ARCO DE FOGO A natureza da razão

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Arco de fogo é o nome de uma operação da polícia federal na Amazônia, deflagrada para autuar e prender madeireiros no meio da imensa floresta cerrada e serrada. É também o título da obra do Delegado Edson Geraldo de Souza e do repórter investigativo João Carlos Borda. Na nota dos autores, previnem: Esse é um livro para quem tem sangue frio. Um livro para quem tem estômago de ferro. Na apresentação, explicam: Essa é uma obra inspirada em fatos reais. O narrador, ao mergulhar na mente de pessoas “reais”, torna-os personagens ficcionais. Ele os vira ao avesso fato a fato, ao relatar, por exemplo, o episódio em que policiais precisavam atravessar o rio caudaloso sobre uma balsa sob uma tempestade, impiedosa, dirigindo um caminhão sem freio, carregado de madeira roubada. A correnteza aumenta, a carga escorrega, quase levando a balsa a pique. O único “pecado”, se é que se pode dizer isso, são as fotos em preto e branco. Coloridas, mergulhariam ainda mais o leitor no universo amazonense.

No início da leitura, o leitor se depara com uma sucessão de relatos sobre as operações da Polícia Federal (PF), do Instituto Chico Mendes de Biologia (ICMBIO) e do IBAMA (governo federal), como se os autores pretendessem redigir um diário de guerra, no entanto, à medida que a leitor avança, o relato cede lugar à análise do ser humano que habita cada policial. A maioria deles abandonou suas famílias para se embrenharem na floresta, enfrentando garimpeiros, grileiros, serralheiros e, pior, politiqueiros. O narrador nos remete a um fato deveras curioso: há homens que não vivem sem a adrenalina do combate permanente. Só ali se sentem verdadeiramente úteis. As notas de pé de página são esclarecedoras de fato.

Prender um carregamento de madeira não é apenas uma questão de exercer a autoridade, mas de legitimar a honra. O delegado Henrique que, pelo terceiro ano consecutivo, não comemora o aniversário de casamento com a esposa, é a síntese do homem cumpridor de seus deveres, mas também da impotência daquele que não tem como cortar os fios de uma teia que se espalha por todo país, cujo cordão umbilical habita Brasília. Busca saídas para cumprir seus deveres, porém esbarra nos documentos forjados pelos poderosos locais, estaduais e federais. Matar policiais é ato de bravura recompensado com caraminguás.

São evidentes os tentáculos ardilosos do poder político e econômico e até mesmo policiais. Usam os desvalidos para se perpetuarem no poder e se manterem à margem da lei. O narrador desvenda esse modus operandi. Usam pessoas miseráveis para sabotarem qualquer intervenção da polícia, do IBAMA e da ACMBIO na mata fechada. Advogados corruptos, a serviço dos donos de Santarém, Curuatinga, Uruará, Mucuxipi, dentre outros tantos aglomeramentos de pessoas, a que chamam de povoados, têm livre trânsito nos tribunais e delegacias para liberar as cargas apreendidas e seus burros de carga.

Alerta: “O importante é sempre descobrir o fluxo de madeira, que muda constantemente de lugar, conforme o esgotamento ou repressão. As apreensões e serrarias móveis causam grande prejuízo aos criminosos. Caso haja descontinuidade no mapeamento, há risco de demorar-se excessivamente na localização da ova fonte. As demandas podem vir de análise social por satélite ou de investigações da base. A extração atual, provavelmente, está migrando para a região de Curuatinga”. (pág. 68)

Os ativistas morrem antes de morrer, um policial também. A impressão é a de que vivem cotidianamente com uma bala prestes a entrar nas suas cabeças. As grandes empresas e os grandes fundos internacionais fazem do replantio de árvores um grande jogo de cena – diz o narrador. Tudo não passa de jogo político e econômico. Como deixa claro o delegado Henrique, constante narrador dos fatos, em 1ª pessoa, só há madeireiros e serrarias clandestinas, porque há compradores para a madeira. Essa prática se ramifica por grandes e médias cidades. Operações são constantemente deflagradas e o resultado parece ser cavar um buraco na areia. Na capa, a “guerra invisível no coração da Amazônia”, só é invisível, porque a desinformação interessa muita gente. A contracapa deixa bem claro: “No coração da Amazônia, uma batalha pela sobrevivência – de árvores e de homens. Para socorrer a floresta que sangra, uma corrida contra o tempo...”. Uma corrida contra a desinformação e contra a corrupção.

Combate-se o descalabro na Amazônia com um band aid, se muito. Deixa, nas entrelinhas, o narrador por vezes onisciente, que essa é a conclusão a que chegam todos os comandados do delegado. O narrador afirma que a floresta sangra, mas ainda pulsa na UTI. Os dilemas, os medos, as vitórias, a honra desmistificam a ideia de que todo policial é corrupto, contudo não lhes impõe a pecha de heróis. São homens que cumprem seu dever com dignidade, apesar da perda de companheiros e de amigos que não suportam lutar uma batalha que acreditam perdida. Henrique crê que é possível, pelo menos, minimizar.

João Carlos Borda é profissional que adora o perigo. Sua diversão nas férias é se enfiar nos buracos mais lúgubres do mundo em busca de aventuras e pesquisas, refém da adrenalina. Talvez isso se deva ao sangue do marinheiro que não sabia, mas nasceu jornalista. A prosa discorrente de Edson e João é um convite à leitura da obra e à reflexão. É um mergulho na Amazônia e também na alma humana. É tão profundo quanto o mergulho na floresta. Arco de Fogo é um convite ao prazer de ler. 

