​A diplomacia do vai-vem

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O presidente Bolsonaro já desancou o presidente da Argentina, Alberto Fernandez, e nem o cumprimentou pela vitória nas eleições. Já disse que com a China deveríamos tomar cuidado: não apenas eram comunistas como não tinham grande vontade de investir no Brasil – apenas de comprar o país todo. Quis mandar seu filho para Washington, para que Trump tomasse conta dele.

São apenas os três maiores parceiros comerciais do Brasil. Não faz nem um ano e, quando os chineses não aparecem para comprar alguma coisa, o nosso Governo manda chamá-los. Para a posse de Fernández, primeiro não iria ninguém para representar o Brasil, depois iria um ministro, depois não iria ninguém, seríamos representados pelo embaixador brasileiro em Buenos Aires. Na última hora Bolsonaro mandou seu vice, o general Mourão. A mal – mas é que los hermanos devem pensar dos negócios com o Brasil?

Quanto a Trump, provavelmente também gosta de Bolsonaro e se dispõe a retribuir as concessões que nosso presidente já lhe fez, assim que se lembrar de quem é que se trata (“Mr. President, é o pai do garoto que se orgulhava de fritar hambúrgeres na Popeye, que não vende hambúrgueres!”) Claro que Trump, que chama seu desafeto Jeff Bezzos de “Bozo”, tem dificuldade para pronunciar o nome Bolsonaro. Deve se sentir tentado a abreviá-lo – e daí?

Essa diplomacia errante só tem conserto se surgir um chanceler acertante. Cadê ele? E insegurança diplomática é tão ruim quanto insegurança jurídica.

Los vecinos

O Governo argentino assume numa situação difícil – nada pior, para eles, do que lidar com um vizinho não confiável. Fernández terá de mostrar, logo nos primeiros dias, que é o presidente, não apenas um poste escolhido pela  vice Cristina Kirchner, ex-presidente e chefe de uma grande ala peronista. A situação econômica é dramática (e Fernández prometeu devolver o dinheiro à carteira dos pobres). Há as outras alas peronistas, da extrema esquerda à extrema direita, cada uma com sua versão do peronismo. Há até, algo raro,  um bloco antiperonista que já conseguiu ganhar uma eleição nacional. Cabe ao Brasil ajudar a clarear a situação – ou piorá-la de uma vez por todas.

O braço certo

Dizia o escritor italiano Pitigrilli que todo homem tem cinco minutos de imbecilidade por dia. A diferença entre os homens comuns e os gênios é que, nos seus cinco minutos, os gênios se calam. O novo presidente da Funarte gosta de usar esse tempinho para falar, que se há de fazer? Pois ele retomou um tema querido a Bolsonaro, citar nazismo e fascismo como ideologias de esquerda. Há ocasiões e interlocutores que não valem um debate. Mas lembrar como seria o mundo se eles tivessem razão vale a pena. Poderíamos começar com o Governo fascista de Getúlio Vargas entregando à Alemanha nazista a militante comunista Olga Benário. Por que os esquerdistas fascistas teriam entregue a esquerdista comunista Olga Benário a Hitler, esquerdista nazista? E a Falange fascista do generalíssimo Franco, sendo esquerdista, por que teria lutado contra comunistas e trotskistas, seus aliados de esquerda? E tudo culminaria quando o esquerdista Hitler atacou o esquerdista Stalin, com apoio da Divisão Azul espanhola – fascista e, portanto, esquerdista. Absurdo, não? Tão absurdo quanto gente que nem sabe o que fala pensar que pensa.

O bom e o mau

Este colunista está convencido de que a economia definirá o Governo de Jair Bolsonaro. Se a economia for mal, terá fracassado. Se for bem, terá sido um êxito, apesar de Damares, Weintraub, Salles e da família presidencial. A economia tem dado sinais de recuperação – fracos, ainda, mas aos quais nós já nos havíamos desacostumado. A brilhante economista-chefe da XP, Zeina Latif, avalia bem o desempenho da economia, mas acha que o Governo precisa avançar. “Passada a reforma da Previdência, sinalizava-se com novas propostas”, lembra. Mas a reforma tributária não avançou, a privatização da Eletrobrás ainda não saiu. Falta muita coisa. Fora as medidas econômicas, por quanto tempo o país aguentará mais de 12 milhões de desempregados?

Prender ou soltar

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou projeto de lei que permite a prisão de réus condenados em segunda instância. Mas calma: ainda há um projeto da Câmara, que deverá demorar mais, que emenda a Constituição para permitir a prisão em segunda instância. E o ano de 2019 está acabando: não há tempo de nenhum dos projetos ser definitivamente aprovado, então fica tudo para o ano que vem. Os senadores aproveitarão o recesso para mostrar a seus eleitores que votaram para antecipar as prisões, e votaram rapidamente. Terminado o recesso parlamentar, o jogo é outro: já não haverá pressões diretas do eleitorado. Em 2020 há eleição municipal, o Congresso funciona lentamente, os períodos de trabalho são mais curtos. E por que um parlamentar que pode se ver diante de um processo votará, na hora H, em favor de leis mais duras, que poderão prejudicá-lo?

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É coisa pouca, mas da boa

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Sim, continuamos no fundo do poço. Mas há sinais de que pelo menos já pararam de nos jogar terra em cima. Um economista de ótima reputação, Affonso Celso Pastore, acha que em 2020 já será possível crescer acima de 2%. Há quem preveja crescimento maior do que se esperava em 2019 – nada de excepcional, mas menos ruim do que se aguardava. O Santander esperava 0,8% de aumento do PIB em 2019, agora espera 1,2%. O Itaú mantém-se na previsão de 1%, mas admite a possibilidade de algo como 1,2%. O Goldman Sachs previa 1%, agora prevê 1,2% (e espera, para o ano que vem, de 2,2% a 2,3%). O Citi esperava 0,7% em 2019, agora fala em 1,1%. Para 2020, os 1,8% originais passam para 2,2%. Espera-se ainda, de acordo com pesquisa Valor PRO, uma boa subida no índice Bovespa, que há pouco ultrapassou os cem mil pontos. Das quinze organizações ouvidas, a menor previsão é de 125 mil pontos (Veedha Investimentos) e a maior de 150 mil (Mauá Capital).

