​Feliz Natal (só para nós)

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Nas muitas mensagens de Natal recebidas por esta coluna, várias utilizam a oportunidade para comentar a situação. Há uma queixa que se repete: por que só se fala nos filhos de Lula, não nos de Bolsonaro? Ou, por que só se fala em Flávio Bolsonaro e não em Lulinha e seus irmãos? A dúvida tem seus motivos: em geral, acham que qualquer crítica aos adversários é amena, frouxa e pouca, e aos seus ídolos é ácida, maldosa e excessiva. Pesquisar no Google se isso é verdade, nem pensar: para que, se todos já têm opinião?

Há também o curioso detalhe da quantificação do dinheiro envolvido no caso: por que incomodar Flávio Bolsonaro por poucos milhões – nenhuma acusação chega sequer a uma dezena – quando se fala em muitos milhões na Gamecorp, de Lulinha? Simples: porque, caso as acusações sejam corretas, um crime foi cometido. O que varia é o valor, não a transgressão da lei. Talvez uma transgressão mais substanciosa provoque pena maior, mas o desvio de bilhões ou de milhões é crime do mesmo jeito.

Há casos estranhos: o caso Flávio Bolsonaro, ocorrido quando era deputado estadual no Rio, anda mais rápido do que o mesmo rachid de que é acusado o atual presidente da mesma Assembleia, e que é dezenas de vezes maior. Mas isso não inocenta um – apenas exige mais rigor no caso do outro.

Viver num país polarizado é como enfrentar briga de crianças: eu sou, mas você também é. Políticos dizendo isso, vá lá. Mas o eleitor segui-los?

Questão de...

O presidente do STF, ministro Dias Toffoli, é criticado por ter viajado de jatinho da FAB, a trabalho. Mas dali seguiu de carro para um hotel-resort, onde ficaria alguns dias. A volta a Brasília, claro, é de jatinho da FAB. Já outras vezes foi criticado por usar a FAB em atividades não oficiais.

Certo ou errado? Nenhum dos dois: apenas inevitável. No clima belicoso que se vive no Brasil, poderia o presidente do STF tomar um avião de carreira sem ser incomodado por passageiros mal-educados que confundem o direito de crítica com a agressão verbal? Uma coisa é falar mal do ministro com o vizinho de poltrona; outra é gritar insultos e gravá-los para as redes sociais.

...educação

Ninguém, mesmo que esteja errado, pode ficar à mercê de achincalhe público – que, a propósito, incomoda também outros passageiros, que queiram tranquilidade, não xingamentos. Os achincalhadores desafiam a lei. E cabe à Polícia Federal enquadrá-los para que não haja mais abusos a bordo.

Por que caiu?

O presidente Bolsonaro, ainda bem, nada sofreu com o tombo que levou na noite do dia 23, no Palácio da Alvorada. Fez todos os exames, inclusive o de imagem, e está bem. Mas há uma pergunta que não foi respondida: qual a causa da queda? Foi um escorregão, um tropeço? O assunto está encerrado. Mas, se caiu por outra causa – como um mal-estar – é preciso ir mais longe nas investigações. É preciso ter certeza de que o presidente está em forma.

A propósito, Bolsonaro disse que poderia estar com câncer de pele. No dia seguinte, disse que não tinha nada e culpou a imprensa pela “notícia falsa”. Afinal, qual a verdade? A saúde do presidente é de interesse nacional.

É excelente ser excelência

A informação foi apurada pelo jornalista Cláudio Humberto, do Diário do Poder (www.diariodopoder.com.br). Além do salário de quase R$ 34 mil mensais, deputados e vereadores cobraram do Congresso a reposição de despesas que dizem ter tido “com o exercício do mandato”. Com nota, vale até aluguel de jatinho (e, como lembra Cláudio Humberto, valeu para o deputado Afonso Motta, do PDT gaúcho, ser ressarcido de R$ 0,50 gastos com um pão de queijo). A Câmara devolve cerca de R$ 3,9 milhões por ano para cada deputado – são 531. O Senado devolve R$ 2,78 milhões anuais para cada um dos 81 senadores. Despesas, para eles, não são preocupação.

Paipai bravo

O acionista majoritário da Odebrecht, Emílio Odebrecht, demitiu por justa causa seu filho Marcelo, “o príncipe dos empreiteiros”, por fazer comentários depreciativos em público sobre a empresa da qual foi, até há pouco tempo, quando foi para a cadeia, o principal executivo. Lembra um caso ocorrido há anos, quando Clemente de Faria, dono do Banco da Lavoura de Minas Gerais, morreu. Aluísio Faria, o filho mais velho, herdou a gestão, e Gilberto, o mais novo, ficou como diretor. Um dia, Gilberto processou o banco por não cumprir, em seu caso, as obrigações trabalhistas. E Aluísio o demitiu por justa causa. Final: o juiz do Trabalho condenou os dois, alegando que ambos disputavam o controle acionário do banco e que isso nada tinha a ver com questões trabalhistas. O caso Odebrecht pode acabar desse jeito.

O vice

Depois de Mourão, Bolsonaro quer Moro de vice. Ainda bem que não pode disputar um terceiro mandato, ou acabaria tendo Mourinho na vice.

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​A ira dos deuses

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Jair Bolsonaro bateu o PT, que havia vencido quatro eleições seguidas para a Presidência, foi aplaudido em estádios de futebol e nas ruas, conseguiu emplacar uma ampla reforma da Previdência (mesmo sem ter articulação própria no Congresso), transformou o pequeno PSL num grande partido. Há alguns sinais tímidos de crescimento econômico, depois de anos de paralisia, a inflação está controlada, os juros oficiais jamais foram tão baixos, a Bolsa bate recordes, tendo já superado os 115 mil pontos. E, apesar disso, a aprovação do seu Governo, conforme a última pesquisa Ibope, é só de 29%. Menos de um terço do eleitorado o considera ótimo ou bom. Já 38% o vêem como ruim ou péssimo. Para 31%, é apenas um governo regular. Esta pesquisa foi pedida pela CNI, Confederação Nacional da Indústria, que pode ser tudo, menos socialista ou petista ou esquerdista.

Como explicar tão baixa aprovação para um presidente que colecionou tantos êxitos? Talvez a resposta esteja na velha Grécia: quando um homem tinha orgulho desmedido, a ponto de não se importar com mais ninguém, os deuses lhe enviavam Nêmesis, a vingança, para fazê-lo retornar aos limites. Se não se convencesse de que era homem, não deus, viria a Ate – destruição.

