​Sinfonia da Loucura

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O criador da Microsoft, Bill Gates, um dos homens mais ricos do mundo, se dedica hoje a distribuir sua fortuna, por meio da Fundação Bill & Melinda Gates. A Fundação paga as pesquisas de um laboratório, o Inovio, em busca da vacina para o coronavírus. Gates criticou o presidente Donald Trump por ter bloqueado a liberação da parcela americana no orçamento da OMS, Organização Mundial da Saúde. Gates, a rigor, não defendeu a OMS, cujo presidente foi eleito com patrocínio da China e onde a China tem poderosa influência; mas disse que este momento de pandemia não é adequado para brigar por dinheiro. Resultado: está sendo ameaçado de morte pela Internet.

Lá e cá: pesquisadores da FIO, Fundação Instituto Oswaldo Cruz, que fizeram um teste com a cloroquina em Manaus, estão sendo ameaçados de morte por ter dito que, num grupo de 83 pacientes em estado grave, tratados com a cloroquina – remédio defendido pelo presidente Bolsonaro – morreram onze. Os pesquisadores são acusados pelos doidos virtuais de ter dado doses altas demais de cloroquina aos doentes. Na verdade, havia dois grupos, um que recebeu doses mais altas, outro que recebeu doses menores. Houve mortes nos dois grupos. Nada que inviabilize a cloroquina, ou sua parente, a hidroxicloroquina, para mais pesquisas com outros remédios associados. Mas parece que os doidos decidiram que quem não decreta que as duas drogas são a solução está é conspirando para derrubar o presidente.

A coroa do rei

Frase bem humorada do vice-presidente, general Mourão, ao lhe perguntarem como estava: “Tudo sob controle. Mas não sabemos de quem”.

A palavra

Bolsonaro nomeou novo ministro da Saúde, o médico Nelson Teich, que se disse alinhado ao presidente mas manteve a quarentena. Bolsonaro, logo após a posse de Teich, criticou mais uma vez o isolamento social, criticou de novo os governadores que determinaram a quarentena, disse que as pessoas não devem ficar em casa e que as crianças devem voltar à escola.

Os aliados

Financial Times, um dos mais importantes jornais do mundo, listou os dirigentes internacionais que compartilham a tese da “gripezinha” defendida por Bolsonaro e se recusam a levar o coronavirus a sério: são Alexander Lukashenko, da Belarus; Daniel Ortega, da Nicarágua; e Gurbanguly Berdymukhamedov, do Turcomenistão. Detalhe: Ortega, da Nicarágua, é de extrema esquerda, foi guerrilheiro apoiado por Cuba e é aliado de Lula.

Aves que não voam

Este grupo, Ortega, Lukashenko, Berdymukolamedov e Bolsonaro, é chamado pelo Financial Times de Aliança do Avestruz, baseado na lenda de que avestruzes enterram a cabeça na areia para não ver o perigo (o nome do grupo foi criado no Brasil, por um professor de Relações Internacionais da FGV - São Paulo, Oliver Stuenkel). De fato, avestruzes escondem a cabeça para não ser vistos, já que seu corpo é da cor do solo. Mas confirmam um antigo ditado português: “Quanto mais se abaixam, mais o rabo se lhes vê”. Os portugueses não usam a palavra “rabo”, mas um sinônimo monossilábico.

Delirar é preciso

Encerrado o episódio Mandetta – que, em princípio, deve se preservar para outros voos, evitando filiar-se à oposição aberta ao presidente – o novo adversário de Bolsonaro foi escolhido: Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados. Foi Maia que conseguiu aprovar a reforma da Previdência, o que irrita Bolsonaro desde aquela época: como se atreveu a brilhar mais do que ele? Maia pode atrapalhar muito os passos do Governo, que até hoje não tem boa relação com o Congresso. Não faz mal: Bolsonaro não vive sem um inimigo para chamar de seu. Diz que Maia – por ter conseguido, em votação massacrante, aprovar um substancial auxílio federal aos Estados, que devido à pandemia perdem boa parte da arrecadação – “está conduzindo o Brasil para o caos”. E – textual – “parece conspirar e querer me tirar do Governo”. Bateu duro: “Quando você (Maia) fala em diálogo, a gente sabe qual é o teu diálogo, então esse tipo de diálogo não vai ter comigo”. A resposta de Maia é que Sua Excelência o critica para desviar a atenção da saída do ministro Mandetta. Prometeu reagir às pedradas de Bolsonaro “com flores”.

Assédio, estupro e pedido de prisão

Foi apresentado dia 15 ao Ministério Público de São Paulo um pedido de investigação para apurar crime contra a dignidade sexual de várias mulheres. O possível investigado é psicólogo e se diz líder espiritual, misturando o xamanismo e a Cabala, com uso do chá de Santo Daime. Sua prisão é pedida, já que há vítimas que até deixaram suas casas com medo de represálias. Os fatos ocorreram no Interior de São Paulo e se assemelham aos atribuídos a João de Deus. A denúncia foi levada ao MP pelas advogadas Rossana Leques e Lilia Frankenthal. A questão deve explodir provavelmente nesta segunda.

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​Festival de besteiras – Parte 2

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Hoje, por aqui, há notícias de impacto e notícias chatas. As notícias chatas são chatas. As notícias de impacto não são notícias. Mas a festa continua.

O governador do Pará, Hélder Barbalho, do MDB, disse que vai botar os presos na rua para vigiar os cidadãos em pontos de ônibus e evitar que fiquem a menos de um metro uns dos outros. Verdade: os presos viraram guardas.

Na Passeata da Morte (aquela em que carregaram um caixão para fazer piada com as vítimas do coronavírus), palavras de ordem para não ver Globo nem Bandeirantes, compradas pelos chineses. Há quem acredite.

Um criador de gado aguenta amigos que tentam convencê-lo a não vender bois para frigoríficos que exportem carne para a China. Pelo que dizem, os chineses são todos comunistas. Parece que só agora estão descobrindo isso.

Boato da moda: a tecnologia 5G permite transmitir, pelo celular, a palavra do demônio. Mas não é sempre: se a Qualcomm, americana, vencer a corrida internacional para implantar o 5G, tudo bem. Mas se for a Huawei chinesa... Se bem que, há alguns anos, diziam que, se um LP da banda Yes fosse tocado ao contrário, seria possível ouvir as palavras Six Six Six – ou 666, o Número da Besta. A Banda Yes é inglesa, e lá os comunistas nunca tiveram votos.