Não é nada, não é nada, concretamente não é quase nada, mesmo. Mas é surpreendente neste período, que vem desde o governo Dilma, em que todos os índices diminuíam, exceto o da inflação. E por que há essa melhora, ainda insuficiente? Solange Srour, economista-chefe da ARX, diz que, graças ao FGTS liberado em setembro, à melhora do crédito e à inflação em baixa, o consumo das famílias se ampliou, e como o efeito maior deste consumo será sentido no quarto trimestre, ainda dá para crescer. Mas há muito a fazer.

Apenas um retrato

A revista Veja pediu à FSB uma pesquisa sobre as eleições presidenciais, que se realizarão em 2022, daqui a três anos. Neste momento, os resultados não querem dizer nada: valem apenas como registro. Ainda não se sabe quem será candidato, nem quais alianças serão formadas, nem como se comportará o principal fator eleitoral: a economia. Mas, apenas como curiosidade, se as eleições se realizassem hoje, Bolsonaro venceria Lula no segundo turno por 45% a 40%. Sergio Moro derrotaria Lula por 48% a 39%.

Vergonha nacional 1

Suas Excelências acham que é pouco o dinheirão que recebem do Tesouro para financiar suas campanhas eleitorais. Estão praticamente dobrando a já gigantesca verba inicialmente prevista, de R$ 2 bilhões, para R$ 3,8 bilhões. E, para consolidar esse espantoso volume de dinheiro, tiraram verbas da Saúde (R$ 500 milhões), da Educação (R$ 280 milhões) e de habitação popular, como Minha Casa Minha Vida, e saneamento (R$ 380 milhões). Talvez no ano que vem reponham essas verbas, mas isso não é garantido. Garantido é só aquilo que serve aos interesses dos nobres parlamentares.

Vergonha nacional 2

Lembra daquela licitação que proporcionava aos ministros do Supremo um excelente menu para banquetes institucionais? Sim, aquela das lagostas, dos vinhos várias vezes premiados? Pois bem, o Tribunal de Contas da União liberou a compra dos produtos previstos na licitação, com uma só restrição: o cardápio chiquérrimo só deve ser utilizado em eventos de que participem pelo menos duas altas autoridades. Curioso. Digamos que o presidente do Supremo Tribunal de uma nação amiga venha sozinho ao Brasil e o Supremo o convide. Sendo ele apenas uma alta autoridade, que cardápio lhe servirão?

Vergonha estadual

A Operação Faroeste, que atingiu pesadamente o Tribunal de Justiça da Bahia, revelou um fato interessantíssimo: a corrupção era passada, presente e futura. A ex-presidente do TJ, Maria do Socorro Barreto Santiago, chegou a ser presa; o atual presidente, Gesivaldo Britto, foi afastado. Maria da Graça Osório Pimentel Leal seria eleita presidente no dia seguinte, não fosse a ação da Polícia Federal.  As acusações são de venda de sentenças.

Jogo dos erros

Claro, tinha de ser ele. O ministro da Educação, Abraham Weintraub, louvou no twitter “o primeiro ano que o rei, Roberto Carlos, se livrou do mico dos marinho”. E, como homenagem a Roberto Carlos (supõe-se que se baseie nas notícias equivocadas de que não haveria o tradicional especial de fim do ano de Roberto na Globo), posta seu irmão Arthur Weintraub tocando ao piano um sucesso do rei. Mas haverá show, sim: na sexta, 20 de dezembro.

Tudo normal

A diferença entre os especiais de Roberto a que todos se acostumaram e este é que em vez de gravar tudo de uma vez, o show usa trechos de dois espetáculos de Roberto em excursões internacionais, tudo costurado por uma exibição no Teatro de Arame, de Curitiba, gravada nestes últimos dias. No fundo, o show de sempre: aquelas músicas que todos conhecem e fazem questão de ouvir de novo, mais uma composição nova, mais algo cantado em espanhol. O que há de novo é uma volta ao passado: Erasmo estará com ele, mas dizem, extra-oficialmente, que terá não apenas uma participação pequena: ficaria como co-apresentador, como nos tempos da Jovem Guarda.

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​Loucademia de política

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A partir de agora, talvez seja melhor ignorar os conselhos de seu guru de aplicações, dos peritos em finanças do jornal, daqueles senhores com pilhas de diplomas e títulos em inglês (representados por iniciais em três letras), e investir num produto que, ao que tudo indica, terá sua procura multiplicada: boas e bonitas camisas de força. Nelson Rodrigues dizia que os idiotas iriam tomar conta do mundo, não pela capacidade, mas pela quantidade. “Eles são muitos”. Mas talvez outro tipo de gente já esteja ocupando o poder.

O novo presidente da Funarte, Fundação Nacional de Artes, é Dante Mantovani. Em vídeo, disse que a indústria musical americana se relacionou com serviços de inteligência, e que agentes soviéticos infiltrados inseriram “certos elementos” em músicas para “experimentações” com adolescentes e crianças. O resultado teria sido o rock de Elvis Presley e dos Beatles, ambos partes do plano para destruir os Estados Unidos e o capitalismo pela destruição da moral da juventude e das famílias. Textual: “O rock ativa a droga que ativa o sexo que ativa a indústria do aborto. E a indústria do aborto alimenta uma coisa muito mais pesada, que é o satanismo. O próprio John Lennon disse abertamente, mais de uma vez, que fez um pacto com Satanás”.

O fato de que os EUA e o capitalismo estão de pé e a União Soviética ruiu com seu império comunista não importa. Voltando a Nelson Rodrigues: quem manda são loucos que parecem idiotas ou idiotas que parecem loucos?

Negócios à parte

Bolsonaro fez o que pôde para demonstrar sua paixão por Donald Trump. Seu filho posou com boné de Trump, disse que é amigo dos filhos do ídolo, tão americanófilo que garantiu ter fritado hambúrguer quando trabalhou nos EUA, na loja Popeye’s – que faz frango frito e não hambúrguer. Um dia, nosso presidente teria de aprender que um país não tem amigos, tem interesses. O amigo do peito, o chapa, aquele que, por amizade, ia botar o Brasil na OCDE (e, aliás, indicou a Argentina, não o Brasil), resolveu taxar em 100% as importações de aço e alumínio brasileiros. Pior: usando pretextos falsos, de que o Brasil deliberadamente enfraquecia o real para ter ganhos comerciais. Trump e seus assessores sabem que o Brasil tem câmbio flutuante e o Governo pode pouco sobre o valor da moeda. Bolsonaro diz que vai ligar para Trump, que retornará assim que lembrar de quem se trata.

