E no entanto é preciso cantar.

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Estamos quase no Carnaval – e a tristeza que a gente vê não dá sinais de acabar. Um cavalheiro se defende numa CPMI insultando uma repórter de prestígio – e só agiu desse jeito porque achou fácil ofender uma mulher. E o pior vem em seguida: o presidente da República com piadinhas de duplo sentido, também atacando a repórter como mulher. Janaína Pascoal, que é do partido de Bolsonaro e deputada mais votada do país, acusou-o de “inegável grosseria”. Janaína foi uma das proponentes do impeachment de Dilma. Outro, o jurista Miguel Reale Jr., foi mais fundo: acha que, por ferir o decoro, Bolsonaro já está sujeito a impeachment. O tal River do Rio ofender, Sua Excelência brincar com o tema, e há ainda pior: a militância bolsonarista mobilizada para também ofender a repórter. Como diz Janaína, bolsonaristas são petistas com sinal trocado. Lula preso, Lula livre, e quem pacifica o país?

Na clássica Marcha da Quarta-Feira de Cinzas, Vinícius de Moraes e Carlos Lyra lembram que é preciso cantar – e não se limitar a xingar – para alegrar a cidade. Com gente “que nem se sorri, se beija ou se abraça”, como se vai fazer um país? Um presidente que se propõe a ser “conservador nos costumes” se dá ao desfrute de ofender mulheres, só porque mulheres são? E, nos intervalos, fazer brincadeiras de cunho sexual com pessoas orientais?

Lula também gosta dessas brincadeiras – como a que fez com sua mais fiel seguidora, Clara Ant. Decoro, senhores! Há crianças e senhoras na sala.

 Amigas, amigas

Janaína, advogada que não aceita essas brincadeiras, disse que não é bolsonarista: aliou-se a Bolsonaro por achar que era quem tinha chance de derrotar o lulismo. Joga duro: disse a Bolsonaro, na convenção do PSL, que era fiel ao Brasil, não a ele, e que em sua opinião os bolsonaristas não passavam de petistas ao contrário. “Disse isso há um tempão”. E disse-o a Bolsonaro na convenção, olhos nos olhos. “Jamais menti ao então candidato e agora ao presidente”. O perigo é que ela age quando acha que deve.

 Moro, na filosofia

Mas, se o clima não é de confraternização, de Carnaval, há frases que, nos velhos filmes carnavalescos da Atlântida, se encaixariam com perfeição. Em Brasília, no dia 11, a deputada federal Carla Zambelli se casou com o coronel Antônio Aginaldo de Oliveira, diretor da Força Nacional de Segurança.

Sérgio Moro a saudou: disse que ela, mesmo sem ter feito curso de PM, mereceria ostentar um caveirão – aquele símbolo do Bope, uma caveira com uma faca enterrada no cocoruto. Carla Zambelli retribuiu a gentileza: dançou a valsa (La Vie en Rose) com Moro, enquanto o noivo dançava com a esposa de Moro, Rosângela.

Um caveirão, quem diria, dando resultado tão meigo.

 Deixa a moça trabalhar

É difícil encontrar gente mais chata que a turma do politicamente correto: agora, valem-se da Internet para atacar a atriz Alessandra Negrini por estar fantasiada de índia no bloco em que desfilou em São Paulo. Acusam-na, veja, de “apropriação cultural”. Odeiam aquilo que sempre marcou o Carnaval: a liberdade de pular com a fantasia que lhe der vontade. No caso, a coisa ainda é mais engraçada: ela visitou há pouco uma aldeia em Caraíva, Bahia, e quis homenagear os pataxós da aldeia.

Para a turma do politicamente correto, a Terra pode ser redonda ou plana, tanto faz: eles querem é que seja bem chata.

 BNDES, fica assim?

O presidente Bolsonaro, durante toda sua campanha, prometeu a abertura da “caixa preta” do BNDES. Agora é presidente há um ano… e o BNDES surgiu com uma auditoria externa que analisou oito dos negócios do banco e concluiu que neles não há caixa preta. Claro que o BNDES não realizou apenas oito negócios nos 13 e poucos anos dos governos Lula e Dilma, os alvos preferenciais de Bolsonaro; nem isso significa que, nos governos mais antigos, tudo tenha ocorrido sem qualquer irregularidade. Três delas estão documentadíssimas no livro Caixa Preta do BNDES, de Cláudio Tognolli e Bernardino Coelho.

São três casos exemplares: aplicações financeiras em que empresas amigas teriam se beneficiado, em troca daquelas ideias de construir “campeões nacionais”; e um bom exemplo, documentadinho, em que o BNDES é acionista de uma empresa privada que se destinava a ser a maior fabricante de pás para energia eólica do mundo, e à medida que a firma perdia posição a parcela de capital do BNDES aumenta e a dos sócios privados se reduz. A empresa fechou, e quem é seu acionista majoritário?

 Boa notícia

O 6º Batalhão de Engenharia de Construção constrói estrada de 7 km na Amazônia, num pântano pantanoso, mole e de alta umidade, utilizando uma novidade que buscou em Israel: coloca pentágonos de material especial no chão, enchendo-os em seguida com areia. Depois completa-se a estrada. No local, que liga o 4º Pelotão Especial de Fronteiras e a pista de pouso, a 7 km, o tráfego será possível durante todo o ano. A duração prevista é de dez anos.

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Por que não te calas?

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É uma frase simples mas imortal: foi dita pelo rei da Espanha, Juan Carlos, ao dirigente venezuelano Hugo Chávez, que insistia em interromper o primeiro-ministro espanhol numa conferência. Paulo Guedes deveria saber que quem cuida de política econômica não fala: qualquer coisa que diga tem influência em preços, juros, câmbio. Se uma empresa listada em Bolsa fizer um comunicado, tem horário para isso: após o fechamento do pregão.

Paulo Guedes tem todo o direito de achar que o dólar mais alto é melhor (facilita exportações, dificulta importações, desestimula viagens ao Exterior, estimula estrangeiros a visitar o país). Tem todo o direito de preferir o dólar mais baixo (40% do valor de um automóvel, por exemplo, é importação; é mais fácil trazer equipamentos de última geração). Mas não tem o direito de se expor fora de hora, ainda mais com uma frase tão infeliz, segundo a qual, com o dólar baixo, “até domésticas estão voando para a Disney”. Tomara fosse verdade. Mas não é: e ele ou não sabe disso, o que prejudica seu desempenho, ou sabe, e prejudica quem acredita no que ele diz. O custo do linguassoltismo de Sua Excelência é de no mínimo US$ 2 bilhões, que o Banco Central teve de leiloar para evitar que o dólar disparasse no mercado.

