pois, conseguir envelhecer, nos dias atuais, já é uma conquista restrita a poucos.

            Pensamento:

            “Os anos enrugam a pele, mas renunciar ao entusiasmo faz enrugar a alma.”

            Albert Schweitzer.

*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

ENTREVISTA COM SYLVIO PASSOS, O "SYLVICOLA"

Ele era amigo pessoal de Raul Seixas, fundador do Raul Rock Club, além de músico e compositor

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Amigo pessoal de Raul Seixas, fundador do Raul Rock Club, curador de um de seus mais vastos acervos, músico e compositor. É bem provável que esqueci alguma qualificação, pois, é impossível resumir e rotular aqui toda trajetória deste grande sujeito. É com muita alegria que posto aqui o bate papo que tive com ele, Sylvio Passos, o “Sylvicola” como dizia Raul Seixas. Um cara que dispensa qualquer apresentação.

VALDECI SANTANA -Não há como lembrar de Sylvio Passos, sem o relacionar a Raul Seixas e vice-versa. Afinal, quando vocês se conheceram e o que houve de inusitado no primeiro diálogo entre vocês?
SYLVIO PASSOS: Bem.... Foi em 1981, quando Raul resolveu se fixar em São Paulo. Eu tinha na época 17/18 aninhos e na maior cara de pau liguei para casa dele para comunicar que eu estava fundando o Raul Rock Club. Ele, já meio alcoolizado, atendeu o telefone perguntando quem era, eu falei: ”-É o Sylvio...”, ele, rapidamente falou: ”-Silvio Santos... Eu faço o seu programa.”  Ha ha ha.... Já começamos bem o nosso primeiro contato. Expliquei que eu não era o Silvio Santos e sim o Sylvio Passos e que estava fundando um fã-clube para ele. Surpreso ele falou: ”-Um fã-clube pra mim? Nunca ninguém fez um fã-clube pra mim. Você pode vir almoçar comigo pra me contar essa história direito? E lá fui eu, dias depois, almoçar com Raul. Esse encontro mudou toda a minha vida. Eu que estava me preparando para ser jornalista e/ou psicólogo, abandonei tudo e abracei a causa raulseixisticka.

VALDECI SANTANA-Você foi um elemento importante na vida pessoal e profissional de Raul, como era a convivência, com o Raul pessoa? E qual o motivo do apelido “Sylvicola”?
SYLVIO PASSOS: Para mim, que era um garoto muito quieto, calado, naquele momento era importante para mim estar ali observando, aprendendo.... Então a convivência era tranquila porque a relação fã-ídolo se desfez muito rápido. Raul era um sujeito muito tranquilo, generoso. Dava umas despirocadas de vez em quando, mas era uma pessoa de boa, ídolo que se preocupava com todo mundo, queria ajudar todo mundo. Um homem de bom coração, entende?  Quanto ao apelido Sylvícola, ou Sylvícolas é o seguinte: Raul colocava apelido em todo mundo, até em coisas. Por exemplo: Ele chamava o tênis dele de cachorro. Quando não sabia onde estava o tênis, ele perguntava: ”-Sylvícola, onde está meu cachorro? ”. A mãe dele, Dona Maria Eugênia, me falou que Raulzito colocava apelidos nas pessoas que ele gosta muito. Ouvir isso da mãe dele me deixou muito feliz, embora eu soubesse que Raul via em mim muito mais que um simples fã.

VALDECI SANTANA-Você compôs Cowboy Fora da lei, há alguma outra composição sua gravada por Raul?
SYLVIO PASSOS: Pois é. Eu, naquela época, sempre escrevia uns poeminhas típicos de adolescente. Raul, com toda sua generosidade, me deu esse privilégio, em 1984, de fazer com ele a primeira versão de “Cowboy Fora da Lei”, que só foi lançada oficialmente em 2003 pela Som Livre no CD “Anarkilópolis” onde também fui responsável pela seleção de repertório. Tenho muitas fitas gravadas com Raul, mas nada que seja digno de lançamento oficial.

