Tributo à criança que um dia fui

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Eis que nossos dias se vestem de trevas...

Não! Esqueça esta conversa catastrófica, paciente leitor! Lhe proponho um tema mais ligth, primeiro, porque já estou completamente exaurido, enojado de toda esta situação politica, que está bem longe de desanuviar. Segundo, para lhe provar que sei ser, senão amável, ao menos afável de vez em quando (tão constante quanto um eclipse lunar).

Se aproxima a data em que, comercialmente, se celebra o dia da criança e, principalmente nestes dias em que minha juventude se esvai com avidez, e a velhice parece um caminho provável, onde desaguarei brevemente, confesso que sinto uma vontade imensa de voltar a ser criança! Gostaria muito de reviver as banalidades inconvencionais, despir, pelo menos por uma fração de um mísero segundo, este manto claustrofóbico da vida adulta e, sobretudo, reviver as boas amizades que lá deixei.

Frequentemente ouço a afirmativa de que, “não se fazem mais crianças como antigamente.” para qual possuo uma resposta bem simples: as crianças de antigamente cometeram o maior de todos os crimes, se tronaram adultas. Ironicamente, exibem agora inúmeros instrumentos para computar as horas e nunca possuem tempo para as questões essenciais à vida, aquelas questões invisíveis aos olhos, que tantos poetas morreram tentando elucidar. Aquelas crianças de antigamente, deram de ombros para as sinceras amizades que possuíam e se aderiram às alianças convencionais. Aquelas crianças que prorrogaram a oportunidade daquele abraço, murcharam ante a voracidade do tempo, que levara precocemente quem ganharia tal abraço. Aquelas crianças se tornaram fábricas velhas, que muito produziram, mas, não saíram do lugar, repleta de engrenagens complexas e padronizadas. E não importa o quão se dediquem a lhe retocar a fachada, no seu âmago, pulsa a frieza de um galpão repleto de muitas quinquilharias, porém pouca luz.

Nos dias atuais, ao remoer as reminiscencias dignas de qualquer mortal pecador, frequentemente deparo com uma pergunta inquietante, para qual não possuo qualquer respostas: Em que momento assassinei a criança que habitava em meu ser? Seria no primeiro beijo? O primeiro voto talvez? O primeiro grande pecado? Não necessariamente nesta ordem, tampouco separados. O fato é quem em raros dias chuvosos, destes com cheiro de terra molhada, numa tarde regada a bolinho de chuva, ou, na simples sugestão das enxurradas na calçada, sou seduzido a deixar a mente vagar por entre os vales e grotões da memória e, de repente, estou completamente desnudo das convencionais posturas que se exige de um bom adulto, e neste momento reencontro um grande amigo, também no mesmo estado meu, um amigo que hoje chamo carinhosamente de leitor!

*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.