Há fatores externos puxando o dólar para cima. Mas é preciso lembrar que, no ano passado, quase US$ 45 bilhões saíram do país, desesperançados. E os dólares que choveriam com a reforma da Previdência nem garoaram.

 Palavras vãs

O Governo previa também que, com a inflação em baixa (efeito de Temer) e as expectativas de crescimento de até 2% do PIB, as exportações subiriam. Esperanças vazias: em janeiro, o déficit brasileiro na balança comercial foi de algo como US$ 1,7 bilhão. As medidas oficiais, até agora, tiveram muito apoio mas pouco resultado. Se os dólares só saem, o câmbio só vai subir.

 Ricos e pobres

Paulo Guedes tem sólida formação acadêmica, em sua atividade privada obteve êxito, mas lembra a história da menina rica que teve de preparar uma redação sobre uma família pobre. Saiu assim: “Era uma família pobre. O pai era pobre, a mãe era pobre, os filhos eram pobres, o jardineiro era pobre, os motoristas eram pobres, o piloto era pobre, a chef de cuisine era pobre, as domésticas eram tão pobres que só podiam tirar férias no Exterior um ano sim, um ano não”.

Deve ser ótimo trabalhar como doméstica para um patrão como Guedes.

 Moro, de novo

A pesquisa do portal jurídico Jota sobre as eleições presidenciais (calma: só ocorrerão em 2022) mostra Sérgio Moro em primeiro lugar, com 48,5%, Jair Bolsonaro em segundo (45,4%- praticamente empatado com Moro) e Lula (40,9%). Uma pesquisa tão longe das eleições está sujeita a todas as chuvas e trovoadas: uma campanha bem feita, o clima eleitoral, surpresas em geral. Não quer dizer rigorosamente nada. Vale apenas para acompanhar os acontecimentos e avaliar a movimentação dos candidatos. Pois a posição no grid de largada influi no ânimo de todos os presidenciáveis. Como estará a cabeça de Moro, por exemplo, sentindo que pode ser presidente e não vice?

 Alegria, alegria

O senador pernambucano Humberto Costa, do PT, gostou dos resultados da pesquisa. Motivo: Moro, embora tenha chegado perto, não alcançou 50%.

 Chega

Hans River do Rio Nascimento, um ex-funcionário da Yacows, empresa de marketing digital que trabalhou para Bolsonaro em 2018, tenta se livrar de problemas na Comissão Parlamentar Mista de Inquéritos sobre Fake News inventando histórias sobre a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo. Depois de passar informações sobre a empresa (confirmados por processo que tramitava na Justiça do Trabalho), para a jornalista, a Folha publicou reportagem mostrando que muitas firmas, entre elas a Yacows, usavam irregularmente nome e CPF de idosos para registrar chips de celular a partir dos quais disparavam mais mensagens em favor de seus candidatos. Logo depois de chegar a um acordo com a Yacows, River do Rio enviou mensagem de texto a Patrícia Campos Mello, dizendo: “Pensei melhor, estou pedindo pra você retirar tudo que falei até agora, não contem mais comigo”.

 Mentiras demais

Até aí, tudo bem: mas, na CPMI, acusou Patrícia de ter “se insinuado sexualmente em troca de informações”. Só que as conversas foram gravadas. E mentir à CPMI pode render-lhe um indiciamento O deputado Eduardo Bolsonaro disse que não duvida que a jornalista tenha “se insinuado sexualmente em troca de informações para tentar prejudicar a campanha do presidente Bolsonaro”. Talvez acredite que mulheres não tenham capacidade para apurar uma reportagem. Só que não havia como: em dezembro, quando a história do assédio surgiu, as eleições já tinham se realizado.

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Deixa as águas rolar

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Foi mais ou menos nessa mesma época do ano, a época em que São Paulo fica alagada. Só que a data era 1966, ou 1967 – faz mais de 50 anos. Henry Maksoud, notável engenheiro especializado em Hidráulica, contou direitinho ao Jornal da Tarde por que um fenômeno natural e previsível como chuvas mais fortes sempre pegavam a cidade de surpresa e a deixavam inundada. Houve erros que deixaram indefesa a maior cidade da América do Sul. Mas 50 anos depois houve tempo para corrigi-los. E corrigidos não foram.

Mas vamos esquecer coisas mais complicadas como fazer com que parte do solo da cidade, impermeável, deixe de absorver a água. Vamos ao básico: aquele trabalho básico de cuidar da casa, de manter bueiros limpos, rios sem detritos, áreas de bombeamento funcionando. Pois bem: nunca se gastou tão pouco em prevenção de desastres naturais. Economizou-se muito nas várias administrações, do petista Fernando Haddad, do tucano João Doria, de seu sucessor, o também tucano Bruno Covas. O dinheiro que não se gastou no que deveria ser gasto acaba de perder-se, diluído nas águas das enchentes.

Não é questão paulistana: parece que largar mão do que deveria ser feito é mania nacional. Em 2019, o Governo Federal previa gastar R$ 306,2 milhões em projetos de contenção de inundações. Investiu R$ 99 milhões. Em 2012, em valores corrigidos pela inflação, a verba era de R$ 4,2 bilhões.

Nem precisa chover muito: de promover as enchentes cuida o Governo.

 Festival de recordes

Duro é ver e ouvir, durante as enchentes, as explicações das autoridades incompetentes. “Em um dia, choveu o previsto para três meses”, “as chuvas bateram o recorde de 1742 e atingiram o maior volume desde que começaram as medições”, “graças ao trabalho de excelência realizado pelo Governo, os prejuízos foram muito menores do que poderiam ter sido”.

 Meninos, eu vi

Quando autoridades de outras cidades se dão ao desfrute de chutar essas explicações, vá lá. Mas ouvir as autoridades de sua cidade, onde você assiste ao que acontece, tem um sabor especial. Num determinado dia, este repórter verificou que, no maior viaduto de São Paulo, todas as bocas de lobo estavam entupidas – e com requintes: havia tanta terra em cada bueiro que ali nascia mato em abundância. Quem disse que autoridades não se preocupam com o papel da vegetação na prevenção de enchentes? Mato no bueiro, quem diria!

