​O ENEM E SEUS MITOS:

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  • Quem tem medo do ENEM? Se você tem, seu concorrente também. Se a prova do maior vestibular do Brasil gerava um estresse danado, neste ano esse estresse foi às raias do absurdo.
  • Eu o(a) aconselharia a ler o “discurso” do presidente na ONU. Aquele arrazoado constitui o “programa de governo” do partido que assumiu o poder no Brasil. O tema da redação pode estar ali.
  • O ministro da educação prometeu uma prova sem viés ideológico, o que, em se tratando de ciências humanas, é impossível. Não se incomode, imaginando como a redação será corrigida. Simplesmente defenda a sua opinião.
  • Por favor, não “meta o pau nos políticos”. “Meter o pau” constitui apenas juízo de valor não significa que está apresentando argumentos.
  • Evite doutrinarismos, sejam políticos ou religiosos. Doutrinar não é argumentar.
  • O tema vem representado por uma frase. Essa frase sempre traz palavras chaves. Se o tema for uma pergunta, sua resposta será a sua tese. Se não for, transforme-o em uma pergunta. Ex.: “O futebol é o ópio do povo”.
  • Se a dissertação exigida no ENEM é a “argumentativa”; no primeiro parágrafo, é crucial que você apresente sua tese (opinião ou ponto de vista).
  • Três são as palavras-chaves especificadas nas instruções: SELECIONAR, ORGANIZAR, RELACIONAR. Portanto, a redação não foi criada para você que você escreva tudo o que sabe sobre o tema. É preciso organizar os principais argumentos em sequência progressiva. (linha de raciocínio).
  • Relacionar argumentos (classes sociais, raças, teorias sociais, países...) é fundamental para que o texto flua de forma inteligente: demonstre maturidade.
  • Fatalmente, você “cairá” em questões relativas ao governo, então se lembre de que existe “governo estadual, federal e municipal”, especifique qual pasta: ministério, secretaria etc. Geralmente propõe campanhas (Qual o teor da campanha? Quem fará a campanha? A quem a campanha quer atingir? Quais meios serão utilizados?
  • Comece a prova pela redação. Nunca faça o rascunho e depois volte para passar o texto a limpo. Se faltar tempo para terminar, você não terá como “chutar”.
  • Se você não sabe nada sobre o tema, retire ideias dos excertos da coletânea. Preste atenção ao primeiro período que, geralmente, resume a ideia central do texto e às fontes de onde foram retiradas.
  • Nunca escreva o que sabe mais ou menos (o que acha que é). Evite os erros gramaticais e as “frases bonitinhas” que não se relacionam com o tema central. Essa estratégia não configura conhecimento (repertório cultural). Essas frases podem destruir o seu texto, se não tiverem qualquer relação com a tese apresentada.

Ópio é palavra chave. Escrever apenas sobre futebol constitui fuga ao tema. O tema não é uma pergunta, então o transforme em uma. A resposta será a tese. A dissertação argumentativa exige que haja uma tese.

A PSICOLOGIA DO "NÃO"

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(Prof.: Luiz Cláudio Jubilato - coordenador geral do curso Criar redação. Professor de Língua portuguesa e redação; Consultor educacional para vestibulares.

Já que uma quantidade enorme de alunos me pergunta o que cairá na prova do Exame Nacional do Ensino Médio, vou para o lado contrário, falarei do que NÃO vai cair:

1. NÃO SEI O QUE CAIRÁ. NINGUÉM SABE:

O professor cartomante diz o que cairá. Se todos acertarem, a prova deverá ter 1000 questões e não 90. Pergunto: Como vai cair? Como será o enunciado? Qual o gabarito? Há sites e mais sites que listam os 50 temas que mais caíram. Será que não cairão mais, já que foram suficientemente explorados? Ou são os que têm mais chance de cair? Estudá-los ou não? Eis a questão.

2. NÃO SE PREOCUPE SE PROFESSOR ACERTARÁ OU NÃO O TEMA DA REDAÇÃO:

Se ele acertar e você não tiver feito a redação? De que adiantará? Se tiver feito, lembrará de tudo? Não é melhor se preparar para quaisquer temas, para não ser surpreendido(a)? Você já sabe que a banca examinadora abordará um tema atual, que abordará tópicos do programa de governo do atual.

3. NÃO SE PREOCUPE SE A MATÉRIA ACUMULOU:

Estudar tudo de tudo? Impossível. Acumular matérias é absolutamente normal. Se alguém disser a você que está com tudo em dia, interne-o(a). É pura pressão psicológica. Ou então, já decorou a apostila. Se você se acha uma “anta”, porque há um vazio na sua cabeça, esqueceu tudo, não se esqueça de que as antas são espertas, tanto que continuam sobrevivendo. As coisas se decidem mesmo é na hora da prova. E se o concorrente "fodão" passar mal. "Já era".

4. NÃO ESTUDE EM CASA:

Estude na escola; em casa, revise, descanse. Você não é autodidata. Perde muito tempo tentando aprender sozinho. Aí começa o estresse, a sensação de não aprender nada.

5. NÃO FIQUE ACORDADO(A):

Aprenda com o seu corpo. O corpo ensina. Hora de ficar acordado, fique. Hora de dormir, durma. Dormir ensina. Não confunda ficar acordado(a) com estudar, No outro dia, terá que reler tudo o que leu. Aí sim a matéria acumula. Perderá, no mínimo, duas aulas no outro dia.

