LÁGRIMAS E RISOS!

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Sempre haverá dias em que colherás flores nos jardins, e se sentarás em bancos de praças para alimentar pássaros. Também haverá dias cinzentos, em que limparás os destroços nas calçadas, vestígios esquecidos pelas tempestades.

Haverá dias em que plantarás arvores, para mais tarde pendurar balanços e embalar seus filhos sob sua sombra fresca. Em outros dias, terás impetuoso desejo de deferir-lhe duros golpes de machados, e com seus galhos produzir uma grande fogueira.

Dias tenebrosos de tormenta n'alma, que lhe farão cerrar os dentes e palavrões lhe serão bastante sugestivos. Mas, haverá dias de abraços afetivos e melosas frases de amor.

Num dia rodopiarás sob a chuva, no outro buscarás refúgios contra os trovões.

Sempre haverá dias para arrumar a mala que levarás à maternidade. E dias desesperançosos no corredor da UTI.

Haverá dias festivos, em que assinarás a certidão de nascimento. E também dias fúnebres, em lavrarás o obituário de um ente querido.

Num dia escreverás longos textos de amor. Em outros, breves cartas de despedidas.

Dias em que comemorarás a chegada e dias para chorar a partida.

O sol nascerá todo dia, mas, haverá ocasiões em que suas entonações serão apreciadas. Enquanto que, em outros dias, somente a ardência de seus raios terá devida relevância. Assim como as estrelas, que num dia terão vossa atenção e a observação de que seu surgimento é magico, incandescendo de luminosidade o esplendor do céu. Noutros dias, serão apenas pontinhos brilhantes, colados num manto negro.

Haverá dias em que uma xicara de chá e um bom livro, serão uma sugestão bastante interessante para apaziguar o espirito. E haverá dias em que este cenário, lhe proporcionará tédio e profunda melancolia.

Num dia, taças de vinho esquecidas sobre o tapete e corpos suando sob o edredom. No outro, bitucas de cigarro entupindo o cinzeiro, um resto de canção e solidão.

Num dia festejarás o nascimento. No outro debulharás lágrimas sobre lápides.

Sempre haverá dias em que sentirás necessidade de enviar flores. Outros em que esmagarás os botões que florescem nas calçadas.

Haverá dias em que retornar ao lar será o melhor refúgio, e outros, sua última escolha.

Haverá dias em que um “eu te amo” será necessário, outros em que um “adeus” talvez seja a melhor das opções.

Lagrimas e risos!

Derrotas e vitórias!

Tristeza e alegrias!

Exatamente, paciente e impaciente leitor.

Não existe felicidade plena, assim como nenhuma adversidade será eterna. Portanto, se algum dia sentires desejo de dançar sob a chuva que cai lá fora, ou, simplesmente debruçar no parapeito e chorar a vida nas gotas que deslizam na vidraça, faça. Sorria na alegria e chore na dor, com a certeza de que, assim como nós, tudo neste universo é passageiro.

Nossa vida é construída por momentos que se vão como um sopro, e o que realmente importa é intensidade com a qual se vive o balanço confortante do mar, e o amadurecimento com o qual suporta a fúria da tempestade.

Pois, a vida, paciente leitor, é uma junção de momentos, favoráveis para alguns e altamente desfavoráveis para outros, mas, o certo é que acaba, para alguns e também para os outros.​


O ARTISTA E O LOUCO

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​Lhe contarei uma história, paciente leitor, a quem tributo meus sinceros cumprimentos.

Dois personagens.

Vidas que talvez nem se entrelaçaram, mas, embora eu não tenha a menor pretensão de trazer o fim destas laudas cá para o início, por certo o leitor haverá de compreender bem a analogia que proponho.

Os feitos destas duas figuras certamente jamais se apagarão com o tempo, pois estão eternizados na memória mundial. Sendo assim, sabemos bem o fim.

Os chamarei pela singela alcunha de “artista” e o “louco”. Já antecipo minha defesa, diante dos tribunais dos críticos, que é compreensível encontrarmos mais artista no louco ou vice-versa, ou não, fica a entendimento de quem, por ventura lê estas rasuras.

O artista nasceu num pequeno vilarejo. Um dos seis filhos de um alfandegário que lhe propunha rígida disciplina. Era criança extrovertida, bastante asseada para os costumes da época. Exímio apreciador das artes. Recebeu aulas de canto e até se apresentou com o coral de sua igreja. Nesta época cogitou se tornar padre.

Já o louco era uma criança atarracada, um dos sete filhos de um alcoólatra falido, que o vício levou precocemente ao túmulo. Era completamente irritadiço, esquecido e sem qualquer refinamento. Foi contra sua vontade que entrou para as aulas de música. Um jovem de temperamento difícil que, frequentemente se desentendia com o pai.

O artista era um menino pródigo que sonhava ingressar na escola de Belas Artes de seu país, aplicando, em sua mocidade, todas as suas economias em tal sonho. Chegou a vender aquarelas em pontos turísticos, na tentativa de financiar o sonho de ser um renomado pintor. O que foi em vão, pois, foi rejeitado. Foi quando alistou-se de maneira voluntária no exército, para servir como mensageiro em frente de batalhas, sendo condecorado por bravura, chegando até a receber a Cruz de Ferro.

