Quando a chuva chegar

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​Se o sol “esturricá” o lombo do chão,

“Maltratá” o tronco seco do jurema,

Donde escuta o gemido da ema.

Vou-me embora, pra longe do meu sertão


Na mala, vai o que eu puder carregá.

A esperança que é fardo pesado,

Um coração pra lá de agoniado.

Um cadinho de coisa pra “alembrá”.


Já vou sabendo que a volta é certa.

Mas, só quando o mandacaru “tivé” “flô”.

Entonce pode “esperá” só, meu amô.

Loguinho estarei batendo na porta.


Só deixo mesmo as bandas frias do sul,

Quando a chuva “ispaiá” na plantação,

Quando alegria “irrigá” o sertão,

O cinza das nuvens cobrir o céu azul.


Neste dia, voltarei cá pra sua quentura.

A alma, doendo, debulhada em grãos.

A saudade mordendo todo coração.

O peito esfolado em amargura.


Volto em tempo da gente “enxovalhá”.

Pra gente juntar os remendos de vidas.

Proliferar umas crianças sabidas.

Pra nosso barraco poder se “alegrá”.


Volto pra erguer nossa simples morada,

De terra batida, taboca e sapê.

Mas, se eu estiver bem juntinho d'ocê,

Recuso qualquer vida endinheirada.


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.