5. NÃO SE PREOCUPE COM A CONCORRÊNCIA:

Primeiro: quantidade não significa qualidade; segundo: você é o seu maior concorrente, pois se enfia em aulas dicas cansativas na véspera da prova. Vá beijar, abraçar, comer a comidinha da mamãe; terceiro: quando fica ouvindo um monte de asneiras dos derrotistas; quarto: quando não acorda para o fato de que o mesmo medo que tem do concorrente, ele tem de você; quarto: quando toma remédios para diminuir a ansiedade ou turbinar o raciocínio sem consulta médica.

6. NÃO SE PREOCUPE POR ONDE VAI COMEÇAR A PROVA:

Preocupe-se em fazer as questões mais fáceis primeiro; nem sempre a matéria que você mais sabe é a que está mais fácil. O importante é não "chutar" sem ler.

E o professor, que não ensina, ensina? (Ninguém vai ler isso; é muito longo)

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  • Ninguém vai ler isso; é muito longo

                Ao longo de 42 anos de profissão, conheci todo tipo de aluno e de professor. Já dei aulas em inúmeras escolas e em tantas e tantas cidades. Vivi e convivi com professores que viajavam 1000 km por semana para ganhar a vida ensinando. Muitos a perderam. Ganharam lembranças, mas não viraram lenda. Atendi pais e alunos com possíveis dúvidas e problemas diversos, como professor, consultor e psicólogo. Formei uma enorme quantidade de professores e alunos. Dei uma média de 50 aulas por semana. Escrevi tanto material didático, que tenho a impressão de que as linhas enfileiradas facilmente chegariam à lua. Viajei mais de 1000 km/semana. Tive duas escolas e um AVC. E pronto. Chega.

Noutro dia, fui a uma feira dedicada a pessoas que poderiam escolher, por livre e espontânea vontade, uma escola para estudar. A idealizadora do ENEM deu uma palestra, depois abriu para perguntas. Senti-me um pária educacional, quando um professor, munido de um microfone, atacou o que, segundo ele, era a “indústria” dos “famigerados” cursinhos. Desde que me entendo por professor, dou aulas em cursinhos. Pisei na UFJF e um semestre depois já dava aulas no maior cursinho da cidade.

Os cursinhos deveriam existir? Se o sistema educacional fosse criado para seres humanos, não. Se as escolas fossem formativas e não informativas, não. Se fôssemos educados para saber e não para o mercado, não. Se não fôssemos ensinados a ser empregados, mas sim empreendedores, não. Se, em um país tão desigual, o ingresso às universidades públicas não levasse em conta apenas a tal meritocracia, não. Se não vivêssemos massacrados pelo tal vestibular, não. Se não houvesse a indústria do EAD e do PBL, não. Se não houvesse o ENEM, não. São o mal necessário. Sim.

                O professor ingenuamente (?) acreditou, de acordo com os seus interesses (?), que, com o advento do ENEM, os cursinhos acabariam. Ninguém é tão ingênuo assim. O ENEM, criado para uma coisa, virou outra, uma espécie de monstrengo balizador para a propaganda política. A cara do monstrengo virou a porta de entrada para as universidades públicas. Dessa forma, à imagem e semelhança dele, pariu uma infindável fábrica de cursinhos só para ele. Por culpa do “modelão” ENEM, retrocedemos duas décadas. Voltamos à decoreba. Ele promete aos pobres as mesmas chances dos ricos, mas isso é pura balela. Passe os olhos pelo questionário socioeconômico. Verá as distorções. Bato nesta tecla da obviedade e os números nunca me desmentiram.

           Os professores de cursinho exercem o seu papel fundamental no processo deseducacional. Levam o processo às últimas consequências. Ou alguém, em sã consciência, crê em aprendizado, depois de um conjunto de aulas de disciplinas diferentes, ministradas entre as 7h e as 15h? Na primeira aula, o aluno está com sono; na última, com fome. Nosso modelo, se é que podemos chamar assim, criou os cursinhos. Sabe o que vai acabar com eles? A infindável quantidade de universidades particulares abertas sem nenhum critério. Essas serão a universidade particular para os pobres; universidade pública é para rico que pode pagar cursinho.

E os lobbys dos grandes grupos educacionais? Que governo, em boa parte, financiado por eles, teria colhões para enfrentá-los? Os donos dos cursinhos grandes ganham milhões, empregam milhares de pessoas, acabam tampando hemorragia com band-aid. A disseminação do Ensino a Distância é a prova cabal, é a indústria que o professor esqueceu (?) de mencionar. O MEC incentiva a propagação do professor virtual, quer até fazer dele modelo para pais ensinarem seus filhos em casa. Mais que cursinhos proliferam plataformas digitais. Mas, educação não exige interação, aproximação, troca de experiências?  

                A prova do ENEM será feita pelo computador. Nem deus sabe como. Vai haver universidade para Hacker, pode acreditar, curioso leitor. A nova fronteira educacional é tornar a tela do computador humana e o aluno disciplinado? E o professor? Finge que há alguém do outro lado da câmera ou que o chat é o mesmo que um contato? Finge que ensina sem saber se o aluno aprende? Isso não é um "cursinho"?

             Neste dia dos professores, que são todos, surgem histórias edificantes dos que deram e dão a vida por seus alunos e pelos projetos criados pelo governo, com cara de pirata e tapa-olho. Poucos se lembram que a “desforma” educacional pretendia expulsar boa parte deles, a pontapés, dos currículos escolares. Neste dia, todos falam dos “salários mérdicos” da rede pública. O idealismo (?) mantém muitos deles na escola. Sabe por quê, enrolado leitor? Porque não têm para onde ir. Boa parte só sabe dar aulas, mesmo depressiva, desorientada. Um ou outro prefere pular do décimo andar de um edifício a voltar para a sala de aula.