O louco era estabanado, aéreo e com boa aptidão para destruir tudo que tocava. Era um solteirão que dormia em lugares bagunçados e sujos, mal se banhava e possuía um hábito nojento de cuspir a todo momento e em todo lugar. Assim como o pai, possuía invejável apetite etílico e sua cabeleira estava sempre revolta.

Já o artista, era avesso às bebidas e cigarros. Também se tornara vegetariano. Era apaixonado pela sétima arte, sobretudo o filme Branca de Neve e os sete anões. Amante dos animais e de leitor apaixonado, escrevera um livro. Seus cabelos andavam sempre impecavelmente bem penteados.

Na primeira apresentação relevante ao público, o trabalho do louco foi tido propriamente como uma maluquice. Embora altamente impactante.

Quanto ao artista, levou o público ao delírio na primeira vez que lhe falou efetivamente.

O louco, obviamente, não era compreendido e em depressão tentou suicídio. No entanto, cerca de vinte mil pessoas compareceram ao seu funeral, quando a pneumonia, associada à cirrose resolveu o levar.

Já o artista, passou seus últimos instantes, entocado, como um rato e é bem certo que seu cadáver se espalharam entre tantos outros anônimos.

O louco, paciente leitor, era ninguém menos que Ludwig van Beethoven.

Já o artista era Adolf Hitler.​


EU TE VEJO

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​Eu te vejo, paciente leitor!

Todos os dias.

Eu te vejo esticando o corpo mal dormido no colchão repleto de calombos, praguejando contra a inconveniência do despertador. Te vejo debruçado sobre a mesa, pensando na prestação que já venceu. Depositando fé nos números que jogou. Eu te vejo sonolento, sacolejando num ônibus entupido de gente apressada, vencendo a tentação do sono, que lhe seduz pender a cabeça no ombro vizinho.

Como o olho que tudo vê, vejo você entreolhando as crianças brincando no tapete da sala. A brincadeira tem alegra, mas não te convida.

Te vejo meditando a vida no corredor do hospital, comparando suas desgraças com as tragédias alheias. Te vejo polindo uma estante cheia de livros que você nunca abriu. Te vejo escrevendo belas cartas de amor, endereçadas a gaveta, e que nunca serão lidas. Te vejo apagando sua existência num cinzeiro entupido de bitucas de cigarros. Te vejo engolindo suas lamurias diárias numa boa dose de álcool. Te vejo comprando roupas caras, para ir à festas pobres, de onde sairá tão desfigurado quanto os mendigos que você ignorou na chegada.

Eu te vejo! Mesmo que não perceba. Eu te vejo inseguro, trancafiado em condomínios velados por seguranças. Tanto quanto vejo, nos porta-retratos espalhados pela casa, onde alguém com a face bem semelhante a sua sorri, mas está bem distante da caricatura que você é agora. Eu te vejo dando likes em flores que alguém postou, mas deixando secar as flores de seu próprio jardim. Eu te vejo celebrar a doença curada. Te vejo solicitando amizades em redes sociais e ignorando um “olá” a quem senta ao seu lado. Te vejo comprando tv cara, para assistir conteúdos miseráveis. Te vejo comovido por um drama na tela da TV, mas, insensível a quem chora ao seu lado. Te vejo procurando Deus numa porção de lugares, menos dentro de si mesmo. Ah! Eu te vejo também, atrás do volante daquele automóvel luxuoso, driblando em ruas esburacadas, negando no sinal, a moeda que pagará o suborno na próxima blitz. Te vejo injetando no tanque, um combustível mais caro que seu carro. Te vejo pagar pela vida toda uma moradia dita popular. Te vejo pomposo estirado na poltrona, acreditando ter conquistado tudo e que agora é só aguardar pela morte.

Te vejo no trânsito, nos becos, assaltando ou sendo assaltado. Te vejo partindo mais do que chegando. Te vejo nas cicatrizes que a tinta apaga nos muros, nas gírias de seu português ruim. Te vejo cantarolando velhas melodia que a dialética atual assassinou. Te vejo comprando antidepressivos para superar um breve momento de tristeza. Te vejo pintando os cabelos para parecer mais jovem e reivindicando preferência, por ser velho demais. Eu te vejo pendurando preces no varal. Te vejo tatuando ao avesso da pele, uma dor que assombra. Te vejo preparado para qualquer guerra que se levantar, mas, absolutamente imaturo para a paz. Te vejo descumprir promessas que não devia ter feito. Te vejo meditar se liga ou aguarda a ligação. Te vejo dizendo frases que deveriam ser assassinadas. Te vejo assassinando o diálogo com o silêncio que cultivou. Te vejo casar-se com o trabalho e fazendo da família a amante que procuras esporadicamente. Te vejo. Por Deus eu te vejo tão mesquinho, apequenado para as coisas da vida. Te vejo tratando o seu caso como diferente. Te vejo sair de casa pensando em praticar o bem, e retornar frustrado, pelas tantas maldades que cometeu. Te vejo decidido a ser um bem melhor no dia seguinte. Eu te vejo! Te vejo, sempre que me olho no espelho.


