​Sem querer, querendo

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Há candidatos à Presidência que dizem que são, há candidatos que dizem que não são, há candidatos que dizem que são mas não são, e há Luciano Huck, que diz que é mas não é dependendo das últimas pesquisas. Michel Temer, por exemplo, negou na sexta que seja candidato, mas é, e de certa forma tem de ser (a menos que, num grande acordo, consiga manter o foro privilegiado após deixar o cargo). O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, diz que é e lança sua candidatura dia 8, na convenção do DEM, mas é difícil mantê-la: o DEM teria mais chances indicando o vice de Alckmin ou de Temer, já que qualquer um dos dois desidrata o eleitorado de Maia. Bolsonaro diz que é, e é, mas pode deixar de ser viável no meio da campanha, por falta de tempo na TV. Marina Silva não diz nada, mas é.

Há mais gente, como João Amoêdo, do Partido Novo, Manuela d’Ávila, do PCdoB, talvez Guilherme Boulos, do PSOL. É difícil: alguns porque são desconhecidos, outros porque são conhecidos. Henrique Meirelles, PSD? Poderia ser, mas como se candidatar no embalo dos bons resultados da política econômica se o próprio presidente Temer for candidato? E há Lula: quer ser, de todos os citados é o que está melhor nas pesquisas, mas como, já condenado em segunda instância, superar a Lei da Ficha Limpa?

Pesquisa DataChute: sem Lula, os favoritos são Temer e Alckmin (que têm partido e governos); zebra, Marina. Com Lula, um dos três, sem zebra.

A ação de Temer

A inflação caiu abaixo da meta, o país volta a crescer (é provável a alta de 3% no Produto Interno Bruto) depois da recessão do Governo Dilma. A taxa básica de juros jamais esteve tão baixa, embora os bancos continuem a cobrar juros estupidamente altos. Há tendência de aumento de emprego. Mas não é apenas nisso que Temer se apoia: é provável que a intervenção militar no Rio provoque, por um determinado período, a queda dos índices de violência no Estado. A verba de propaganda desses fatos, acreditam os estrategistas de Temer, mais o uso da máquina pública, privilegiando os apoiadores do presidente, podem elevar seus índices de popularidade, hoje ridiculamente baixos. E já se conversa com o marqueteiro Duda Mendonça.

Para quem diz que não é nem será candidato, a agenda é movimentada.

A ação de Alckmin

O governador paulista neutralizou seu ex-afilhado João Dória e hoje seu adversário no PSDB é o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio. Deve vencer. Diz que está na hora de um paulista se eleger presidente, pois o último foi Rodrigues Alves. Erra: Temer é paulista. Fernando Henrique, Washington Luiz e Lula nasceram em outros Estados, mas politicamente são paulistas. Diz (com razão) que São Paulo tem o menor índice de homicídios do país. Diz (sem razão) que é o candidato da privatização. Nas eleições de 2006, quando Lula disse que ele era privatizante, Alckmin usou uma inacreditável jaqueta cheia de logotipos de estatais – tipo piloto de Fórmula Um. Perdeu feio, conseguindo ter menos votos no segundo turno do que no primeiro.

A voz das armas

Trump levanta a ideia de armar os professores para que possam defender os alunos. É um perigo: com nossa mania de importar dos EUA só aquilo que não presta, a besteira pode vir para cá. Comecemos pelo básico: quem ensinará os mestres a atirar? E é função de professor abrir fogo na classe?

Tudo parado

A reforma da Previdência parou até que termine a intervenção militar no Rio; e não é a única. Outras 536 propostas de emenda constitucional estão paralisadas (na verdade, muitas já estavam, mas apenas porque não era de interesse votá-las). Duas, interessantíssimas: a) fim da reeleição: b) redução do número de senadores e deputados, esta apresentada pelo deputado Clodovil. É difícil votar contra a redução do número de parlamentares, eliminando enormes despesas, mas quem quer dispor de menos vagas?

A nova proposta

Outro projeto de emenda à Constituição é de iniciativa popular, com 2,5 milhões de assinaturas (mais que o da Ficha Limpa). Chegou em cima da intervenção e sua tramitação nem começou. Traz muitas inovações – umas inviáveis, outras interessantes, mas todas tendentes a agradar o eleitor. Proíbe sessões secretas, veda vantagens especiais (como seguro-saúde ilimitado), obriga os congressistas a contribuir para o INSS, que tratará a aposentadoria como a de qualquer pessoa, veta mais de uma reeleição, “porque servir no Congresso é uma honra, não uma carreira”. Vale estudar.

Samba no bolso

A informação é do ex-prefeito José Fortunati, e está no ótimo blog de Fernando Albrecht (http://fernandoalbrecht.blog.br/): o Sambódromo de Porto Alegre, orçado em R$ 10 milhões, já custou R$ 40 milhões e ainda não está pronto. Pular Carnaval na rua? Não custa nada – nem rende nada.

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Twitter: @CarlosBrickmann


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