Amigos, amigos

O Brasil já deveria ter aprendido a lição. Bolsonaro fez o que podia para mostrar que Trump é seu ídolo. Mas Trump não liberou importações de açúcar brasileiro; a carne não industrializada do Brasil continua proibida de entrar nos EUA. Trump diz que não pode permitir que o agricultor americano seja prejudicado. Já o álcool americano entra no Brasil livremente, concorrendo com o álcool brasileiro. E a Base Aeroespacial de Alcântara foi cedida em boas condições para que os americanos a operem. Quando Trump diz que quer a “America great again”, não inclui nada fora de suas fronteiras. De seu ponto de vista, está correto: quem é que vota na eleição americana?

Nóis num lê...

Devastador. No exame internacional PISA, aplicado pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para medir capacidade de Leitura, Matemática e Ciências entre estudantes de 15 anos de idade, de 79 países, o Brasil ocupou postos no último terço da classificação. Entre dez estudantes brasileiros, quatro não conseguem identificar a principal ideia de um texto, nem ler gráficos ou resolver problemas com números inteiros (se entrar fração, piora), nem entender uma experiência científica simples.

Nem eles

Na América Latina, só três países conseguiram ficar abaixo do Brasil em Matemática: Argentina, Panamá e República Dominicana. Em Ciência, só dois: Panamá e República Dominicana – esta a última do ranking mundial.

A chave da riqueza

Em 1960, a economia brasileira era bem maior que a da Coreia do Sul, da Índia e da China. Os três países fizeram esforços importantes para melhorar a qualificação de seus estudantes – inclusive investindo pesadamente na formação de mestres e doutores em países mais avançados, especialmente na Inglaterra e nos Estados Unidos (o domínio do inglês foi considerado valioso em si, mais valioso que o do japonês ou de outras línguas). Resultado: todos estes países ultrapassaram a economia brasileira, a Índia superou a economia britânica e a China disputa a liderança mundial com os Estados Unidos.

O cadeado

O Brasil, além de jamais ter investido alto em estudantes no Exterior, reduziu as bolsas a quem já está em boas universidades internacionais.

 O próximo alvo

Delação premiada de doleiro atinge o prefeito do Rio, Marcelo Crivella. A vereadora Teresa Bergher, que tem boa fama, articula uma CPI.

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​Mostra o mau, esconde o bom

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Numa escorregada memorável, o então chanceler Rubens Ricúpero disse na TV, certo de que estava fora do ar, que o Governo mostrava o que era bom e escondia o que era ruim. O presidente Bolsonaro faz justinho o oposto: quando aparece notícia boa, arruma uma briga boba que a esconde. Vamos aqui inverter o processo: dar primeiro a boa notícia e aí contar como Bolsonaro a abafou. O motivo não conto, nem sei, e acho que nem ele sabe.

A boa notícia: o índice de desemprego no país caiu de 11,8% para 11,6%. A queda é minúscula, o índice ainda é monstruoso, o desemprego continua atingindo 12,4 milhões de pessoas. Mas a melhora, embora pequena, mostra queda no desemprego, e pode sinalizar uma tendência (ainda mais com o aumento da produção de papelão, que indica maior consumo de embalagens).

Bolsonaro preferiu povoar o noticiário com uma atitude autoritária e de legalidade discutível: na licitação de assinatura de jornais para o Governo, a Folha de S.Paulo foi excluída. Ninguém é obrigado a ler a Folha, nem o presidente, mas o Governo não pode ser privado das informações de um dos principais jornais do país. Por que? Primeiro, Bolsonaro disse que não podia inteirar-se de tudo o que fazia cada um de seus 22 ministérios. Então decidiu assumir, e disse: “Eu quero pedir à Folha que se retrate de todos os males e calúnias que fez contra a minha pessoa”. Sem problemas: para isso existe a Justiça. Se processar a Folha e ganhar, poderá obrigá-la a retratar-se de tudo.

Briga longa

Bolsonaro tem criticado pesadamente duas empresas de comunicação, às quais atribui má vontade e má fé ao dar notícias sobre ele (desde a campanha) e seu Governo: a Folha e o Grupo Globo. Mas, na licitação sobre assinaturas, só a Folha foi atingida: O Globo está entre os jornais a ser assinados. O problema é que Bolsonaro é presidente, mas não é o Governo. Por isso pode ter de enfrentar a reação da Folha nos tribunais – não pelo valor que deixa de receber, pequeno diante do seu porte, mas por uma questão de princípio.

Mais problemas

A decisão do STF de autorizar o compartilhamento de dados obtidos pela Unidade de Inteligência Financeira (ex-Coaf) com o Ministério Público e a Polícia, sem ordem judicial, traz de volta a questão de Flávio Bolsonaro: Dias Toffoli tinha proibido o compartilhamento sem ordem judicial, e os inquéritos instaurados com base nesse compartilhamento foram trancados. Agora, podem ser reabertos. Não é obrigatório que o sejam: a questão é complexa, e o STF deixou para o dia 4 a decisão sobre a maneira de tratar os processos até agora trancados. O caso está entre as queixas de Bolsonaro contra a Folha: foi quem publicou a movimentação financeira de Queiroz, o assessor mais ligado a Flávio Bolsonaro, o que acabou levando ao inquérito.

Pobres de elite

Heloísa Bolsonaro, esposa de Eduardo, o que foi sem nunca ter sido nosso embaixador em Washington, disse no Instagram que o casal “passa por perrengues” vivendo com o salário de cerca de R$ 33 mil do deputado federal. “A gente não fica andando de iate, de jatinho, de primeira classe”. A vida é dura: às vezes ela, pessoalmente, faz a faxina da casa para economizar. E não é só aí que se esforça para fazer economia: “Quando a gente vai para os Estados Unidos, economiza. No Havaí, vivíamos almoçando num mercadinho, que é maravilhoso, e nosso almoço era de US$ 2, US$ 3. Era assim, gente, ficava até mais magrinha, comida maravilhosa!”