 Choro livre

Muitas queixas porque os Estados Unidos retiraram o Brasil da lista de países economicamente emergentes – o que reduz benefícios, torna mais complexas as negociações, dificulta a concessão de tarifas especiais. E vem a frase clássica: e isso que Bolsonaro só faltou se naturalizar americano para votar em Trump!

Acontece que o Brasil pediu por muitos anos a inclusão na OCDE, Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, o clube dos países mais ricos do mundo. E não tem sentido participar ao mesmo tempo de um grupo de países especialmente beneficiados por ser pobres e de outro que inclui as nações mais ricas e desenvolvidas. Se optar pela OCDE é ou não bom negócio, esta é uma decisão de Governo. Mas ficar com os dois, aí já não é possível.

 Sonho livre

O Orçamento que Trump apresentou ao Congresso prevê crescimento de 3,1% do PIB no quarto trimestre do ano fiscal. Nestes anos Trump, os EUA vêm crescendo constantemente, reduziram a taxa de desemprego a 3,5%, que quase equivale a pleno emprego, mantêm a inflação baixa (e, queixa-se o presidente, seria possível crescer um pouco mais, se o Federal Reserve Bank fosse menos conservador e liberasse a queda mais rápida dos juros). Se esta tendência da economia americana se mantiver, será difícil barrar a reeleição de Trump. Pleno emprego e crescimento econômico costumam render votos.

 Bateu, pagou

O economista Luiz Carlos Bresser Pereira, várias vezes ministro nos governos de José Sarney e Fernando Henrique Cardoso, é alvo de uma ação que chega perto de um milhão de reais. Os fatos: em 1999, ministro da Ciência e Tecnologia de Fernando Henrique, se irritou quando o juiz federal Antônio Souza Prudente, em medida liminar, impediu que a soja transgênica fosse legalmente plantada no país antes de estudos de impacto ambiental. E soltou o verbo: disse que o juiz era “irresponsável”, que a decisão era uma “tolice” que “depunha contra o Judiciário”.

O juiz processou a União por danos morais. Ganhou R$ 501.982,22. A Advocacia Geral da União entrou com ação regressiva contra Bresser, cobrando dele, o autor das frases, o reembolso das despesas da União. O caso está no STJ, e Bresser é cobrado a ressarcir a União, com juros, correção, etc. Segundo o ótimo portal jurídico gaúcho Espaço Vital, Bresser pode interpor agravo regimental no STJ e tentar um recurso extraordinário ao Supremo. Mas o risco de pagar é alto.

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Tenham modos, senhores!

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Chega: o eleitor brasileiro tem o direito de não ser agredido com o tipo de palavreado de boa parte de nossos líderes políticos. Não é só a agressividade dos ataques mútuos; é também a falta de respeito por quem os ouve. Aquilo que minha avó Maria chamava de bons modos: “Tenha modos, menino!”

Bons modos são algo de que estamos necessitando. Aquela piada suja de botequim pode ser engraçada, mas não é para ser repetida diante de pessoas religiosas. Pode-se achar que uma jovem é extraordinariamente sensual, mas não gritar “gostosa” quando ela passa na rua. Há quem se vanglorie de sua incomum potência sexual, mas esse não é tema para tratar em público, e por dois motivos: o segundo é que mentir não é coisa de gente bem educada.

Nos últimos tempos, alguns (necessários) freios se romperam. Bolsonaro parece ter esquecido a liturgia do cargo, o comportamento que se espera de pessoas que lidam com o público. Imagine-se uma negociação diplomática em que um dos lados começa perguntando a mão de quem ele deve molhar. Ou um presidente chamando seus colegas de cucarachos ladrones. Na frase de um grande jornalista, Frederico Branco, “tem coisa que pode, tem coisa que não pode”. Presidente da República mal educado não pode.

Lula passou bom tempo alardeando a grossura como estilo. Bolsonaro o emula. Gente educada não passa o tempo proclamando que é (ou não) imune à disfunção erétil. Se isto for problema, é deles. Nosso ouvido não é Viagra.

 Quem lê, e quando

Durante muitos anos, jornais e revistas evitaram não apenas termos chulos como expressões insubstituíveis, mas que não eram bem aceitas em casas de família. “Bunda”, por exemplo, palavra cujo significado é típico da língua falada no Brasil, podia aparecer como “bumbum”, “derrière”, “nádegas”. O uso da palavra “camisinha” era tacitamente proibido – e assim foi até que as doenças sexualmente transmissíveis levaram os governos a utilizá-la.

Antes, eram “condoms”, “preservativos” – camisinhas, mas com apelidos. Exagero, claro; mas a ideia de que o grande jornal era lido pela família toda se manteve até recentemente. Os políticos mantinham a compostura: Carlos Lacerda, o demolidor de adversários, nem falava palavrões. Jamais se ouviria Leonel Brizola falar de sua potência sexual, ou alguém se gabar de suas amantes.

 De quem é a culpa

Em vez de entrevistas coletivas bem organizadas, em que os políticos têm a oportunidade de expor suas ideias ao eleitor, o Brasil optou pelas cenas de grosseria explícita das reuniões na porta do palácio, com ofensas a repórteres e participação de uma claque que aplaude o entrevistado e ataca quem quer entrevistá-lo. Culpa de quem? De todos, inclusive dos jornalistas. Vi muito, antes, fotógrafos com as câmeras no chão e repórteres indo embora para não participar de algo inaceitável. Perguntas e respostas. Saiu daí é bobagem.

 Loucura

A tolerância aos maus modos chegou ao ponto de levar ao inacreditável: em Rondônia, a secretaria da Educação queria recolher das escolas uma lista de livros “com conteúdo inadequado”. Por exemplo, Os Sertões, de Euclides da Cunha, ou Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. E livros de Nelson Rodrigues, Carlos Heitor Cony, Edgar Allan Poe. Pior foi a explicação do secretário da Educação de Rondônia: a ordem foi escrita por técnicos, sem seu conhecimento – ele apenas a assinou. Nem demitido foi!

 Tem ou não tem?

O Ministério Público não quis a delação premiada de Sérgio Cabral: o que nela constava, alegou, era conhecido, e a quantia que o ex-governador do Rio se propunha a devolver já estava bloqueada pela Justiça. A Polícia Federal topou negociar a delação, que foi homologada pelo ministro Edson Facchin, do Supremo.