NAU DOS INSENSATOS

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(O BOCA DO INFERNO – DIRETO DO MAR EMPANTURRADO)

Nesta fria tarde de julho de Ribeirão Preto, navega uma jangada repleta de corpos empilhados sob um céu tempestuoso bem na minha frente. É possível sentir o fedor da morte e a dor dos que agonizam. É possível imaginar os urubus. “A Balsa da Medusa”, naufragada nas costas da Mauritânia, é a obsessão de Théodore Géricault, que chegou a entrevistar e pintar os míseros e minguados sobreviventes. Assim são as revoluções: os artistas pintam os corpos empilhados, o sofrimento como praga e a esperança indigesta, antropófaga. Os poetas criarão lendas, os trovadores as cantarão, os historiadores se perderão.

A tarde convidava a uma bela taça de Romanée Conti, minha obsessão, justamente por ter o gosto oposto ao das invasões: aromas e sabores florais, manteiga, frutas vermelhas, terra fértil. Do útero da terra de Vosne-Romanée, brotam as uvas pinot noir que tintam a terra de vermelho, adubando o chão. O Romanée-Conti é considerado o grand cru da Borgonha pela sua elegância. A região ostenta o título de Apelação de Origem Controlada. A única empresa que detém o direito de explorar essa riqueza, chama-se Domaine de la Romanée-Conti. Domaine significa produtor: o que fertiliza a terra.

A “Balsa da Medusa” coalhou o mar de vermelho. O mar tem fome. Fome de gente. Fome de almas. Mesmo com tanta água, aventureiros, idealistas, sonhadores e conquistadores morreram de sede. Ironicamente, mesmo com tanta comida ao alcance das varas, morreram de fome. Não tiveram um lote na terra esturricada pelo sol do Senegal, mas tiveram seu quinhão de água salgada, por culpa das tempestades. Somente o rei pode explorar a terra e a água. O rei não é produtor, é executor. A fragata naufragava, enquanto o rei tomava seu cálice de vinho com sabor de frutas e terra fresca.

A utopia da França escravagista sufocou o ódio de tribos inimigas figadais há séculos, debaixo de chibata, canhões e espada. Deu o nome a esse lugar irreconhecível de Senegal. A África escravizada, mal amada, maltrapilha, estuprada pelos brancos patrões, repleta de “maus” costumes pagãos, virou pesadelo distópico para a grande potência ignorante. As tribos não falavam a mesma língua, não compartilhavam dos mesmos deuses, não se reconheciam sob a batuta de um maestro que criou um réquiem apelidado de Senegal.

Assim são as revoluções. Inimigos não têm idade, não têm raízes, não têm alma, só têm corpo, mas têm riquezas. A tortura machuca o corpo, a alma, a razão, a identidade em busca de enriquecimento.  

Aos dominados, sobra a humilhação, os restos e a podridão. O Papa legitimou a escravidão, as potências legitimaram as invasões, as delações e as destruições. O sol esturricou o solo, o francês com o mosquetão tingiu o solo estéril de vermelho, os urubus comeram as carnes, as carcaças não apodreceram, não adubaram o chão. Os deuses dos negros não se irmanaram com o deus branco, no entanto ambos são vingativos. Deuses não têm cara, mas seus seguidores têm armas fanatismo e nenhuma piedade, nem coração. E como se mata em nome de deus!!!!

A fragata Medusa soçobrou. O capitão inconsequente foi acusado de incompetente, inexperiente, mas seria nomeado intendente das terras que os enganados habitariam. Mas era nobre. Mas era obcecado pela fama. Ao peso de tantos mortos, o rei soçobrou. Os incompetentes nomeados viram marionetes dos abastados e os sonhadores insensatos, crendo-se ungidos por deus, como carneirinhos, não carregam nenhum juízo, carregando os herdeiros das tragédias. Assim são as revoluções. O povo nunca esteve no poder e nunca estará. Os incultos, propositalmente, só conhecem uma migalha da história. Nunca houve a verdade. O povo nunca tem a consciência dos seus destinos, enquanto os poderosos se regozijam com taças e mais taças de Romanée-Conti. Interessado leitor que chegou até aqui no final deste arrazoado, não fui convidado para o banquete. Como eu, você sonhará com uma taça de um dos vinhos mais caros do mundo que só os beiços dos ricos consegue encontrar. Você está na balsa da medusa, como tripulante. Você só não sabe e nem saberá do momento em que ele vai encalhar e soçobrar. Iludido, a bordo de um dedo, você apertará o botão que, como um passe de mágica, fará tudo mudar.

A AMAZÔNIA CALVA SANGRA

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Começa com AMA

Quem ama, cuida. E não cuidamos. Sofremos. Mas não cuidamos.

Testemunhamos. E nunca cuidamos.

Não conservamos. Cortamos. Não replantamos.

A ignorância é uma bênção, é também a tragédia: a praga.
Vendados pelo discurso dos idiotas, não cuidamos.

Na pele, sofremos com o sol e com o frio.
E falamos e falamos e falamos e falamos. E nada fazemos. Só falamos. E só.
Protestamos. E só. Praguejamos. E só. Só sabemos protestar. E só. Só sabemos praguejar. E só.
Quem cuida, morre.

Ativistas viram notícias de pé de página. Orelha de livro ou nome de ONG, quando muito.

Como sempre viram memória. Como sempre, acabam esquecidos, ignorados.

Todos os dias morrem ativistas. E os governos safadamente surdos e mudos os empilham como carvão.
E nós, como sempre, desativados, alienados, abobalhados. Surdos e cegos por conveniência ou indecência.
As árvores agonizam. Os rios agonizam. As populações agonizam.
Aprisionados nos nossos umbigos, aplaudimos o discurso dos idiotas de plantão. Dos interesseiros e despreocupados. Dos lobistas. Dos canalhas de plantão. Interessados si8m na verba para a próxima eleição.