VALDECI SANTANA -Ao longo de sua vida você conseguiu ser um “sujeito normal e fazer tudo igual”?
SYLVIO PASSOS:  Eu acredito que nunca fui um “sujeito normal e fazer tudo igual”, daí essa sintonia recíproca desde o nosso primeiro contato.

VALDECI SANTANA-Creio que Raul Seixas Oficial Fã Clube, foi o único fã clube que Raul atestava. Como está o Fã clube hoje? As engrenagens ainda se movem?
SYLVIO PASSOS: Sim. Raul, em 1983, deu o título de “Raul Seixas Oficial Fã-Clube” ao Raul Rock Club, publicando, inclusive, na contracapa do seu disco “Raul Seixas”, que estava lançando pela Gravadora Eldorado na mesma época.  Continuamos na ativa acompanhando toda a modernidade tecnológica do Século XXI, afinal, o Raul Rock Club é do século passado, correio, máquina de escrever, mimeografo e outras coisas que as Gerações Y e Z desconhece na prática. Os bits do Raul Rock Club continuam ativos comunicando-se com as novas gerações, pois, os valores todos podem ter mudado, mas a essência continua a mesma. 

VALDECI SANTANA- Em qual projeto o Sylvio Passos se dedica nos dias atuais?
SYLVIO PASSOS: Atualmente continuo me dedicando ao Raul Rock Club com a Expo Raul Rock Club (exposições itinerantes com objetos pessoais de Raul) e com o meu programa “Pergunte ao Carimbador Maluco” no YouTube. Também atuando como músico com minha Putos BRothers Band e como ator na peça “Obrigado, Raul!” Escrita por mim e por Agnaldo Araújo (guitarra e voz da Putos BRothers Band). 

VALDECI SANTANA-É bem provável que o baú de Sylvio Passos é bem mais rico que o baú do próprio Raul, já que, ele mesmo dizia que você sabia mais coisas sobre ele, do que ele próprio. Há algum projeto envolvendo o Baú do Sylvio?
SYLVIO PASSOS: O baú do Raul é muito mais rico que o meu, sem sombra de dúvidas. Mas a Expo Raul Rock Club, a peça Obrigado, Raul!, o programa Pergunte ao Carimbador Maluco e o show Toca Raul, Putos!, de uma forma ou de outra, são projetos envolvendo tanto o meu baú quanto o de Raul.

VALDECI SANTANA-Por fim, lhe agradeço imensamente a gentileza e, como todo fã de Raul, procurei evitar perguntas sobre seus últimos momentos, entretanto, para finalizar, como ficou o Sylvio Passos sem o amigo? Seria demais dizer que você ficou órfão?
SYLVIO PASSOS: Não. Não me vejo assim como órfão. O que “perdi” foi um amigo. O meu ídolo continua muito vivo. Aliás, muito mais vivo que muitos ídolos vivos de fato.


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

Um pontinho esquecido em nossa história

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Saudações paciente leitor!

Eis-me aqui de novo, naufragando em minhas analogias turvas, quase imaculadas, perante as ruinas desta sociedade que tende a decrepitar meu surrado involucro carnal.

Novembro sempre lança sobre meu espirito muitas reflexões. Fato absolutamente compreensivo, já que este, é o mês responsável por meu envelhecimento. Todavia, além dos meus “aninhos” (Que já não são poucos ah-ah) há também os natalícios dos meus pequenos, a consumir boa cota de minha energia, pois, com a crise cada vez mais bem instalada, propor-lhes qualquer préstito fica cada dia mais difícil. No entanto, toda vez que novembro desponta por trás da colina imaginária em nosso calendário, se adensam os rumores, os manifestos pelo tal feriado da consciência negra.

Se o leitor desviar o olhar à margem superior deste, saberá imediatamente que sou negro. Tens ai então o primeiro argumento que usarei em minha defesa, caso seja aqui acusado de racismo, embora, muitos dos que acusam ou sentenciam tal crime, não façam a menor ideia do que significa. Se não for para lhe falar sob a segurança da honestidade, prefiro abortar esta minha gana pela escrita. Portanto, é com o coração que me solidarizo (em partes) com os que se opõem a tal feriado. Obviamente, não farei coro ao argumento pobre de que há feriados em demasia em nosso calendário. Visto que a maioria deles não representam m... nenhuma . (Ufa! Ainda não será desta vez que serei demitido, pelo menos, não por um palavrão).