E aqui disseram na TV que a China tem um trilhão de habitantes, embora seja menor que o Brasil. A China tem um milhão de km² a mais que o Brasil. E terá um trilhão de habitantes se multiplicar a população real por 715 mil.

O homem que diz sou...

Pode ser que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, tenha sido vítima do próprio orgulho, após vencer a queda de braço com Bolsonaro. Ou não: talvez, ao conceder entrevista à Rede Globo (o que é uma ofensa para  Bolsonaro) e ainda dar-lhe um puxão de orelha, tenha buscado forçar sua demissão. Mas sobrevive: Bolsonaro foi pedir autorização aos militares para demiti-lo e, embora tenha encontrado solidariedade, não foi atendido. O vice Mourão, que faz parte do grupo militar do Governo, criticou Mandetta por ter confrontado Bolsonaro, mas disse que é provável que continue no cargo.

...não é

Bolsonaro quis livrar-se de Mandetta, ainda não conseguiu. E há outros indícios de que, embora seu mandato vá até 31 de dezembro de 2022, já lhe estão servindo café frio. O presidente da Embratur, Gilson Machado Neto, postou domingo no Instagram o vídeo de uma cerimônia fúnebre africana em que os carregadores do caixão vão dançando até o túmulo. E trocou o rosto de um dançarino pelo de Bolsonaro, rindo. Presidente, cadê a tal caneta Bic? Precisa pedir ao general Braga Netto para trocá-la por uma nova, com tinta.

Porque quem é mesmo...

Duas perguntas que o ministro Mandetta fez a Bolsonaro na reunião do dia 6, em que entrou demitido e saiu confirmado: a primeira, por que não o demitia, já que não concordava com a orientação do Ministério da Saúde sob seu comando; a segunda, por que o havia nomeado, já que não o ouvia.

Este colunista arrisca um palpite: convidou-o para compor o elenco, não para se destacar nem dar palpites; e não o demite porque não foi autorizado.

...não diz

Preste atenção no que diz o general Mourão. Ele monta frases delicadas, gentis, que merecem análise. Preste atenção, mais ainda, no que ele não diz.

Vai, vai, vai...

Mourão disse que o importante são as “ações concretas” de Bolsonaro, e não aquilo que o presidente declara. “Temos de olhar mais as ações do que as palavras”. Traduzindo, “o que ele fala não se escreve”. Mas Mourão vai em frente: “Não teço críticas públicas porque seria deslealdade. Se ele me perguntar, a gente troca impressões e eu apresento o que penso”.

...não vou

Sabe quando é que Bolsonaro vai perguntar alguma coisa a Mourão?

Legalizando

O senador Sérgio Petecão (PSD-Acre) apresentou ontem projeto de lei que permite o uso de cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento do coronavírus, desde que o paciente (ou seu responsável) seja informado de que o medicamento tem caráter experimental e autorize formalmente o uso. Os hospitais que pesquisam o tratamento do coronavírus vêm aplicando essa norma, mas se a lei for aprovada terão mais segurança jurídica. O projeto permite o uso das substâncias mesmo antes da comprovação da doença.

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O deputado Osmar Terra (MDB-RS) enviou mensagem ontem a Flávio Bolsonaro, dizendo que a epidemia está “desabando” no Brasil e que é hora de comemorar. O pico da pandemia, diz ele, foi alcançado no final de março.

Vale ler

Sobre o tema, http://www.chumbogordo.com.br/31246-coronavirus-sem-politicagem-1-por-fernao-lara-mesquita/, ótimo artigo de Fernão Mesquita.

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​O Rainho da Inglaterra

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O presidente Bolsonaro repete a cada instante que ele é o presidente e que cabe aos ministros alinhar-se a ele, não ele aos ministros. O presidente não concorda com a quarentena, não concorda com o isolamento social, não concorda com a demora do seu Governo em entronizar a cloroquinahidroxicloroquina como as grandes armas na luta contra o coronavírus, já disse que ele e o ministro Mandetta não se bicam; e, referindo-se à repetida frase de Mandetta, de que médico não abandona o paciente, lembrou que o paciente pode trocar de médico. Pois bem, o paciente não trocou de médico, Mandetta continua ministro, a política de combate à pandemia do Governo se alinha ao ministro, não ao presidente, a cloroquina e a hidroxicloroquina continuam na categoria de remédios em teste, a quarentena e o isolamento estão em vigor. O presidente se limita a fazer fusquinha ao ministro com quem não se bica, saindo para passear e para ouvir panelaços ao vivo.

O presidente não gosta de ver seu pessoal se relacionar com adversários (acha que é traição), mas Mandetta acaba de firmar convênios com Dória.

Pois é, talvez aquela história tão difundida de que o chefe do Governo, de fato, seja o general Braga Netto, chefe da Casa Civil, possa ter fundamento, não parece? O que se comentou fartamente é que Braga Netto é hoje um  primeiro-ministro, restando a Bolsonaro o papel de Rainho da Inglaterra, que preside mas não governa, tem os filhos ao lado e não tira a Corona da cabeça.

Claro, claro...

Relembremos os fatos: a CNN telefonou para o deputado Osmar Terra, ele atendeu, pediu licença para atender outro telefone, esqueceu de desligar. A CNN ouviu e gravou toda a conversa de Osmar com Onyx Lorenzoni, o ministro da Cidadania de Bolsonaro. Na conversa, observam parlamentares que o conhecem bem, Terra foi mais polido do que o habitual. E Onyx se queixou de Bolsonaro, que depois de falar várias vezes em demitir Mandetta não apenas não o demitiu, como não conseguiu sequer fazê-lo mudar a linha de atuação. Onyx disse que, se fosse o presidente, não teria dúvidas em cortar a cabeça de Mandetta. Que é que Bolsonaro deve pensar da conversa?

...sem dúvida...

Digamos que a CNN teve a sorte danada de ligar para Osmar Terra bem na hora em que ele receberia a ligação de Onyx. Teve também a sorte de ele ter esquecido de desligar o celular. Mais sorte ainda, de ele ter conversado com Onyx no viva-voz (do contrário, teriam gravado só a parte de Terra). Já Terra teve a sorte de não dizer nada que o comprometesse e de ser bem mais polido que o habitual. Onyx não teve a mesma sorte de Terra e se queixou do presidente em conversa gravada. Ah, as coisas que acontecem por acaso!