Pura coincidência

A Polícia Federal indiciou o presidente do PSL, Luciano Bivar, por suspeita de envolvimento em esquema de candidatas-laranja, com o objetivo de desviar verba pública. O esquema, segundo as denúncias, funciona assim: o partido destina boa parte da verba que recebe do Tesouro para fazer campanha a candidatos que só fingem disputar, e devolvem o dinheiro quase todo para o patrocinador da maracutaia. Bivar foi quem entregou o partido a Bolsonaro para a campanha presidencial; mas depois reassumiu e manteve o controle sobre as magníficas verbas que todos os partidos recebem. Talvez seja este um dos motivos que levaram Bolsonaro a anunciar sua saída do PSL e a fundação de mais uma legenda, a Aliança. Bivar e Bolsonaro brigaram feio, Bivar está expulsando os bolsonaristas do PSL – entre eles Eduardo, o filho 03. Mas é claro que essa briga nada tem a ver com seu indiciamento.

Quem te viu

Sabe a ex-presidente do Tribunal de Justiça da Bahia, Maria do Socorro, apanhada pela Operação Faroeste e detida por ordem do Superior Tribunal de Justiça? Em 2015, pouco antes de assumir a presidência do TJ, em Salvador, a desembargadora Maria do Socorro avaliou a Lava Jato: “Acho que o processo está sendo eficiente (...) a justiça está sendo feita e os culpados deverão ser punidos (...) O povo está carente de Justiça e temos que mostrar que estamos aqui para servir”.

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​Louvado seja quem salva vidas

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O notável pastor anglicano John Donne escreveu num belo poema, há quase 500 anos, esta frase:  "Quando morre um homem, morremos todos, pois somos parte da humanidade". O Talmud, milenar livro judaico em que se discute a religião, diz: “Quem salva uma vida, salva a Humanidade”.

E aqui contamos uma história sobre como pessoas hoje falecidas se arriscaram para salvar vidas. Uma história que só poderia ser narrada após a morte dos protagonistas – o último, o rabino Henry Sobel, faleceu há dias.

Lá pelos anos 70, o advogado Idel Aronis chamou Henrique Veltman, jornalista de brilhante carreira, para uma conversa. Tinha sido montado um esquema de resgate de judeus argentinos e uruguaios, montoneros e tupamaros, presos em bases militares argentinas (e cuja vida corria riscos, pois lá as armas mandavam na lei). O esquema envolvia militares e funcionários argentinos legalistas (ou, se preciso, subornados), médicos e enfermeiras americanos, e aviões de Israel ou dos EUA, que levariam os presos resgatados para um dos dois países. Seria preciso parar no Brasil, para socorros médicos e criação de novos documentos. Pousariam em Viracopos (Campinas, SP), com a cobertura do delegado Romeu Tuma, cuja equipe controlava o aeroporto. A operação era dirigida por agentes israelenses e americanos, estes orientados pelo rabino Henry Sobel. A Veltman caberia evitar que o assunto vazasse para a imprensa, o que poria a operação a perder. 

O sucesso

Quantos voos? Não se sabe. Henrique Veltman acompanhou dois deles. O sucesso foi absoluto: ninguém de fora ficou sabendo, nada vazou para a imprensa, nem no Brasil, nem no Exterior. Firmou-se um pacto de silêncio: a história não seria contada enquanto Henry Sobel, Idel Aronis e Romeu Tuma estivessem vivos. Com a morte do último protagonista, Veltman contou a história dos homens que arriscaram suas vidas para salvar vidas.

Celebrando a vida

A maior condecoração do Império Britânico, a Ordem da Jarreteira, antiga de quase 700 anos, tem um lema em francês arcaico: “Honi soit qui mal y pense”, “envergonhe-se aquele que pensar o mal”. A quem recriminar os heróis que salvaram vidas humanas em risco, sem se preocupar com a ideologia que tivessem, este colunista recomenda: Honi soit qui mal y pense.

Aposte no não

Pesquisas indicam que 127% dos parlamentares apoiam a prisão de réus condenados em segunda instância. Talvez – mas é difícil acreditar que, com tantos ameaçados de processo, queiram de verdade aprovar algo que acelere a prisão dos condenados. Vão falar, exigir, gritar, mas logo se inicia o recesso e tudo esfria. A propósito, a comissão especial da Câmara que deve analisar a proposta de emenda constitucional que permite a prisão de condenados em segunda instância já tem uma semana, e só um partido, o Novo, indicou representante. Os outros partidos até agora não se deram a esse trabalho.

Ótima notícia 1

A informação é comprovada: de acordo com a CNI, Confederação Nacional da Indústria, o uso da capacidade industrial instalada cresceu em outubro, atingindo o maior nível desde 2014: 70%. Cresceu também a produção industrial: o indicador, 55,2, é o maior desde 2010. Isso ainda não se reflete no nível de emprego. Mas, se continuar, empregos serão criados.

Ótima notícia 2

A Klabin informou ontem que está produzindo papelão a plena carga. É uma informação importante, porque um dos principais usos do papelão é como embalagem. Se há consumo de embalagens, isso indica que a produção em geral está crescendo. Parte das encomendas da Klabin será entregue em dezembro, porque não há capacidade ociosa para aumentar já a produção.

Péssima notícia 1

Alguns dados ajudam a entender a crise do Brasil, e por que é difícil sair dela. Na Bahia, onde se produz apenas 1% do petróleo nacional, construiu-se um monumental edifício para a sede da Petrobras em Salvador. De acordo com os dados oficiais do site O Antagonista, a Petrobras ocupa quatro andares do prédio, a Torre da Pituba, que custou R$ 2,1 bilhões. Os demais andares estão vagos. O prédio tem ainda dois anexos vazios. No complexo da Pituba, há um edifício-garagem com 2.700 vagas, o maior estacionamento de Salvador. O Petros, fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, fez a obra, que a empresa, dirigida por Sérgio Gabrielli, se obrigava a alugar.

Lupa nele

O Ministério Público do Rio iniciou nova investigação sobre as atividades do hoje senador Flávio Bolsonaro em seus tempos de deputado estadual. A indagação: terá ele empregado funcionários fantasmas em seu gabinete na Assembleia fluminense? No fundo, é uma evolução do caso Queiroz, assessor que já admitiu a prática, dizendo porém que o fez por sua conta.