Fernando Collor também tomou boas medidas, também teve apoio nas ruas, mas quando se sentiu balançar e pediu apoio à multidão, não mais o teve. Bolsonaro tem tempo, ainda. Mas precisa lembrar-se de que não é deus.

Os problemas e a reação

Bolsonaro já demonstrou que não se importa com ninguém, nem os mais próximos aliados. Descartou Gustavo Bebbiano, que chefiou sua campanha, livrou-se de um amigo de 40 anos, o general Santa Cruz, esqueceu Paulo Marinho, em cuja casa esteve montado seu QG de comunicação, entregou velhos aliados como Alexandre Frota e Joice Hasselmann à grosseria de seus piadistas, rompeu com Luciano Bivar, que lhe cedeu o partido, de porteira fechada, durante todo o período eleitoral. A última pessoa que pôs a mão no fogo pelos outros foi o Capitão Gancho – mas estariam todos conspirando contra ele há tanto tempo? Aí veio Nêmesis, a deusa da Vingança. Se é só com os filhos que Bolsonaro se preocupa, agora tem com o que se preocupar. E os problemas do senador Flávio, o 01, visivelmente o preocupam – a ponto de dizer que um repórter tinha cara de homossexual, mas nem por isso iria acusá-lo de ser homossexual. Desde quando chamar alguém de homossexual é acusação? As perguntas sobre Flávio e Queiroz irritam o presidente. Talvez até a palavra correta não seja “irritem”. Talvez se deva dizer “tirem do sério”.

A boa notícia

Mesmo com a alta da carne, a inflação está sob controle. Na pior previsão, a inflação anual fica em 3,95%, abaixo do teto oficial de 4,25%.

Má notícia

A alta da carne não será revertida rapidamente. Esta coluna informou há tempos que a Austrália, vítima de pesadas chuvas e enchentes, foi obrigada a sacrificar o rebanho. Grande exportadora, vendeu tudo, inclusive as vacas. Vai levar uns três anos para normalizar a situação. E o consumo da China continua em elevação. Menos carne no mercado, maior consumo, preços mais altos – a solução está no frango e no porco, mais baratos que o boi.

Novidade na tela

Preste atenção na TV Cultura. Quem está no comando é um dos melhores executivos da TV brasileira, José Roberto Maluf, que foi homem-chave das redes Bandeirantes e SBT em algumas de suas melhores fases (este colunista teve a oportunidade de trabalhar com ele em ambas as redes). A Cultura já atinge 90% do público e continua ampliando a rede. Seu jornalismo, comandado por Leão Serva, veterano do Projeto Folha, capitão do Jornal da Tarde, mostra a que veio: amanhã, dia 23, às 22h, o tradicional Roda Viva apresenta o historiador israelense Yuval Harari, cujos livros e palestras são um sucesso internacional. Vale a pena ler Harari. E vê-lo.

É coisa nossa

Um romance publicado há quase 30 anos, O Papagaio e o Doutor, e a peça Adeus, Doutor, ambas da notável psicanalista e escritora brasileira Betty Milan, estão sendo adaptados para o cinema em Nova York pelo diretor Richard Ledes. O filme vai-se chamar Adeus, Lacan (referência ao psicanalista francês Jacques Lacan, com quem Betty Milan se especializou). O papel de Lacan será vivido por David Patrick Kelly.

Ele também acerta

Carlos Bolsonaro, vereador no Rio e o segundo dos zeros à esquerda do presidente da República, voltou a se manifestar, depois de curtíssimo tempo de silêncio. Segundo disse, a equipe que cuida da comunicação no Governo “sempre foi uma bela de uma porcaria”. O responsável direto pela área é Fábio Wajngarten, tido até agora como aliado de Carluxo. Mas, se Bolsonaro descartou amigos seus, por que não descartaria algum ex-amigo do filho?

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​O bode das ilusões

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Conta-se que um lavrador judeu foi pedir conselho ao rabino: sua casa era minúscula, não havia espaço para nada, e a sogra, que ficara viúva, tinha ido morar com eles. Que fazer? O rabino disse: leve seu bode para dentro de casa. O lavrador obedeceu e, uma semana depois, voltou ao rabino: tudo tinha piorado. O bode ocupava boa parte do espaço já minúsculo, cheirava mal, fazia sujeira – insuportável. O rabino recomendou: tire o bode de casa.

Alguns dias depois, o lavrador se encontrou com o rabino e agradeceu o conselho. “Tirei o bode de casa. Agora temos espaço e higiene para todos!”

Os R$ 3,8 bilhões de dinheiro público que pagariam a campanha eleitoral foram o bode que os parlamentares expulsaram da casa. Querem que o eleitor fique feliz com a gentileza do Congresso, desistindo dos R$ 3,8 bilhões que geraram tanta reação e aceitando os R$ 2 bilhões propostos pelo Governo no Orçamento. Parece piada: R$ 2 bilhões são bem mais que o R$ 1,8 bilhão da campanha de 2018. Já era dinheiro demais, e pagou a campanha presidencial e as estaduais. Aumentar os gastos para as eleições municipais é tungar o eleitor. É dar nosso dinheiro aos caciques dos partidos, é estimular a criação de novas legendas apenas para dar vida boa a quem não gosta de trabalhar. Que cada partido busque suas doações e sejam todos obrigados a declará-las, doadores e receptores. Nos Estados Unidos é assim. Por que só jurar amor aos americanos e rejeitar seus métodos de financiar campanhas?

Bem-vindo, seu Cabral

Até que o ex-governador fluminense Sérgio Cabral resistiu muito tempo – a ponto de o Ministério Público rejeitar sua proposta de delação premiada, por achar que ele nada poderia trazer de novo às investigações. Mas Cabral, que está condenado em tantos processos que se arrisca a nunca mais sair da prisão, resolveu agora insistir em sua delação premiada. Fez acordo com a Polícia Federal, contra o parecer do Ministério Público. E a decisão sobre os eventuais benefícios que possa receber será dada pelo Supremo Tribunal Federal, onde está nas mãos do ministro Édson Fachin.