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

Brava gente brasileira

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Creio, paciente leitor, a quem tributo meus sinceros cumprimentos, que este, seja de fato, o título que melhor nos representa. No passado, obviamente, houvera quem reivindicasse, como Hino nacional, o patriótico Hino à Independência, onde está incrustada tal frase. O que seria louvável, pois o Hino que ai está, não passa de uma bajulação escancarada à coroa.

Quisera eu, este pobre amante das palavras, dispor da mesma inspiradora e eloquente capacidade que um certo Pero Vaz de Caminha, usou para retratar estas terras tupiniquins. Esta pátria mãe gentil, que às vezes amo profundamente, a ponto de semear aqui minha prole e que, num futuro (Que espero que demore absurdamente) certamente há de engolir a carcaça deste meu corpo que já vivera melhores dias. Esta pátria que incita-me a escrever novas palavras, mas, que as vezes causa-me asco, por ser tão oferecida, tão mansa.

Somos bravos e destemidos sonhadores, peritos na arte de alimentar esperança. E o senhor, paciente leitor, há de convir que é necessário muita coragem para se ter esperança. É na esperança de noites de sonos mais confortáveis, que sonhamos nossos planos numa cama repleta de calombos, mesmo ouvindo, lá no fundo de nossa alma, um sussurro a nos dizer que é tão pequena, a chance de deitar nossas cabeças sobre um travesseiro de pena de pavão que chega a ser desalentadora. É na esperança de um caviar no futuro, que somos manipulados a engolirmos com água, o boi diário, cuja procedência desconhecemos. Brincam com nossa esperança, é bem verdade, mas, somente brava gente é capaz de tê-la.

Nossa genética é invejável e nossa humildade é capaz de impressionar o mais puro dos seres canonizados. Em nossas almas, não sei se em função dos trópicos, queima a chama da alegria e o calor das relações inveja muitos dos europeus endurecidos. Há um pedacinho em nossa alma que nos incita a ignorar nossa realidade cruel é verdade, mas, talvez, seja um mecanismo de defesa e isso não nos tira a armadura de nossa resistência. Se somos resignados, ou mesmo, acomodados é outra questão. Mas, ninguém poderá dizer que não somos resistentes. Se parte dos europeus já deixaram o recém descoberto Brasil, por não suportarem a falta de saneamento, os animais silvestres, a comida peculiar e os tantos mosquitos que lhes dilaceravam a pele, imagine o senhor, paciente leitor, que convive agora com vespas enormes que fazem a malária ou aedes aegypti, miseráveis criaturas inofensivas, e que infestam o congresso nacional, de onde sugam, não somente nosso sangue, mas nossa essência.

Em nossas terras brotam raízes que o mundo desconhece. Colhe-se em abundância o que ninguém jamais sonhara semear. Um privilégio que inveja o mundo. E talvez, seja esta a nossa dura questão. O drama que assombra nossos festejos.

O Brasil, em seus primórdios, desde a primeira nau que aqui aportara, até os dias atuais, sempre foi visto como a lavoura do mundo. Não o pulmão, como algum veículo de mídia um dia inventara para massagear nosso ego. Somos a lavoura, onde ninguém semeou, mas todo o mundo colheu. A civilização nos tardou, pois, nossos primeiros habitantes estavam mais interessados em extrair o melhor que estas terras pudessem produzir e gozarem suas riquezas noutras pátrias. Junto com os tantos elementos naturais extraídos de nossas terras, levaram também nossa identidade e nos forjaram a base de chicote e obediência cega. Mas, ainda resta em nós, uma nesga de bravura que nos incita a defender nossas esperanças. A retomar o domínio deste pais que é nosso por direito. Mas, somos miseráveis tupiniquins, aglomerados em pequenos grupos diante de ocas, armados de arco e flecha, enquanto que, nossos inimigos, embora em menor número, têm em sua disposição, tanques e misseis.


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

De cabeça para baixo!

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​Saudações paciente e quase louco leitor!

Será que o mundo está mesmo ao contrário e ninguém reparou?

As vezes tenho cá a sensação, de que está tudo de cabeça pra baixo. Tudo às avessas.

Os, outrora, loucos, hoje mostram-se mais sensatos do que muita gente lúcida por ai. Gente que refletem a vida no banheiro, que protestam no sofá, e mudam o mundo na tela de um iphone.

Vejo, por exemplo, as pessoas entrando em seus carros, enfrentando trânsitos infernais para irem a uma academia, pedalar uma bicicleta parada! Vejo gente sã procurar a farmácia, em busca de um efervescente, porque exagerou na quantidade de comida, ou seja, quer a leveza da fome na barriga saciada. Todo mundo pede a aproximação, mas, erguem muros eletrificados e se trancam do mundo em condomínios. As pessoas compram belos carros, cada vez mais velozes, mas não se visitam, mandam um zap!

Vejo gente indo à igreja, pedindo a Deus que o torne uma boa pessoa, mas, na saída, já ignora o primeiro pedinte que encontra na escadaria. Vejo gente maluca, escancarando a vida nas redes sociais, depois, protestando contra as pessoas que opinam na mesma vida que ela acabou de expor. Tenho visto gente processando o ex companheiros, por divulgar vídeos de sua intimidade, dizendo-se constrangidos, mas, se era pra não ser revelado, porque cargas d’águas arquivar o momento em um dispositivo de fácil acesso?

