A GRANDE COLHEITA

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Nos arredores de uma aldeia, ladeada por cenário árido, decorada por arbustos secos e montanhas rochosas que, à noite, revelavam contornos góticos, havia um pequeno sitio, onde cabras magras passavam o dia todo tentando furtar fiapos de capins silvestres, escondidos nas fendas rochosas. Durante o dia, o sol reinava absolutamente, metralhando o seres com raios impetuosos. Nenhuma nuvem ousava opor-se. Mas, quando o manto negro trazia a noite, o clima amenizava e a brisa trazia um frescor almiscarado e agradável.

Quando chegava dezembro, as aldeias vizinhas celebravam a boa colheita com muitos festejos de adorações aos deuses. As ruas eram enfeitadas com flores e galhos de palmeiras, as pessoas se abraçavam e sorriam frequentemente. O espirito rejuvenescia e se revigorava para, nos meses seguintes, recomeçarem o plantio. Porém, para Jalau e sua família, não havia qualquer razão para comemorar. Mais um ano infrutífero. Aquele seu solo, onde cabras secas definhavam era absolutamente estéril. Nada nascia, nada florescia. As más línguas afirmavam que aquele pedaço de terra, para onde Jalau levara sua família, era amaldiçoado. Por esta razão, todos evitavam aquele apêndice triste, até mesmo a chuva.

Numa noite qualquer, quando a família se reuniu à mesa, para saborear a sopa rala, ouvindo a sonorização dos festejos das aldeias, que o vento trazia, Jalau surpreendeu uma lágrima discreta, rolando no canto dos olhos de sua amada esposa, ao que ela correu a disfarçá-la. Ele evitou indagá-la, até porque, sabia bem a tristeza que maculava o âmago daquele guerreira que, ao seu lado, lutara muitas batalhas, tombando em quase todas elas. Ele sabia que as trevas da incertezas, rondavam o coração de sua família. Sabia que temiam o amanhã que, provavelmente, nasceria com durezas e a miséria certamente se agravaria.

Jalau fitava a sopa sem ânimo. Sem fome. Cotovelos sobre a mesa, as mãos massacradas pela labuta diária lhe amparando o queixo. Olhos tristes, quase apagados na orbita, circundada por uma face ossuda, onde, a pele lembrava um papelão amarrotado. Ele se permitiu imaginar-se entre aqueles homens que festejam tão próximo. Imaginou-se sorrindo, e seu celeiro, onde nada mais havia, exceto uns poucos feixes de capim e ferramentas, de repente, se inundasse de sacos de grãos. Mas, como uma nuvem que se dissipa com a rajada de vento, seus pensamentos se dissolveram e ele viu sua triste realidade, afundada naquele prato de sopa rala.

Naquela noite, todos dormiram cedo, maltratados pela angustia e o sofrimento. Mas, jalau se permitiu recostar na varanda, em reflexão, enquanto as estrelas no céu, refletiam em seus olhos marejados. As labaredas lhe queimavam a alma. Deus não estava sendo justo, pensava ele, sempre foi um bom sujeito, honesto, caridoso, amoroso e de fé, mas, sentia-se esquecido, definhando naquela terra, onde nada nascia. Até que, como um estrondo repentino, uma sugestão de um instante, uma estrela cruzara o céu e morreu em seu celeiro. No entanto, não era uma estrela qualquer, era imensa, única, e seu brilho era grandioso. Um brilho majestoso, que assanhava a curiosidade. Foi quando percebeu que uma pequena chama tremulava em seu celeiro. Jalau se aproximou receoso, cuidando para não produzir qualquer som que revelasse sua presença. E viu, pelas frestas, iluminado por uma pequena fogueira improvisada, um casal aninhando o filho recém-nascido nas palhas de seu celeiro. Nos olhos da mãe exausta e trêmula, mergulhada em suor, viu a felicidade produzida pelo primeiro nascimento ocorrido nas terras de Jalau.

Jalau jamais esqueceria aquele 25 de dezembro.

-Jesus! –Murmuraram os pais emocionados.

Dizem que o solo infértil de Jalau acordou pejado de lavouras, que vazavam da terra e que a fartura se estabelecera em seu lar. Outros afirmam que aquele nascimento, não transformara em nada a vida miserável do homem. Mas, todos reconhecem que aquela foi a melhor colheita da terra.

*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.