Tiro ao alvo

Dizem que Cabral, em sua delação, atingirá não apenas os que já foram atingidos pela Lava Jato: o que se comenta é que entregará juízes, ministros, até diretores de meios de comunicação. Sempre sobrará, claro, para Lula; para Pezão, seu vice e sucessor; e para outros governadores que teriam atuado em conjunto com ele. Há empreiteiros que receberiam deduragem especial, e não são os mais conhecidos, mas o que eram mais amigos, que viajavam com ele, davam bons presentes ao então governador e sua família.

Questão de fé

Se Cabral promete denunciar quem ainda não foi denunciado, após tantos anos de Operação Lava Jato, e devolver centenas de milhões de reais ganhos ilicitamente, por que o Ministério Público se oporia ao acordo de delação? O procurador-geral Augusto Aras diz que Cabral, enquanto negociava delação premiada com a Lava Jato, ocultava informações e protegia aliados. Em resumo, não estaria convencido da boa-fé do ex-governador. De acordo com O Globo, que noticiou a possibilidade de acordo de delação com a PF, desta vez ele promete apontar o dedo até para ministros do Superior Tribunal de Justiça.

...e o óleo esfriou

As toneladas de petróleo que invadiram a costa nordeste do país levaram o ministro do Meio-Ambiente a acusar o Greenpeace (que a guerrilha dos bolsonaristas na Internet chamou de “greenpiche”). Houve falatório sobre a Shell; sobre um navio grego; sobre o modo pelo qual o petróleo, identificado como venezuelano, tinha chegado até o Brasil; e sobre uma misteriosa fonte de óleo sul-africano. A preocupação foi tamanha que a Câmara abriu uma CPI sobre o tema, com o pomposo e vasto título de “Comissão Parlamentar de Inquérito com a finalidade de investigar as origens das manchas de óleo que se espalham pelo litoral do Nordeste, bem como avaliar as medidas que estão sendo tomadas pelos órgãos competentes, apurar responsabilidades pelo vazamento e propor ações que mitiguem ou cessem os atuais danos e a ocorrência de novos acidentes”. Pois ontem havia reunião da CPI, às15 horas. Vazia, vazia. Suas Excelências assistiam ao jogo do Flamengo.

Pobres togados!

Um excelente jornalista e fiel leitor desta coluna, Mário Marinho, mostra o outro lado dos salários pagos a juízes e desembargadores baianos – muitas vezes maiores que vencimentos de ministro do Supremo, teto definido pela Constituição para qualquer tipo de funcionário público. Lembra Marinho que, além dos penduricalhos habituais, deveria haver os bônus Peru de Natal, Uísque de Natal, Frutas Natalinas (caríssimas!) Champanhe, vinhos com premiação internacional, ceia, tudo caro. E não se pode esquecer que, uma semana depois, essas despesas se repetem. Coitados dos desembargadores que tiveram de se contentar com pouco mais de R$ 200 mil mensais!

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​O teste das novidades

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O presidente Bolsonaro está disposto a apostar em novidades nas eleições de São Paulo: quer lançar para prefeito o jornalista José Luiz Datena, muito popular, mas nunca testado em eleições; e para governador o empresário Paulo Skaf, há doze anos presidente da Fiesp, Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. São conhecidos, têm estrutura, têm potencial, mas:

1 – Datena já ensaiou outras candidaturas, mas desistiu no caminho. Tem bons motivos: primeiro, é um ídolo, e se for candidato vira alvo das máquinas de destruição de reputação; segundo, terá que deixar de lado salários estimados em R$ 3 milhões por mês, e se contentar com 1% do total, aproximadamente o ordenado do prefeito. E, de estilingue, vai virar vidraça. São Paulo está abandonada e ele teria de cuidar dos problemas todos.

2 – Paulo Skaf é um bom articulador (tanto que se eterniza no comando da Fiesp sem que ninguém lhe faça oposição). Tem estrutura montada, está próximo do presidente Bolsonaro, tem bons amigos capazes de ajudá-lo, o Sesi e o Senai, que ele dirige no Estado, têm ótima reputação, especialmente na área da instrução em tempo integral. Mas seus dois empreendimentos eleitorais não funcionaram: na primeira campanha, pelo PSB, foi quarto; na segunda, pelo PMDB, foi segundo. Em ambas o PSDB ganhou no primeiro turno. O invencível candidato em eleições sindicais não mostrou até agora a capacidade de entusiasmar o eleitor. O bolsonarismo conseguiria elegê-lo?

E os outros?

A eleição para prefeito em São Paulo promete ser difícil. O PSDB é forte e tem o governador do Estado. Joice Hasselmann, segunda deputada federal mais votada do Brasil, pode sair para a Prefeitura ou a vice. Lula quer atrair para o PT uma antiga petista, Marta Suplicy, que já foi prefeita, e tem no seu currículo a introdução do bilhete único no transporte coletivo paulistano. É briga de gente grande – e o prêmio para Datena é herdar os problemas de uma cidade há anos mal administrada, ganhando 1% do que recebe hoje.

Núcleo duro

Boa parte do empresariado paulista apoia Bolsonaro, 60% consideram sua administração ótima ou boa. E Bolsonaro recebeu há dias o Grande Colar da Ordem do Mérito Industrial da CNI, Confederação Nacional da Indústria. Skaf será um aliado fiel: tirando o período Dilma – aí também já seria demais- apoiou todos os presidentes. Se tem apoio no Governo, jamais romperá com ele.

Fervendo

A desembargadora Maria do Socorro Santiago, ex-presidente do Tribunal de Justiça da Bahia, talvez queira falar alguma coisa depois de se transformar em alvo da Operação Faroeste. Contratou para sua defesa o criminalista André Luís Callegari, que já orientou delações premiadas. Se ela optar por esse caminho, estará pondo em risco gente importante da Bahia. A desembargadora está presa preventivamente na Papuda, em Brasília. Entre outros clientes, o advogado cuidou de Wesley e Joesley Batista, da JBS, que fizeram devastadoras delações premiadas, atingindo até o presidente Temer.