Gente maluca essa, que vai à shows e, ao invés de assisti-los, fica filmando no celular, mas, se era para assistir por uma tela, não precisava ter ido, bastava assistir na televisão! Vejo líderes religiosos promovendo a cura de seus fiéis, através de ato de fé, mas, quando se trata de sua própria cura, recorrem a hospitais!

Tem gente querendo acabar com a fome, desperdiçando alimento. Vejo miseráveis seres bondosos, misericordiosos com os cães, mas, extremamente impiedosos com os seus pares. E como não falar de verdadeiros “cristãos” defendendo pena de morte, e outros endurecimentos, que nada mais é, senão vingança.

As pessoas gastam a saúde tentando acumular dinheiro para se remediar na velhice. Lutam por conquistar uma bela e espaçosa casa, mas, dão de ombros para se edificar um lar, construir um relacionamento honesto com quem a habitará. Busca-se dinheiro, esquecem-se os valores. Tudo está se profissionalizando e se humanizando cada dia menos.

Gente maluca é essa que diz gostar de ouvir música mas, há tempos aboliram as belas letras e as substituíram por sons.

As pessoas acordam disposta a abraçar o mundo, mas, não abraçam sequer os próprios filhos. Gente construindo relógios para quem nunca tem tempo.

Gente maluca essa, que esfola a pele de emissoras de televisão, mas, não mudam de canal.

Não sei onde está o botão, e se há de fato uma maneira de se “resetar” está m.... ufa! mais uma vez, salvo pela nesga de lucides que ainda se conserva incrustrada em meu ser, caso contrário, estaria demitido por propor um palavrão. Aliás nesta atmosfera onde reina o politicamente correto nem sei se ser raiz é primitivo ultrapassado, ou ser modinha é efeminado e prepotente. Aliás, peço que parem este mundo um instante. Stop Please! Pois, há muito me atrapalhei com a coreografia desta dança confusa, e nesse gira-gira já nem sei mais de que lado estou, certo ou errado. Faz tempo que não sei se posso brincar no carnaval, sem ser acusado de ferir valores sociais, ou se fico em casa, dissertando sobre a futilidade deste festejo. Não sei se posso ter postura conservadora e ser classificado como extremista, nazista, ou pobre metido a besta, ou se posso defender a bandeira do socialismo e ser chamado de imbecil, comunista, esquerdopata e anarquista. Não sei se como alface em protesto à matança de animais, ou faço um churrasco para não ser taxado como esnobe. Não sei se posso dormir de meia e ser chamado de modinha, ou se ando nu e acompanho a moda.

Não sei se posso sorrir para uma criança, e assim me tornar suspeito de pedofilia, ou a ignoro e recebo rótulo de desalmado. Não sei se escrevo e aceito a pilheria de um “pseudo intelectual” ou, se abandono de vez as palavras e aceito o rótulo de analfabeto social.

A verdade, confuso paciente leitor, é que tanto eu, como você, há muito perdemos o passo, estamos sacolejando o corpo, tentando acompanhar ou ser acompanhado, acreditando que o sacolejar maciço é que fará de fato alguma mudança neste ritmo frenético, cá entre nós, não fará, portanto sacoleje seu corpo à sua maneira, de qualquer forma, o maluco sempre será você


.*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

De cabeça para baixo!

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Saudações paciente e quase louco leitor!

Será que o mundo está mesmo ao contrário e ninguém reparou?

As vezes tenho cá a sensação, de que está tudo de cabeça pra baixo. Tudo às avessas.

Os, outrora, loucos, hoje mostram-se mais sensatos do que muita gente lúcida por ai. Gente que refletem a vida no banheiro, que protestam no sofá, e mudam o mundo na tela de um iphone.

Vejo, por exemplo, as pessoas entrando em seus carros, enfrentando trânsitos infernais para irem a uma academia, pedalar uma bicicleta parada! Vejo gente sã procurar a farmácia, em busca de um efervescente, porque exagerou na quantidade de comida, ou seja, quer a leveza da fome na barriga saciada. Todo mundo pede a aproximação, mas, erguem muros eletrificados e se trancam do mundo em condomínios. As pessoas compram belos carros, cada vez mais velozes, mas não se visitam, mandam um zap!

Vejo gente indo à igreja, pedindo a Deus que o torne uma boa pessoa, mas, na saída, já ignora o primeiro pedinte que encontra na escadaria. Vejo gente maluca, escancarando a vida nas redes sociais, depois, protestando contra as pessoas que opinam na mesma vida que ela acabou de expor. Tenho visto gente processando o ex companheiros, por divulgar vídeos de sua intimidade, dizendo-se constrangidos, mas, se era pra não ser revelado, porque cargas d’águas arquivar o momento em um dispositivo de fácil acesso?