...alguma

Há pouco tempo, numa reacomodação ministerial, Bolsonaro colocou Onyx no lugar de Terra. Mas ambos continuaram amigos, como fica claro no telefonema gravado. É verdade. Um é muito amigo. O outro, muy amigo.

O amanhã

Um fato está claro: depois de dezenas de anos de amizade, Bolsonaro e Mandetta já não falam a mesma língua. Num governo normal, Mandetta seria demitido, por não seguir a linha do presidente. Não é questão de estar certo ou errado: quem foi eleito e define o caminho a seguir é o presidente. O fato de Mandetta continuar no Governo,  seguindo a sua linha, que o presidente diz que é absurda, é outra indicação de que Bolsonaro não é quem comanda.

Negócios da China

A China é hoje o maior parceiro comercial do Brasil, responde por algo como 80% do superávit comercial brasileiro, tem feito investimentos aqui e, hoje, tem papel estratégico no fornecimento de material de saúde para a luta contra a pandemia. Vem o filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, e faz dura crítica aos chineses. Como observou com clareza o vice-presidente, general Mourão, se as críticas partissem de outro deputado não haveria problema. “O problema é o sobrenome. Se o sobrenome dele fosse Eduardo Bananinha não era problema nenhum”. Pouco depois, um dos queridinhos do presidente, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, foi mais longe, falando mal dos chineses e ironizando sua maneira de falar. Por que o ministro da Educação foi se envolver numa questão de política externa, política econômica, política comercial, sem nada a ver com Educação? E não foi sequer advertido pelo presidente? A conclusão óbvia é que o filho do presidente e o queridinho do presidente seguiram a orientação do presidente. E, apesar de tudo, o ministro da Saúde solicita a compra de equipamento chinês, a ministra da Agricultura negocia com a China, governadores pedem auxílio a Pequim. É para pensar.

Divirta-se

Cansado da quarentena? No YouTube, a Universal abriu gratuitamente a exibição semanal de grandes espetáculos teatrais. Os primeiros são de Andrew Lloyd Weber, autor de Evita, O Fantasma da Ópera, Cats. Vale ver.

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​Festival de besteiras que assola o país

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Lembra do Cabo Daciolo, aquele candidato divertidíssimo? Bom, ele diz agora que Bolsonaro não levou facada nenhuma, que tudo foi forjado pelos maçons e por uma certa Nova Ordem Mundial para fortalecer o candidato. Maçons – houve época em que era moda culpá-los por tudo. Mas o último a culpar maçons, que eu me lembre, foi o ditador espanhol Francisco Franco, há quase 50 anos. Mas devem ser poderosos, esses maçons do Cabo Daciolo: foram capazes de enganar os médicos da Santa Casa, do Sírio e do Einstein.

Depois de Eduardo Bolsonaro, Abraham Weintraub andou falando mal da China. A milícia virtual bolsonarista postou uns 30 mil tweets propondo um boicote comercial brasileiro aos chineses. Ideia notável: o PIB brasileiro é de cerca de US$ 1,5 trilhão, o da China de US$ 15 trilhões. A China importa uns US$ 60 bilhões anuais de produtos brasileiros, e exporta para nós algo como US$ 36 bilhões – dando ao Brasil um superávit de US$ 24 bilhões. É o maior parceiro comercial do Brasil, um dos maiores produtores de material para combate ao coronavírus. Em resumo, um adversário escolhido a dedo (o dedo com que Weintraub escreve “insitar” e se refere ao escritor “Cafta” – que deve ser aquele antigamente conhecido como Kafka). Aliás, ao falar mal dos chineses, Weintraub tentou imitar Cebolinha, o ótimo personagem de Maurício de Souza. Um personagem de quadrinhos. E ele imitou errado.

Cá entre nós, não conseguir imitar o jeito do Cebolinha falar é meio muito.

Lá vem o seu China...

Quando a Vale do Rio Doce decidiu doar 500 mil máscaras protetoras ao Brasil, onde é que foi buscá-las? Na China. O teste para coronavírus também vem de lá. A China vem investe no Brasil em carros e ônibus, e participa de projetos de engenharia de mobilidade urbana. Há uns cinquenta e poucos anos, o grande Stanislaw Ponte Preta criou o Febeapá, Festival de Besteiras que Assola o País. O título desta coluna é copiado dele. O Festival continua.

...na ponta do pé...

Negociar com os chineses é questão de negócios, não de ideologia. Trump não gosta da China mas negocia com eles. Mas aqui as coisas estão ficando bestificantes. Defender o uso de cloroquina e hidrocloroquina no tratamento da pandemia é prova de bolsonarismo; esperar o resultado dos testes que são feitos atualmente é prova de deslealdade ao 000. Defender a quarentena é ir contra Bolsonaro e a favor de Dória. Daqui a pouco vão politizar a comida: rúcula é de esquerda, alface é de direita, e envídia, óbvio, é coisa de fresco.

...lig lig lig...

Uma curiosidade dos tempos do comunismo: quem discordava de Stalin, o poderoso dirigente da União Soviética, era sempre acusado de ser traidor desde 1917, ano da revolução comunista. A tragédia se renova hoje como farsa: Mandetta, o ministro da Saúde, foi acusado por bolsonarista de uma série de irregularidades em toda a sua vida política e administrativa. Pergunta-se: por que, então, Bolsonaro o nomeou para o Ministério?

...lig lig lig lé

E há a estupenda confissão de Osmar Terra, candidato (embora o negue) ao posto de Mandetta, que acabará saindo cedo ou tarde. Terra foi secretário da Saúde do Rio Grande do Sul no governo de Yeda Crusius, PSDB, e teve de enfrentar duas epidemias. Ele mesmo conta: uma foi de febre amarela, embora já existsse vacina para febre amarela. A epidemia começou na região argentina da fronteira com o Brasil, mas os argentinos não o avisaram e ele não soube de nada. A outra foi de gripe suína, que atingiu tanto a Argentina quanto o Uruguai, e ele também não soube de nada. Como não sabia o que se passava ao lado, só agiu quando as epidemias cruzaram a fronteira. Ele conta essa história para mostrar que tem experiência em lidar com epidemias.