                O alto índice de depressão, o medo das agressões, o desespero de tentar ensinar a quem quer ou não tem como aprender afugentou quem queria ser professor. Ninguém ensina em um país em que vale a pena entrar em qualquer faculdade de fim de semana somente para ter o diploma de doutor. O sistema deseducacional dos absurdos mesmo: o aluno da escola pública não sabe ler e escrever, o da escola particular também não. Aprende a decorar um modelo para virar universiotário. Entrar para a universidade é difícil? Sair é muito mais. Um mau aluno vira um mau professor que cria um mau profissional que vira um mau professor, que cria um mau aluno... (o ciclo vicioso eterno)

                Jovens, como eu, que vieram de classes baixas, se tornaram professores, porque o curso é barato e dá para começar a trabalhar cedo. A vocação fica em segundo plano; o primeiro é sobreviver. Quando penso na minha profissão, penso no professor Barata de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, em Fraulein Elza de “Amar Verbo Intransitivo”. Hoje será um dia de sol, calor, lágrimas e homenagens; amanha será de mordaça, pequeno salário para muito mês, ilusão. IBOPE (do qual o professor de escola particular é refém) e leis estapafúrdias. Muitos professores me estimularam, porque eram bons; outros me estimularam, porque eram ruins. A que me inspirou era muito chata, chata mesmo, chata de carteirinha. Ela me inspirou, não por que não soubesse nada, mas por que não tinha paciência com a ignorância. Dizia: “Vim aqui para desasná-los”. Lembra-me o professor gordo, impaciente do conto “Os desastres de Sofia” de Clarice Lispector.

                Hoje homenageio, entre tantos, o professor de cursinho, que vive nas salas de aula ou morre nas estradas, que vive o estresse do aluno, como se fosse seu, que enfrenta o IBOPE todos os dias. Os que sabem e os que enganam bem (outra forma de sabedoria).

Será que seremos um remédio contra a burrice?

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Nada me indigna mais que censura. Apanhar na boca me indigna. Proibir me indigna. Impor limites às crianças me indigna. A atitude imbecil de um censor me indigna. Quem proíbe, gosta de ser enganado – Como nossos pais, diria Belchior. Quem um censor pensa(?) que é? Um ser iluminado? Que pode decidir sobre o que eu devo ler, ver, falar, avaliar, ouvir e pensar? A censura e o censor são certamente os maiores incrementos à burrice da história, depois vêm provas as sobre livros e a criação de um programa do Ministério da Justiça e Segurança Pública de usar a literatura como instrumento de tortura. O detento reduz a pena em quatro dias, se ler um livro. Genial. O plano mesmo é desafogar o sistema penitenciário. Genial. As obras mais escolhidas foram “Ensaio sobre a Cegueira” de Saramago” e “Crime e Castigo” de Dostoiévski. Detentos intelectuais, preparados para o mercado. Genial.

A história está cheia de iluminados guardiões da moral e dos bons costumes (seja lá o que isso signifique). São escudeiros de caudilhos que arrastam multidões, berrando verdades absolutas e se escondendo atrás do moralismo. Assim salvarão o mundo da ameaçadora livre manifestação dos direitos democráticos. O estado é laico, o censor não. É nada mais, nada menos que um idiota útil, descartável como papel higiênico, afinal não entende nada de coisa nenhuma. Se entendesse, não seria censor.

E a multidão acéfala engole faike na forma de sabedoria. Direita ou esquerda são partes do mesmo corpo, uma lava a outra. Ah! Desculpe-me. A Revolução Francesa já acabou faz tempo, leitor? A rotulagem é a melhor maneira de desqualificar o adversário, de se mostrar importante, de dizer que defende a família (qual família?). A juventude hitlerista começou a ser ajustada assim, quando o professor se viu amordaçado, escolas públicas viraram campos militares, alunos passaram a usar farda e bater continência, convenceu pais a abdicarem deles. Ninguém vestia azul, nem rosa.

George Orwell vislumbrou essa distopia: o estado opressor-policialesco; “sorria, você está sendo filmado”, as coisas mudam para ficarem iguais. Isabella Allende presenciou a distopia: tortura a céu aberto em estádio de futebol e morte por crimideia. Em uma ditadura, ninguém é inocente, nem que as apoia. A mentira é arma; a censura canaliza o óbvio, transmutando-o. Pais espancam filhos discordantes, filhos entregam pais vacilantes, vizinhos passam a ter comportamentos cambaleantes. O país precisa de uma guerra externa para disfarçar a miséria interna. Falta apenas desancar a velha Constituição, criando uma nova e “revolucionária” (A Polaca de Getúlio Vargas), estrangular as relações de trabalho (A carta dell lavoro de Mussolini), tornar a fé destemperada um apanágio à burrice (Os Index da contra-reforma) e promover a queima inquisitorial de livros, para recontar a história com um novo viés (Stalin e outros ditadores bananeiros da América Latrina). Estamos a caminho célere para nos encarcerarmos em um admirável pesadelo novo: vidas secas e angústias nos esperam, junto com os cassetetes e os porões.

Agora vivemos uma espécie de cegueira verde-amarela escarnecendo da cegueira total: uns poucos se manifestam, muitos viram massa de manobra, indo a passeatas para beber e ver o show. Meu amigo, o poder serve a alguém, não a você. Você já se perguntou a quem? Ninguém nasce usando um terno Armani, mas todo mundo aprende a usá-lo junto com a maior das pragas dessa América Latrina: o populismo. O servilhismo, o ufanismo, o caudilhismo, o corporativismo e o nepotismo são os irmãos siameses dessa praga. Em nome de uma religião se fratura uma Constituição. Em nome de uma Constituição, institui-se a manipulação do pensamento. Por que será que, quando os alemães invadiram os países da Europa, correram atrás das obras de arte que tanto condenaram?