Gente maluca essa, que vai à shows e, ao invés de assisti-los, fica filmando no celular, mas, se era para assistir por uma tela, não precisava ter ido, bastava assistir na televisão! Vejo líderes religiosos promovendo a cura de seus fiéis, através de ato de fé, mas, quando se trata de sua própria cura, recorrem a hospitais!

Tem gente querendo acabar com a fome, desperdiçando alimento. Vejo miseráveis seres bondosos, misericordiosos com os cães, mas, extremamente impiedosos com os seus pares. E como não falar de verdadeiros “cristãos” defendendo pena de morte, e outros endurecimentos, que nada mais é, senão vingança.

As pessoas gastam a saúde tentando acumular dinheiro para se remediar na velhice. Lutam por conquistar uma bela e espaçosa casa, mas, dão de ombros para se edificar um lar, construir um relacionamento honesto com quem a habitará. Busca-se dinheiro, esquecem-se os valores. Tudo está se profissionalizando e se humanizando cada dia menos.

Gente maluca é essa que diz gostar de ouvir música mas, há tempos aboliram as belas letras e as substituíram por sons.

As pessoas acordam disposta a abraçar o mundo, mas, não abraçam sequer os próprios filhos. Gente construindo relógios para quem nunca tem tempo.

Gente maluca essa, que esfola a pele de emissoras de televisão, mas, não mudam de canal.

Não sei onde está o botão, e se há de fato uma maneira de se “resetar” está m.... ufa! mais uma vez, salvo pela nesga de lucides que ainda se conserva incrustada em meu ser, caso contrário, estaria demitido por propor um palavrão. Aliás nesta atmosfera onde reina o politicamente correto nem sei se ser raiz é primitivo ultrapassado, ou ser modinha é efeminado e prepotente. Aliás, peço que parem este mundo um instante. Stop Please! Pois, há muito me atrapalhei com a coreografia desta dança confusa, e nesse gira-gira já nem sei mais de que lado estou, certo ou errado. Faz tempo que não sei se posso brincar no carnaval, sem ser acusado de ferir valores sociais, ou se fico em casa, dissertando sobre a futilidade deste festejo. Não sei se posso ter postura conservadora e ser classificado como extremista, nazista, ou pobre metido a besta, ou se posso defender a bandeira do socialismo e ser chamado de imbecil, comunista, esquerdopata e anarquista. Não sei se como alface em protesto à matança de animais, ou faço um churrasco para não ser taxado como esnobe. Não sei se posso dormir de meia e ser chamado de modinha, ou se ando nu e acompanho a moda.

Não sei se posso sorrir para uma criança, e assim me tornar suspeito de pedofilia, ou a ignoro e recebo rótulo de desalmado. Não sei se escrevo e aceito a pilheria de um “pseudo intelectual” ou, se abandono de vez as palavras e aceito o rótulo de analfabeto social.

A verdade, confuso paciente leitor, é que tanto eu, como você, há muito perdemos o passo, estamos sacolejando o corpo, tentando acompanhar ou ser acompanhado, acreditando que o sacolejar maciço é que fará de fato alguma mudança neste ritmo frenético, cá entre nós, não fará, portanto sacoleje seu corpo à sua maneira, de qualquer forma, o maluco sempre será você.


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

Artigo com poema

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O fato é que eu, você e toda essa gente maluca ao redor, vamos nos desintegrar, tais quais as folhas secas, estraçalhadas, engolidas pelo solo. Afinal, somos, de fato, folhas que tarde, ou cedo demais, seremos apartados desta arvore gigantesca, naturalmente, ou, por consequência de uma tragédia. E não importa o quão preparados estejamos. Nós morreremos. Muito provavelmente, sem realizarmos boa parte de nossos planos. E tenha como um luxo restrito a pouquíssimos seres, se por acaso, conseguir despedir-se. De nós, só ficarão lembranças, eternizadas numa fotografia, ou materializadas num objeto, do qual gostávamos tanto, e que certamente será doado, ou, descartado. Talvez, você ainda sobreviva por uns dias, no restinho de sua loção preferida, odorificando a última roupa usada. Seus chinelos certamente calçarão outros pés e, aos poucos, você vai sendo substituído, porque, as pessoas vão se acostumando com sua ausência.

O fato é que, contrariado ou resignado, nós entraremos no trem, com passagem só de ida. Afinal, sempre estivemos na estação à sua espera. Não há maneira de se evitar isso. Não adianta qualquer tentativa de barganhar um fiapo a mais de vida.

Ah! Paciente leitor!

Concordo que ninguém abre uma página, esperando encontrar palavras tão fúnebres, e ainda que você esteja, neste momento, sob o ímpeto de abandonar tais palavras e seguir para outra seção, insisto que, tais quais estas linhas, nossa vida também terá um fim.

Não tenha aqui um epitáfio. Também não se trata de lamurias. É somente uma proposta clara de reflexão da vida. Imaginar nossos nomes impressos no próximo obituário, talvez, reanime nosso desejo de viver, de aproveitar cada instante desta vida maravilhosa. Não que devamos trabalhar em oposição ao relógio, que segue sempre em frente, mas, sempre há tempo de reativar as engrenagens da vida. Não essa vida mecânica, que eu e você levamos, baseada em labuta exaustiva e pasto ao fim da tarde.