Os autores

     Os títulos vêm de Lig Lé, de Osvaldo Santiago e Paulo Barbosa.

7x1

Inacreditável: o Governo Bolsonaro estava sendo louvado no Brasil e no Exterior pela competência com que enfrentava uma tremenda crise na Saúde. Um ministro discreto, Mandetta, conseguiu articular o ministério, a OMS, os parlamentares, os governadores, fossem de situação ou oposição, para traçar os rumos do combate à pandemia. Esta atuação foi aprovada por 77% da população. Bolsonaro, em vez de surfar no êxito, preferiu se irritar com o êxito de Mandetta, que era seu amigo pessoal. Resultado: Mandetta ficou com os 77% e Bolsonaro com 36%. Pior: tentou politizar a crise e ditar quais remédios deveriam ser usados. Anunciou a demissão de Mandetta. E não conseguiu demiti-lo. Talvez a história de que Bolsonaro seja hoje uma rainha da Inglaterra, sem poder algum, e que o general Braga Netto seja o chefe de fato do Governo, não seja fantasiosa. Parece que o poder trocou de mãos.

31/12

A partir do dia 31 de dezembro, se por algum motivo o presidente se afastar, o vice assume e cumpre o restante do mandato, automaticamente.

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​Hora da verdade: o bem e o mal

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É na hora da crise que as pessoas se revelam: dá para ver quem é bom, quem é mau, quem é ótimo. Bom é o pessoal da Lupo, famosa por suas meias. A fábrica estava parada – mas seus donos arranjaram tudo para manter boa distância entre os operários chamados a trabalhar, desenvolveram a máscara de proteção e estão trabalhando, por enquanto abastecendo as unidades de saúde da região de Araraquara. Maus são altos funcionários do setor público, que recebem ótimos salários, multiplicam-nos com penduricalhos e não desistem de um único centavo para a luta contra o coronavírus. Mantêm carros, jatinhos, todas as mordomias, e garantiram uns aos outros que na verba deles não se mexe. Bons são os empresários (190, até agora) que assinaram manifesto se comprometendo a não demitir até maio e pedindo que, além disso, o empresariado faça doações para a sobrevivência de pessoas como manicures, vendedores de lanches e outros que não têm como pagar as contas. Entre as empresas que assumiram este compromisso, estão Magazine Luiza, Renner, BTG, Natura, Boticário, XP. Itaú, Bradesco e Santander estão no grupo (mas mostram seu lado mau mantendo os juros no alto). E, dizem os empresários, demitir é mau negócio, custa caro. Pior, ao demitir ajudam a perpetuar a crise que lhes dá prejuízo.

Ótimos são médicos e enfermeiros que, mesmo aposentados, voltaram à ativa e enfrentam o risco do vírus lutando para salvar vidas. Sejam louvados.

Bom exemplo

Ótima é a dra. Andrezza S. Guedes - CRM 145443, Instituto Salute de Medicina Integral, tel. (19) 9 8447-8089. Ela se propôs a orientar moradores de um condomínio de Vinhedo, SP, sobre a necessidade de ir ou não a postos de saúde ou hospitais. Por telefone, avalia situações de doenças diversas. Se a pessoa toma regularmente remédios que necessitam de receita e não tem agora como pedi-la a seu médico, ela faz o contato e dá a receita. Atende por fone, WhatsApp, orienta sobre medidas preventivas e cuidados gerais. Seu objetivo é desafogar ao máximo as unidades de saúde, para que seus colegas tenham mais tranquilidade no atendimento. Que bom exemplo de médica dedicada à saúde! Fez o juramento, e o cumpre. Ela autorizou a divulgação de seu nome e celular. Quem precisar, que a procure, more onde morar. Que outros profissionais sigam este exemplo: sempre é possível ajudar os outros.

Mau exemplo

Talvez Suas Excelências não tenham percebido. Mas, se perceberam, que maldade! Desempregados que buscam emprego há mais de um ano, mas que tinham emprego no longínquo 2018, não têm acesso aos R$ 600,00 (que um dia, cremos, será pago aos que têm melhor sorte). A lei foi aprovada assim e Bolsonaro não vetou essa parte. Quem ganhou R$ 28.559,71 em 2018 (pouco mais de R$ 2 mil mensais) também fica fora, mesmo estando desempregado há mais de um ano. Os parlamentares não se preocuparam. Nem Bolsonaro.

Chose de loque

E Bolsonaro? O caro leitor decide se é bom ou mau. Em conversa com pastores, que foram pedir-lhe uma linha de crédito para igrejas, disse que o coronavírus “não é tudo isso que estão pintando”. Motivo: “o Brasil tem uma temperatura diferente”. Garantiu que não sabe de hospital algum lotado (São Paulo construiu dois hospitais de campanha para ampliar as vagas), desafiou os governadores a ir a Ceilândia e Taguatinga, perto de Brasília, “no meio do povo”. Completou: “Tá com medinho de pegar vírus?” Bom ou mau?

A saúde e a política

Bolsonaro prometeu não demitir o ministro Mandetta no meio da guerra. De que guerra fala? Da guerra ao coronavírus, na qual adota comportamento contrário ao recomendado pelo Ministério da Saúde? Guerra pela reeleição?

O presidente disse que o ministro sabe que ambos “não estão se bicando”. Mas levou uma pancada forte: Rosângela, esposa do ministro Sérgio Moro, apoiou Mandetta publicamente. “Entre a ciência e o achismo, eu fico com a ciência (...) Mandetta tem sido o médico de todos nós e minhas saudações são para ele”. Ambos, Moro e Mandetta, estão com popularidade superior à dele. É possível que Bolsonaro tema que decidam disputar 2022 contra ele.

Eleição, se houver

Marta Suplicy (sem partido), entrou no Solidariedade, de Paulinho da Força. O PT a convidou, mas ela preferiu outro partido para ser indicada, em aliança, para a vice do candidato petista à Prefeitura paulistana – se houver eleição neste ano. Marta gostaria de ser vice de Haddad, que foi subsecretário de Finanças em sua administração. Marta foi uma boa prefeita, criou em São Paulo os CEUs, escolas públicas de tempo integral e alta qualidade, lançou o Bilhete Único de Ônibus. Haddad foi o responsável por um apelido que a marcou: “Martaxa”. Ele vivia tendo ideias a respeito de novas taxas e impostos, e a prefeita, que aceitou suas ideias, levou a culpa de tudo.