A festa da mexerica

O caro leitor sabe que o maior salário que pode ser pago pelo Tesouro é equivalente ao de ministro do Supremo, algo como R$ 40 mil mensais. Saber todos sabemos: o problema é que alguns de nós acreditamos. O Tribunal de Justiça de Pernambuco pagou a juízes e desembargadores, em novembro, quantias líquidas de até R$ 853 mil. Mas não sejamos injustos: a quantia de R$ 853.002,43 foi paga a apenas uma juíza. Já o segundo colocado, que é desembargador, teve de se contentar com apenas R$ 695.742,49. A média das quantias pagas a 53 desembargadores – como já havia constatado o sambista Assis Valente, nem todo mundo é filho de Papai Noel – foi menor, de R$ 206.411,00. Pouco mais de cinco vezes o teto constitucional.

Chegando lá

Como atingir quantias tão superiores ao teto? Ora, abono constitucional de um terço das férias, indenização de férias, antecipação de férias, gratificação natalina, antecipação de gratificação natalina, serviços extraordinários, substituição, pagamentos retroativos. Pague e não bufe.

Boa notícia

A reputação de engenharia confiável e soluções criativas bem executadas marcou a construtora Mendes Junior na China, quando liderou a construção da hidrelétrica de Tiangshengqiao, de 1,2 milhão de kW, em região remota. Resultado: 18 anos mais tarde, a gigante PowerChina se associou à Mendes Junior para uma grande obra no Brasil, a extensão da linha 2 do Metrô paulistano, que duplicará o número de passageiros transportados na região. Atingida por uma série de problemas – Lava Jato, a morte do lendário comandante Murillo Mendes, dívidas bilionárias que o Governo Federal se recusa a pagar – a Mendes Junior ganha forças para se recuperar. Este colunista, que por muitos anos trabalhou com a empresa, também comemora.

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​A diplomacia do vai-vem

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O presidente Bolsonaro já desancou o presidente da Argentina, Alberto Fernandez, e nem o cumprimentou pela vitória nas eleições. Já disse que com a China deveríamos tomar cuidado: não apenas eram comunistas como não tinham grande vontade de investir no Brasil – apenas de comprar o país todo. Quis mandar seu filho para Washington, para que Trump tomasse conta dele.

São apenas os três maiores parceiros comerciais do Brasil. Não faz nem um ano e, quando os chineses não aparecem para comprar alguma coisa, o nosso Governo manda chamá-los. Para a posse de Fernández, primeiro não iria ninguém para representar o Brasil, depois iria um ministro, depois não iria ninguém, seríamos representados pelo embaixador brasileiro em Buenos Aires. Na última hora Bolsonaro mandou seu vice, o general Mourão. A mal – mas é que los hermanos devem pensar dos negócios com o Brasil?

Quanto a Trump, provavelmente também gosta de Bolsonaro e se dispõe a retribuir as concessões que nosso presidente já lhe fez, assim que se lembrar de quem é que se trata (“Mr. President, é o pai do garoto que se orgulhava de fritar hambúrgeres na Popeye, que não vende hambúrgueres!”) Claro que Trump, que chama seu desafeto Jeff Bezzos de “Bozo”, tem dificuldade para pronunciar o nome Bolsonaro. Deve se sentir tentado a abreviá-lo – e daí?

Essa diplomacia errante só tem conserto se surgir um chanceler acertante. Cadê ele? E insegurança diplomática é tão ruim quanto insegurança jurídica.

Los vecinos

O Governo argentino assume numa situação difícil – nada pior, para eles, do que lidar com um vizinho não confiável. Fernández terá de mostrar, logo nos primeiros dias, que é o presidente, não apenas um poste escolhido pela  vice Cristina Kirchner, ex-presidente e chefe de uma grande ala peronista. A situação econômica é dramática (e Fernández prometeu devolver o dinheiro à carteira dos pobres). Há as outras alas peronistas, da extrema esquerda à extrema direita, cada uma com sua versão do peronismo. Há até, algo raro,  um bloco antiperonista que já conseguiu ganhar uma eleição nacional. Cabe ao Brasil ajudar a clarear a situação – ou piorá-la de uma vez por todas.

O braço certo

Dizia o escritor italiano Pitigrilli que todo homem tem cinco minutos de imbecilidade por dia. A diferença entre os homens comuns e os gênios é que, nos seus cinco minutos, os gênios se calam. O novo presidente da Funarte gosta de usar esse tempinho para falar, que se há de fazer? Pois ele retomou um tema querido a Bolsonaro, citar nazismo e fascismo como ideologias de esquerda. Há ocasiões e interlocutores que não valem um debate. Mas lembrar como seria o mundo se eles tivessem razão vale a pena. Poderíamos começar com o Governo fascista de Getúlio Vargas entregando à Alemanha nazista a militante comunista Olga Benário. Por que os esquerdistas fascistas teriam entregue a esquerdista comunista Olga Benário a Hitler, esquerdista nazista? E a Falange fascista do generalíssimo Franco, sendo esquerdista, por que teria lutado contra comunistas e trotskistas, seus aliados de esquerda? E tudo culminaria quando o esquerdista Hitler atacou o esquerdista Stalin, com apoio da Divisão Azul espanhola – fascista e, portanto, esquerdista. Absurdo, não? Tão absurdo quanto gente que nem sabe o que fala pensar que pensa.

O bom e o mau

Este colunista está convencido de que a economia definirá o Governo de Jair Bolsonaro. Se a economia for mal, terá fracassado. Se for bem, terá sido um êxito, apesar de Damares, Weintraub, Salles e da família presidencial. A economia tem dado sinais de recuperação – fracos, ainda, mas aos quais nós já nos havíamos desacostumado. A brilhante economista-chefe da XP, Zeina Latif, avalia bem o desempenho da economia, mas acha que o Governo precisa avançar. “Passada a reforma da Previdência, sinalizava-se com novas propostas”, lembra. Mas a reforma tributária não avançou, a privatização da Eletrobrás ainda não saiu. Falta muita coisa. Fora as medidas econômicas, por quanto tempo o país aguentará mais de 12 milhões de desempregados?

Prender ou soltar

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou projeto de lei que permite a prisão de réus condenados em segunda instância. Mas calma: ainda há um projeto da Câmara, que deverá demorar mais, que emenda a Constituição para permitir a prisão em segunda instância. E o ano de 2019 está acabando: não há tempo de nenhum dos projetos ser definitivamente aprovado, então fica tudo para o ano que vem. Os senadores aproveitarão o recesso para mostrar a seus eleitores que votaram para antecipar as prisões, e votaram rapidamente. Terminado o recesso parlamentar, o jogo é outro: já não haverá pressões diretas do eleitorado. Em 2020 há eleição municipal, o Congresso funciona lentamente, os períodos de trabalho são mais curtos. E por que um parlamentar que pode se ver diante de um processo votará, na hora H, em favor de leis mais duras, que poderão prejudicá-lo?