Conta a lenda que Pablo Picasso estava de frente para Guernica, quando um soldado o interpelou: Foi o senhor fez isso? Ele teria respondido: Não, foram vocês. Por que a Luftwaffe destruiu uma cidadezinha sem equipamento antiaéreo? Resposta simples: “para matar ideias”. Disse o poeta que nenhuma bala pode matar uma ideia. A censura, pior que bala, pode. Pode disseminar o Alzheimer coletivo.Estaremos em duas prisões: não saberemos o que está fora de nós, nem saberemos quem somos de nós. Seremos nós. Viveremos noz. Basta verificar: a leitura virou instrumento de tortura, elas são indomáveis. Estamos ficando monossilábicos. Quem não reconhece a textura e as plumagens das palavras, não sabe explicar o que é e quem é. Isso interessa a alguém? Você já se perguntou a quem?

Adiantou censurar O Crime do Padre Amaro? Ridicularizar a Impressão do Sol Nascente de Monet? Vaiar o Bolero de Ravel? Queimar os livros de Monteiro Lobato? Felizmente, o sol nasce todos os dias. Essas obras renascem todos os dias, apesar de atitudes idiotas como a de impedir o Queermuseu: pensava eu que tínhamos saído do século XIX. Agora censuram filmes, peças teatrais e toda forma de livre expressão, em nome da família (qual família?). Muitos censores constituíram mais de uma. Para essas também vale a regra geral.

Mortalha

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Nem borboletas, nem beija-flores, nem abelhas. Só poeira. Caos. Poluição. Cidade de chumbo. Cidade cobre mundo. Caos. Chuvas ácidas. Morte. Não é sorte. Sorte é Morte. Inseticida. Pesticida. Sociedade suicida. Sociedade ensandecida. Morte. Comida? Veneno vertendo morte. Veneno empesteando garrote. Comida? Futuro sem norte. Mulheres com cortes.

Mato aprisionado em vaso. Peixe encarcerado em aquário. Cachorros geneticamente modificados. Animais geneticamente domesticados. Animais substituem menores abandonados. Criança, que se esquece, padece, embrutece, emburrece. Menino assassino. Morre. Menino ferino. Morre. Meninas inexatas. Morre. Meninas baratas. Morre. Meninas estupradas. Morre. Ataca. Matatatatata... Assalta Matatatatata... Menino. Adulto. Bruto. Detento. Excremento. Matatatatata...

Mundo invertido. Mundo carcomido. Comida transgênica. Comida anti-higiênica. Água reciclada. Bebida adulterada. Felicidade engarrafada. Ração enlatada. Lata. Ataca. Mata. Quem somos nós? Somos nós? Tormento? Esquecimento? Animal peçonhento? Com arma na mão. A sociedade lhe diz não, lhe diz cão. Deixa sangue no chão. Sangue contaminado? Fome. Míseros ossos. Fome. Homem destroços. Fome. Matatatatata...

Roda viva. Roda da Viva.

Viramundo. Giramundo.

Conservantes, edulcorantes, antioxidantes, corantes, espessantes, estabilizantes, umectantes, fertilizantes, acidulantes... O que eu como? Geleia de bactérias? Gelatinas deletérias? Partículas de coisa nenhuma? Restos de coisa alguma? Gosto de coisa nenhuma? Vida sem cor. Vida com dor. Refugiados. Terror. Soldados. Horror. Fedor de inseticida. Fedor de pesticida. Sinto-me edulcorado, sinto-me despedaçado. Estou adubado. Estou contaminado. Ser destroçado. Ser massacrado.

Pouca gente para plantar, muita gente para comer; muita gente para respirar; pouca água para beber; muita matéria-prima para transformar; pouco planeta para sobreviver. A terra enterra a terra. A guerra contamina a terra. Enorme população. Mínima educação. Armas cuspindo morte.Armas matando a sorte. Amazônia. Governo. Ama a zona. Desgoverno. Ilha de plástico. Plastifico. Plástico no pacífico. 

Roda viva. Roda da Viva.

Viramundo. Giramundo.

A SINA O boxeador e o vestibulando precisam vencer

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Assim é: Pisou no ringue. Começa a luta.

Assim é: O sangue pulsa. Começa a disputa.

Assim é: Os olhos do oponente dizem: “Vou ganhar”; os seus têm que dizer: “Não vou perder”.

Assim é: Ganhar. Perder. Começa a luta.

Assim é: A vida é um ringue. Grita o apresentador: “Segundos, fora!”.

Na verdade: A luta começa, assim que começa o treinamento.

Na verdade: Todo mundo nasce sozinho, meu amigo. Todo mundo morre sozinho.

Na verdade: “Se você tem medo de perder, já perdeu”.

O seu medo alimenta o seu oponente. Pelo corredor apertado, só passa um: “Segundos, fora”. Dois não ocupam a mesma vaga: “Segundos, fora”.

Você ou ele? A vida é assim, há os que tocam e os que dançam; os que batem e os que apanham. Há os que entendem que a força está na tática, na observação e na adaptação.

Você ou ele? A vida é assim, há os que vivem pedindo desculpas aos outros e os que vivem sabotando a si mesmos; os que fracassam sem intenção; os que fracassam com razão; os que se diminuem frente aos concorrentes; os que se escondem.

Quando você mente para os outros, há um problema: knockdown.

Quando você mente para si mesmo(a), o problema é ainda maior: nocaute.