Mas há um problema para a formação da chapa Haddad-Marta. Ele não quer ser candidato à Prefeitura. Lula acha que pode convencê-lo.

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​Exterminadores do futuro

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Discutir o que é mais importante, a vida ou os empregos, é ridículo. Ambos são importantes. É preciso sobreviver ao vírus, mas que não seja para morrer de fome em seguida. As eleições de 2022 podem ser discutidas em 2022. Agora temos de tratar conjuntamente de Saúde, Alimentação, Emprego; e da saúde econômica do país. Nessa ordem. Já deveríamos ter um comitê de crise amplo, apartidário, comandado talvez por alguém capaz de organizar as coisas, cuidando de harmonizar soluções para todos esses problemas. A China fez isso: no meio da crise, deu um jeito de garantir a comida da população (veja o ótimo texto de Jamil Chade, UOL, dia 30). Não há quarentena que resista à fome. É preciso providenciar comida para suprir a falta da merenda escolar, que, para muitas crianças, é a principal refeição do dia. Comida, sim; e que deve ser entregue a domicílio, em quantidade que permita alimentar também pais e irmãos, privados das refeições servidas no emprego. E de graça – como é a merenda. É preciso, também, enviar dinheiro aos desempregados. As contas de gás e luz subiram com a quarentena. A Bolsa Família deve ter um bom cadastro, a ser complementado.  Cuidar das empresas, como já se faz, embora timidamente, é essencial. Mas está na hora de pensar melhor no Imposto de Renda Negativo (a Renda Mínima de Eduardo Suplicy) para garantir o básico a todos os cidadãos. Paulo Guedes entende disso: a tese é de seu mestre Milton Friedman, da Escola de Chicago.

Onde está o dinheiro?

Onde está o dinheiro que o caro leitor não tem, na hora de uma emergência médica? Está nos empréstimos – sim, são saques sobre o futuro, por um objetivo essencial. O mesmo comitê de crise deve preparar o país para uma nova fase da economia, com reformas que reduzam custos e simplifiquem nossa vida, há economias a fazer, para dar o exemplo. Precisamos de vices, quando o presidente da Câmara pode assumir? No Brasil há quase seis mil vices. Precisamos de três senadores por Estado, quando os EUA têm dois? Por que 513 deputados não podem virar 250? Cada deputado precisa mesmo de carro oficial, com motorista e combustível? No Judiciário não há despesas a cortar? Por que um sistema tributário que exige milhares de horas de trabalho para declarar impostos? Dá para aceitar que os bancos aumentem os juros entre 50% e 70% numa hora como essa? Se o grupo de farmácias Raia/Drogasil pôde rejeitar o aumento dos remédios, que já estava aprovado, por que os bancos, mais ricos, não podem ajudar? E, convenhamos, O ministro da Economia não pode deixar Brasília, no meio de uma crise, porque o hotel em que se hospeda não lhe serve mais suquinho.

Os exemplos

Para que o Governo precisa gastar em anúncios? Tem algum concorrente? Por que um parlamentar tem verba de divulgação do mandato? Cada um que use as redes sociais à disposição, de graça. O país está estruturado como se o dinheiro fosse infinito. Não é – e na hora em que é preciso gastar, como agora, faltam verbas. Que se façam, então, os empréstimos, que alguns bilhões de dólares das reservas sejam vendidos, que o bilionário Fundo Partidário vá para o SUS, que sumam os penduricalhos que o Tesouro paga, mas que os cidadãos possam evitar o vírus sem passar fome em casa.

O que se faz

Quando houve sintonia entre ministros, parlamentares e sociedade civil, fez-se alguma coisa. Dia 27, o Governo lançou programa de R$ 40 bilhões, com recursos do Tesouro, para financiar salários e garantir empregos em pequenas e médias empresas. Está pronta a concessão de R$ 600 por mês a trabalhadores informais, que de repente ficaram privados de qualquer renda. Só falta Bolsonaro assinar para que entre em vigor. O Governo anuncia uma proposta (ainda sem detalhes) para garantir seguro-desemprego – total, no caso de perda do emprego; proporcional, por redução de jornada e de salário. Há a antecipação do 13º em duas parcelas, agora. Convenhamos, é pouco.

Luta de irmãos

Os irmãos Nasser, Jamel e Adiel Fares, que controlam a gigante do varejo Marabraz, venceram a primeira batalha na Junta Comercial de São Paulo, Jucesp: num prazo de 30 dias, deverão regularizar a empresa LP, administradora do grupo, e incluir nos papéis da empresa o registro da entrada e saída de seu irmão Fábio, que lhes move processo. A Procuradoria da Jucesp afirmou não ter visto má fé de nenhuma das partes na omissão do registro. A advogada de um dos filhos de Fábio, Lilia Frankenthal, recorreu para comprovar a má fé, usando decisões do Tribunal Regional Federal 3. A Presidência da Jucesp chamou as decisões do TRF3 de “calhamaço”. Lilia Frankenthal disse que não daria entrevista e só se manifestaria nos autos. Os irmãos Jamel, Adiel e Nasser são defendidos pela advogada Amanda Caspaciutti, da Mazloum Advogados Associados; e, em outro processo, movido por Suhaila, ex-esposa de Fábio Fares, pela Pollet Advogados.

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​Pode parar? Faz tempo que parou

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A propaganda do Governo Federal diz que o Brasil não pode parar. Mas, onde deveria estar andando, já que não depende de quarentena, não anda. O Estado de S. Paulo levantou os dados e mostra que 64% dos recursos que o Governo Federal anunciou para combater a pandemia são apenas anúncios. Em muitos casos, o Governo nem enviou as medidas ao Congresso. Em outros, sem articulação, não conseguiu encaminhar a votação.

Dos R$ 308,9 bilhões prometidos, R$ 197,5 bilhões são só da boca para fora. Não estão em nenhuma proposta. O que foi feito é o que ajuda empresas: flexibilização de normas trabalhistas, crédito, adiamento de tributos. Medidas de proteção às famílias de baixa renda não existem de fato. São pura fantasia. Houve também auxílio a Estados e municípios. A única medida de auxílio à baixa renda foi iniciativa do Congresso: um vale mensal temporário de R$ 600,00 a trabalhadores informais. O Governo tinha falado em R$ 200,00 - só falado. O Congresso aprovou R$ 500,00 e, com base numa frase de Bolsonaro, de que R$ 600,00 seriam aceitáveis, ampliou o vale.

