Brava gente brasileira

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Creio, paciente leitor, a quem tributo meus sinceros cumprimentos, que este, seja de fato, o título que melhor nos representa. No passado, obviamente, houvera quem reivindicasse, como Hino nacional, o patriótico Hino à Independência, onde está incrustada tal frase. O que seria louvável, pois o Hino que ai está, não passa de uma bajulação escancarada à coroa.

Quisera eu, este pobre amante das palavras, dispor da mesma inspiradora e eloquente capacidade que um certo Pero Vaz de Caminha, usou para retratar estas terras tupiniquins. Esta pátria mãe gentil, que às vezes amo profundamente, a ponto de semear aqui minha prole e que, num futuro (Que espero que demore absurdamente) certamente há de engolir a carcaça deste meu corpo que já vivera melhores dias. Esta pátria que incita-me a escrever novas palavras, mas, que as vezes causa-me asco, por ser tão oferecida, tão mansa.

Somos bravos e destemidos sonhadores, peritos na arte de alimentar esperança. E o senhor, paciente leitor, há de convir que é necessário muita coragem para se ter esperança. É na esperança de noites de sonos mais confortáveis, que sonhamos nossos planos numa cama repleta de calombos, mesmo ouvindo, lá no fundo de nossa alma, um sussurro a nos dizer que é tão pequena, a chance de deitar nossas cabeças sobre um travesseiro de pena de pavão que chega a ser desalentadora. É na esperança de um caviar no futuro, que somos manipulados a engolirmos com água, o boi diário, cuja procedência desconhecemos. Brincam com nossa esperança, é bem verdade, mas, somente brava gente é capaz de tê-la.

Nossa genética é invejável e nossa humildade é capaz de impressionar o mais puro dos seres canonizados. Em nossas almas, não sei se em função dos trópicos, queima a chama da alegria e o calor das relações inveja muitos dos europeus endurecidos. Há um pedacinho em nossa alma que nos incita a ignorar nossa realidade cruel é verdade, mas, talvez, seja um mecanismo de defesa e isso não nos tira a armadura de nossa resistência. Se somos resignados, ou mesmo, acomodados é outra questão. Mas, ninguém poderá dizer que não somos resistentes. Se parte dos europeus já deixaram o recém descoberto Brasil, por não suportarem a falta de saneamento, os animais silvestres, a comida peculiar e os tantos mosquitos que lhes dilaceravam a pele, imagine o senhor, paciente leitor, que convive agora com vespas enormes que fazem a malária ou aedes aegypti, miseráveis criaturas inofensivas, e que infestam o congresso nacional, de onde sugam, não somente nosso sangue, mas nossa essência.

Em nossas terras brotam raízes que o mundo desconhece. Colhe-se em abundância o que ninguém jamais sonhara semear. Um privilégio que inveja o mundo. E talvez, seja esta a nossa dura questão. O drama que assombra nossos festejos.

O Brasil, em seus primórdios, desde a primeira nau que aqui aportara, até os dias atuais, sempre foi visto como a lavoura do mundo. Não o pulmão, como algum veículo de mídia um dia inventara para massagear nosso ego. Somos a lavoura, onde ninguém semeou, mas todo o mundo colheu. A civilização nos tardou, pois, nossos primeiros habitantes estavam mais interessados em extrair o melhor que estas terras pudessem produzir e gozarem suas riquezas noutras pátrias. Junto com os tantos elementos naturais extraídos de nossas terras, levaram também nossa identidade e nos forjaram a base de chicote e obediência cega. Mas, ainda resta em nós, uma nesga de bravura que nos incita a defender nossas esperanças. A retomar o domínio deste pais que é nosso por direito. Mas, somos miseráveis tupiniquins, aglomerados em pequenos grupos diante de ocas, armados de arco e flecha, enquanto que, nossos inimigos, embora em menor número, têm em sua disposição, tanques e misseis.


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.