Interesse no capital e desinteresse na humanidade, no SER humano em algum momento da vida. Discursos proferidos como merda aos borbotões em uma ilha chamada Brasília.

Terra de todos e terra de ninguém, onde se fala, fala, fala do que não sei. Sei do escuso? Do obtuso? Sei.

E sofremos. E não entendemos, porque não queremos.

Consentir vale muito. Consentir desobriga. Mas, vale dinheiro. Muito dinheiro. E muito suborno.
Poderosos e indecorosos mentem e mentem. Em nome de interesses, mentem. 
E sabemos. E nos acovardamos. E nos escondemos. Da morte. Da sorte.
Morre a árvore. Morre a seiva da terra. Estéril.

A árvore não tem cio. Não gera filhos. Não existe comunhão.

Só chão esturricado. Desértico. Só chão. Terra batida. Só chão. Só deserto. Só chão. Sem pássaros, sem fauna, sem flora, só a morte aflora. Sobra morte.
Morremos ressecados, esturricados ou afogados, engolfados, como sempre e não nos damos conta.

E reclamos, e reclamamos, e reclamamos das secas inclementes e enchentes indecorosas.
Fazemos de conta que não entendemos. Só da terra do faz de conta. 
O ativista morre antes de morrer.

O dedo do gatilho apertado, mesmo antes de o cano cuspir a morte.

Viver assim?
Agoniza a Amazônia. Já calva. Cada vez menos ar, para cada vez mais gente respirar.
A gente morre cada dia um pouco. Sabemos. Mas não queremos saber.

A Amazônia já calva morre todo dia, estuprada a céu aberto.

A morte do “s” no final de tudo

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Um “agroboy” espremido em uma calça jeans hiper-super apertada do tornozelo à cintura. Dúvida cruel: Como ele conseguiu se enfiar nela? Claro! passou vaselina no cós e pulou do guarda-roupa para se encaixar? Caminhou soberbo como um pavão em direção à mesa. Piadistas cochicharam: “Esse aí usa calça zero a zero pra se mostrar fodão”. Portava um boné todo desgrenhado de uma famosa marca de agrotóxicos encrustado na cabeça. Vinha enlaçado por um largo sinto bandejão, que certamente o enforcava pela cintura. Dúvida cruel: “Será que dá para fritar um ovo naquilo?” Pisava ritmado com suas botas desgastadas, como se tocasse bumbo. Jogou a chave de uma caminhonete sobre a mesa. Olhou para as bocas em volta, só faltavam babar: “fodão”. “Consegui. cogitou com suas lombrigas”. O barulho, como os trovões, tinha a função de descaradamente demonstrar “phoder”. Puxou a cadeira, como se puxasse as rédeas de um cavalo. Várias senhoras o olhavam de rabo de olho.

Uma mocinha de tranças, enjaulada em uma calça jeans hiper-super justa, vinha à distância de um comando. Ah! Se as feministas radicais, que protestavam em frente ao Pedro II contra a “coisificação” e “opressão” do mundo machista vissem isso? Seria o caos. O jeans modelava suas formas. Piadistas, na mesa ao lado, elucubraram que o narrador de O Cortiço diria sobre ela o que disse sobre Rita Baiana: “Tinha ancas largas de égua no cio”. Beleza estonteante, insinuante. É o batom vermelho? E a camisa xadrez apertada, estrategicamente desabotoada para dar a impressão aos fotógrafos do pensamento de que os seios pulariam para fora do sutiã rendado a qualquer inspiração? Sentou-se em frente ao mancebo com seus olhos de piscina pregados nele. Certamente tinha PHD na arte de seduzir. Indiferente ao olhar, enquanto alguns olhos do bar a despiam e outros despeitados a invejavam, o macho alfa levantou a mão, como se fosse fazer uma pergunta ao professor, e gritou com voz de trator: – “Negão!!! Me traiz um chops, dois pastel e uma Coca estupidamente gelada. O chops pra ela e a coca pra mim,(kkkk), que estou guiando”. Será? Ela sorriu maliciosa. Ele a olhou como se a estúpida não apenas fosse a Coca.

– “Depois me traiz dois café com aqueles chocolatinho que só oceis tem”.

– “Dois café, né dotô?”, respondeu com uma pergunta e carregando a bandeja recheada de felicidade adquirida gelada para regar a imaginação.

Todo mundo é “dotô” nesse país. Tem dinheiro? Está disposto a pagar a conta? Então, é “dotô”.

Olhou para ela com aquele olhar de comando e o perdigoto se suicidou com o “S” na palavra: “vamo”. Contei esse episódio, que já virou piada, porque, como sou cego casado ou casado cego e o meu cúmplice de muitos chopes é surdo, mudo e niilista. Sorte nossa é que temos um animal piadista à mesa, apelidado por nós carinhosamente de O Boca do Inferno como tradutor. Tem a sutileza de uma mãe exasperada com o boletim do filho vagabundo que estuda, à custa de muito sacrifício, na escola particular.

Voltemos ao que interessa para você desvendar o tema dessa crônica, anódino leitor. Nocauteado pelas evidências, o “S” agoniza na UTI da fala, prestes a ser enviado para o exílio do dicionário. O falante nativo finge não vê-lo, como o faz o rapaz apertado, ou o considera estúpido, como encara com a mocinha enjaulada, ou se acostumou a engoli-lo quando bem quiser, como beber Coca-Cola, porque crê que está guiando alguma coisa. O professor, guardião da gramática, volta e meia, também dá suas escorregadelas. Ninguém está imune ao “erro” por contaminação linguística por mais erudito que seja. Assim são os agrotóxicos encrustado na gaveta.