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É coisa pouca, mas da boa

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Sim, continuamos no fundo do poço. Mas há sinais de que pelo menos já pararam de nos jogar terra em cima. Um economista de ótima reputação, Affonso Celso Pastore, acha que em 2020 já será possível crescer acima de 2%. Há quem preveja crescimento maior do que se esperava em 2019 – nada de excepcional, mas menos ruim do que se aguardava. O Santander esperava 0,8% de aumento do PIB em 2019, agora espera 1,2%. O Itaú mantém-se na previsão de 1%, mas admite a possibilidade de algo como 1,2%. O Goldman Sachs previa 1%, agora prevê 1,2% (e espera, para o ano que vem, de 2,2% a 2,3%). O Citi esperava 0,7% em 2019, agora fala em 1,1%. Para 2020, os 1,8% originais passam para 2,2%. Espera-se ainda, de acordo com pesquisa Valor PRO, uma boa subida no índice Bovespa, que há pouco ultrapassou os cem mil pontos. Das quinze organizações ouvidas, a menor previsão é de 125 mil pontos (Veedha Investimentos) e a maior de 150 mil (Mauá Capital).

Não é nada, não é nada, concretamente não é quase nada, mesmo. Mas é surpreendente neste período, que vem desde o governo Dilma, em que todos os índices diminuíam, exceto o da inflação. E por que há essa melhora, ainda insuficiente? Solange Srour, economista-chefe da ARX, diz que, graças ao FGTS liberado em setembro, à melhora do crédito e à inflação em baixa, o consumo das famílias se ampliou, e como o efeito maior deste consumo será sentido no quarto trimestre, ainda dá para crescer. Mas há muito a fazer.

Apenas um retrato

A revista Veja pediu à FSB uma pesquisa sobre as eleições presidenciais, que se realizarão em 2022, daqui a três anos. Neste momento, os resultados não querem dizer nada: valem apenas como registro. Ainda não se sabe quem será candidato, nem quais alianças serão formadas, nem como se comportará o principal fator eleitoral: a economia. Mas, apenas como curiosidade, se as eleições se realizassem hoje, Bolsonaro venceria Lula no segundo turno por 45% a 40%. Sergio Moro derrotaria Lula por 48% a 39%.

Vergonha nacional 1

Suas Excelências acham que é pouco o dinheirão que recebem do Tesouro para financiar suas campanhas eleitorais. Estão praticamente dobrando a já gigantesca verba inicialmente prevista, de R$ 2 bilhões, para R$ 3,8 bilhões. E, para consolidar esse espantoso volume de dinheiro, tiraram verbas da Saúde (R$ 500 milhões), da Educação (R$ 280 milhões) e de habitação popular, como Minha Casa Minha Vida, e saneamento (R$ 380 milhões). Talvez no ano que vem reponham essas verbas, mas isso não é garantido. Garantido é só aquilo que serve aos interesses dos nobres parlamentares.

Vergonha nacional 2

Lembra daquela licitação que proporcionava aos ministros do Supremo um excelente menu para banquetes institucionais? Sim, aquela das lagostas, dos vinhos várias vezes premiados? Pois bem, o Tribunal de Contas da União liberou a compra dos produtos previstos na licitação, com uma só restrição: o cardápio chiquérrimo só deve ser utilizado em eventos de que participem pelo menos duas altas autoridades. Curioso. Digamos que o presidente do Supremo Tribunal de uma nação amiga venha sozinho ao Brasil e o Supremo o convide. Sendo ele apenas uma alta autoridade, que cardápio lhe servirão?

Vergonha estadual

A Operação Faroeste, que atingiu pesadamente o Tribunal de Justiça da Bahia, revelou um fato interessantíssimo: a corrupção era passada, presente e futura. A ex-presidente do TJ, Maria do Socorro Barreto Santiago, chegou a ser presa; o atual presidente, Gesivaldo Britto, foi afastado. Maria da Graça Osório Pimentel Leal seria eleita presidente no dia seguinte, não fosse a ação da Polícia Federal.  As acusações são de venda de sentenças.

Jogo dos erros

Claro, tinha de ser ele. O ministro da Educação, Abraham Weintraub, louvou no twitter “o primeiro ano que o rei, Roberto Carlos, se livrou do mico dos marinho”. E, como homenagem a Roberto Carlos (supõe-se que se baseie nas notícias equivocadas de que não haveria o tradicional especial de fim do ano de Roberto na Globo), posta seu irmão Arthur Weintraub tocando ao piano um sucesso do rei. Mas haverá show, sim: na sexta, 20 de dezembro.

Tudo normal

A diferença entre os especiais de Roberto a que todos se acostumaram e este é que em vez de gravar tudo de uma vez, o show usa trechos de dois espetáculos de Roberto em excursões internacionais, tudo costurado por uma exibição no Teatro de Arame, de Curitiba, gravada nestes últimos dias. No fundo, o show de sempre: aquelas músicas que todos conhecem e fazem questão de ouvir de novo, mais uma composição nova, mais algo cantado em espanhol. O que há de novo é uma volta ao passado: Erasmo estará com ele, mas dizem, extra-oficialmente, que terá não apenas uma participação pequena: ficaria como co-apresentador, como nos tempos da Jovem Guarda.

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​Loucademia de política

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A partir de agora, talvez seja melhor ignorar os conselhos de seu guru de aplicações, dos peritos em finanças do jornal, daqueles senhores com pilhas de diplomas e títulos em inglês (representados por iniciais em três letras), e investir num produto que, ao que tudo indica, terá sua procura multiplicada: boas e bonitas camisas de força. Nelson Rodrigues dizia que os idiotas iriam tomar conta do mundo, não pela capacidade, mas pela quantidade. “Eles são muitos”. Mas talvez outro tipo de gente já esteja ocupando o poder.

