Bolsonaro dá susto em ambientalistas: é um "triplo desastre"

Fusão de Ambiente com Agricultura causa alvoroço entre lideranças rurais

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nda nem começou o governo Bolsonaro e o retrocesso anunciado já é incalculável", disse Marina Silva, instantes depois de ter sido confirmada a fusão entre as pastas do meio Ambiente e da Agricultura no executivo do presidente eleito.

A candidata três vezes derrotada à Presidência da República, sensível às questões ecológicas, chamou a decisão de "triplo desastre" e de inauguração "do tempo trágico em que proteção ambiental é igual a nada". Outras vozes da área já se haviam manifestado preocupadas quanto aos planos do capitão na reserva para a Amazónia ao longo da campanha eleitoral.

"Primeiro, trará prejuízo à governança ambiental", continuou a líder do partido Rede Sustentabilidade. "Segundo, passará aos consumidores no estrangeiro a ideia de que todo o agronegócio brasileiro sobrevive graças à destruição das florestas, sobretudo na Amazónia, e, terceiro, empurrará o movimento ambientalista para os velhos tempos da pressão de fora para dentro, algo que há décadas vinha sendo superado, graças aos avanços galgados em diferentes governos."

Paulo Amaral, do Imazon, um instituto de preservação da Amazónia, disse que a fusão é o sinal de que "a visão será a produção a qualquer custo". 


"Durante a campanha, já houve uma sinalização da retomada do desmatamento da Amazónia, se a agenda ambiental do Brasil for enfraquecida a mensagem para o mundo é muito má", afirmou ao jornal O Globo.

"Na campanha, já houve uma sinalização das retomada do desmatamento da Amazónia, se a a agenda ambiental do Brasil for enfraquecida a mensagem para o mundo é muito má"

Prejuízo à economia?

Outros ambientalistas afirmam que se o objetivo é aliviar a máquina pública - os governos de Dilma Rousseff e de Michel Temer tinham perto de 30 ministros e Bolsonaro pretende reduzir esse número para metade - podia unir-se meio ambiente e turismo, como fez a Costa Rica, por exemplo.

"Tratar o meio ambiente desta forma fatalmente trará prejuízo à economia, colocando-a na contramão do desejo de sustentabilidade expressado pelos mercados internacionais e além disso funcionará como combustível para as motosserras que insistem na lógica insana de destruição de biomas como a Amazónia e o Cerrado", acrescentou Danicley Aguiar da campanha Greenpeace.

Os planos de Bolsonaro para a política ambiental, em geral, e para a Amazónia, em particular, já alarmavam ecologistas ainda antes da eleição. "Que fique claro, o futuro ministro de um ministério unido sairá do setor produtivo, não haverá mais brigas", afirmou o ex-deputado, que é apoiado pelos parlamentares ruralistas do Congresso, conhecidos como Bancada do Boi.

Já antes, o candidato afirmara que não daria "nem um centímetro a mais" para a demarcação de territórios indígenas e prometeu acabar com o que chamou de "ativismo ecologista xiita".

Bolsonaro chegou também a ameaçar sair do acordo climático de Paris, caso "a soberania nacional" fosse comprometida, seguindo o exemplo do presidente dos EUA Donald Trump.

O seu provável indicado para o Ministério dos Transportes, o general Oswaldo Ferreira, acrescentou que agências estatais ligadas a temas ambientais só servem para "foder a paciência".

"Projetos de forte impacto ambiental sem a análise necessária implicariam um atraso de quatro décadas", reagiu Suely Araújo, presidente do Ibama, instituto público de gestão do meio ambiente.

"O discurso de Bolsonaro", acusou o diretor do laboratório de meio ambiente da Universidade do Rio de Janeiro, "recorda a doutrina da ditadura militar [regime de 1964 a 1985]", em que o meio ambiente é visto "como obstáculo ao desenvolvimento a qualquer custo". "Se cumpridas, as promessas de campanha podem ter grandes consequências a nível mundial", disse à AFP.

União de ministérios

Entre as instituições mais comprometidas com o lado da agricultura há, entretanto, elogios e críticas à junção ministerial. "A tentativa de união dos ministérios é válida, deve-se criar uma secretaria de meio ambiente dentro do Ministério da Agricultura, que tenha agilidade", disse ao jornal Folha de S. Paulo, o líder de produtores de soja e milho Antonio Galvan.

Para Arnaldo Jardim, deputado do PPS, partido que apoiou Geraldo Alckmin nas eleições, a fusão "é um equívoco". 

Ex-secretário da Agricultura de São Paulo e ligado desde há anos à agenda dos latifundiários, Jardim regista que "o novo ministro deixará de ter foco na agricultura".


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