O coitado do “S”, passou até a sofrer perseguição política, acusado de ser um dos pilares de uma elite intelectual entediante, preconceituosa, defensora do português castiço que não faz concessões. Para o povão, quem pronuncia os “Ss” é tido como pedante. Ora o som é o de /c/, ora o de /z/; ora água o chope, ora sensualiza o Luís, ora bagunça a lógica “Palmeiras é um time”. No final das palavras, indicando plural, é que toma surras homéricas do bom senso.

O calça apertada de boné disse à calça justa com batom insinuante que “tava doido pra chegar a Barretos”. A festa “do pião ia cê da hora”, segundo ele. Ele ia “pegá umas gata”; ela “pudia pegá uns gato” que quisesse, afinal, numa festa como essa “nóis pode tudo”, diferentemente da gramática normativa que vive de TPM. A boca de batom fez biquinho. Dizem os maldosos que, desde que inventaram o biquinho, homem não ganha briga. O da bota estava excitado, não com ela, mas com outra coisa, ia conhecer a cidade, onde ia “fazê” vestibular. Segundo ele, “é um saco fazê essas prova, mais não tem outro jeito pra entrá em medicina prá ajuda as pessoa”. O problema é que o “S” estaria presente nas opções das questões que, logicamente, o derrubariam mais rápido “nas prova” que uma garrafa de corote, caso não começasse a plantá-lo, adubá-lo e aguá-lo todos os dias. “Mas lê é chato, num é?”.

A música popular, seja a da periferia, do sertanejo, da elite branca, usa e abusa do Alzheimer. Ninguém sabe ainda se esse não é um dos grandes segredos de a música ser “popular”. O que se sabe, sem medo de errar nas observações, é que, para ser presidente da república, nos últimos quatro pleitos, o candidato tinha que travar uma verdadeira luta verbal com a língua portuguesa. A vítima maior? O “S”. Só falta a câmara votar alguma lei amalucada: “Morte ao S, junto com esses comunista”. No passado se tentou pelas via de fato: “Nunca, na história desse país, nossos discurso matou o “S” com tanta competência companheiro”. “Quero ver quem matou mais o “S” do que eu?!”. O palanque virou um verdadeiro show de horrores, porque os pronunciamentos feitos à base de improvisos também se tornaram um verdadeiro nocaute na clareza, da coerência, da coesão e do bom senso.

Aproximar-se do povão significa brandir uma espécie de caneta Bic maneta, assassina das concordâncias verbal e nominal. A função de um político, logicamente, não é ensinar gramática à população, mas tem a obrigação de não ferir o bom senso, proferindo frases destrambelhadas, matando descaradamente o “S”: Eu acredito que nós teremos uns Jogos Olímpicos que vai ter uma qualidade totalmente diferente e que vai ser capaz de deixar um legado tanto… porque geralmente as pessoas pensam: 'Ah, o legado é só depois'. Não, vai deixar um legado antes, durante e depois.

Aviso aos torcedores: “Palmeiras é um time” e não “Palmeira são um time” (concordância). Aviso ao presidente de um certo clube: “Nóis corintiano amamo nosso time, amamo nosso manto sagrado”. Aviso aos de botas e bonés e também aos que não usam essa indumentária característica: “As provas de redação dos diversos vestibulares devem ser redigidas na norma culta padrão da língua portuguesa”, portanto deem uma chance a vocês e ao “S”, senão correm o risco de tropeçar e cair na armadilha de Drummond: “No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”.

Politizado leitor: antes que tente achar pelo em ovo (meu deus! Que catacrese feia), o agroboy e a agrogirl são amigos do Boca do Inferno, leram, riram e hoje fazem curso para aprenderem a escrever dentro da norma culta padrão da língua portuguesa. Ademais esse texto é uma ironia e a luta entre singular e plural não se restringe a lugar, raça, religião, classe social etc, etc. Ficaram extasiados de servirem para amolecer cérebros empedernidos, resistentes a bastanteS aprendizadoS. Ambos acham que é muito melhor ter senso do que censo. Apesar de o “S” não estar no final da palavra. Se errei em algm momento, desculpe-me, é a contaminação. Agora boto um ponto final neste arrazoado.

P.S: o agroboy quase passou para a faculdade de medicina, via SISU. Quem sabe, no final do ano, passe e aí sim possa ajudar as pessoas como se sempre quis.

A POSIÇÃO POLÍTICA DO ADJETIVO

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(O Boca do Inferno – refém dos códigos e das penas)

A gramática reúne toda sorte de leis, é o código penal do falador e do escrivinhador. A realidade a desmascara com ações, por vezes quase pornográficas dos substantivos. Os adjetivos têm que tomar posição, às vezes generalista, às vezes dúbia, às vezes constrangedora, às vezes mascarada antes ou depois do substantivo. Dependendo da ambiguidade ou da generalização, o substantivo prefere tomar o lugar do adjetivo. Se qualquer um, metido a professor, pode brandir aos gritos empulhações sobre a Constituição e o Código Penal como se mentiras fossem verdades absolutas e incontestáveis, alguém, em sã consciência, acredita que regras gramaticais regulamentam o que quer que seja nesse emaranhado de ações escabrosas?

Observe como uma regra básica pode ser atropelada pelos fatos. A posição do adjetivo em relação ao substantivo provoca mudança de sentido. Verdade? É melhor ponderar: “um grande homem” difere de “um grande homem”. Deveria. De fato, o adjetivo “grande”, em ambos os caso, carrega “grande ironia”. Como afirma uma lei da física: “Tudo depende do referencial que se adota”. Faltam “homens” na acepção da palavra que, mesmo considerados grandes, carregam sua pequenez.