O novo presidente da Funarte, Fundação Nacional de Artes, é Dante Mantovani. Em vídeo, disse que a indústria musical americana se relacionou com serviços de inteligência, e que agentes soviéticos infiltrados inseriram “certos elementos” em músicas para “experimentações” com adolescentes e crianças. O resultado teria sido o rock de Elvis Presley e dos Beatles, ambos partes do plano para destruir os Estados Unidos e o capitalismo pela destruição da moral da juventude e das famílias. Textual: “O rock ativa a droga que ativa o sexo que ativa a indústria do aborto. E a indústria do aborto alimenta uma coisa muito mais pesada, que é o satanismo. O próprio John Lennon disse abertamente, mais de uma vez, que fez um pacto com Satanás”.

O fato de que os EUA e o capitalismo estão de pé e a União Soviética ruiu com seu império comunista não importa. Voltando a Nelson Rodrigues: quem manda são loucos que parecem idiotas ou idiotas que parecem loucos?

Negócios à parte

Bolsonaro fez o que pôde para demonstrar sua paixão por Donald Trump. Seu filho posou com boné de Trump, disse que é amigo dos filhos do ídolo, tão americanófilo que garantiu ter fritado hambúrguer quando trabalhou nos EUA, na loja Popeye’s – que faz frango frito e não hambúrguer. Um dia, nosso presidente teria de aprender que um país não tem amigos, tem interesses. O amigo do peito, o chapa, aquele que, por amizade, ia botar o Brasil na OCDE (e, aliás, indicou a Argentina, não o Brasil), resolveu taxar em 100% as importações de aço e alumínio brasileiros. Pior: usando pretextos falsos, de que o Brasil deliberadamente enfraquecia o real para ter ganhos comerciais. Trump e seus assessores sabem que o Brasil tem câmbio flutuante e o Governo pode pouco sobre o valor da moeda. Bolsonaro diz que vai ligar para Trump, que retornará assim que lembrar de quem se trata.

Amigos, amigos

O Brasil já deveria ter aprendido a lição. Bolsonaro fez o que podia para mostrar que Trump é seu ídolo. Mas Trump não liberou importações de açúcar brasileiro; a carne não industrializada do Brasil continua proibida de entrar nos EUA. Trump diz que não pode permitir que o agricultor americano seja prejudicado. Já o álcool americano entra no Brasil livremente, concorrendo com o álcool brasileiro. E a Base Aeroespacial de Alcântara foi cedida em boas condições para que os americanos a operem. Quando Trump diz que quer a “America great again”, não inclui nada fora de suas fronteiras. De seu ponto de vista, está correto: quem é que vota na eleição americana?

Nóis num lê...

Devastador. No exame internacional PISA, aplicado pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para medir capacidade de Leitura, Matemática e Ciências entre estudantes de 15 anos de idade, de 79 países, o Brasil ocupou postos no último terço da classificação. Entre dez estudantes brasileiros, quatro não conseguem identificar a principal ideia de um texto, nem ler gráficos ou resolver problemas com números inteiros (se entrar fração, piora), nem entender uma experiência científica simples.

Nem eles

Na América Latina, só três países conseguiram ficar abaixo do Brasil em Matemática: Argentina, Panamá e República Dominicana. Em Ciência, só dois: Panamá e República Dominicana – esta a última do ranking mundial.

A chave da riqueza

Em 1960, a economia brasileira era bem maior que a da Coreia do Sul, da Índia e da China. Os três países fizeram esforços importantes para melhorar a qualificação de seus estudantes – inclusive investindo pesadamente na formação de mestres e doutores em países mais avançados, especialmente na Inglaterra e nos Estados Unidos (o domínio do inglês foi considerado valioso em si, mais valioso que o do japonês ou de outras línguas). Resultado: todos estes países ultrapassaram a economia brasileira, a Índia superou a economia britânica e a China disputa a liderança mundial com os Estados Unidos.

O cadeado

O Brasil, além de jamais ter investido alto em estudantes no Exterior, reduziu as bolsas a quem já está em boas universidades internacionais.

 O próximo alvo

Delação premiada de doleiro atinge o prefeito do Rio, Marcelo Crivella. A vereadora Teresa Bergher, que tem boa fama, articula uma CPI.

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​Mostra o mau, esconde o bom

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Numa escorregada memorável, o então chanceler Rubens Ricúpero disse na TV, certo de que estava fora do ar, que o Governo mostrava o que era bom e escondia o que era ruim. O presidente Bolsonaro faz justinho o oposto: quando aparece notícia boa, arruma uma briga boba que a esconde. Vamos aqui inverter o processo: dar primeiro a boa notícia e aí contar como Bolsonaro a abafou. O motivo não conto, nem sei, e acho que nem ele sabe.

A boa notícia: o índice de desemprego no país caiu de 11,8% para 11,6%. A queda é minúscula, o índice ainda é monstruoso, o desemprego continua atingindo 12,4 milhões de pessoas. Mas a melhora, embora pequena, mostra queda no desemprego, e pode sinalizar uma tendência (ainda mais com o aumento da produção de papelão, que indica maior consumo de embalagens).

Bolsonaro preferiu povoar o noticiário com uma atitude autoritária e de legalidade discutível: na licitação de assinatura de jornais para o Governo, a Folha de S.Paulo foi excluída. Ninguém é obrigado a ler a Folha, nem o presidente, mas o Governo não pode ser privado das informações de um dos principais jornais do país. Por que? Primeiro, Bolsonaro disse que não podia inteirar-se de tudo o que fazia cada um de seus 22 ministérios. Então decidiu assumir, e disse: “Eu quero pedir à Folha que se retrate de todos os males e calúnias que fez contra a minha pessoa”. Sem problemas: para isso existe a Justiça. Se processar a Folha e ganhar, poderá obrigá-la a retratar-se de tudo.

Briga longa

Bolsonaro tem criticado pesadamente duas empresas de comunicação, às quais atribui má vontade e má fé ao dar notícias sobre ele (desde a campanha) e seu Governo: a Folha e o Grupo Globo. Mas, na licitação sobre assinaturas, só a Folha foi atingida: O Globo está entre os jornais a ser assinados. O problema é que Bolsonaro é presidente, mas não é o Governo. Por isso pode ter de enfrentar a reação da Folha nos tribunais – não pelo valor que deixa de receber, pequeno diante do seu porte, mas por uma questão de princípio.

