O EQUILÍBRIO AO EXPOR UMA CRIANÇA

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Vamos começar falando de Mozart .( 1756 – 1791)Depois que o pai de Mozart o levou para tournées pela Europa, ainda pequeno, o pai de Beethoven quis fazer a mesma coisa.

Então vamos lá ... Mozart estudava 10 horas por dia, digamos que ele já nasceu sabendo, era talentoso, tinha veia musical espetacular, mas o pai , Leopold, o fazia estudar exaustivamente para que se tornasse cada vez melhor. A criança prodígio progrediu demais, o pai, nas viagens, contratava professores de violino, de canto, de órgão, para acrescentar algum conhecimento extra a seu filho. A cobrança deste pai que era professor de música e composição, se tornava cada dia maior e o menino já não estava mais suportando. Quando adolescente foi pra Viena procurar por si mesmo maiores informações, dar aulas para sobreviver , compor para a realeza e seguir a vida ... muitas vezes frustrando-o.

O pai de Ludwig van Beethoven ( 1770 – 1827) , Johann, quis fazer o mesmo com o filho, vendo que anteriormente o menino Mozart se tornou uma fonte de renda para a família, ganharam muito dinheiro com o talento dele. Então, Johann mentia sobre a idade do seu filho Ludwig dizendo ser mais novo, para poder ter o mesmo sucesso que teve o menino Mozart. O pai alcoólatra chegava de madrugada em casa e fazia Beethoven se levantar para estudar violino e ai dele se tentasse improvisar. Tinha que tocar exatamente o que estava na partitura, apanhava se fizesse diferente.

Brahms ( 1833- 1897), quando começou a estudar piano, a condição que o professor Cossel impôs foi : “- não o mostre em público até que eu autorize. Só dou aulas para ele nestas condições.” E a família ávida por mostrar o menino, queriam inscrevê-lo num concurso na América, com 9 anos. O professor foi terminantemente contra e eles acataram.

E assim, se formos estudar as biografias dos compositores vamos nos deparar com situações as mais diversificadas sobre a conduta com relação à exposição dessas crianças.

Hoje, no século XXI, estamos buscando o equilíbrio sempre. Ser feliz, ser músico, poder se realizar sem prejudicar sua saúde.

Mozart morreu com 35 anos de idade. Foi voraz . Em uma de suas cartas ele dizia que a música tocava dentro de sua cabeça e que ele teria que coloca-la para fora senão iria enlouquecer. Tornou-se ansioso, cada dia mais, alcoólatra, sua criatividade era tanta, que não sabia às vezes diferenciar o que eraesta explosão de sensações que vinham preencher corpo e mente, então partia para prostíbulos, no intuito de amenizar o excesso de energia.

Liszt, teve pai músico, bastante equilibrado, que ofereceu a ele todas as condições de estudo. Deixou de ser o administrador das propriedades dos Estherhazy , se mudando para Viena para oferecer estudo sistematizado ao filho, com o prof Carl Czerny. Vendeu tudo o que tinha, foi morar num quarto de aluguel, onde colocou um piano para o filho único estudar. Liszt teve suporte financeiro, o instrumento em mãos, pais presentes, sossego, carinho,tudo na hora certa, sem cobranças indevidas, sem exposição antes da hora. Fez seu primeiro concerto com 12 anos de idade, quando diz a lenda que Beethoven ( com 53 anos) beijou a testa do menino e disse que ele seria um grande músico.

Estamos vendo que expor uma criança antes dos 12 anos de idade é podar um arbusto em crescimento.

Como estamos na era youtube, redes sociais, (onde as crianças estão expostas o tempo todo), para não ser contrária à onda , cedi, resolvi colocar uma criança no youtube pois era o grande desejo dela aos 7 anos. Foi o gatilho para derrubar todo o trabalho a seguir. Os comentários, excesso de elogios, cobranças sobre repertório pop, piano na sala onde ele não se sentia concentrado pra estudar,etc... Ele foi se sentindo pressionado a agradar uns e outros, queria fazer parte do mundo pop e fazer sucesso cedo, e não pôde se concentrar e estudar calmamente no seu cantinho, tendo o direito de absorver cada conteúdo devagar, digerir, praticar, enfim... era hora de ser alfabetizado. Tenho minha parcela de culpa ao ceder na questão de expor em mídia social. Aprendi a lição, que embora estejamos no século XXI, que ‘ todo mundo faz’não é o ideal. Nunca foi. São muitas emoções e muita pressão psicológica para uma criança que está ‘ aprendendo a andar’. Embora a criança peça, insista e se sinta muito valorizada quando se posta um vídeo dela, isso mexe com a vaidade e a partir daí ela quer somente expor coisas para ser aplaudida.Necessidade de ser reconhecida.

É uma linha tênue entre a reclusão e a exposição. Estou tentando hoje, seguir o professor Cossel ou pelo menos segurar até 12 anos de idade , quando a criança já estará bem alfabetizada e poderá seguir a vertente que desejar. Um músico precisa trabalhar bem seu ouvido, a criatividade, inventividade, a leitura de partituras, etc. E isso se dá com uma didática que possa diversificar. Sou professora de piano clássico, mas invariavelmente o aluno recebe partituras do seu gosto particular, tento diversificar estilos e períodos para ampliar a cultura e a interpretação... Isso leva tempo e há que se ter paciência. Concomitantemente as imprescindíveis orientações sobre musculatura, postura, técnica , o que vai dar ao músico maior destreza e possibilidades motoras de se expressar.

Bom, pessoal, é isso!

Este é um alerta geral ! Mais estudo, mais foco, mais concentração, menos exposição antes do momento.

*Esta coluna é semanal e atualizada aos domingos.​


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