Observe como uma regra simples funciona enviesada: O falso profeta (impostor) gritava para a multidão. / O profeta falso (desleal, mentiroso) gritava para a multidão. “Impostor”, “desleal”, “mentiroso”, em ambas as frases, são sinônimas, não são? E os brasileiros, a quatro anos, ele um profeta, apesar de, historicamente, terem sido atropelados por todos eles ao longo dos séculos.

Observe como a regra hiper-realista funciona: Ele é um professor simples. (sem luxo) / Ele é um simples professor. (insignificante). A merda na qual estamos atolados torna os adjetivos impiedosos e os substantivos hipócritas. O que esperar de um país que não investe nas suas crianças, nos seus jovens e nos seus velhos? Que invista em escolas, alunos e professores? Burrice como fome tanto quanto fome são instrumentos que solidificam todo tipo de doutrinação, deságuam em dominação.

Observe como a regra é óbvia, mas só o dominador conhece a essência: “simples professor” e “professor simples” têm exatamente o mesmo significado: professor é profissão em desuso, é pano de limpar chão. A posição do adjetivo antes ou depois do substantivo, antes ou depois de qualquer governo, nada muda, muito menos os salários pornográficos. Revolucionários do nada empunham bandeiras, clamando por direitos, que não sabem quais são. Papagaios repetem-se esperando revolução, revolução do nada, da manipulada informação.O pior indivíduo é aquele que não sabe que não sabe.

Observe com a regra indutora cria papagaios em profusão: “Faremos a reforma da previdência”. Eu usuária o adjetivo “previdente”. Seja previdente, não compre essa enganação. O que é bom para banqueiro, não é bom para a população. O primeiro período traz o sujeito “nós”. Nós, quem, cara pálida? É um sujeito subentendido, mas, neste caso, se torna indeterminado, pois me puseram lá (não sei quem?) sem me perguntar se eu quero estar lá. O substantivo “previdência” deveria prevenir: Previno: “Você será lesado depois de anos de trabalho, sem privilégio nenhum”. Esse congresso só estúpido, quando ninguém mexe no bolso dele. Previdente, salvou a previdência dele, a sua não.

Há uma figura de linguagem chamada metonímia que consiste em empregar um termo em lugar de outro (uma das mais frequentes é usar “a parte como se fosse o todo”). Então, usaram o velho truque do desqualificar o indivíduo pregando-lhe um carimbo na testa. Rotulador parte do princípio da imbecilizam, daí o ora adjetivo, ora substantivo que em qualquer frase significam a mesma coisa, a esperteza do rotulador. Alguns aão “esquerdopatas” ou “direitopatas”; uns são “petralhas” outros são “bolsominions”. Será que nenhum militante com dois neurônios, percebeu que estamos diante do substantivo censura? Da ação de censurar? Passamos 26 anos tentando nos libertar.

Substantivos hipócritas usam e abusam dos adjetivos surrados, para abusar dos idiotas conformados. “Velha política” e “nova política” são expressões que indicam a mesmíssima coisa: o famoso “toma lá; dá cá”. A velha política ganhou uma cirurgia plástica, porém, debaixo da argamassa, continua velha, corroendo a concordância verbal (relações entre sujeitos e suas ações) e a concordância nominal (relações substantivos e adjetivos): “Político ladrão” e “ladrão político” estão enfiados no mesmo saco. E isso não é uma “fake News”, jeito de o colonizado se achar chique traduzindo o colonizador: “notícia falsa” ou “falsa notícia”? “Nunca fomos colonizados”, disse o andrófago da “fake news” Oswald de Andrade. Ele próprio carimbado com nome de colonizador.

A Gramática precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda. Diz Luís Fernando Veríssimo em O gigolô das palavras. Parodiando Veríssimo: “O povo também...”: todo ditador “pensa (?)” assim. Assim sempre foi, assim está sendo, assim sempre será. Joguem o código penal, gramatical, que sucumbiu, no lixo.

MEDO DE FALAR EM PÚBLICO SUPERA MEDO DE ANDAR DE AVIÃO

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Pânico. Tremedeira. Gagueira. Boca seca. Coração disparado. Suor na palma das mãos. Frio na barriga. Vertigem. Vontade de sair correndo por qualquer porta sem olhar para trás. Vontade de abrir um buraco e se enfurnar nele. Desejo quase incontrolável de gritar: mãieee!!!”. São esses apenas alguns dos sintomas frequentes que tomam de assalto quem precisa falar em público. A plateia parece portar facas nos olhares pronta para o esfolamento. Cada risinho é uma afronta; cada bocejo, um soco no estômago.

O medo de errar, de parecer ridículo, de não saber responder às possíveis perguntas deixa o falante na situação do mais profundo e absoluto desespero, aquele em que se esquece o próprio nome. Hoje o medo de falar em público supera o de andar de avião. Não há milagre, nem fórmulas mágicas, mas há como minimizar o estrago que “errar” supostamente fará na autoestima de qualquer tímido: fazer um curso com uma equipe multidisciplinar com um professor de oratória, um psicólogo, um fonoaudiólogo e, se possível, um “coaching” e um terapeuta especializado em biblioterapia.

A “timidez”, “doença” que espeta quem não consegue falar em público. Para muitos especialistas, o medo de falar em público vira pavor, se o falante não for bem sucedido na primeira tentativa. O pânico poder ser comparado ao medo de andar de avião. Por quê? Porque o desesperado não está no controle da situação, e pior, está fora do ambiente em que se sente confortável. No entanto, em um mundo superpovoado por pessoas com necessidades urgentes e interesses diversos, é preciso desenvolver estratégias para expor ideias em público, mas não só isso, é também necessário convencer as pessoas dos propósitos da exposição.