20 de novembro simboliza o assassinato de Zumbi dos Palmares. Traído, degolado e exposto. Herói, a quem mais da metade dos brasileiros devem sua liberdade. Entretanto, centenas de outras almas lutaram em igual penhor pela causa abolicionista. Muitos em terrenos mais hostis que o pobre negro dos palmares. Os “pretinhos” Joaquim Nabuco e José do patrocínio que lutaram pela emancipação nos plenários, repletos de políticos apadrinhados por fazendeiros escravocratas. E como não lembrar de José de Seixas, que tivera o despeito e ousadia de instalar um quilombo no coração do Rio de Janeiro, numa das áreas mais caras e mais famosas do Brasil, o Quilombo do Leblon. Ah paciente leitor! A mídia racista daquela Belle époque, numa tentativa desesperada de eleger Zumbi, um negro fugido, como principal elemento de oposição ao sistema escravagista, praticamente enterrara personagens que dedicaram suas vidas à liberdade dos escravos. Homens que hipocritamente, não constam em nossos livros de história. Nossa própria história. Pouca gente sabe, pelo menos, quase nunca se aborda, mas, a classe jornalista foi a principal pilastra a sustentar de maneira ferrenha as revoluções em prol da abolição. Seria necessário muita tinta, para defender de maneira mais substancial esta minha visão. Por hora, proponho elegermos como feriado, como simbologia máxima da conscientização negra, o fatídico 13 de maio, afinal, como defendera um poeta do século XIX, cujo nome se perdera nos grotões desta minha memória envelhecida, “A importância do 13 de maio sobrepõe e muito ao 7 de setembro”

A luta contra o racismo e pela igualdade entre homens negros e brancos é outro assunto, que talvez um dia eu dedique um capítulo inteiro a disserta-la. Todavia, em conclusão, digo que o brasil foi um dos últimos países a abolir os escravos. Quase 4 séculos de escravidão. Milhares de seres humanos usurpados, violentados, humilhados e covardemente assassinados. São dados, são fatos. E não podemos mais permitir que todos estes fatos sejam esquecidos, por conveniência, por negligência. Estabelecer um feriado não justificará nada, mas, já é um pequeno avanço. Afinal, reconhecer o erro já é o primeiro passo.

*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

Ventos natalinos

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Está em qualquer profecia, dos papiros que liam a mão do futuro aos poetas que picham no muro. É extremamente necessário brindar a cordialidade sobrevivente no prazer da boa vontade, na gentileza das boas maneiras quase extintas. Fosse talvez utopia acreditar que há ainda neste país, pessoas inclinadas ao prazer gratuito do bem puro, travando batalhas sangrentas contra a má educação e o declinio dos valores sociais, onde, quase sempre saem mutiladas e totalmente fragmentadas ante o primitivismo da desvalorização da essência humana.

            Sejamos, portanto, todos remetidos à esperança de que um mundo melhor realmente aconteça e venha a se erguer sobre os pilares materializados na labuta de seres bem intencionados que se recusam a permanecerem de braços atados, enquanto o maléfica sutileza das futilidades individuais destroem os núcleos familiares, qual uma célula cancerigena, agindo nas artérias sociais.

            Celebremos a sagacidade da voz que começa a vencer a timidez da inércia, ainda que tardia, alimentada pela necessidade que hoje bate à porta da casa em desmoronamento, cobrando reação imediata daqueles que por anos adequaram suas vidas ao parasitismo da esmola conveniente, uma vez que as labaredas esguias do colapso começa a unir a sociedade dispersa, aflorando-lhe os instintos.

            Sejamos então, utópicos, misticos e supersticiosos, desde que sejamos vozes, boa vontade e atitude.


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.