Questão curiosa: se as revelações de Cabral não eram novas ou importantes, por que foram aceitas pelo ministro do Supremo? Se há algo novo ou surge a indicação de novos caminhos investigativos, por que o Ministério Público não a aceitou? Há ainda outra dúvida, agora deste colunista: será possível que Cabral tenha mergulhado no pudim ainda mais fundo do que o apurado até hoje? Teria ainda mais companheiros de butim?

 Será possível?

Para lembrar, Sérgio Cabral está condenado a quase 300 anos de prisão.

Terça veloz

Prepare-se: depois de amanhã, o Governo promete apresentar um grande estudo sobre monitoramento de trânsito. Traduzindo: mais uma tentativa de reduzir a segurança em ruas e estradas. O objetivo é criar normas que dificultem o uso de radares móveis no controle do excesso de velocidade. O objetivo não é claro, mas o Governo tem defendido medidas que vão contra as regras de segurança no trânsito – desde tentar proibir radares móveis que controlam o excesso de velocidade dos veículos até o aumento do número de pontos além do qual as carteiras de habilitação devem ser suspensas.


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ESCOLA, VOLVER!

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A nova escola militar, promessa de Bolsonaro, já existe – mais como sonho, já que sala de aula, que é bom, ainda não há nenhuma. Mas a pedra fundamental foi lançada por Bolsonaro nesta semana, ao lado de Paulo Skaf, presidente da Fiesp, entidade que deu de presente o projeto. Presente com nosso dinheiro, claro: os impostos que sustentam o sistema S, maior fonte de renda dos sindicatos patronais.  São como o Imposto Sindical, em boa hora eliminado para os sindicatos de trabalhadores – e mantido para os patronais.

Já se sabe algo a respeito do novo tipo de escola: corte de cabelo de rapazes e moças, tipo de calçado. Só falta construir a escola e dar ensino de boa qualidade. Estará de volta o “vovô viu a uva”, da ótima cartilha Caminho Suave, que ajudou na minha alfabetização, ou haverá sistemas diferentes?

O detalhe curioso é o patrocínio do projeto pela Fiesp, que busca ficar próxima de Bolsonaro. Há pouco mais de um ano, Paulo Guedes prometia “enfiar a faca” no sistema S, como fez com o imposto sindical. São quase R$ 20 bilhões por ano. Boa parte é muito bem aplicada: ótimas escolas técnicas, ótimos clubes, ótimos cursos, ótimo trabalho de difusão cultural a baixo custo para os funcionários. Seria lamentável deixar de contar com esse dinheiro.

Mas outra parte dos recursos serve para fazer com que um presidente de sindicato ou associação tenha elevador privativo, viaje de helicóptero de um bairro a outro, faça sua campanha eleitoral. Nós pagamos.

 O grande sonho

Para realizar o sonho de governar São Paulo, Skaf já foi até do Partido Socialista Brasileiro. Hoje é do MDB, mas talvez vá para o Aliança, partido de Bolsonaro. Foi três vezes candidato ao Governo, sem ter chegado ao segundo turno. Em compensação, na política sindical é um vitorioso: está na Presidência da Fiesp desde 2004, e conseguiu costurar apoios que juntam aliados e antigos adversários. Espera, com Bolsonaro, realizar seu sonho. Bolsonaro não espera votos de Skaf, mas sabe que para criar seu partido o apoio de Skaf é fundamental. Skaf tem capilaridade; existe em todo o Estado.

 E a escola?

Dizem que o Governo chinês conseguiu em dez dias construir um hospital de mil leitos. Hospital é mais complexo que escola: então, por que demorar?

 O vírus na economia

Na volta do feriado lunar, ontem, a Bolsa de Xangai abriu com queda de 9%. Mas as providências do Governo chinês parecem ter funcionado: foram injetados cerca de US$ 175 bilhões no open market, proibida a venda de ações a descoberto, suspensas as negociações com futuros. A Bolsa rapidamente se recuperou. Nova York foi bem. Mas só se saberá mesmo a tendência a partir de amanhã. Palpite: a economia aguentou o tranco. Mas, se o combate ao coronavírus enfrentar dificuldades, muda todo o cenário.

 Esvaziando o vazio

Há coisas que só aqui acontecem: Onyx Lorenzoni, neste fim de semana, assistiu à demissão de dois funcionários de confiança. Os jornais dizem que ele, embora esvaziado por Bolsonaro, fica no Governo. Mas é injusto dizer que Bolsonaro esvaziou Lorenzoni. Como seria possível esvaziá-lo?

 O precedente

Evitemos injustiças: não é só no Brasil que certas coisas acontecem. Na Inglaterra, Churchill dizia de seu adversário Clement Attlee: “Um carro vazio estaciona em frente ao Parlamento. Dele desce Sir Clement Attlee”.

 Crônica da tragédia anunciada

A alameda Casa Branca, entre alameda Franca e alameda Itu, é uma das regiões mais nobres de São Paulo. Pois é lá que um engenheiro altamente conceituado, especializado em perícias e vistorias, conhecedor dos riscos urbanos, alerta há meses para uma árvore grande, já condenada, que vai cair a qualquer momento – com todas as consequências para pessoas, veículos, prédios, fiação, trânsito (além de estar no caminho dos estudantes do Colégio Dante Alighieri). Providenciou laudos, protocolos, tem o OK da Defesa Civil, mas a Prefeitura ignora a ordem de cuidar do assunto.

Há até um aviso na árvore – mas quem vai mobilizar o prefeito e seus funcionários? Na hora em que ocorrer a tragédia anunciada, de quem será a culpa?

 Low cost, só que caro

Lembra daquele papo-aranha de que as empresas aéreas iriam baixar a passagem caso pudessem cobrar por qualquer bagagem transportada? OK. A Anac, Agência Nacional de Aviação Civil, ainda não percebeu que o preço subiu. Com a chegada ao Brasil das empresas aéreas de baixo custo, low cost, elas criaram uma nova norma, bem própria: de acordo com a Anac, o passageiro pode transportar até dez kg de bagagem de mão, sem cobrança. Duas aéreas low cost, Norwegian e a Jet Smart, exigem que os dez kg caibam debaixo do assento. Se não couberem, tarifa nelas. A Norwegian cobra R$ 42,95 e a Jet Smart até R$ 143,00.

E a Anac? Vai bem, obrigado.