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​Em nome do pai e dos filhos

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Bolsonaro deve ser o presidente da Aliança, partido que está criando para apoiá-lo. Seus filhos Flávio e Jair Renan estarão entre os dirigentes da legenda. Eduardo Bolsonaro, o que foi sem nunca ter sido embaixador em Washington, deve ser líder da bancada federal. Dos filhos do presidente, só um ainda não tem posto definido na Aliança: Carluxo. Mas é certo que todas as confusões e brigas internas terão sua inevitável participação.

E que deseja a Aliança, fora apoiar Bolsonaro – aquilo que outros partidos já fazem sem dar trabalho? Os princípios que apresentou são paupérrimos: nada além do que já constava na propaganda bolsonarista da campanha eleitoral (liberal na economia, conservador nos costumes, contra o globalismo, pela manutenção das raízes cristãs do nossos país, respeito a Deus e à religião). Muita, muita arma: o partido quer o número 38, trezoitão, e seu símbolo foi elaborado com balas (espera-se que já usadas).

Qual a diferença entre a Aliança e o PSL, partido pelo qual Bolsonaro se elegeu, cuja propaganda se baseava em todos esses motes? Aparentemente, duas: o PSL traz o "S" de Social – embora o Social só seja visível em seu nome - e a Aliança nada tem de Social; e as belas verbas públicas destinadas a partidos e campanhas são controladas pelo dono da sigla, Luciano Bivar, enquanto, na Aliança, o dinheiro que entrar será gerido pela família 000. Mas alguém ousaria imaginar que fosse esse o motivo da separação?

Jogo no futuro

Bolsonaro terá de organizar o partido para, até março, poder apresentar candidatos. Terá pouco dinheiro público, já que o PSL, pelo qual se elegeu a maioria de seus apoiadores, é o dono das verbas. Mas tem um aliado forte em São Paulo: Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias. Skaf quer ser candidato ao Governo, e precisa de aliados contra o governador Dória.

Adeus, Sobel

Henry Sobel, rabino emérito da sinagoga da Congregação Israelita Paulista, morreu no dia 23, em Miami, EUA. Tive pouco contato pessoal com ele, mas o conheço pela trajetória de vida: nos duros tempos do Ato 5, quando pessoas desapareciam, quando réus compareciam a tribunais carregando marcas de tortura, Sobel teve a coragem de desafiar o arbítrio. A ditadura forjou um suicídio para explicar o assassínio do jornalista Vladimir Herzog. Só que, nos cemitérios judeus, há uma ala destinada aos suicidas. Sobel proibiu que Vlado fosse enterrado ali. Tendo sido morto por tortura, como a Justiça brasileira comprovaria, foi sepultado no lugar devido. Ele coordenou, com o cardeal D. Paulo Evaristo Arns e o reverendo James Wright, o gigantesco culto ecumênico por Vlado na Catedral de São Paulo – ali, protestantes, católicos e judeus se uniram a quem professava outras religiões, ou nenhuma, mas queria a liberdade de volta. Lutou contra o racismo e a discriminação. Com defeitos, com falhas (e, se não as tivesse, não seria um ser humano normal), que grande figura!

Sobre sua morte, segue abaixo um pequeno texto que escreveu em 2006.

Saindo e chegando

"Imagine que você está à beira-mar e vê um navio partindo. Você fica olhando, enquanto ele vai se afastando, cada vez mais longe, até que finalmente aparece apenas um ponto no horizonte. Lá o mar e o céu se encontram. E você diz: 'Pronto, ele se foi.' Foi aonde? Foi a um lugar que a sua visão não alcança, só isso. Ele continua tão grande, tão bonito e tão imponente como era quando estava perto de você. A dimensão diminuída está em você, não nele. E naquele momento em que você está dizendo: 'Ele se foi', há outros olhos vendo-o aproximar-se e outras vozes exclamando com alegria: 'Ele está chegando'". Ainda nos veremos, rabino Henry Sobel.

Próximos tiros

De um lado, a CPMI, que investiga a avalanche de notícias falsas (fake news): nesta terça, à uma da tarde, quem deve depor é o general Santos Cruz, que foi secretário-geral da Presidência da República, derrubado após campanha comandada por Carluxo, filho de Bolsonaro, e por Olavo de Carvalho, seu guru; de outro, o Governo, tentando esfriar a CPMI.

O Governo tenta impedir que outros parlamentares deponham, além de Alexandre Frota e Joice Hasselmann. Tarefa difícil – e talvez inútil, já que, além de parlamentares, gente que trabalhou com Bolsonaro e hoje atua em outros grupos, como Paulo Marinho (hoje com Dória) e Gustavo Bebbiano, podem falar. Eles conhecem, porque estiveram lá.

Caçando confusão

O deputado estadual paulista Frederico D'Ávila, do PSL, quis ajudar o presidente e seus filhos a buscar confusão desnecessária. Ávila convocou ato em homenagem ao falecido presidente chileno Augusto Pinochet, líder de uma ditadura feroz. E ainda, para enganar os colegas, D'Ávila usou o nome Augusto P. Ugarte para marcar o ato. Não adiantou: o ato foi desconvocado.

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​Um dia, talvez, talvez quem sabe

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A reforma da Previdência está aí, o megaleilão do pré-sal não foi lá essas coisas mas se realizou, discretamente há privatizações andando, a inflação está baixa, os juros (oficiais) nunca foram tão reduzidos. Há até um ou outro tímido indício de recuperação econômica – pequena, pequena, mas melhor do que zero. Cadê a avalanche de investimentos estrangeiros que, dizia o ministro Paulo Guedes, esperava ansiosa essas medidas para inundar o país?

Pelo jeito, faltou apenas uma coisinha: combinar com os investidores do Exterior. Pois, ao contrário do que se imaginava, de janeiro até agora o que houve foi desinvestimento: quase US$ 50 bilhões deixaram o Brasil. Parte pela situação internacional – para o cidadão americano de classe média baixa que aplica suas economias em fundos, Bolívia, Venezuela, Argentina, Chile e Brasil é tudo mais ou menos a mesma coisa, latinos – e crises nos países vizinhos os levam a desconfiar do Brasil. Fora isso, é mais fácil e seguro por dinheiro nos Estados Unidos, onde a economia vem crescendo. Mas parte é culpa brasileira: essa coisa bolsonariana de crise permanente não anima os investidores, e eventos como o crescimento da área derrubada da Amazônia fazem surgir temores de represálias que podem prejudicar o agronegócio e a mineração, pontos fortes do Brasil. O investidor tem outras oportunidades. E, entre suas características, adora a tranquilidade. Como achá-la por aqui?