Mais problemas

A decisão do STF de autorizar o compartilhamento de dados obtidos pela Unidade de Inteligência Financeira (ex-Coaf) com o Ministério Público e a Polícia, sem ordem judicial, traz de volta a questão de Flávio Bolsonaro: Dias Toffoli tinha proibido o compartilhamento sem ordem judicial, e os inquéritos instaurados com base nesse compartilhamento foram trancados. Agora, podem ser reabertos. Não é obrigatório que o sejam: a questão é complexa, e o STF deixou para o dia 4 a decisão sobre a maneira de tratar os processos até agora trancados. O caso está entre as queixas de Bolsonaro contra a Folha: foi quem publicou a movimentação financeira de Queiroz, o assessor mais ligado a Flávio Bolsonaro, o que acabou levando ao inquérito.

Pobres de elite

Heloísa Bolsonaro, esposa de Eduardo, o que foi sem nunca ter sido nosso embaixador em Washington, disse no Instagram que o casal “passa por perrengues” vivendo com o salário de cerca de R$ 33 mil do deputado federal. “A gente não fica andando de iate, de jatinho, de primeira classe”. A vida é dura: às vezes ela, pessoalmente, faz a faxina da casa para economizar. E não é só aí que se esforça para fazer economia: “Quando a gente vai para os Estados Unidos, economiza. No Havaí, vivíamos almoçando num mercadinho, que é maravilhoso, e nosso almoço era de US$ 2, US$ 3. Era assim, gente, ficava até mais magrinha, comida maravilhosa!”

Pura coincidência

A Polícia Federal indiciou o presidente do PSL, Luciano Bivar, por suspeita de envolvimento em esquema de candidatas-laranja, com o objetivo de desviar verba pública. O esquema, segundo as denúncias, funciona assim: o partido destina boa parte da verba que recebe do Tesouro para fazer campanha a candidatos que só fingem disputar, e devolvem o dinheiro quase todo para o patrocinador da maracutaia. Bivar foi quem entregou o partido a Bolsonaro para a campanha presidencial; mas depois reassumiu e manteve o controle sobre as magníficas verbas que todos os partidos recebem. Talvez seja este um dos motivos que levaram Bolsonaro a anunciar sua saída do PSL e a fundação de mais uma legenda, a Aliança. Bivar e Bolsonaro brigaram feio, Bivar está expulsando os bolsonaristas do PSL – entre eles Eduardo, o filho 03. Mas é claro que essa briga nada tem a ver com seu indiciamento.

Quem te viu

Sabe a ex-presidente do Tribunal de Justiça da Bahia, Maria do Socorro, apanhada pela Operação Faroeste e detida por ordem do Superior Tribunal de Justiça? Em 2015, pouco antes de assumir a presidência do TJ, em Salvador, a desembargadora Maria do Socorro avaliou a Lava Jato: “Acho que o processo está sendo eficiente (...) a justiça está sendo feita e os culpados deverão ser punidos (...) O povo está carente de Justiça e temos que mostrar que estamos aqui para servir”.

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​Louvado seja quem salva vidas

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O notável pastor anglicano John Donne escreveu num belo poema, há quase 500 anos, esta frase:  "Quando morre um homem, morremos todos, pois somos parte da humanidade". O Talmud, milenar livro judaico em que se discute a religião, diz: “Quem salva uma vida, salva a Humanidade”.

E aqui contamos uma história sobre como pessoas hoje falecidas se arriscaram para salvar vidas. Uma história que só poderia ser narrada após a morte dos protagonistas – o último, o rabino Henry Sobel, faleceu há dias.

Lá pelos anos 70, o advogado Idel Aronis chamou Henrique Veltman, jornalista de brilhante carreira, para uma conversa. Tinha sido montado um esquema de resgate de judeus argentinos e uruguaios, montoneros e tupamaros, presos em bases militares argentinas (e cuja vida corria riscos, pois lá as armas mandavam na lei). O esquema envolvia militares e funcionários argentinos legalistas (ou, se preciso, subornados), médicos e enfermeiras americanos, e aviões de Israel ou dos EUA, que levariam os presos resgatados para um dos dois países. Seria preciso parar no Brasil, para socorros médicos e criação de novos documentos. Pousariam em Viracopos (Campinas, SP), com a cobertura do delegado Romeu Tuma, cuja equipe controlava o aeroporto. A operação era dirigida por agentes israelenses e americanos, estes orientados pelo rabino Henry Sobel. A Veltman caberia evitar que o assunto vazasse para a imprensa, o que poria a operação a perder. 

O sucesso

Quantos voos? Não se sabe. Henrique Veltman acompanhou dois deles. O sucesso foi absoluto: ninguém de fora ficou sabendo, nada vazou para a imprensa, nem no Brasil, nem no Exterior. Firmou-se um pacto de silêncio: a história não seria contada enquanto Henry Sobel, Idel Aronis e Romeu Tuma estivessem vivos. Com a morte do último protagonista, Veltman contou a história dos homens que arriscaram suas vidas para salvar vidas.

Celebrando a vida

A maior condecoração do Império Britânico, a Ordem da Jarreteira, antiga de quase 700 anos, tem um lema em francês arcaico: “Honi soit qui mal y pense”, “envergonhe-se aquele que pensar o mal”. A quem recriminar os heróis que salvaram vidas humanas em risco, sem se preocupar com a ideologia que tivessem, este colunista recomenda: Honi soit qui mal y pense.

Aposte no não

Pesquisas indicam que 127% dos parlamentares apoiam a prisão de réus condenados em segunda instância. Talvez – mas é difícil acreditar que, com tantos ameaçados de processo, queiram de verdade aprovar algo que acelere a prisão dos condenados. Vão falar, exigir, gritar, mas logo se inicia o recesso e tudo esfria. A propósito, a comissão especial da Câmara que deve analisar a proposta de emenda constitucional que permite a prisão de condenados em segunda instância já tem uma semana, e só um partido, o Novo, indicou representante. Os outros partidos até agora não se deram a esse trabalho.

Ótima notícia 1

A informação é comprovada: de acordo com a CNI, Confederação Nacional da Indústria, o uso da capacidade industrial instalada cresceu em outubro, atingindo o maior nível desde 2014: 70%. Cresceu também a produção industrial: o indicador, 55,2, é o maior desde 2010. Isso ainda não se reflete no nível de emprego. Mas, se continuar, empregos serão criados.

Ótima notícia 2

A Klabin informou ontem que está produzindo papelão a plena carga. É uma informação importante, porque um dos principais usos do papelão é como embalagem. Se há consumo de embalagens, isso indica que a produção em geral está crescendo. Parte das encomendas da Klabin será entregue em dezembro, porque não há capacidade ociosa para aumentar já a produção.