​Pode ser tudo. Pode ser nada

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A Organização Mundial da Saúde declarou emergência internacional com o crescimento do surto de coronavírus. Traduzindo: o surto é grave mesmo. Mas, desde a gripe suína, em 2009, esta é a quinta emergência internacional declarada pela OMS. As seguintes foram Ebola (2014), Zika (2016), Ebola novamente (2019). Os cenários também eram horríveis: como conter o vírus mortal da Ebola? Como tratar, sem alto risco de vida, um doente contaminado pelo Ebola? Dizia-se que bastaria, com um trecho de pele exposto, tocar o corpo de um doente com Ebola para que a contaminação mortal ocorresse. Era horrível, mas ainda não era a grande catástrofe. Já a Gripe Espanhola, de 1918, matou algo como 5% dos habitantes do mundo. Maior epidemia, só a Peste Negra, no século 14, que, estima-se, talvez tenha provocado 200 milhões de mortes na Europa e na Ásia.

Pode ser tudo, pode ser nada, mas é mais seguro proteger-se, acompanhar o noticiário e seguir as instruções das autoridades médicas. Um endereço precioso, trazido pelo curitibano Gerson Guelmann, é o do John Hopkins Center for Systems Science and Engineering, de Baltimore, EUA, com estatísticas do surto, um excelente mapa da área da pandemia, tudo on line e gratuito. Basta clicar https://tinyurl.com/uwns6z5. Não são informações de fácil uso para nós, leigos. Mas pode indicar ao mais leigo dos leitores se a área de expansão do coronavírus se aproxima da região em que vive.

Deputados pagando Saúde

Boa notícia: o relator do Orçamento paulista de 2020, deputado estadual Alex de Madureira, PSD, aprovou, com apoio dos parlamentares, a verba de R$ 20 milhões para nove hospitais filantrópicos de referência em câncer, na Capital e no Interior. O programa, Onco-São Paulo, é estritamente técnico: os recursos serão repartidos entre as instituições, todas Centros de Alta Complexidade em Oncologia, de acordo com o número de atendimentos e o nível de complexidade. Ou seja, quem atende mais vai receber mais.

De acordo com a nova lei, verbas destinadas por parlamentares terão aplicação obrigatória. Com o Onco-São Paulo, abre-se um belo caminho para que bons deputados invistam em saúde a verba a que têm direito. É jogo de ganha-ganha: bons hospitais, boa saúde, bom atendimento. E bons votos.

Junte-se aos bons

As entidades filantrópicas de referência no tratamento de câncer em São Paulo são Hospital Amaral Carvalho, de Jaú, Fundação Pio XII, de Barretos, Boldrini Campinas, Hospital GPACI Sorocaba, Instituto do Câncer Arnaldo Vieira de Carvalho, Instituto Brasileiro de Controle do Câncer, Hospital AC Camargo, GRAACC, Centro de Tratamento Fabiana Macedo.

Grandes nomes

Atenção: amanhã, segunda-feira, os ex-governadores fluminense Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão estarão diante do juiz Marcelo Bretas, na primeira instância da Justiça do Rio. Cabral é, entre os alvos da Lava Jato, o condenado a maior número de anos de prisão. E ainda faltam processos. Mas não se pode esquecer que Cabral deve apresentar sua delação premiada. Há divergências entre as várias autoridades envolvidas no assunto, mas conforme a que prevalecer a delação de Cabral poderá amenizar sua pena e levar outras pessoas aos tribunais.

Empurrando para cima

Não, o presidente Bolsonaro não está feliz com o ministro Sérgio Moro. Nos últimos dias tem tratado o ministro com toda a deferência, mas mesmo assim foi possível perceber seu desagrado. Onde já se viu, um ministro nomeado por ele que não sai publicamente em defesa de seu filho, se atreve a estar à sua frente nas pesquisas, não desiste de seus objetivos nem diante dos sapos que que terá de engolir?

Prometeu, cumpra

A maneira mais fácil de se livrar de Moro, neste momento, é cumprir a palavra que foi dada a ele: elevá-lo ao Supremo na primeira vaga. No Supremo, Moro será um entre onze, não a estrela única; deixa de ser a estrela solitária. Basta algum ajuste legal, que impeça o ministro de disputar eleições antes de completar determinado período, e pronto: Moro só poderá se candidatar quando Bolsonaro, mesmo tendo sido reeleito, estiver impedido de concorrer de novo. Anula-se um adversário sem hostilizá-lo, sem feri-lo – apenas ficando a seu lado.

Um retrato na parede

Já o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, perdeu em um ano todas as atribuições de seu cargo. Hoje, pode tirar férias à vontade que ninguém sentirá falta de sua presença. Se quiser voltar à Câmara, sua origem, receberá homenagens, mas nenhum pedido de que fique e não vá. Onyx é no Palácio apenas um retrato na parede. Mas como dói.

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​A crise viajou, mas já voltou

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Tudo tranquilo? Espere só: ontem de manhã, o presidente Jair Bolsonaro voltou de viagem à Índia. Já criticou pesado o presidente do BNDES (por ter contratado uma auditoria caríssima que não mostrou irregularidades), tomou um chega-pra-lá de Sérgio “o candidato sou eu” Moro, recebeu informações oficiais a respeito de mal-educadíssimos bilhetes que teriam sido redigidos pelo general Santos Cruz. Não são dele, como qualquer pessoa que conheça o general sabia desde o começo; e foram encaminhados a Bolsonaro como verdadeiros pelo trio, unidíssimo, Carluxo, Wajngarten e Olavo de Carvalho.

E agora? Já demitiu faz tempo o general Santos Cruz, amigo de 40 anos, e não tem como levá-lo de volta para seu lado. Carluxo, Wajngarten e Olavo são três, mas não formam mais um trio. No caso do BNDES pode até ter razão, mas a quem responsabilizar pelo gasto de R$ 48 milhões? Quanto a Sérgio Moro, Bolsonaro está de novo na fase de elogiá-lo. Mas tinha dito que havia convidado Moro só para a Justiça – logo, se quisesse dividir Justiça e Segurança Pública, o ministro não teria do que reclamar. Moro pisou nos seus calos: Bolsonaro o havia chamado, sim, para unir Segurança Pública e Justiça, já que ambas as pastas, unidas, ganhariam força. Mas Moro é tão bonzinho que garantiu não só que não há motivo para deixar o Governo como assegurou a Bolsonaro seu apoio na luta pela reeleição. Moro é livre para dizer essas coisas. Basta que Bolsonaro acredite em lealdades eternas.