Talvez, paciente leitor, esteja na hora de fazer aquela viagem em família, que foi adiada pela décima vez, afinal, há uma possibilidade de você fazer esta viagem mais tarde, sozinho. Talvez, seja a hora de perdoar ou pedir perdão àquela pessoa, ouvi-la ou falar-lhe mais, pois, talvez, amanhã você ainda esteja aqui, mas, esta pessoa não.

Viva, paciente leitor!

Na mesma intensidade de um último dia, pois, cá entre nós, pode ser mesmo nosso último dia.

Por falar em morte...


Sebastião nos quintos do céu

Acordou no céu assustado.Com bando de anjos do lado.Não sabia o que lhe tinha acontecido,

Mas, que havia morrido,

Não foi difícil entender.

Ouviu liras angelicais,

Numa calmaria assaz,

Ficou logo agoniado,

Foi pensando ressabiado,

“Aqui não tem nada que fazer”

Não que estivesse reclamando,

Mas, aquela gente toda rezando

Já lhe dava agonia.

E perguntou revoltado,

Com medo de ser pecado,

Qual seria o desgraçado que lhe tirou da putaria?

Viu arcanjos e querubins,

Pensou, “se a morte é chata assim

Não quero mais morrer”.

Foi quando um tal de Pedro,

Lhe apontando o dedo,

Pediu-lhe um passo à frente.

E ele já mostrando os dentes,

Foi logo se adiantando.

Ao que o santo já se desculpando

Tratou de resolver.

Dizendo: Meu senhor!

Queira, por favor,

Aceitar nossas desculpas,

Pois, foi por minha culpa,

Que se encontras neste estado.

E ele já animado,

Sentindo a razão do lado,

Disse convencido,

Que aquilo seria esquecido

Sem qualquer ressentimento.

Desde que retornasse imediatamente.

Não que fosse exigente.

Mas, se lhe desse um bocado mais de anos

Para desfazer de vez o engano,

Não teria mal algum,

Pois, como todo bebum,

Voltaria ao boteco,

E com um ou dois canecos,

Daria por encerrada a questão,

Sem demais aborrecimento;

Ao que o homem disse: Não!

Houve sim um erro,

Mas, foi no seu enterro

Que confundi um papel,

E lhe trouxe de engano ao céu,

Mandando para o cão,

Um outro Sebastião

Que deveria cá estar.

E ele sem pestanejar

Disse: Deixemos esta peleja,

E onde quer que meu xará esteja

Que Deus o ajude,

Mas, a melhor atitude

É declarar morto o assunto.

A menos que queira ir junto,

Explicar ao pai celestial,

Que fizeste um grande mal,

Trocando os presuntos.

Imagino que o lastimável incidente,

O deixaria descontente,

Ao qual adicionaria uns trechos mais,

E diria que o próprio satanás

Tem em ti um Judas traidor,

Que, às custas de um favor,

Trouxe cá um outro defunto.Uma alma penada

Pra endiabrar a “anjarada”

E fazer do céu um inferno.

Seu castigo, por certo, será eterno,

E eu que nada tenho a perder,

Por certo, hei de descer,

Mas, pode anotar na caderneta,

Pois, sou porreta.

Na lábia, levo o senhor, pra morar junto d’eu com o capeta.


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

A PLANTAÇÃO NOS AGUARDA

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Saudações paciente leitor!

Passadas as férias natalinas, com o espirito revigorado, ainda arrependidos dos exageros nas ceias festivas, o fato é que aqui estamos novamente, compartilhando analogias, às vezes turvas, reconheço, mas, sempre honestas.

O que você espera deste 2019?

Creio que fizeste uma lista de possíveis mudanças, novos projetos e promessas. Mas, o que este ano recém-desabrochado pode esperar de você?

O que temos a oferecer a estes novos dias?

Proponho que vejamos este ano que rompe o útero materno, como um vasto campo, arado e incrivelmente fértil. Um terreno no cio, pronto para ser fecundado e lhe retribuir com gosto o que nele semear. Espero profundamente que, quando chegada a hora, em que os bagos deste ano estiverem pejados de frutos, você possa colher um abraço sincero daquele relacionamento que você regou e cultivou com verdade e amor. Que você possa buscar aconchego e proteção à sombra larga e refrescante da família, na qual você empenhou tempo, amor e, sobretudo, o seu melhor. Que você possa também, acompanhar a frutificação de seu pólen, vê-lo se espalhar pela terra, conquistando nossos horizontes, se entrelaçando a novas possibilidades. Que você consiga, com a sabedoria de um exímio jardineiro, adubar e preparar o terreno onde semeaste sua prole, tanto quanto, subtrair qualquer capim silvestre e erva daninha que possa se entrelaçar em sua fragilidade e ameaçar sua evolução saudável. Que você seja capaz de atingir entendimento suficiente para aceitar que nem todos os dias serão ensolarados, com chuvas moderadas no final da tarde. Às vezes, você nem conseguirá enxergar a beleza de sua plantação, tamanha a neblina que se instalará sobre ela, mas, tenha certeza de que os caules que você fortificou com seu amor e cuidado, resistirão com bravura. E o que importa de verdade, é saber que eles ficarão bem. Muitas vezes virão tempestades impetuosas, que encharcarão o solo e ameaçarão tombar as relações que você vem cultivando e transformando em lamaçal o solo arado, que esperava a semente. E de repente, num estalo de desespero, você até deixe cair suas ferramentas se sinta encorajado a abandonar seu cesto de sementes, talvez até pragueje contra a fragilidade de sua lavoura. E de repente, num imprevisto qualquer do destino, pode ser que você esteja sozinho numa região pantanosa, caminhando com águas até os joelhos.