Pois é

A literatura econômica ensinou ao ministro Paulo Guedes que, preparado o terreno para recebê-los, os investimentos fluem. E ele acreditou.

Brigando com fatos

Diante do derrame de petróleo em costas brasileiras – a responsabilidade não é de Bolsonaro – nosso Governo correu para parecer culpado. Acusou o Greenpeace, acusou um navio grego, sem comprovar nada, exceto que não tem ideia do que houve. Aí surge um tal secretário da Pesca e diz que peixe é inteligente: foge do petróleo e não se contamina. Cresce o desmatamento na Amazônia, e o Governo põe a culpa até na Noruega. Mas, diante das palavras oficiais contra a os defesa do meio-ambiente, os delinquentes se animaram e ampliaram as atividades ilegais. Só agora o Governo promete reprimir ilegalidades. Teve de recuar. É duro brigar com fatos – eles vencem.

Escondendo o bom

Na briga com os fatos, o Governo ocultou uma boa notícia: com a redução das despesas públicas e o aumento da arrecadação, os recursos orçamentários que tinham sido bloqueados foram liberados. Ou seja, na gestão econômica, sem envolvimentos políticos, o Governo vai bem. Mas quem presta atenção em notícias como essa, quando Bolsonaro e antigos aliados trocam insultos?

Proibido para menores

O texto que se segue transcreve, sem modificações, um debate do ministro da Educação, Abraham Weintraub, pelo twitter, com gente que o criticou. Sua Excelência lembrava favoravelmente a Monarquia, e um crítico disse: “Se voltarmos à Monarquia, certamente você será nomeado bobo da corte!”. Weintraub: “Uma pena, prefiro cuidar dos estábulos, ficaria mais perto da égua sarnenta e desdentada da sua mãe”. Em seguida, outra pessoa reagiu: “Andando na rua encontrei seu bom senso. Ele mandou lembranças e disse que está com saudades!” Weintraub: “Que bom, agora continue procurando pelo seu pai...” Mais surpreendente do que ser ministro é cuidar da Educação.

Economia é a chave

Espere-se que as brigas partidárias e grosserias públicas não atrapalhem o que é importante: como dizia o principal assessor de Bill Clinton na disputa pela Presidência americana, “é a economia, estúpido”. Afinal, se a economia der certo, o balanço do Governo será positivo. O Ministério da Economia promete enviar ao Congresso um vasto programa de reforma tributária, que deve simplificar o ultracomplexo sistema nacional de impostos.

Os novos caminhos

O plano é enviar a reforma tributária em quatro etapas, sendo a primeira neste mês e a última em meados do ano que vem. Primeira: unificar PIS e Cofins, que alcançam produtos e serviços. Em seguida, no começo do ano legislativo, o novo IPI, que deve mudar de natureza: em vez de arrecadatório, passa a seletivo, para inibir o consumo de cigarros, bebidas, etc. A terceira fase, até o fim do primeiro trimestre, mexe no Imposto de Renda de pessoas físicas, com uma alíquota extra para rendas mais altas, e aumento da faixa de isenção. A última fase é a desoneração da folha de salários das empresas. 

Sem fantasia

Não se impressione com a campanha que pede o impeachment de Toffoli e Gilmar Mendes. Não é impossível que dê certo, mas é improvável. O STF segurou o processo contra o filho de Bolsonaro e libertou Lula. A campanha pela prisão após condenação em segunda instância também é complicada. Os parlamentares sabem que podem ser vítimas. Vão piorar a própria situação?

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​Bolsonarismo colorido

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O Brasil se habituou a demonizar Fernando Collor, mas foi ele que iniciou a abertura de importações (obrigando a indústria brasileira a se tornar mais competitiva), criticou as multinacionais automobilísticas pelas “carroças” que produzia por aqui, acabou com o cheque ao portador, combatendo a lavagem de dinheiro. Em meio a inúmeras besteiras, a confrontos (evitáveis) de que parecia gostar e ao desprezo pela política, fez coisas boas. As besteiras o derrubaram. E Pedro, seu irmão, o levou de vez ao naufrágio.

Bolsonaro tem muito em comum com Collor: o desprezo pelos partidos (vai agora para o nono) e pela política, o gosto pelo confronto, a dificuldade de negociar os melhores caminhos para atingir seus objetivos. Tem feito boas coisas, também como Collor: os acordos com a China, na infraestrutura e na agroindústria, têm potencial para dar impulso à economia e gerar empregos. Boa parte das medidas econômicas facilitará os negócios, outra boa parte deve tirar das costas do Governo imensas despesas. A baixa inflação e os juros oficiais no ponto mais baixo da história são fatores importantes para a retomada do crescimento – se bem que alguém precisa convencer os bancos privados de que, ganhando sozinhos, logo não terão mais a quem esfolar.

O problema de governar por atrito é que atrito desgasta. Collor caiu e, não houvesse tantos atritos, teria ficado. Bolsonaro também detesta negociar e gosta de atritos. Como Collor, tem muitos inimigos. E também tem parentes.

Lembrando longe

Jânio Quadros foi um fenômeno político. Em 15 anos, passou de suplente de vereador em São Paulo a presidente da República. Dizia-se adversário dos ricos (“o tostão contra o milhão”), exigia a moralização dos costumes – chegou a se intrometer na moda feminina, condenando biquínis – atacava a imprensa, proclamava-se um homem do povo, que comia sanduíches no comício e tirava bananas do bolso por não ter almoçado ou jantado. Usava roupas surradas, amassadas, sempre com vestígios de caspa nos ombros, detestava partidos e publicamente renegava negociações. Depois de sete meses de Presidência, incapaz de negociar sequer com seus partidários, como Carlos Lacerda, renunciou esperando voltar nos braços do povo. Não voltou.