A escala dos desejos

Moro é um homem simples, de Maringá, não parece sonhar com jatinhos ou limusines. Mas deixa claro que ser nomeado ministro do Supremo, como aliás Bolsonaro havia prometido, o deixará muito feliz (de certa forma, é até melhor do que ser presidente: férias maiores, menos trabalho, salário igual, abundância de funcionários para ajudá-los a vestir a toga, a puxar a cadeira para que eles se sentem). Moro diz que ser ministro do Supremo “é uma perspectiva interessante”. Diz também que não há motivo para deixar o Governo – embora não fosse isso o que disse a amigos, há dias, quando Bolsonaro falou em separar Segurança Pública e Justiça, deixando-o apenas com a Justiça e, entre outras coisas, tomando-lhe a Polícia Federal. Por fim, prometeu apoiar o presidente Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2022, sem reivindicar nada, nem mesmo o cargo de vice-presidente.

E se for pouco?

Entre os defensores da separação dos ministérios, há um velho amigo do presidente Bolsonaro: Pancrácio, apelido do deputado federal Alberto Fraga, que o chama de Cavalão e quer ser o ministro da Segurança Pública, entregando o comando da Polícia Federal ao delegado Anderson Gustavo Torres – já sugerido a Moro e vetado por ele. Façamos as contas: Anderson, vetado por Moro, no comando da Polícia Federal (com a queda do preferido de Moro, delegado Maurício Valeixo), um expoente da bancada da bala na Segurança – usufruindo dos bons índices de queda de homicídios, que Moro considera realização de sua equipe. Feitas as contas, Moro fica ou sai? E, se sair, fica quietinho, cuidando de seu escritório de advocacia, ou se lança candidato à Presidência da República, considerando que sua popularidade é bem maior que a de Bolsonaro?

História antiga

O marechal Eurico Dutra, ministro da Guerra da ditadura Getúlio Vargas, ajudou a depô-lo e, com seu apoio, se elegeu presidente, derrotando um forte adversário, o brigadeiro Eduardo Gomes. Passados mais de dez anos, o marechal Lott, ministro da Guerra de Juscelino, saiu candidato à Presidência, e foi visitar o marechal. Conversaram e Dutra profetizou, com sua péssima dicção: “Oxê num vai ganhá. Oxê num xabe falá”. Lott rebateu: “O sr. se elegeu e não sabe falar”. Dutra completou: “Xim, xó que eu num falava”.

Lott foi derrotado por Jânio Quadros – uma surra histórica.

Admitamos, Bolsonaro não é um grande orador, mas sabe falar e boa parte da população o entende e segue. O que ele não sabe é calar-se.

Risco de tragédia

O número de vítimas do coronavírus se multiplicou na China, já com centenas de vítimas. E, apesar das rígidas providências do Governo chinês, que cercou os locais onde o vírus foi encontrado e proibiu entrada e saída de pessoas, o que se sabe é que a doença cruzou as fronteiras da China e chegou à Europa. Segundo o ministro da Saúde, há casos suspeitos no Brasil. E pelo menos uma família brasileira foi localizada nas regiões bloqueadas da China. Em princípio, não há o que fazer: retirá-la (e isso se os chineses o permitissem, o que até agora não ocorreu em caso algum) seria enviar a família para local se transformasse em agente de contaminação. Houve queda nas Bolsas, sem perspectiva visível de reversão. Há queda no ritmo da produção e dos negócios. Nos Estados Unidos, para reduzir o risco de contágio, o tratamento vem sendo realizado por nano-robôs.

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Aguarde: Moro está de saída

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Moro é popular, mas está sendo triturado por Pancrácio e Cavalão. Seu tempo de Ministério está contado – a menos que aceite perder a Segurança Pùblica. Moro já engoliu muito sapo, mas agora disse a amigos que, se for mais uma vez passado para trás, sai do Governo. Mas qual é o problema?

Cavalão é o apelido de Bolsonaro em seus tempos de Exército, pela força física. Pancrácio, nome de um “vale-tudo” grego, que teria sido praticado por Hércules e Teseu, era o apelido de Alberto Fraga, perito na luta, hoje líder da bancada da bala. Fraga e Bolsonaro são amigos há dezenas de anos. E Fraga defende a divisão do Ministério de Moro em Justiça (que ficaria ministro) e Segurança Pública, que ele controlaria – além de controlar a Polícia Federal. Mas desde quando Fraga manda no Ministério? Desde que o presidente Bolsonaro propôs a secretários estaduais de Segurança, fora da agenda, que o Ministério de Moro fosse subdividido. Fez a proposta, ouviu protestos e elogios, soube da decisão de Moro e já disse que não pensa numa divisão do Ministério. Mas pensa: para agradar o amigo, por achar que Moro quer ser candidato à Presidência, por não tolerar que a popularidade de Moro seja maior que a sua. Bolsonaro adora encontrar conspirações. Que tal uma em que o ministro da Justiça não toma providências para impedir que Flávio Bolsonaro enfrente os tribunais, nem coloca na chefia da Polícia Federal um homem da confiança do presidente, nem lhe faz declarações de apoio?

Brigas e brigas

Carluxo, filho 02 de Bolsonaro, já acusou Fábio Wajngarten de trabalhar mal – e foi ele que indicou o titular da Secom. Regina Duarte fez uma declaração de que gostaria de selar a paz entre o Governo e os artistas – é justo o que Bolsonaro não quer ouvir, ele que prefere a espada à paz. Logo surgiram ataques a Regina – de um IPTU que ela estaria devendo hoje numa casa vendida há cinco anos. Já o diretor da Secom, além de ser atacado pelo 02, não é defendido por Moro. Mas Bolsonaro disse que ele fica e mais tarde, estudando   melhor o assunto, talvez mude. O ministro do Turismo, acusado de chefiar um laranjal, está bem, sem que ninguém o toque. Aliás, nem Moro.

Saindo da caixa

O problema é que, sendo ministro, Moro fica prisioneiro da candidatura a vice-presidente. Saindo, não faltará quem o ajude a conquistar legenda e a provar que tem quase o dobro das intenções de voto de Bolsonaro. Tudo pode mudar, claro. Mas enquanto não mudar, o jogo é este. Joice Hasselmann se enfraqueceu, aparentemente, ao deixar o bolsonarismo. Mas com uma boa campanha em São Paulo pode crescer de novo. Moro tem mais bagagem. Na última pesquisa DataFolha, Moro tem 53% de aprovação. Bolsonaro, 30%.