Você entrou no treinamento com medo de apanhar? Seu adversário sem pena de bater. Ele escolheu o sparring mais forte, aquele de quem poderia apanhar. Você escolheu aquele em que poderia bater. Escolher o caminho mais fácil, quase sempre não é a melhor escolha. Treino é treino; o jogo é jogo. Simulado não é vestibular.

Você gosta de esportes? Vamos trazer a filosofia do esporte para dentro do vestibular. Gosto muito do trabalho de alguns técnicos. Um dos que mais admiro é Bernardinho: ganhou 28 títulos em 16 anos. É o maior vencedor da história dos esportes coletivos. Primeiro, propôs-se a recuperar a autoestima dos jogadores brasileiros. Nossa seleção era baixa para os padrões do vôlei mundial. A velocidade, então, passou a ser nossa arma letal. Os adversários aprenderam, tornaram-se rápidos. A consistência defensiva, então, se tornou nossa arma letal. Os adversários melhoraram suas defesas. A imprevisibilidade, então, se tornou nossa arma letal. Os adversários copiaram as jogadas. Nossa força mental passou a ser o nosso grande diferencial. Nossa seleção estabeleceu a maior hegemonia da história. Bernardinho se reinventou sempre, para vencer.

John Speraw, treinador dos EUA, estudou o Brasil e a segurança que virou “soberba”. O Brasil ganhava, antes de ganhar, então jogou a isca. Ganhávamos dos EUA na fase de classificação, mas perdíamos na decisão. Speraw percebeu que, a única forma de vencer, era criar estratégias mentais. É preciso aprender com o adversário, porém nunca ter medo dele.

“Mudando de pato para ganso”: Vencida a Copa do Mundo Feminina, a capitã Megan Rapinoe afirmou que sua seleção não entrou para jogar a copa, mas para ganhá-la. Disse que poderia soar como arrogância? Sim, mas, segundo ela, não: a seleção é apenas a extensão da cultura do seu país, da mentalidade vencedora implantada desde sempre.

Citei exemplos dos esportes americanos, adeptos dos treinos dos fundamentos e da força mental, mas poderia citar outros projetos vencedores, como os de Pepe Guardiola e Jurgen Klopp. O vestibular é competição. “Segundos, fora”. Muitos jogos são definidos aos 49 minutos do segundo tempo; o vestibular também. Ainda há tempo.

Meu amigo, este é o momento em que você começa a ganhar ou perder sua vaga na universidade. É o momento em que todo mundo reclama de cansaço. É o momento em que reclama de tudo. Alguns se agarram à reclamação, para dizerem que estão ansiosos ou depressivos. Força mental é a resposta: não cultive esse hábito danoso de sofrer por antecipação. Crie suas estratégias. Conscientize-se de seus limites. Controle seus medos. Quem passa, não é o mais inteligente, nem o mais esperto, mas o que melhor se adapta às regras da competição. 

ESCREVER BEM É CONSEQUÊNCIA DE PENSAR BEM

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O maior desafio do escritor é a folha de papel em branco. Como preenchê-la, se ela é o retrato em celulose do nosso pensamento? Ao expressarmos uma opinião, desnudamo-nos por completo. E se as pessoas não gostarem do que escrevemos? E se elas perceberem que não temos lá muita coisa a dizer? E se elas nos acharem mais ignorantes do que na verdade somos? E se elas acabarem por descobrir o que nem nós mesmos sabemos que temos?