Boa notícia

O Governo está reduzindo a zero as alíquotas de importação de quase 500 bens de capital e 34 bens de informática e telecomunicações. Com isso, as empresas brasileiras ganham condições de renovar equipamentos e reduzir custos, tornando-se mais competitivas. Esta política vem sendo executada discretamente desde o início do Governo Bolsonaro: 2.300 produtos foram liberados de impostos de importação, incluindo remédios para Aids e câncer, máquinas para produzir medicamentos, equipamentos médicos para exames e cirurgias, máquinas pesadas para construção e robôs industriais.

Novo partido...

Bolsonaro anunciou oficialmente sua saída do PSL, pelo qual se elegeu. Tentará bater um recorde: fundar um novo partido, Aliança para o Brasil, até março, para que possa apresentar candidatos às eleições municipais de 2020. É difícil: o PSD, comandado por Gilberto Kassab, que conhece o mecanismo da política, e com a ajuda de um mestre do assunto, Guilherme Afif, levou o dobro do tempo. O prazo é o principal problema da nova legenda. Dinheiro é o problema seguinte: as verbas são distribuídas segundo a bancada federal, e o novo partido não tem bancada. Quem sair do PSL fica sem verba para a eleição. Pode perder também o mandato, pela Lei da Fidelidade Partidária.

Bolsonaro colocou no comando da organização do partido o advogado Admir Gonzaga, que é do ramo. No comando político, seu filho 03, Eduardo. Jogada de risco: se, presidente, Bolsonaro não conseguir fundar um partido viável, terá dado a indicação de que não tem poder político. Daí a uma tentativa de impeachment a distância é curta. Bolsonaro, imagina-se, fez todo o cálculo. Collor e Jânio também fizeram o cálculo e ficaram no caminho.

...e daí?

Para Bolsonaro, não faz sentido partilhar seu prestígio e poder com o PSL, deixando o partido (e as verbas) sob o comando de Luciano Bivar. Tem suas razões: o PSL só elegeu tanta gente (e garantiu tanto dinheiro público para a próxima campanha) graças a Bolsonaro, mas Bivar não divide as verbas. Para o caro leitor, a questão é outra: que diferença faz se Bolsonaro for do PSL, da Aliança ou do Partido Rosa-Choque da Nova Direita Radical Intransigente pela Moral Pública e Privada? Acertou: nenhuma.

Predador humano

A Polícia mato-grossense localizou a fazenda onde um caçador matou três onças pintadas para vender a pele, no município de Cocalinho, a 923 km de Cuiabá. O “caçador de onças”, como se intitulava, gravou um vídeo em que, sorridente, mostrava as onças mortas. Detalhe: a onça é um predador  essencial para manter o equilíbrio ambiental. Sem onças, a plantação sofre.

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​O futuro como o futuro será

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Dizia o ministro Pedro Malan que no Brasil não era possível prever nem o passado. Dizia o ministro Delfim Netto que no Brasil previsão para mais de 15 minutos é chute. Mas sabemos como o Brasil funciona. Tentemos.

A emenda constitucional (ou lei, falta decidir) que determine o início de cumprimento de pena após a condenação em segunda instância é prometida por diversos parlamentares e, a julgar pelas manifestações de domingo, tem apoio popular. Mas quantos, dos 513 deputados e 81 senadores, se sentem a salvo de cair nessa situação? Lembremos rapidamente: o poderoso deputado Eduardo Cunha está preso, Geddel Vieira Lima, que foi deputado e ministro, está preso (com o irmão Lúcio, também deputado, também preso), Delcídio, o senador, tantos outros. E Aécio, neto de presidente, teve de submergir.

Claro, talvez a pressão prevaleça e o Congresso examine a medida com bons olhos (mas sabendo que aprová-la significa destrancar a jaula das feras). Aí entra a tese defendida pelo presidente do Senado, David Alcolumbre: se o Congresso aprovar uma medida que contrarie uma decisão do Supremo, estará buscando o confronto. Não é bem assim: o STF decidiu conforme as disposições vigentes. Se as normas mudarem, muda o entendimento, sem confronto. Mas talvez Alcolumbre pense em algo diferente: como mudar as normas sem permitir que os ministros do Supremo sejam atingidos?

No futuro, tudo pode acontecer. E tudo pode também deixar de acontecer.

Pois é

O pedido da defesa de Lula para anular a condenação no caso do triplex pode ser votado a qualquer momento (se aceito, Sérgio Moro será mais uma vez derrotado, e Lula estará fora do alcance da Lei da Ficha Limpa. Poderá, portanto, se candidatar). Edson Fachin e Carmen Lúcia votaram contra o pedido, rejeitando a anulação. Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes devem votar pela anulação. Quem decide é o mais antigo ministro do STF, Celso de Mello. Discretíssimo, não se sabe como votará. Há quem queira segurar a votação até que Mello tenha amadurecido seu voto. Em casos semelhantes, o ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras, Almir Bendini, saiu livre, já que depôs junto com réus que o acusaram em delações premiadas, e,segundo o STF, deveria depor depois, para reagir às acusações. 

Toma lá...

Ninguém está interessado no Queiroz, aquele que era assessor do então deputado estadual Flávio Bolsonaro. Suspeita-se que tenha feito rachadinha – pegar uma parte do salário de cada assessor para colocá-la à disposição do dono da cadeira, no caso o filho 01. Mas pegá-lo por rachadinha é complexo: o feio hábito, que pode ser confundido com peculato (o salário é pago com dinheiro público), é amplamente praticado em diversas casas legislativas e envolve gente que pode ser vítima da Lei se houver investigações. O problema não é Queiroz, nem o parlamentar que ocupava a cadeira: é o pai do parlamentar, o presidente Bolsonaro, que gostaria de ver o filho livre de suspeitas. Só assim o 000 estará livre de pressões de mandatários vorazes.

...dá cá

O presidente do Supremo, ministro Dias Toffoli, travou por liminar todos os processos que receberam informações do Coaf sem ordem judicial. E, ao que se comenta, Toffoli já tem votos suficientes para manter sua liminar.

Alguém acredita que, até por gratidão ao ministro Toffoli, que travou os processos, e aos outros ministros que o apoiarem, o Executivo irá pressionar os parlamentares a apoiar uma Operação Lava Toga? As coisas assim estão bem: Flávio (e o pai) livres dos inquéritos, esquecimento das prisões após a condenação em segunda instância, Lula livre, talvez até com ficha limpa. E aí brigarão sobre partidos, governos estrangeiros, posição ideológica do nazismo e outros temas que não vão mudar em nada o nosso dia a dia.