E o superministro Paulo Guedes, do superministério da Economia, saiu de Brasília (o serviço do hotel estava ruim, explicou) e foi para sua casa no Rio, onde, segundo disse, trabalha o tempo inteiro, em ligação total com sua equipe (a que deveria redigir os projetos). Mas ninguém é de ferro: na quinta, às 17h30, Sua Excelência foi fotografado passeando na orla marítima.

Projetos em quarentena

Lembra do repasse do PIS/Pasep para o FGTS, para permitir novos saques no Fundo? São R$ 21,5 bilhões. Como o Governo não conseguiu decidir quem será contemplado, não enviou a medida.

A redução à metade, por três meses, da alíquota dos impostos do Sistema S, algo como R$ 2,2 bilhões, foi anunciada há uns 15 dias e não foi proposta.

A antecipação do calendário do abono, R$ 12,8 bilhões, não saiu.

Os R$ 36 bilhões, parcela do seguro-desemprego de quem sofrer redução de jornada e salário ou suspensão de contrato; o envio de R$ 4,5 bilhões do DPVAT (o seguro que se paga com os impostos do carro) para o SUS; o repasse de R$ 8 bilhões e o envio de R$ 2,3 bilhões do Censo para fundos estaduais e municipais de Saúde; os R$ 16 bilhões em quatro meses para Estados e municípios, compensando perdas de receita; os R$ 2 bilhões para assistência social. Nada disso se transformou até agora em projeto.

Ação parlamentar

Surpresa das surpresas, quem compensa parte da inatividade do Executivo é o Congresso. Os R$ 600,00 para trabalhadores sem carteira, a antecipação de R$ 300,00 para quem espera o Benefício de Prestação Continuada (BPC), suspensão de dívida de Estados e municípios com bancos públicos e a União, novas operações de crédito, renegociação de dívidas, todas as medidas foram incorporadas pelos parlamentares a projetos já em tramitação e por isso conseguem andar. Se dependessem do superministro, quando andariam?

Voltando alguns dias

A história do teste para coronavírus do presidente Bolsonaro continua sem explicação. Seu filho, Eduardo, aquele que fritava hambúrgueres numa lanchonete que não servia hambúrgueres, foi citado pela Fox News como fonte da informação de que o presidente tinha testado positivo. Se o repórter tivesse inventado a notícia, por que citaria Eduardo como fonte? Só para ser desmentido? E numa rede totalmente favorável a Trump, logo simpática a Bolsonaro? Não, não deve ter inventado nada, não.

E por que o desmentido? Talvez porque o presidente cultive a imagem de Superman, o mito que sobreviveu a uma facada, que tem passado de atleta, que não é vulnerável a doenças e para quem o coronavírus provocaria só

“uma gripinha”. A propósito, por que o Hospital das Forças Armadas revelou o nome de todos os contaminados na viagem de Bolsonaro aos Estados Unidos, menos dois? Seria essa revelação a kriptonita do Superman?

Se Bolsonaro tivesse testado positivo e mentido, não seria problema – aqui, espera-se que político minta mesmo. Mas juntar-se a seus fãs, tocando-os, fazendo selfies, isso seria grave. Claro que, se o teste foi mesmo negativo, esse raciocínio é vão. Mas quem seriam as pessoas contaminadas que, para o Hospital das Forças Armadas, merecem o sigilo que os outros não tiveram?

Apoio total

O engenheiro Lucio Ravizza, assíduo leitor desta coluna, pede apoio ao projeto 646/2020, que transfere para o SUS o bilionário fundo de campanha eleitoral deste ano – são R$ 2 bilhões, ou mais. “O projeto deve ser aprovado em regime de urgência. E sugiro que se adiem para 2021 as eleições municipais. Que todos o dinheiro para realizá-las seja destinado a combater o coronavírus. Podemos suportar mais um ano dos atuais prefeitos e vereadores, mesmo porque não creio que, trocando algum dos atuais, teremos melhoras”. Em vez de pagar campanhas, dinheiro para a Saúde!

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​Vírus perde, vírus ganha

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O presidente americano Donald Trump informou que, após 15 dias de quarentena, o país vai se abrir e a população voltar a trabalhar. “Não estou pensando em meses”, disse Trump. “Nosso país não foi erguido para fechar. Logo estará aberto aos negócios. Se perguntarmos aos médicos, eles fecharão tudo, o mundo inteiro, e isso pode criar um problema maior que o de hoje”. Trump disse que a baixa letalidade do coronavírus, a seu ver, que seria de um terço da prevista, influenciou sua decisão. Enfim, ir em frente antes mesmo que haja um decréscimo significativo na força da pandemia.

Horas antes da declaração de Trump, a porta-voz da Organização Mundial da Saúde, Margaret Harris, disse que 85% de todos os novos casos surgem nos Estados Unidos e na Europa, e que “rapidamente a situação americana está se deteriorando, com 40% de todos os novos casos”. Para a OMS, os EUA podem se transformar no novo centro da pandemia no mundo. “Há um surto enorme e está aumentando”, completou. “Estamos vendo uma progressão muito rápida no número de casos dos Estados Unidos”.

Enfim, os EUA estão à beira da normalização, como sugere Trump, ou de enorme avanço do coronavírus? A OMS tem os números; e Trump, como presidente, provavelmente tem conhecimento de fatos ainda desconhecidos por nós. Foi ele que antecipou o uso de um remédio contra a malária para o coronavírus, e o remédio está sendo testado. É torcer, rezar, aguardar.

O vai-vem

Preocupado com o vai-vem do presidente Bolsonaro, que culminou com a edição de medida provisória que permite zerar salários por quatro meses e sua retirada logo em seguida? Continue a preocupar-se: Bolsonaro está cada vez mais voltado para sua candidatura à reeleição, oscilando de acordo com as pesquisas e as redes sociais. E sabe que seu desempenho no caso atual não foi bem aceito: Mandetta, o ministro da Saúde, tem maior aprovação que os governadores, e os governadores vão melhor que o próprio Bolsonaro. Pela análise das pesquisas Ibope e Datafolha, que saíram nesta semana, o presidente continua forte mas se restringe a pouco mais de um terço do eleitorado. É uma parcela considerável, mas bem menor do que já foi.