Escrever é um ato de coragem, mas também de desprendimento. Uma parte de nós será dada ao leitor sem qualquer pudor, pois as entrelinhas externarão o que, de nós, definitivamente não conseguimos controlar. Deixaremos escapar o que nem sequer sabemos fazer parte das nossas memórias ou nossos princípios. Serão os chamados pressupostos e subentendidos. Quase sempre é essa faceta do texto que mete medo no escritor, mas quase sempre delicia o leitor atento, detetive das relações entre tema, texto e autor.
Escrever pode também ser um ato arrebatador, quando não temos coragem de por arreios no pensamento para que ele possa arrebentar a represa, inundar nossas emoções com palavras, frases, relações de sentido. Nesse momento, a caneta passa a correr atrás das palavras que começam a brotar em cascatas, sem dar conta de chegar ao fim de uma frase, sem já estar com a outra no colo. Euforia, nervosismo, mãos suando, coração batendo forte e, no ponto final, a sensação de saciedade. Texto perigoso feito faca de corte fino ou quebra-cabeça com peças espalhadas. É como riacho caindo nas cavernas obscuras da mente, é lindo, mas nunca se sabe onde vai dar.
Se há imagens e ideias querendo correr pelo pátio, deixe-as rolar pelo chão, sujar as roupas, contaminar-se com a alegria das outras e pararem entre risonhas e assustadas diante do choro das que ralaram os joelhos ou perderam uma parte da pele das mãos. Palavras são seres interessantes, pois se relacionam umas com as outras sem nenhum pudor ou preconceito. Às vezes, parecem crianças indomáveis que usam máscaras diversas, nem sempre de acordo com a música tocada. Primeiro, é melhor dar-lhes pés, para fazê-las sentir de perto a realidade. Depois, o negócio é dar-lhes asas, para que possam voar pela imaginação. Palavras, assim como as crianças, são seres mutantes, imprevisíveis, por isso, muitas vezes, o chicote e a cadeira farão de você um domador. Andará sobre a linha que dividirá o medo da excitação.
Escrever pode trazer profunda angústia, quando o fórceps não dá conta de extrair a criança encruada no útero da imaginação e já nos preocupamos com a cesariana que possa salvá-la. Muitas vezes, uma ideia precisa ser subornada com a inversão de valores, a cultura geral ou as experiências pessoais para passar pelo corretor apertado da criação e nascer, dependendo muito da habilidade do médico. Um adubo feito com cada um desses ingredientes pode fazer com que uma semente se transforme em broto e o broto cultivado frutifique. O segredo é atirar-se no papel desordenadamente, sem medo de ser feliz. Depois das vísceras expostas no papel, a escolha de um ingrediente para dar liga ao texto trará consistência ao resultado final.
Se as imagens e as ideias se recusam a tomar forma, não se entregue ao desespero. O Davi, de Michelangelo, nasceu de um bloco monolítico de mármore. Alguns ingredientes devem se somar para dar-lhes forma: uma dose de paciência, um pouco de disciplina e muito de espontaneidade. Como um bom detetive, é ora de vasculhar a mente em busca de relações, confissões e revelações. Sob a face explícita, a face oculta das palavras esconde muitas facetas como num caleidoscópio. Se uma ideia está em estado latente, coloque-lhe plumas, rabisque em volta dela as lembranças que ela lhe traz, depois empurre-a para frente, em seguida a faça voltar sobre seus próprios passos. Observe as suas reações ao deslocá-la para a direita e para a esquerda (a ambiguidade aqui é proposital). Pense no seu interlocutor e jogue-lhe na cara o fato de que aquela imagem tem vida própria, mas não quer se mostrar. Confesse para quem quiser lê-lo a sua dificuldade em descobrir as suscetibilidades de cada definição.
Escrever uma dissertação no vestibular exige uma conduta um pouco mais complexa, um verdadeiro trabalho de detetive, para descobrir o DNA de cada faculdade, já que elas possuem personalidades próprias e só aceitam quem realmente se adapta ao seu meio. Cada uma delas só desce a ponte que separa o castelo do resto da comunidade, o que lhes confere aquele ar de lugar impenetrável, quando o aluno conhece as fresas da chave mestra e os códigos necessários para abrir as portas. Faculdades são temperamentais, têm identidade própria, conceitos próprios e promovem o mais intenso tipo de darwinismo social de que se tem conhecimento na história moderna, o processo seletivo contido no vestibular. Não há lugar para os fracos e os vacilantes, muito menos os arrogantes e vaidosos. O vestibular só admite os camaleônicos, os que se adaptam a qualquer ambiente e se fazem capazes de desenvolver qualquer tipo de tema. Além disso, não se amedrontam diante de tempos escassos e nem de examinadores com caras de poucos amigos. O texto deve ser simples, direto e objetivo, com toques de emoção, espontaneidade, informação e confissão. A redação de vestibular ainda traz consigo um outro pequeno problema: o manual de instruções. Os investigadores nem ligam para isso, estão acostumados a decifrar códigos.

URGENTE

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​5h da manhã:

– Alguém liga para o meu celular com voz de quem chegou do inferno: Preciso falar com o senhor urgentemente.

– Quem fala?

– Um amigo.

– Qual amigo?

O professor Zé atropelou uma vaca, quando ia dar aula. A vaca morreu.

– Mas, são 5h. A aula só começa às 07h30min.

– Como ele está?

– Ele? Não sei. A vaca morreu.

(Ao fundo)

– Diga que eu estou na UTI.

– Ah, sim! Mandou avisar que está na UTI.

– Desliguei.

07h da manhã:

– Preciso falar com o senhor urgentemente. Tenho uma ótima notícia.

– Quem fala?

– Estou ligando para dizer que o senhor ganhou grátis a assinatura do jornal Tribuna.

– Não quero.

– Ganhou grátis, senhor. O senhor não estará pagando nada e estará recebendo o jornal 20 dias. Só estará pagando se continuar a receber.

– Não quero.

– Mas, o senhor não entendeu.

– Entendi sim. Desliguei.

08h30min da manhã:

– Preciso falar com o senhor urgentemente.

– Quem fala?

– A Pri. 

–Não estou passando muito bem. Não posso trabalhar hoje.

– O que você tem?

– Não sei. Me deu um troço no peito na quadra da escola, meu coração tá na boca.

– Se não passar, eu vou ao médico. Mas, amanhã tô aí.

– Vá ao hospital, para se consultar e ver o que há.

– Não precisa. Se der, eu vou.

– Desliguei.

10h14min

– Preciso falar urgentemente com o senhor.

– Quem fala?

– É o Zé.

– Que Zé?

– O Zé, porra!!!

– O que você quer, Zé (seja que Zé for)?

– Quero lhe dizer que talvez eu precise de uma grana emprestada.

– O que aconteceu?

– Ainda não sei. Minha mulher ficou de me ligar.

– Desliguei.

11h45min

– Aqui é o Joel, seu aluno. 

–Preciso falar urgentemente contigo?

– Pode falar Joel.

– Não vou atrapalhar?

– Não.

– Tem certeza?

– Tenho.

– Não sei se presto vestibular para direito ou para medicina. Apesar de a gente estar em agosto e o vestibular ser apenas em novembro, já estou angustiado.

– Conversaremos pessoalmente na escola, é bem melhor. Pode ser?

– Ah! Tá bom.

– Desliguei.

12h15min

– Toca o telefone.


– Posso falar contigo? É urgente.

– Pode.

– Não estou atrapalhando o seu almoço?

– Só almoço ao meio dia e meia.

– Se eu estiver atrapalhando, te ligo às 2h.

– Dou aula às 2h.

– Se você quiser, te ligo no final da tarde.

– Na hora que você quiser.

– Valeu.

– Desliguei.

14h

– O presidente da república exigiu do presidente da Câmara votar a lei em regime de urgência.

– O presidente da Câmara disse que ela poderia trancar a pauta das votações.