Neste turvo momento, é necessário que você, experiente paciente leitor, lembre-se de que já superara incidentes bem maiores, bem mais adversos. Olhe para você, veja bem! Tornaste um bom e cuidadoso agricultor, veja os calos em suas mãos, serão suficientes para lembrá-lo disso. Lembre-se que, embora a tempestade possa ter afetado a beleza das folhagens de sua plantação, suas sementes de relações humanas ainda pulsam no útero do solo que você preparou. De toda forma, quando os dias derrotarem este ano que nasce agora, você terá sua colheita. Nossos dias, assim como o solo em que pisamos e um dia nos engolirá, são abundantes e são recíprocos, nossos principais juízes, nos devolvem exatamente o resultado de nossas sementes. Eu, você e todos os demais agricultores que arregaçam as mangas diariamente nesta lavoura sofrida, decidiremos, se sorveremos a macies de frutos maravilhosos, ou mastigaremos a contragosto o amargo das angustias e maldades que o solo nos devolve.

Este espaço, será meu campo virgem, onde pretendo semear e cultivar de maneira mais madura nossa relação que não é de hoje, vem se fortalecendo. Honestamente, paciente leitor, espero ainda encontrar-te muitas vezes nas ruas, e continuar com os nossos debates, em torno das analogias que proponho, abordar os tantos “entretantos” da vida. Lhe desejo uma boa plantação, amor suficiente para regar suas sementes, amadurecimento para cuidar de sua lavoura, mas, acima de tudo, lhe desejo muita paciência para os dias que virão.


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

A GRANDE COLHEITA

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Nos arredores de uma aldeia, ladeada por cenário árido, decorada por arbustos secos e montanhas rochosas que, à noite, revelavam contornos góticos, havia um pequeno sitio, onde cabras magras passavam o dia todo tentando furtar fiapos de capins silvestres, escondidos nas fendas rochosas. Durante o dia, o sol reinava absolutamente, metralhando o seres com raios impetuosos. Nenhuma nuvem ousava opor-se. Mas, quando o manto negro trazia a noite, o clima amenizava e a brisa trazia um frescor almiscarado e agradável.

Quando chegava dezembro, as aldeias vizinhas celebravam a boa colheita com muitos festejos de adorações aos deuses. As ruas eram enfeitadas com flores e galhos de palmeiras, as pessoas se abraçavam e sorriam frequentemente. O espirito rejuvenescia e se revigorava para, nos meses seguintes, recomeçarem o plantio. Porém, para Jalau e sua família, não havia qualquer razão para comemorar. Mais um ano infrutífero. Aquele seu solo, onde cabras secas definhavam era absolutamente estéril. Nada nascia, nada florescia. As más línguas afirmavam que aquele pedaço de terra, para onde Jalau levara sua família, era amaldiçoado. Por esta razão, todos evitavam aquele apêndice triste, até mesmo a chuva.

Numa noite qualquer, quando a família se reuniu à mesa, para saborear a sopa rala, ouvindo a sonorização dos festejos das aldeias, que o vento trazia, Jalau surpreendeu uma lágrima discreta, rolando no canto dos olhos de sua amada esposa, ao que ela correu a disfarçá-la. Ele evitou indagá-la, até porque, sabia bem a tristeza que maculava o âmago daquele guerreira que, ao seu lado, lutara muitas batalhas, tombando em quase todas elas. Ele sabia que as trevas da incertezas, rondavam o coração de sua família. Sabia que temiam o amanhã que, provavelmente, nasceria com durezas e a miséria certamente se agravaria.

Jalau fitava a sopa sem ânimo. Sem fome. Cotovelos sobre a mesa, as mãos massacradas pela labuta diária lhe amparando o queixo. Olhos tristes, quase apagados na orbita, circundada por uma face ossuda, onde, a pele lembrava um papelão amarrotado. Ele se permitiu imaginar-se entre aqueles homens que festejam tão próximo. Imaginou-se sorrindo, e seu celeiro, onde nada mais havia, exceto uns poucos feixes de capim e ferramentas, de repente, se inundasse de sacos de grãos. Mas, como uma nuvem que se dissipa com a rajada de vento, seus pensamentos se dissolveram e ele viu sua triste realidade, afundada naquele prato de sopa rala.