Os números

No caso coronavírus (pesquisa do Datafolha), a atuação de Bolsonaro é aprovada por 35% e reprovada por 33%. Os governadores tiveram 54% de ótimo e bom, em média. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, teve 55%. A participação de Bolsonaro no ato do dia 15 foi rejeitada por 68%.

O fato

Bolsonaro chamou a pandemia de “gripinha”, rompeu a quarentena para abraçar participantes da passeata do dia 15, mas o ministro Mandetta não mudou de posição: manteve-se firme na tese da quarentena. E, ignorando o ódio presidencial a alguns governadores, é com eles e com o Congresso que vem articulando a estrutura da saúde pública para enfrentar o pico da doença. Mandetta e Bolsonaro são amigos há muitos anos, mas há quem aposte que os elogios públicos ao trabalho do ministro foram o fim de uma bela amizade.

Eleições

O senador paulista Major Olímpio estuda a apresentação de uma proposta de emenda constitucional para suspender as eleições municipais deste ano e realizá-las em conjunto com as eleições de 2022. Desta forma, haveria, de quatro em quatro anos, eleições gerais para todos os cargos, do Executivo e Legislativo. A causa próxima seria a dificuldade de realizar as eleições deste ano, devido à pandemia. E há, desde sempre, grupos favoráveis a realizar eleições em conjunto, por economia e para evitar que o país pense o tempo todo em termos eleitorais. Há ainda quem pense em fazer a eleição neste ano, por mais difícil que seja organizá-la (por exemplo, Rodrigo Maia), ou adiá-la para o ano que vem. De qualquer forma, é complicado mexer no tema: é necessária a emenda constitucional, deve-se decidir quem ocupa o cargo a partir do fim do mandato dos atuais prefeitos e vereadores – ou, o que pode provocar longa discussão constitucional, a prorrogação dos mandatos. Mas o tema está em discussão. E tem logo de ser resolvido. Outubro está aí.

Boa isca

Um dos argumentos mais fortes que o pessoal da unificação eleitoral deve usar é, além da dificuldade de organizar a votação deste ano, a possibilidade de utilizar os R$ 2 bilhões que seriam gastos nas campanhas, mais o custo da eleição, e entregar tudo à Saúde, para a luta contra os coronavírus.

Jon-Y-Saad

A história de que a Rede Bandeirantes tem sócio chinês é besteira. Tem parceria de conteúdo com uma TV chinesa (e também com a TV do New York Times). Para quem gosta de fofocas falsas, mais uma: Lula teria ido visitar o papa para pegar dinheiro no Banco do Vaticano e comprar a Bandeirantes, para enfrentar os evangélicos, hoje com Bolsonaro. Que tal?

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​Acredite, aqui há boas notícias

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Boas notícias? Até mais: algumas notícias serão ótimas. Outras ainda dependem de mais estudos, mas o caminho é bom. Abaixo o coronavírus!

*A China fechou o último hospital de coronavírus em Wuhan, o berço da epidemia. Não há novos casos suficientes para justificar um hospital.

*A França estuda o uso de hidroxicloroquina, remédio usado desde 1940 para malária e artrite reumatoide. Um grupo recebeu só o medicamento; outro, a hidroxicloroquina associada a um antibiótico, azitromicina; o terceiro, tratamento convencional. A hidrocloroquina reduziu bem a carga de vírus; associada à azitromicina, curou 70% dos doentes em seis dias. O grupo que foi tratado convencionalmente teve 12,5% de curas. O sucesso estimulou o presidente americano Donald Trump, que  quer acelerar a aprovação de seu uso, mas a FDA, que cuida de medicamentos, pede mais testes clínicos. Trump já chegou a proclamar o sucesso do tratamento na TV americana.

*Na Índia, bons resultados no tratamento com Lopinavir, Oseltamivir e Retonovir associados à Clorfenamina. Os indianos sugerem à Organização Mundial da Saúde o uso internacional dessa combinação de medicamentos.

*A China relata o caso de uma senhora de 103 anos que se curou após um tratamento de seis dias em Wuhan.

Há pesquisas bem encaminhadas no Brasil, Estados Unidos, Alemanha e Israel. Diz a OMS que 41 grupos tentam criar vacinas contra o coronavírus.

Otimismo

A Apple, empresa com maior valor de mercado do mundo, reabriu suas 42 lojas na China. Hoje, há menos doentes na China do que na Itália.

Enfim!

A Cleveland Clinic americana criou um teste que dá resposta em horas, não em dias. O teste deve estar no Brasil em pouco tempo.

O próximo passo

Mesmo que novos remédios cheguem logo ao mercado e o coronavírus seja esquecido, a pandemia já desorganizou a economia do país. Empresas pararam de funcionar e faturar e continuam a pagar aluguel, impostos, juros, contribuições, taxas. Se reabrirem nesta semana, mesmo assim terão a sobrecarga do período triste. A Associação Comercial de São Paulo, que apoiou o fechamento do comércio, pede que as autoridades estejam à altura do momento. “É importante a mobilização das esferas governamentais na redução dos riscos ocasionados pela pandemia”, diz o presidente da entidade, Alfredo Cotait Neto. “São necessárias medidas rápidas para que os empresários possam adiar o pagamento de impostos. As empresas podem não aguentar uma paralisação tão longa”. Imagine uma empresa aérea: paga o aluguel dos aviões, os salários, e teve de cortar vários países para onde voava. Paga também aluguel (e alto) para deixar os aviões parados nos aeroportos. Se as empresas fecharem, quem irá contratar funcionários?

Impeachment a la carte

Não se preocupe com o pedido de impeachment que o deputado federal Alexandre Frota apresentou ao Congresso. Foi feito às pressas, não com o objetivo de derrubar o presidente Bolsonaro: sua função é outra, de estar à disposição para, se necessário, ser tirado das gavetas e votado. Impeachment precisa ter elementos jurídicos que o amparem, mas só sai se houver força política por trás. Neste momento, embora já existam adversários que querem ver Bolsonaro pelas costas, não há qualquer possibilidade de afastá-lo. Isso pode mudar – os panelaços já mostram que há oposição fora do PT e partidos satélites. Mas os próprios panelaços estão longe daqueles contra Dilma.