Coaf? Como é mesmo?

Um inesperado reforço ao deixa-pra-lá geral foi trazido pelo ex-ministro Antônio Palocci. Disse ele que acertou com um grande banco a retirada de quantias de até 100 mil reais (que, segundo ele, eram entregues em mãos ao então presidente Lula), sem qualquer comunicado ao Coaf – que, sabe-se lá por que, também não se queixava da falta de informações. Se a blindagem para evitar que o dinheiro fosse lavado apresentava essas brechas, tirar o Coaf do caminho fica mais fácil. O Coaf hoje está no Banco Central, mudou de nome e agora trabalha em silêncio. Nem se ouve falar de suas atividades.

Ler é saber

A Justiça Federal aceitou denúncia do Ministério Público sobre fraudes em aportes da Funcef e do Petros, fundos de pensão da Caixa e da Petrobras, num fundo da Eldorado S/A, de Joesley Batista. Não deixe de ler Caixa Preta do BNDES, de Cláudio Tognolli e Bernardino Coelho da Silva: ali se conta como o BNDES e certos empresários usaram dinheiro da nação.

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​A lei, ora a lei, ora a lei

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Quem está certo no caso da prisão dos condenados em segunda instância? Não sei: o que sei é que 6x5 não é 7x1. É muito pior. Indica que quase metade dos supremos juízes tem sobre o caso opinião contrária a de seus pares. Mas isso é o menos importante: o principal é que, desde 2011, quando houve uma modificação no Código de Processo Penal, lei e Constituição não mudaram, mas a posição do Supremo não parou de mudar. Em fevereiro de 2016, por 7x4, permitiu a prisão após julgamento em segunda instância; em outubro de 2016, por 6x5, a permissão foi mantida. Nesta última sexta-feira, por 6x5, a prisão voltou ser permitida apenas após o encerramento do processo.

Este colunista não sabe qual a decisão correta é compreensível. Mas os ministros do STF, com estantes abarrotadas de diplomas (OK, vá lá, nem todos), mestrados e doutorados no Brasil e no Exterior, notório saber jurídico avalizado pelo Senado, togas importadas da França, bibliotecas em italiano e alemão, exércitos de assessores em todos os ramos do Direito, estes deveriam ter opiniões consolidadas, não oscilantes como badalos.

Escrevendo como certo doutor em Direito Constitucional, lembrar-me-ão que a Constituição americana, interpretada pela Suprema Corte, aceitou e proibiu a escravidão, aceitou, proibiu e aceitou de novo a pena de morte. Mas isso ocorreu ao longo de 250 anos de História. Que é que mudou no Brasil, exceto o nome e o dinheiro de alguns presos, agora ex-presos, de estimação?

O grande acordo

Sejamos justos, nada impede a Lava Jato de prosseguir, só mudando alguns métodos mais contestados de investigação. Mas o principal símbolo da Operação, Sérgio Moro, até hoje não se moveu para cobrar investigações sobre Queiroz e os assassinos da vereadora Marielle. Deltan Dallagnol já não é unanimidade desde aquela dinheirama que tentou levar para uma fundação lavajatista. Já ficou claro que a Lava Toga, que seria a sucessora natural da Lava Jato, não sai: o Governo precisa dos parlamentares para implementar seus projetos, muitos parlamentares preferem não incomodar quem julga.

Uma mão...

Dizem que não se deve brigar com quem não se conhece a força. Moro sabe que milicianos e certos assessores blindados criam problemas. Todos de acordo, pois: um não mexe com o outro. Amigos para sempre.

...lava a outra

A libertação de Lula é boa ou má para Bolsonaro? Talvez boa: Bolsonaro perdeu boa parte de seu capital eleitoral nos primeiros meses de Governo, e hoje Moro é mais popular que ele. O crescimento de uma frente de esquerda, espera-se, traria de volta a polarização que levou muitos adeptos de outros candidatos a votar em Bolsonaro, como opção ao PT. Isso poderia esvaziar nomes com potencial do centro à direita, como Wilson Witzel e João Dória. Nós contra eles também não seria o melhor campo de disputa para Moro. E, cá entre nós, Bolsonaro deu uma grande mão no desarmamento da Lava Jato. A Coaf (que criou problemas para Queiroz, assessor de seu filho 01, Flávio) foi escondida no Banco Central, com painel de controle longe do alcance de Moro. Isso ocorreu logo depois de o ministro Toffoli, aproveitando recurso do senador Flávio Bolsonaro, ter ordenado a suspensão de todos os processos judiciais que usassem informações recebidas do Coaf sem ordem judicial. Um senador, um ministro do STF, um presidente. E o ministro da Justiça, a quem tinham prometido o Coaf, quietinho. Ou não vai para o STF, talkey

A caixa preta

Está tudo no livro Caixa Preta do BNDES. Só falta seguir o mapa da mina.

Boa notícia 1

A série de medidas econômicas entregue pelo Governo ao Congresso, nesta semana, foi muito bem recebida pelo mercado em geral. Espera-se que as propostas sirvam para permitir que os empresários, enfim, possam cuidar de suas atividades, gastando menos tempo e dinheiro com burocracia. Isso gera crescimento e redunda em empregos. A CNI, Confederação Nacional da Indústria, fala em retorno do otimismo. A inflação baixa e os juros mais reduzidos da História (os juros oficiais, bem entendido) já parecem estimular áreas como a construção civil, grande empregadora: cresce pouco, mas está crescendo. A transferência da baixa dos juros para o grande público irá gerar compras, investimentos e crescimento – mas é preciso convencer os bancos de que não é possível ficar com todo o dinheiro gerado pela sociedade. 

Boa notícia 2

A visita de Bolsonaro ao Oriente deu frutos – alguns ainda a confirmar, como o investimento de dez bilhões de dólares da Arábia Saudita (quando, em que setores?) Mas os acordos com a China são de grande porte e podem abrir novas fronteiras de crescimento à agroindústria brasileira. Os chineses têm bom know-how em trabalhos genéticos, e isso para nós é área nova. E não lhes falta capital. Se não houver crises políticas, tem tudo para dar certo.

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