Tentou, falhou

O ex-governador goiano Marconi Perillo tentou habeas corpus, rejeitado. Continua réu em ação penal. É acusado por ter inscrito R$ 317 milhões em restos a pagar, sem a devida provisão de caixa. A descrição é crime contra aas finanças públicas, sujeito à pena de um a quatro anos de reclusão.

Por que no te callas?

Frase autêntica de Jair Bolsonaro: “O índio evolui. Cada vez mais é um ser humano igual a nós”. Este colunista entendeu o que Bolsonaro quis dizer: os índios evoluem e gostariam de ter um padrão de vida igual ao da classe média. Só que não foi isso o que disse.

Falou, morreu

O ex-vice-prefeito de Ourolândia, empresário José Roberto Soares Vieira, foi assassinado no dia 22, com nove tiros, na rodovia BA-522, região metropolitana de Salvador. O assassínio foi filmado e, espera-se, haverá uma chance de identificar os pistoleiros Vieira era a principal testemunha das investigações que levaram à prisão do ex-gerante da Transpetro na Bahia, José Antônio de Jesus. Há dois meses, Vieira prestou depoimento à PF, com todos os dados do esquema criminoso. Entrou imediatamente na lista dos que seriam assassinados. Uma dúvida: e o programa de proteção a testemunhas?

Guerra pernambucana

O filho e o irmão de Eduardo Campos, herdeiro da dinastia de Miguel Arraes, estão em lados opostos na política pernambucana. Ana Arraes, filha de Miguel Arraes e conselheira do Tribunal de Contas, está ao lado do filho, contra o neto; Renata Campos, viúva de Eduardo Campos, está ao lado do filho, contra o genro. Tonca, o genro, é bolsonarista; Ana Arraes está ao lado dele, Antônio Carlos Campos. A briga vinha fermentando há tempos, até que num debate no Congresso, o deputado João Campos fez um ataque ao ministro da Educação, Abraham Weintraub. Weintraub lembrou na hora que o tio de João Campos, Tonca, trabalha na Fundação Joaquim Nabuco, a seu lado – logo, ele, Weintraub, não deve ser uma pessoa tão má assim. João Campos disse que seu tio Tonca é ainda pior que Weintraub. Foi assim que a briga pegou fogo. Tio e sobrinho não se falam.

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​Verdade, que é a verdade?

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Como jamais disse o presidente Bolsonaro, mentira é a verdade que ainda não aconteceu, talkey? Mas tem gente exagerando: por exemplo, a turma que que sustenta que o ex-secretário da Cultura Roberto Alvim foi vítima de uma armação da esquerda, que lhe impingiu um texto nazista, que ele desconhecia, só para derrubá-lo. A imaginação voa longe: o Ministério da Cultura passou nas mãos da esquerda desde os tempos de Fernando Henrique (que nas teses imaginárias é mais esquerdista que Mao Tsé-tung) até a queda de Dilma. Deve ter sobrado gente por lá para engrupir o Roberto Alvim, né?

Mas vamos desenvolver o raciocínio: Alvim leu o texto que desconhecia, escolheu por acaso o tema melódico composto pelo músico favorito do alto comando nazista (bom músico, a propósito), fantasiou-se de Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler, e tocou o vídeo, ingenuamente, no ar.

Não é fazer pouco da inteligência de Alvim imaginar esses fatos todos?

Aí, para se vingar, esquerdistas divulgaram texto de Abraham Weintraub, o ministro da Educação, em que ele copiava trecho do próprio Adolf Hitler. Onde Hitler falava em “judeus”, Weintraub falava em “comunistas”. Só que a notícia era falsa. Weintraub fez mesmo o tal discurso (aliás, fraquíssimo). Mas os sites especializados em comprovar ou desmentir notícias fizeram as pesquisas e descobriram que Hitler não falou nem escreveu a bobajeira toda.

Weintraub tem defeitos à vontade. É desnecessário inventar mais um.

De Moro a Moro

O Moro ministro de hoje não é, com certeza, o mesmo Moro que era juiz. O Moro que era juiz disse que não arriscaria sua biografia: ministro que fosse acusado de corrupção, com bons indícios, teria de ser afastado. Ele não iria aceitar conviver com pessoas de cuja honradez duvidasse. O Moro ministro (e que pode até ser candidato a vice ou a presidente) usa frases mais flexíveis, e mostrou seu novo perfil político na entrevista de anteontem na TV Cultura, programa Roda Viva. Claro: convive com o ministro do Turismo, Marcelo Antônio, indiciado pela Polícia Federal e denunciado pelo Ministério Público. E tem mais gente suspeita dando volta no salão. Podendo responder sem responder, fica mais à vontade. Negou, por exemplo, que venha a ser candidato em 2022. Bolsonaro já disse que o quer como vice. E prestígio ele continua tendo: na segunda, houve várias convocações de protestos contra a TV Cultura por entrevistá-lo (entre elas a de Glenn Greenwald, que achava um absurdo não haver ninguém de seu The Intercept entre os convidados. Resultado: três pessoas acusando Moro de “feder”, de ser “sujo” e “covarde”.

Palpite deste colunista: é candidatíssimo. Se conseguir, a presidente.

Reforço inesperado

O Brasil descobriu a fórmula para ser bem ouvido no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça: deixou em casa o capitão do time. Quem de fato liderou a delegação brasileira foi o ministro da Economia, Paulo Guedes, bem ouvido pelas demais delegações. Guedes seguiu a linha de Bolsonaro, embora medindo as palavras (“a pobreza é grande causa dos danos ao meio-ambiente”) e mostrando-se otimista: a seu ver, o Brasil pode elevar o Produto Interno Bruto, PIB, neste ano, em 2,5%. Supera as previsões anteriores, de think-tanks brasileiros e estrangeiros, que oscilam em volta de 2%. Guedes disse que, resolvendo problemas que sangravam o Brasil, houve condições para baixar juros e atrair investimentos para grandes privatizações.

Pró e contra

Houve quem contestasse a tese de que a pobreza prejudica o meio-ambiente, mas sem briga: tudo ficou no debate normal, sem polarização. E é mesmo preciso que o Brasil se coloque bem no cenário: normalizando-se as relações entre EUA e China, as exportações brasileiras podem pagar a conta. Guedes fez questão de mostrar que o Brasil está “fazendo a lição de casa”, o que inclui a continuidade das reformas, que teria amplo apoio do Congresso.