Muitas vezes, o sucesso pessoal e profissional depende das estratégias de como falar para plateias específicas. Logicamente, qualquer um pode ser surpreendido até na reunião de moradores do condomínio, ou na empresa em que trabalha ou em uma reunião de pais na escola. É crucial se preparar contra as intempéries da vida. As empresas, por exemplo, preferem trabalhar com equipes que primem pela troca de informações e exposições de ideias inovadoras. O mercado cruel quer comunicação rápida e respostas rápidas.

O mercado de trabalho precisa de pessoas que não tenham medo de falar em público, mas também dominem técnicas de persuasão. São escolhidos para os melhores cargos aqueles que não se encolhem, não se sentem acuados, quando pressionados e não se recusam a falar para um grupo determinado, quando requisitados.

As empresas precisam agilizar e melhorar o atendimento atingindo diretamente o cliente. As escolas querem professores didáticos capazes de manter o interesse dos alunos nas aulas, e, para que tudo isso funcione. Até mesmo em uma situação informal como festa de aniversário ou de casamento qualquer um pode ser chamado a falar.

Algumas dicas: Comece lendo um texto para si mesmo em voz alta; em seguida, faça o mesmo olhando-se no espelho; mais tarde, grave-se cantando e observe-o com cuidado; fale de improviso ou leia em voz alta. Finalmente, reúna um pequeno grupo de pessoas para contar piadas, cantar, ler um texto ou fazer um debate. Se nada disso der certo, procure a equipe multidisciplinar.

Pior que a censura de outras pessoas é a autocensura. É ela que mata o desenvolvimento de várias habilidades. Pequenos ajustes possibilitam grandes mudanças. Finalmente, muita gente não gosta de falar em público, porque não tem vocabulário. Leitura e escrita são muitas vezes as chaves do sucesso. Sem dominar as palavras, não há como dominar o conhecimento. Sem dominar o conhecimento, é impossível dominar o discurso. Expressar-se em grupo vira um ato caótico.

Doentes: provocações

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Bombas atômicas... Bombas anônimas... canos vomitando balas a tirar vidas... Atirar!!! Pare!!! Dispare!!! Não pense. O alvo? A sociedade doente... o cidadão demente... o idealista... o ativista... o arrivista... o altruísta... os sem terra, os sem teto, os sem moral, os sem saco, os sem complacência, os sem inocência, os sem consciência. Os que não leem poesia, os que não obedecem a nenhum guia, os que não fazem parte da manada, os supostos inteligentes.... os sem nada. Os políticos... os paralíticos... os altos executivos... os investidores competitivos. Os que escrevem a história... os trouxas... os tapados, os transviados, os subversivos, os desvalidos, os sem memória. Os que desprezam a vida, os que não têm comida, os fetichistas, os fratricidas, os parricidas... Os que trapaceiam, os que incendeiam, os que bobeiam, os que não fazem parte do show, os revoltados que destilam seu veneno nas letras do Rock n' Roll...

Nessa sociedade descrente, dúvidas frequentes são desferidas como tapas em bocas sem dentes: Quem, na verdade, é o terrorista? Quem atravessa o caminho, quem bloqueia a entrada, quem explode a estrada, quem blasfema sozinho? Quem espalha o terror? Quem fomenta o horror? O que cegamente puxa o gatilho ou o que manda matar líderes para apagar o seu brilho? O que se refestela na praga do fanatismo ou o que assassina pessoas para implodir o capitalismo? O que está do lado de lá ou o que está do lado de cá? A esquerda ou a direita? A democracia manipulada ou a ditadura pseudo-humanizada? Osama Bin Bush ou George Bush Laden? O que assalta sempre apoiado por uma gangue ou policiais banhando as ruas de sangue? Os que transformam torcidas em grupos paramilitares ou torcedores abobalhados sendo humilhados aos milhares? Os que colaboram com as tragédias ou os que não riem nas comédias? Os assexuados que batem em homossexuais ou supostos defensores dos homossexuais que batem em quem não aceita suas posições radicais?

Nesse mundo doente, outras dúvidas indecentes escapam de bocas frementes: Como se acaba com vidas? Usando uma bala endereçada ou uma bala perdida? Obstruindo a liberdade ou distorcendo a realidade? Manuseando a palavra ou enganando quem lavra? Esfaqueando por causa de um boné ou obrigando os movimentos sociais a dar marcha a ré? Invadindo países cujos exércitos covardes fogem em desabalada carreira ou corrompendo governantes sem eira nem beira? Escravizando pequenos trabalhadores ou impedindo o acesso aos livros aos jovens leitores? Portando, para intimidar, pomposas carabinas ou estuprando, sem nenhuma culpa, incontáveis meninas? Construindo um muro que subtraia a visão ou fazendo um buraco no futuro de uma geração? Derrubando com armas aladas as Torres Gêmeas ou desassistindo com falsas promessas as pessoas ingênuas? Invadindo favelas a bordo de um caveirão ou subindo vielas carregando metralhadoras na mão? A polícia estourando bocas de fumo para pegar drogados e seus mentores ou a própria polícia assumindo no morro o papel do estado escondendo-se atrás de delitos e favores?