Panelaço

Há gente bloqueada em casa, preocupada com o emprego, as contas, tudo; com medo do coronavírus; cansada do computador e da TV. Vem então um panelaço contra Bolsonaro: por que não? No mínimo rompe a monotonia. Mas é importante lembrar que alguém favorável ao presidente não irá bater panelas contra ele. Quem bate panelas está irritado também com ele. E pode despertar, dentro do bolsonarismo, alguém que se julgue apto a substituí-lo. Já não existe quem queira Sérgio Moro candidato, em vez de Bolsonaro?

É isso aí

Cinco deputados federais tomaram uma bela iniciativa: propuseram um projeto de lei (o PL 646/2020) autorizando o uso de parte dos R$ 2 bilhões de dinheiro público destinados a pagar a campanha eleitoral no combate ao coronavírus. O projeto autoriza o uso de recursos do Fundo Partidário para o mesmo objetivo. É ótimo – até para evitar que o caro leitor não apenas pague a campanha de gente mais rica do que ele como financie a eleição de pessoas com pensamento e comportamento contrários aos seus. Os parlamentares que tiveram a boa iniciativa são Felipe Rigoni (PSB), Vinícius Poit (Novo), João Henrique Caldas (PSB), Paulo Ganime (Novo), Rodrigo Coelho (PSB). Guarde esses nomes: só por apresentar este projeto, já merecem ser votados.

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Combate na luz e nas trevas

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De um lado, um combate no escuro, contra um inimigo invisível, que se abriga também em nossos melhores amigos, e os usa para atacar-nos. Guerra difícil, especialmente porque o encarregado de comandá-la faz questão de ignorar o que se sabe sobre o inimigo e de se expor a ele. De outro, uma guerra aberta, em que criminosos do grupo Primeiro Comando da Capital, presos em diversas prisões paulistas, supostamente sem comunicação, conseguiram coordenar uma fuga em massa. O que dizem é que o principal líder do PCC, Marcola, preso em Brasília, em penitenciária de segurança máxima, deu a ordem. E o “salve” – nome que os bandidos dão às instruções que recebem – é para que matem, assaltem, façam o que quiserem.

Não, não bastava o coronavírus. Cerca de 400 presidiários integrantes do PCC conseguiram fugir de quatro prisões. Consta que 200 foram capturados. Os outros estão nas ruas. Para eles, matar policiais é motivo de orgulho. Até chegam a tatuar um palhaço no corpo, como sinal de que mataram policiais.

É uma fase sombria, com riscos múltiplos. O que se ouve dizer – tomara que seja falso – é que o objetivo é gerar tanta tensão que as autoridades sejam obrigadas a reduzir as restrições impostas aos chefões do crime organizado. E, lembremos, o clima já é tenso, devido ao coronavírus, mas não apenas a isso: os policiais ganham mal, não têm coletes à prova de bala suficientes, seu armamento é inferior ao dos bandidos. Sérgio Moro terá alguma ideia?

 Cansado de palpites?

As informações sobre o coronavírus variam: há quem recomende tomar água quente com fatias de limão, há quem negue sumariamente a existência da pandemia (um cavalheiro, na manifestação da avenida Paulista, gritava que coronavírus era uma invenção para desmobilizar os manifestantes). Há os conselhos da moça que estudou na universidade de Wuhan, na China. E há uma fonte precisa, séria, elaborada por cientistas e distribuída pelo SUS. Tudo o que se sabe está nesse aplicativo. É só clicar o link. Para IOS:

https://apps.apple.com/br/app/coronav%C3%ADrussus/id1408008382

Para Android:

https://play.google.com/store/apps/details?id=br.gov.datasus.guardioes

 Mas é Carnaval 1

Boa parte da comitiva que acompanhou Bolsonaro aos Estados Unidos está com coronavírus. Ele, em vez de cumprir quarentena, saiu do Palácio para confraternizar com os manifestantes, no domingo. Abraçou-os, apertou mãos, tirou selfies, tudo aquilo que não deveria fazer para proteger sua saúde e para evitar contaminar algum de seus adeptos. Foi criticado pesadamente por isso, mas não deu a menor bola para a saúde dos outros.

 Mas é Carnaval 2

Muitas das Excelências que o criticaram por ir a uma manifestação quando o que se requer é o mínimo de contato entre as pessoas – como os governadores Doria, Witzel, Ibaneis, e o presidente do Supremo, Toffoli – foram a uma festa em ambiente fechado para 1.300 convidados, lançamento da CNN Brasil. Todos arriscaram a saúde, mas sabe como é: vão desagradar quem dá notícias? Como diz a marchinha, aquele cordão cada vez aumenta mais.

 Dias de Momo

O SBT comunicou a suspensão das gravações de A Praça é Nossa, por causa do coronavírus. E talvez porque outros comediantes estejam ocupando indevidamente um lugar no picadeiro.

 Cuidar de doentes? Para que?

Neste março faz um ano que a terapia VNS para epilepsia deveria estar sendo oferecida  pelo SUS. Um decreto do Ministério da Saúde, de setembro de 2018, mandava incluir a terapia VNS no SUS no prazo de até seis meses – que venceu em março de 2019. Em março de 2020, os pacientes com epilepsia resistente a medicamentos ainda aguardam. ‘O Ministério da Saúde”, diz Maria Alice Susemihl, presidente da Associação Brasileira de Epilepsia, “não cumpre suas próprias determinações”.

 Devolvendo!

A defesa do ex-governador fluminense Sérgio Cabral entregou à Polícia Federal 27 joias que ele deixara escondidas com pessoas próximas. Cabral já tinha perdido um anel de R$ 800 mil, que lhe fora dado por um empreiteiro para que ele presenteasse a esposa, Adriana Ancelmo. Agora, a joia mais valiosa é um brinco de turmalina paraíba com brilhantes, que custou R$ 612 mil. A entrega das joias faz parte do acordo de delação premiada de Cabral. Coincide com o pedido de Adriana Ancelmo para que o apartamento em que morava o casal seja liberado, já que pretende viver lá com o novo marido.

 Boa ideia

O historiador Daniel Marques, assíduo leitor desta coluna, sugere que os inacreditáveis R$ 2 bilhões destinados à campanha eleitoral sejam usados no combate ao coronavírus. Este colunista assina em baixo.

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