– O presidente, então, disse que ele deveria tirar o “regime de urgência”, mas teria que ser votada até o final do mês.

Urgência X emergência

Durante este dia e os dias que se seguiram, por um motivo ou por outro, tudo era urgente para todo mundo. Algumas coisas realmente eram, porém, se fosse contabilizar, totalizariam não mais que 5%.

As pessoas confundem urgência com emergência.

Emergência significa ameaça imediata para o bem-estar,

Urgência é uma ameaça em um futuro próximo, que pode vir a se tornar uma emergência.

A emergência é o imprevisto, que precisa de uma solução imediata. A urgência precisa de uma solução em curto prazo.

No mundo dos smarthfones e redes sociais, tudo se tonou urgente.

Pergunte-se: “Urgente para quem?”.

No mundo em que tudo parece ser feito para ontem, vivemos, na verdade, esperando o amanhã: a sexta-feira, o feriado, as férias, o final do ano... É angustiante. Tudo demora a chegar e tudo passa muito rápido.

Tudo acontece tão rápido, que reclamamos o tempo todo de que falta tempo para fazer tudo. Mas, será que distribuímos esse “tudo” entre o que é realmente urgente, o que é emergencial e o que pode ser adiado?

Você crê que isso é perda de tempo. Não é?

Por que vivemos ansiosos, depressivos, temos crises de pânico e sofremos de agorafobia? Não seria porque não aprendemos a administrar nosso tempo?

Por que há uma juventude estressada que toma remédios que, décadas atrás, eram receitados para velhos? Todos envelhecemos rápido demais.

Urgente para quem? Para mim ou para a outra pessoa?

​EFEITO WERTHER: A REVOLUÇÃO DO NADA

Postado em:

(O BOCA DO INFERNO – DIRETO DE UMA ESTÁTUA DA LIBERDADE)

Nesta fria tarde de domingo, vasculho uma obra arrepiante do Romantismo francês, “A liberdade guinando o povo” de Eugène Delacroix. A liberdade, no centro da tela, parece prestes a pular para fora da cena. O frio torturante convida a uma taça de um “Grand Crus” da região de Bordeaux, impiedosamente invadida pelos cães nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. A obra expõe as vísceras do idiotizado mundo pequeno burguês, que se acredita predestinado a ser, um dia, burguês.
A Liberdade panfletária está representada por uma bela mulher de seios fartos. Um à mostra; o outro semicoberto. O sensual escancarado amamenta a sede de ilusões; o semicoberto camufla certeiras intenções. O bico desnudo fere despudoradamente a moral; o bico mal disfarçado abriga a hipocrisia do pudor. Assim é a liberdade. Nua da cintura para cima; vestida da cintura para baixo. Da cintura para cima, alimenta sensações, desejos, ilusões; da cintura para baixo, sonega, desalenta, acoberta ilusões. Ora ambígua, ora intempestiva, ora engana, ora desengana. Veste-se como uma “misérrima deusa grega”, entre Atena e Medusa, Hera e Afrodite. Leva aos devaneios de Baco os idealistas, ao inferno de Hades os oponentes. Assim é a liberdade. Antes acorrenta, de escapar. Antes fanatiza, para ficar.
Assim são as revoluções. Impassível, arrogantemente pacífica, a Liberdade segura a bandeira francesa em uma das mãos; um mosquetão, uma baioneta na outra. O cano cospe a morte aos borbotões; a baioneta espeta opositores como porcos, empilha cadáveres no chão coalhado de sangue. Para conquistá-la, é preciso pisotear, engolir a sorte, cuspir a morte, ora com asco, ora com gosto. Assim é a liberdade. Pisa corpos, seguida por sôfregos jovens idealistas e calejados adultos furiosos em seu nome.
Assim são as revoluções. Aos pés da dita Liberdade, um homem a olha suplicante esperando que ela se compadeça dele. Impiedosa, ignora-o. O rosto é pura soberba expelindo o caldo de emoções, é irmã xifópaga do Caos. Seus olhos desertam da luta, miram a História, filha das horas, da ação dos homens, degustando as vísceras da vitória sangrenta. Assim é a liberdade. A farsa. Não é ela que luta, os idiotas, os corvos, as meias verdades, os idealistas é que lutam para serem donatários dela, que jamais se submete a nada, nem a ninguém. Sempre insatisfeita. Sempre antropófaga.
Delacroix pinta a tempestade cobrindo o Céu raivoso comendo a genitália de Gaia desafeta da sua sede de orgasmos. Assim são as revoluções. Libertè, Igualitè, Fraternitè: suprema ironia. Saturno corta o pênis de Urano (céu inclemente) em nome do próprio furor. A burguesa arrasta o povo bucha de canhão para uma guerra em que há apenas um futuro, só haverá um vencedor: ela, com sua sede de orgasmos. Os urubus se empanturram de carniça. Um revolucionário não passa disso, um cadáver insepulto, não um titã. Titã come seus filhos como Saturno o fez. Assim são as revoluções burguesas. Cria titãs ao invés de deuses. Ao invés de luz, escuridão. Raios machucam Gaia, a vingança turva a visão. 
O pintor pensou em tudo isso, me perguntam? Sei lá; eu sim. Há infinitas interpretações convenientes para a liberdade e as revoluções. A minha é esta. Hipocrisia, mãe da revolução burguesa, se banha com o poder da vitória. O lucro mata com mosquetão; a desigualdade corta com faca. Os cegos, que derrubaram o castelo, suicidaram-se, ao se tornaram tardiamente reféns da percepção, bêbados com a farsa do poder. Sobrou o suicídio, como alternativa. A ansiedade e a depressão, como sintomas do real atropelado pela ambição. O que ama burguesia? O dinheiro. Quem ama o burguês? O arrivista. O que a burguesia pode comprar? O poder. Até mesmo a dignidade e a amizade. A arma do burguês? A guilhotina. Cada homem tem um preço, diz o burguês, corrompendo com a promessa de um novo status quo. A vaidade do pequeno burguês colabora. 
A burguesia compra paliativos para as dores do físico, da alma e do coração. Comprimida se entope de comprimidos para entontecer a razão. Cura corpos, mas sofre de frustração. O suicídio, arma da solidão do agora, da ansiedade pela rapidez de um futuro próspero, da depressão por causa de um passado inapetente, é a desrazão. Efeito Werther? Assim são as revoluções. Externas afligem as internas. Os sofrimentos do jovem Werther contaminam como praga. O burguês não aprendeu a sofrer com sua criação: Libertè, Igualitè, Fraternitè. Não consegue conviver com sua hipocrisia.
Nunca houve uma revolução popular. Pergunte à história? O povo nunca esteve no poder, observe a pintura de Delacroix. Enraízam-se no poder os espertos, os acumuladores, os possuidores, os que se impõem pela razão sem nenhuma razão. Os que dominam, os que criam crises para ganhar. Os donos do pó. Os donos do cimento. Os que transformam carnes em adubos. Os que carregam os cegos sem lhes dar a bengala, muito menos a mão. Os que vendem caixões, os generais. Enfim, quem tem dinheiro, como matéria prima. Nunca os soldados, os carpinteiros, os sabedores, os professores. Protestar sem fazer não é arma contrarrevolucionária. Vaias são a covardia dos iludidos e arrependidos. Se estamos no mundo da pós-verdade, para piorar vem aí o mundo da pós-realidade. A revolução através da vaia virtual. Uma oração não compra um perdão: sentenciou a lúgubre obra do pintor poeta. A tarde continua fria. O sol não esquenta o corpo nem a alma. Nossa própria alienação vê apenas uma bela estátua, incapaz de nos ajudar. Não há um “grand cru”, há só desejo e paladar; há olhos sim para degustar e se perder nos meandros da obra Delacroix, com a liberdade prestes a saltar do meio da cena para nos embriaga