Assim funcionam as sociedades doentes: eleitores dementes, governos inconsequentes, policiais incompetentes, leis incongruentes. Justiça para os pobres, impunidade para os nobres, juízes subornáveis, sentenças contestáveis. Saúde precária, falta de uma medicina sanitária, pacientes amontoados em corredores, falta de preparo dos gestores. Bisturis amputando a vida dos meus e dos seus; médicos, contra toda ética, obrigados a brincar de deus. Remédios adulterados, hospitais sucateados, enfermeiros despreparados, farmacêuticos mal formados. Escolas decrépitas, metodologias caquéticas. Epidemia de educadores deseducados, pandemia de professores incapacitados. O estado lhes paga vergonhosos salários de fome que a metade do mês desafortunadamente consome. Alunos violentos convivendo com seus algozes em ambientes pestilentos. Otoridades a bordo de discursos viciados empurrando goela abaixo de pesquisadores sistemas há muito ultrapassados. O capital cria diferenças abissais, pois trata seres humanos como se fossem animais.

O estômago revolto do capitalismo pare párias, sem pátria, sem identidade nem visibilidade. Seres manipulados como cartas no jogo de baralho, não são cidadãos, mas penas números na carteira de trabalho. Não estão nas estatísticas sem nexo deixadas nas gavetas de órgãos públicos aos quais o público não tem acesso. O capital vomita um exército de homens indizíveis, sem propriedade nem nome, cujos braços não servem para abraços, apenas para o trabalho escravo nas lavouras, produzindo alimentos cheios de defensivos que não os defende da praga da fome. Os ecologistas veem nosso modelo de desenvolvimento atrelado ao consumismo, como a regra fundamental que joga o futuro do nosso planeta na beira do abismo. As hiper potências impedem as pobres de crescer e se manter. A fome é um grande instrumento de dominação e solitário direito dos ricos ao monopólio do pão: Prazer que é de um só, não é prazer. É estupro, egoísmo ou puro dever.

Animal político

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(O Boca do Inferno - direto do zoológico)

"O homem é um animal político", proclamou Aristóteles. Coitado do pobre filósofo, jamais imaginou que sua frase emblemática seria usada como argumento para a elaboração (é isso mesmo?) de redações encaixotadas e pilar de algumas ideias simplistas. O epiteto chique de "repertório" e, para ficar mais sofisticado, de "cultural" serviu para justificar o “decoreba” assassino do pensamento filosófico (filosofia - amor pela sabedoria).

Aristóteles acreditava que o homem só atingiria a felicidade em sociedade. Engraçado é que a sociedade prefere a infelicidade da guerra. A guerra é ocasionada pela falência da diplomacia, ou seja, a falência do discurso, da convivência harmoniosa. Mas, a desarmonia traz a felicidade para muita gente, senão o que seria dos vendedores e traficantes de armas e drogas. Por essa, Aristóteles não esperava. Estamos fadados, portanto, à infelicidade social. A palavra está falida, valem os emojs, os emotions. Um muque vale uma expressão, minion vale uma página. A diplomacia é a das fake News.

O gado, em linhas gerais, por não saber manipular o discurso, é apenas "animal". O dono do gado, “o político”, sabe manipular, escravizá-lo. Se não sabe, compra alguém que saiba. A felicidade não será jamais "política", tal o sentido pejorativo que a palavra e a pessoa que se abriga sob seu guarda-chuva adquiriram. Seria uma balada, se não fosse um balaço: a infelicidade é atingida pela vida em sociedade. Ah! Aristóteles!

Não é possível ser feliz, quando alguém “poderoso” disse que não disse o que disse: "Ninguém quer uma guerra. Guerra é ruim porque haverá perda de vidas. Há consequências colaterais. Mas não creio que Maduro vá sair do poder de uma forma pacífica. De alguma maneira, em alguma hora, em alguma medida, será necessário o uso da força porque Maduro é um criminoso." Depois de Aristóteles virar no túmulo, Jair Bolsonaro, que vive um embate inglório com a língua portuguesa, tal qual os dois últimos presidentes, pespegou: "Tem gente divagando sobre isso. De nossa parte não existe essa possibilidade." Aristóteles desvirou? Não creu?

Tite, animal técnico político, filósofo do ludopédio, resolveu dar uma de juiz do STF e soltou um “tapiazol com embromazil”, que pareciam impropérios, para explicar o que todo mundo já virá: o Brasil empatou com o Panamá por 1 a 1(número 76 do ranking da Fifa). Medroso, Tite soltou termos na entrevista coletiva, que driblaram o “senso” e a compreensão, como: "performar o resultado", "extremos desequilibrantes" e "lastro físico". O jornalista Raphael Rezende do SporTV e Alex Escobar dos multicanais multinacionais Globo entraram em pugilato verbal. Raphael Rezende prefere o barroquismo titiano; Escobar, o simplismo muriciano. O gado indignado esperava que o Brasil ganhasse em Praga da Tcheca. Aristóteles assim veria sua tese prosperar, a felicidade atingida pelo povão suado no circo, com facções prontas para se engalfinhar, assim que o arbitro marcar o primeiro pênalti mal marcado, depois desmarcado pelo VAR.

“Primeiro, eu queria te dizer que eu tenho muito respeito pelo ET de Varginha. E eu sei que aqui, quem não viu conhece alguém que viu, ou tem alguém na família que viu, mas de qualquer jeito eu começo dizendo que esse respeito pelo ET de Varginha está garantido” destrambelhou Dilma Rousseff. A felicidade foi atingida pela oposição e por mim que estou dedilhando esse texto. A língua portuguesa é, realmente, o maior instrumento de dominação de um povo que nunca foi “desasnado”, mas é feliz justamente pela sua ignorância, nunca conheceu metáforas surtadas, fala em uma língua e escreve em outra. Na frase “O homem é um animal político” há metáfora, ambiguidade e ironia política e duas certezas.