Péssima notícia 1

Alguns dados ajudam a entender a crise do Brasil, e por que é difícil sair dela. Na Bahia, onde se produz apenas 1% do petróleo nacional, construiu-se um monumental edifício para a sede da Petrobras em Salvador. De acordo com os dados oficiais do site O Antagonista, a Petrobras ocupa quatro andares do prédio, a Torre da Pituba, que custou R$ 2,1 bilhões. Os demais andares estão vagos. O prédio tem ainda dois anexos vazios. No complexo da Pituba, há um edifício-garagem com 2.700 vagas, o maior estacionamento de Salvador. O Petros, fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, fez a obra, que a empresa, dirigida por Sérgio Gabrielli, se obrigava a alugar.

Lupa nele

O Ministério Público do Rio iniciou nova investigação sobre as atividades do hoje senador Flávio Bolsonaro em seus tempos de deputado estadual. A indagação: terá ele empregado funcionários fantasmas em seu gabinete na Assembleia fluminense? No fundo, é uma evolução do caso Queiroz, assessor que já admitiu a prática, dizendo porém que o fez por sua conta.

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​Em nome do pai e dos filhos

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Bolsonaro deve ser o presidente da Aliança, partido que está criando para apoiá-lo. Seus filhos Flávio e Jair Renan estarão entre os dirigentes da legenda. Eduardo Bolsonaro, o que foi sem nunca ter sido embaixador em Washington, deve ser líder da bancada federal. Dos filhos do presidente, só um ainda não tem posto definido na Aliança: Carluxo. Mas é certo que todas as confusões e brigas internas terão sua inevitável participação.

E que deseja a Aliança, fora apoiar Bolsonaro – aquilo que outros partidos já fazem sem dar trabalho? Os princípios que apresentou são paupérrimos: nada além do que já constava na propaganda bolsonarista da campanha eleitoral (liberal na economia, conservador nos costumes, contra o globalismo, pela manutenção das raízes cristãs do nossos país, respeito a Deus e à religião). Muita, muita arma: o partido quer o número 38, trezoitão, e seu símbolo foi elaborado com balas (espera-se que já usadas).

Qual a diferença entre a Aliança e o PSL, partido pelo qual Bolsonaro se elegeu, cuja propaganda se baseava em todos esses motes? Aparentemente, duas: o PSL traz o "S" de Social – embora o Social só seja visível em seu nome - e a Aliança nada tem de Social; e as belas verbas públicas destinadas a partidos e campanhas são controladas pelo dono da sigla, Luciano Bivar, enquanto, na Aliança, o dinheiro que entrar será gerido pela família 000. Mas alguém ousaria imaginar que fosse esse o motivo da separação?

Jogo no futuro

Bolsonaro terá de organizar o partido para, até março, poder apresentar candidatos. Terá pouco dinheiro público, já que o PSL, pelo qual se elegeu a maioria de seus apoiadores, é o dono das verbas. Mas tem um aliado forte em São Paulo: Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias. Skaf quer ser candidato ao Governo, e precisa de aliados contra o governador Dória.

Adeus, Sobel

Henry Sobel, rabino emérito da sinagoga da Congregação Israelita Paulista, morreu no dia 23, em Miami, EUA. Tive pouco contato pessoal com ele, mas o conheço pela trajetória de vida: nos duros tempos do Ato 5, quando pessoas desapareciam, quando réus compareciam a tribunais carregando marcas de tortura, Sobel teve a coragem de desafiar o arbítrio. A ditadura forjou um suicídio para explicar o assassínio do jornalista Vladimir Herzog. Só que, nos cemitérios judeus, há uma ala destinada aos suicidas. Sobel proibiu que Vlado fosse enterrado ali. Tendo sido morto por tortura, como a Justiça brasileira comprovaria, foi sepultado no lugar devido. Ele coordenou, com o cardeal D. Paulo Evaristo Arns e o reverendo James Wright, o gigantesco culto ecumênico por Vlado na Catedral de São Paulo – ali, protestantes, católicos e judeus se uniram a quem professava outras religiões, ou nenhuma, mas queria a liberdade de volta. Lutou contra o racismo e a discriminação. Com defeitos, com falhas (e, se não as tivesse, não seria um ser humano normal), que grande figura!

Sobre sua morte, segue abaixo um pequeno texto que escreveu em 2006.

Saindo e chegando

"Imagine que você está à beira-mar e vê um navio partindo. Você fica olhando, enquanto ele vai se afastando, cada vez mais longe, até que finalmente aparece apenas um ponto no horizonte. Lá o mar e o céu se encontram. E você diz: 'Pronto, ele se foi.' Foi aonde? Foi a um lugar que a sua visão não alcança, só isso. Ele continua tão grande, tão bonito e tão imponente como era quando estava perto de você. A dimensão diminuída está em você, não nele. E naquele momento em que você está dizendo: 'Ele se foi', há outros olhos vendo-o aproximar-se e outras vozes exclamando com alegria: 'Ele está chegando'". Ainda nos veremos, rabino Henry Sobel.

Próximos tiros

De um lado, a CPMI, que investiga a avalanche de notícias falsas (fake news): nesta terça, à uma da tarde, quem deve depor é o general Santos Cruz, que foi secretário-geral da Presidência da República, derrubado após campanha comandada por Carluxo, filho de Bolsonaro, e por Olavo de Carvalho, seu guru; de outro, o Governo, tentando esfriar a CPMI.

O Governo tenta impedir que outros parlamentares deponham, além de Alexandre Frota e Joice Hasselmann. Tarefa difícil – e talvez inútil, já que, além de parlamentares, gente que trabalhou com Bolsonaro e hoje atua em outros grupos, como Paulo Marinho (hoje com Dória) e Gustavo Bebbiano, podem falar. Eles conhecem, porque estiveram lá.

Caçando confusão

O deputado estadual paulista Frederico D'Ávila, do PSL, quis ajudar o presidente e seus filhos a buscar confusão desnecessária. Ávila convocou ato em homenagem ao falecido presidente chileno Augusto Pinochet, líder de uma ditadura feroz. E ainda, para enganar os colegas, D'Ávila usou o nome Augusto P. Ugarte para marcar o ato. Não adiantou: o ato foi desconvocado.

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