​De 15 em 15 anos, o Brasil esquece do que aconteceu nos últimos 15 anos

Postado em:

(Ivan Lessa).

(O Boca do Inferno - direto do centro do centro da política)

Para quem não sabe ou não se lembra, Ivan Lessa foi um jornalista polêmico, instigante, sarcástico, um dos grandes a criar o jornal O Pasquim. Seus comentários eram ácidos.
Lembrei-me dessa frase dele, ao ler neste domingo a coluna da deputada Tabata Amaral do PDT na Folha de São Paulo. A combativa deputada que, por sinal, demonstra que a juventude não está perdida, ainda se interessa por política. Saiu-se bem nos raros momentos em que Pedro Bial lhe fez perguntas relevantes no programa Conversa com Bial. Advinda de uma classe média, estudante bolsista em um escola particular, impressionou-me positivamente também ao encostar a ministra Damares Alves na parede, ao se valer de um discurso articulado, baseado nas suas experiências, cheio de posições muito claras e argumentos inteligentes. Vê-se nela o que se convencionou chamar de emponderamento. O Brasil adora uma convenção e ainda mais uma palavra "noiva" para habitar discursos modernosos.
No artigo, ao qual me refiro, impressionou-me mal. A jovem deputada repetiu antigos jargões e se perdeu em expressões vazias, como "partido de centro-esquerda" (divertido isso, pois há a centro-direita e o centrão, falta o centro-centro), "velha política" (qual é a nova? Todos os salvadores da pátria repetiram esse jargão e continuamos exatamente onde sempre estivemos), "convicções sociais", "crescimento sustentável", "esquerda inflexível" (estamos ainda na conversa fiada de rotulagens? Então, quer dizer que há uma direita flexível? Então, o centrão é flexível quanto à distribuição de cargos e verbas?).
Só concordei com a jovem deputada, quando ela afirmou que o Brasil precisa de uma "reforma" (detesto essa palavra, porque traz a ideia do velho com botox) "política" (temos partidos?) "urgente". 
Não me importa se o indivíduo é de esquerda ou direita. Chamar o indivíduo de petralha ou de bolsominion nos fez sair do lugar ou só estimulou o confronto)? Importa-me que ele tenha o mínimo de "SENSO" para defender suas posições. Todo conflito interessa a alguém que está de fora rindo. Neste caso, interessa a quem?
Abismou-me a deputada cair na lábia de que a "REFORMA DA PREVIDÊNCIA" ajudará a resolver os gaves problemas que o país enfrenta (esta reforma cria distorções ainda maiores. Muita gente a defendeu em passeatas sem saber do que se tratava. Quando descobriu o estrago que os tentáculos do monstrengo, tentou voltar, mas já era tarde). O Ministro da Economia se arrepia ao tocar no imposto sobre grandes fortunas (até porque Paulo Guedes não é exatamente pobre), corte de privilégios do legislativo e do executivo (isso provocaria superlotação de enfartados nos hospitais de Brasília), a partir de ontem. Perceberam que no momento de votar os pontos de destaque da reforma, o congresso entrou em recesso? Não? Rodrigo Maia rapidinho tirou o dele da reta, porque sabe o que vem por aí. Então, esperem os congressistas voltarem oficialmente e verão. Muitos não voltaram para casa, continuam nas sombras de Brasília negociando verbas e cargos. 
Torço deputada para que a razão seja maior que a sedução. Cuidado, quando políticos consideram qualquer político noiva.