Esse texto destrambelhado, que misturou Aristóteles, com Dilma, 01, Bolsonaro, Raphael, Escobar, Tite, Murici, ET de Varginha e Dilma Rousseff é um primor da filosofia aristotélica. Se você não entendeu nada, não riu, não se preocupe, perdeu um tempo menor do que quem o escreveu. A língua portuguesa é um tremendo instrumento de enrolação. É sustentáculo do político que desfala o que tinha falado, para fingir que dá de comer ao animal. Coitado do Aristóteles, vítima da língua, instrumento social malvado, ora amiga da felicidade, ora inimiga, ora indiferente a ela. Inclusive, nem consegue defini-la. 

A cegueira da visão e a cegueira da audição

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Inep cria comissão para verificar se questões do Enem estão de acordo com a realidade brasileira

 Caros:

            Diz o ditado popular: “Em casa em que falta pão, todo mundo grita e ninguém tem razão”. Não me interessa em quem você votou no último pleito. Não me interessa também a que facção partidária pertence. O que me interessa é ponderar sobre algumas situações absurdas envolvendo o sistema educacional brasileiro: brigas, falácias, censura e discursos destrambelhados.  

O senhor “escritor” Olavo de Carvalho “manda prender e manda soltar” na Esplanada: ameaça, aos berros, retirar seu “pessoal”, quando não concorda com qualquer guinada ideológica do grupo em entorno do presidente; participa de banquetes diplomáticos como eminência parda; arvora-se de ideólogo do presidente; funda grupos ideológicos, mentindo que não são (apoiar o movimento “Escola sem Partido” é o maior exemplo); ataca abertamente o, segundo ele, “destoante” vice-presidente da república e praticamente nomeia ministros. Olavo de Carvalho é tido como mentor do ministro da educação Ricardo Vélez que que, por sua vez, é o mentor do presidente do Inep Marcus Vinicius Rodrigues, que, ao que parece, não é mentor de ninguém, é apenas um monitorado à beira do abismo.

O Ministro Velez vive o balança no cargo, mas não cai: a bancada evangélica pressiona, quer mais espaço, chama-o de 'maçã bichada'. Os líderes da bancada evangélica boicotam uns aos outros, os militares boicotam os dois, os técnicos do Instituto Paula Souza boicotam os três, olavistas boicotam os quatro. A pastora evangélica Iolene Maria de Lima, por exemplo, que seria a Secretária Executiva do MEC, caiu antes de assumir devido a uma entrevista destrambelhada à TV evangélica FELIZ CIDADE. Parece brincadeira, mas não é: três indicados, em três semanas, não assumiram (Luis Antônio Tozi, olavista, foi demitido, em seguida Rubens Barreto da Silva foi nomeado, mas caiu antes de assumir). A conclusão é simples: o MEC virou uma bagunça ideológica. Todo mundo grita, ninguém tem razão.

            Como se não bastasse a bagunça, o MEC virou refém de um grupo de “eleitos”: uma comissão de “iluminados” lerá as questões do banco de dados do INEP, segundo os temas “transversais de pertinência com a realidade social” (seja lá o que isso signifique), as “dissonantes” serão retiradas para posterior adequação (seja lá o que isso signifique). Os “iluminados” são os representantes do Ministério da Educação, Marco Antônio Barroso Faria; o secretário de Regulação e Supervisão da Educação Superior; o representante do Inep, Antônio Maurício Castanheira das Neves, diretor de Estudos Educacionais; e o representante da sociedade civil, Gilberto Callado de Oliveira, procurador de Justiça do Ministério Público de Santa Catarina.

Por incrível que pareça, a comissão poderá fazer um trabalho cansativo que pode se tornar inútil, pois o presidente poderá vetar a prova. Tenho curiosidade de saber quais serão as conclusões às quais sua excelência chegará, afinal a questão sobre os gays, que o irritou, não defendia ideologia de gênero, versava sobre o dialeto usado por um grupo social. Ninguém vira gay por causa de uma questão de prova, afirmou a até então responsável pelo ENEM, Maria Inês Fini, que logo, em seguida, se demitiu. Ou será Flávio Bolsonaro, aquele que andou sentado na traseira do bugre presidencial durante a coroação do mito, que lerá e aprovará a prova?

Exigia-se, até agora, uma intervenção social na prova de redação. O aluno deveria apresentar “sugestões” para “minimizar” um problema social, mas não ferisse os direitos humanos; atualmente pode ferir os direitos humanos desde que apresente argumentos convincentes. Daqui para a frente, nem Deus sabe como será avaliada essa instrução, nem como serão instruídos os corretores das provas.

Senhores e senhoras: não existe isenção em nada, basta escrever qualquer texto ou ler a obra de qualquer autor ou analisar a atitude dos pais, dos técnicos de futebol, de quem quer que seja. Nenhum professor dará uma aula sem emitir opiniões, mesmo se elas não estiverem explícitas. O senhor Olavo de Carvalho, adepto do movimento “escola sem partido”, tem partido, o da escola sem partido, basta ouvi-lo berrar e bater na mesa nos seus vídeos. Esse negócio de esquerda e direita acorreu na Revolução Francesa (1789). Será que regredimos tanto assim?

Senhores e senhoras: mentores são ideólogos, têm partido político sim. Se não tivessem, logicamente, não seriam ideólogos. A partir disso tudo, a conclusão é simples: ninguém faz a mínima ideia de como será a prova do ENEM 2019, quais serão os possíveis temas abordados na redação e nas questões, mas é claro, óbvio que um exame nacional não foi criado para quem quer que seja fazer proselitismo religioso. Um presidente VETAR questões de uma prova é inédito na história de uma democratura, como a do Brasil: vetar é censurar e esta não está entre as atribuições do presidente da república. “Adequar” questões a uma suposta realidade também é censurar. Já sabemos onde isso vai dar: experimentamos essa coisa durante 26 anos e pagamos o preço até hoje.