Naquela noite, todos dormiram cedo, maltratados pela angustia e o sofrimento. Mas, jalau se permitiu recostar na varanda, em reflexão, enquanto as estrelas no céu, refletiam em seus olhos marejados. As labaredas lhe queimavam a alma. Deus não estava sendo justo, pensava ele, sempre foi um bom sujeito, honesto, caridoso, amoroso e de fé, mas, sentia-se esquecido, definhando naquela terra, onde nada nascia. Até que, como um estrondo repentino, uma sugestão de um instante, uma estrela cruzara o céu e morreu em seu celeiro. No entanto, não era uma estrela qualquer, era imensa, única, e seu brilho era grandioso. Um brilho majestoso, que assanhava a curiosidade. Foi quando percebeu que uma pequena chama tremulava em seu celeiro. Jalau se aproximou receoso, cuidando para não produzir qualquer som que revelasse sua presença. E viu, pelas frestas, iluminado por uma pequena fogueira improvisada, um casal aninhando o filho recém-nascido nas palhas de seu celeiro. Nos olhos da mãe exausta e trêmula, mergulhada em suor, viu a felicidade produzida pelo primeiro nascimento ocorrido nas terras de Jalau.

Jalau jamais esqueceria aquele 25 de dezembro.

-Jesus! –Murmuraram os pais emocionados.

Dizem que o solo infértil de Jalau acordou pejado de lavouras, que vazavam da terra e que a fartura se estabelecera em seu lar. Outros afirmam que aquele nascimento, não transformara em nada a vida miserável do homem. Mas, todos reconhecem que aquela foi a melhor colheita da terra.

*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

BARQUINHOS DE PAPEL

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Não percebemos, mas, ainda ontem, estávamos brincando na chuva, navegando enxurradas em barquinhos de papel, sem leme, bussola ou âncora. Temendo os trovões impetuosos é fato, mas, encorajados com a certeza de que não se pode perder tão magnifico espetáculo.

Ontem mesmo, conversávamos na calçada de um amigo, fantasiando milhares de situações da vida adulta, enquanto o dia se tingia de negro e a noite nos surpreendia. Situações onde teríamos aquela mesma liberdade, que nos permitia tolices.

Éramos destemidos cavaleiros empunhando espadas, salvando lindas donzelas, desafiando monstros imaginários que faria tremer o próprio Dom Quixote.

De lápis em punho, modelávamos um mundo maravilhoso, resplandecido num Éden verde e azul, convidando a viver.

Ontem achávamos o hoje incrivelmente distante que, de repente, talvez sequer nos chegasse, correndo o risco de se dissipar durante o longo percurso.

Mas, tal qual os grãos de areia fugindo por entre os dedos, o hoje nos chegou. Com ele, a materialização de monstros que jamais imaginamos combater. Monstros semelhantes a nós, criados e alimentados por nós. Monstros que conhecem nossas fragilidades, sabem que abolimos nossas espadas e o ar de herói. Aliás, ficamos tão parecidos com os tantos monstros que desenhamos que, por vezes, é bem difícil distinguir-nos. Nos tornamos o adulto que complica, que não vê graça, que tudo sabe e nada ensina. Somos o tipo de gente que sabe palestrar com conteúdo, qualquer filosofia da evolução humana, compreende o mecanismo de translação que faz a terra girar, mas, lamentavelmente, não compreende o complexo prazer que um carrossel pode proporcionar. Não compreende que é na simplicidade que estão as coisas mais sofisticada. Não entende que o substancial não se compra.

O que houve com a gente?

Para onde foram nossos sorrisos?

Afinal, em que momento, nos tornamos a “vizinha chata” que nunca devolvia a bola?

Ainda ontem, tínhamos milhares de medos e não éramos reféns deles. Sabíamos que nem sempre o sol brilharia, que às vezes, a chuva tingiria o dia de cinza, mas, aproveitaríamos da mesma forma. Sabíamos reconhecer a importância do nosso e do riso alheio.

Hoje somos folhas mortas, secando gradativamente na calçada deste longo percurso, quebradas sob os pés.

Éramos o dia azulado e hoje somos a noite que o escureceu integralmente.

Se há ainda, alguma coisa que carregamos de nossa infância, na pouca bagagem para a vida adulta, sem dúvidas, é a capacidade de interpretar vários personagens. Trouxemos milhares de máscaras, seguindo a sugestão que alguém falou para alguém, de que são extremamente necessárias na vida adulta. O fato é que nossas mascaras refletem opiniões, estereótipos e até a aparência deste mundo, só não reflete nossa alma, onde uma criança aprisionada grita desesperada, por retornar ao mundo.

Somos aquele barquinho de papel, que ninguém viu para onde foi. Desaguamos num mar de possibilidades, onde dissolvemos tanto, que nos tornamos a própria agua salgada.

E se, por acaso, algum dia você, amado paciente leitor, se surpreender sorrindo abobalhado de uma idiotice qualquer, para qual nenhum adulto parece demonstrar qualquer importância. Ou se, no meio do alarido do trânsito, um balanço solitário, uma árvore pendida sobre um muro ou mesmo um barquinho de papel, ondulando mansamente sobre enxurradas, lhe seduzir, não se preocupe, lhe asseguro de que não estás louco, é apenas alguns sobressaltos da criança aprisionada rogando pela vida. E talvez, você nem se lembre, mas, um dia, estas pequenas coisas, aparentemente insignificantes, foram extremamente valiosas em sua vida.

“A criança que um dia fui. É o adulto que eu queria ser.”


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.