Atenção nos americanos

Começou no Senado o processo de impeachment de Trump. Vai escapar.

Caixa preta, preta caixa

O BNDES contratou o Cleary Gottlieb Steen & Hamilton, LLP, pagando 48 milhões de reais. A auditoria investigou oito operações com JBS, Bertin e Eldorado Celulose (também ligada ao JBS) e concluiu, em relatório de oito páginas, que não houve nenhuma evidência direta de corrupção nesses casos.

A Cleary é altamente especializada, e nos casos que investigou não deve mesmo ter achado nada errado. Entretanto, um livro que já vendeu toda a edição, Caixa Preta do BNDES, do repórter Cláudio Tognolli, mostra coisa diferente: como o dinheiro do BNDES irrigou à nossa custa a economia de ditaduras de esquerda latino-americanas e africanas; mostra também como uma empresa originalmente privada, a Tecsis, tão logo começou a perder dinheiro foi passando o controle de sócios privados para o BNDESPar. Hoje a empresa está desativada, endividada, e quem é o acionista maior? Pois é.

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​O bafo de bolso

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Este é o país dos extremos: ou tem o melhor futebol do mundo, invencível, ou a torcida acha que apanha de 7x1 de qualquer time vietnamita. Economia também é assim: ou nada funciona ou vamos deslanchar já neste ano. Crise na área petroleira do Oriente Médio? Besteira – crise é coisa para os fracos. O Brasil, que já fazia excelentes previsões de desenvolvimento econômico, com crescimento do PIB que não vemos há tempos, mantendo-se a inflação em baixa, começou a refazer os cálculos, prevendo crescimento ainda maior, sem mexer na inflação prevista, e na primeira quinzena do ano!

Delfim sonhava com inflação de 12% ao ano, Dilma sonhava com um forte crescimento induzido por seu Governo, Bolsonaro (ou Guedes) sonha com um PIB que, do quase zero, acelera como um Fórmula Um e em poucos segundos assume a ponta da corrida. Tudo bem, pode acontecer – no Brasil isso aconteceu com Emerson, Piquet e Senna. Só.

O problema é que quando acontece é ótimo, mas quando não acontece é terrível. Se a previsão de alta do PIB é de 2,5 e vai a 2,7, a economia ganha fôlego e pode crescer ainda mais. Mas, se a previsão é de 2,5 e dá menos do que isso, o pessimismo domina a economia e tudo desaba, o consumo e os investimentos. O pessimismo é uma profecia auto-realizável. E, ao mesmo tempo, é consequência que não pode ser evitada quando falham as profecias otimistas e aquele magnífico drive econômico vira apenas uma freada.

As boas notícias

A inflação brasileira está baixa, o agronegócio exporta bem, a queda dos juros pode permitir que a indústria, massacrada nos últimos anos, volte a se desenvolver. No mercado internacional, a situação é boa: hoje, quarta-feira, Estados Unidos e China assinam seu pacto comercial, que põe fim à guerra comercial entre as duas maiores potências econômicas do mundo. Os EUA decidiram suspender o título da China de “maior manipuladora cambial” do mercado – o que significa que as intenções americanas de paz comercial são para valer. As bolsas de lá estão subindo. Claro que o mundo é um moinho e o Irã, hoje quieto, pode se sentir tentado a incomodar os americanos. Já os americanos, hoje quietos, pensam em novas sanções econômicas ao Irã. Em suma, tudo está bem enquanto estiver bem. É o que mantém o Brasil bem.

A política é a política

Quem acreditava que os políticos iriam tomar providências que limitassem sua boa vida está na hora de voltar à velha sabedoria popular: “Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é bobo ou não entende da arte”. E ninguém, imaginemos, terá a coragem de acusar nossos políticos de bobos, ou de não entender da nobre arte de cobrir-se de benefícios. Portanto, nada de surpresa com a decisão que vem sendo encaminhada pela Câmara sobre o fim do foro privilegiado. Suas Excelências foram buscar no Senado uma emenda constitucional já aprovada sobre prerrogativa de foro, prevendo que só seriam beneficiados os presidentes do Executivo, Legislativo e Judiciário e o vice-presidente da República. Ninguém mais escaparia dos magistrados de primeira instância. Mas abolir privilégios sem aboli-los é uma arte. Os juízes de primeiro grau não poderiam determinar que políticos fossem preventivamente presos, ou vítimas de ordens de busca e apreensão, quebras de sigilo bancário, fiscal e telefônico. Isso ficaria para os tribunais, o segundo grau, se o caso até lá chegasse, se os parlamentares não fossem perdoados por sua avançada idade.

A verdade como ela é

Na segunda, dia 20, sai o livro Tormenta – o Governo Bolsonaro, da boa jornalista Thaís Oyama, em edição muito bem cuidada da Editora Contexto. Thaís conta detalhes da difícil relação entre o presidente Bolsonaro e o 02, seu filho Carluxo, as brigas que tiveram – por exemplo, Carluxo quis nomear para um bom cargo público seu primo Leo Índio, que o general Santos Cruz rejeitou (mais tarde, Carluxo torpedeou o general Santos Cruz e conseguiu fazer com que fosse demitido). Thaís conta que Bolsonaro quis demitir Moro e foi convencido a desistir pelo general Augusto Heleno; e dá a história, com todos os detalhes, de como Toffoli, sempre petista, e Bolsonaro, que fez campanha contra o PT, foram transformados pelo caso Queiroz em amigos desde criancinhas. O livro foi feito com cuidado por uma jornalista de peso (Thaís é editora-chefe de Veja desde 1999) e editado pela Contexto, do professor universitário Jaime Pinsky, uma das empresas mais conceituadas do setor. Vale a leitura. Detalhe: não é contra nem a favor de Bolsonaro.

E a festa continua

Lembra do general Joaquim Luna, ministro da Defesa de Michel Temer e hoje diretor do lado brasileiro da Itaipu Binacional? O salário do general é de R$ 79 mil mensais. A essa quantia ele mandou acrescentar R$ 221.200 para ele. Os demais funcionários receberam o equivalente, 2,8 salários, como compensação de possíveis perdas decorrentes do acordo coletivo de trabalho.

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