INVERSÃO DE VALORES

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Andando pela rua esta semana, caminhava ao lado de uma moça que conversava ao celular. E não pude deixar de ouvir a conversa, primeiro porque ela falava muito alto, segundo porque caminhava a meu lado.

- Oi... Então, eu faltei da última aula. Já falei pra ela que tem muita coisa pra estudar.(...) eu não vou comprar o livro que o professor pediu, imagina... 25 reais... ( ...) Não posso ir na biblioteca porque marquei pra fazer minha unha, vou passar agora pra comprar uma blusinha pro final de semana... etc...

E me entristeço ao ouvir que comprar uma blusinha é melhor que comprar um livro. E ainda fazer a unha seria melhor que ler um livro ou ir a uma biblioteca.

Tenho me deparado com estes comentários no dia-a-dia quando vejo pessoas pechinchando questões de Educação, de estudos, de aprimoramento pessoal, e gastando com coisas diversas.

Lembrei-me do Pequeno Príncipe quando fala sobre o que é efêmero.

efêmero
curto, caduco, breve, findável, finito, fugaz, fugidio, fugitivo, instantâneo, momentâneo, morredoiro, morredouro, passadiço, passageiro, perecedoiro, perecedouro, provisório, rápido, temporário, terminável, transeunte, transiente, transitivo, transitório.

O choque de culturas que senti quando fui pra Alemanha pela primeira vez, foi algo que jamais vou esquecer e trouxe comigo os ensinamentos do que é essencial e do que é descartável ou até inútil.

O consumismo efêmero ...

O investimento em aprendizados variados, em objetos que proporcionem o crescimento intelectual, moral, afetivo, motor, sensorial, estão sendo substituídos por objetos de utilidade passageira. E assim, depois daquele objeto quer outro, depois outro, depois outro e nunca há o preenchimento daquele vazio interior.

Os objetos, tudo o que paralisa a ação de uma criança, que inibe sua criatividade, que a coloca sentada sem dar trabalho, está produzindo seres infelizes, doentes, incapazes de lidar com emoções as mais variadas.

Deveria ser obrigatório a criança ter direito a EXPERIMENTAR atividades diversas para descobrir seus dons ou mesmo para desenvolvê-los.

Meus pais me colocaram em todos os cursos possíveis e imagináveis inclusive nas férias. Neste período eu entrava em curso de flores artesanais, curso de bordado, de comunicação verbal, enfim ... habilidades que eles gostariam que eu desenvolvesse e oportunidades para meu preenchimento.

Nos fundos de minha casa tinham 2 quartinhos e entre eles um enorme tanque para lavar roupas. Ali era nossa área de brincar. Estendíamos lençóis nos varais e fazíamos as cortinas do teatro. Tinha uma lousa grande, giz colorido e branco, bastante. Nos quartinhos dividíamos o grupo de crianças em cada um deles onde montávamos nossa ‘ casinha’. Saíamos com nossas bonecas e íamos visitar a casa das amigas ( no outro quartinho), tocávamos a campainha imaginária, ou batíamos na porta , nos cumprimentávamos, sentávamos como visitas, conversávamos sobre assuntos diversos perguntando sobre as bonecas e suas peripécias, sobre as comidas que estavam fazendo, e nos serviam de mentirinha o arroz cru, feijão cru, plantinhas misturadas à nossa comidinha ... Enfim, reproduzíamos a vida real. Era uma das brincadeiras.

Quando fui crescendo, as férias eram para adquirir outras habilidades. Além de colher as frutas do quintal ( goiabas, mangas, jabuticabas, caju, limão, ameixa) também fazíamos casinha nas árvores. Sim, eu mesma me machuquei várias vezes subindo e descendo de árvores mas era saudável e divertido. Em época de aula, eu subia nas árvores , me sentava na forquilha e decorava as matérias de História e Geografia , falando em voz alta para aprender melhor e mais rápido.

Se hoje não temos o quintal grande com as árvores, temos outras mil e uma atividades que podemos oferecer para a criança se desenvolver.

Ontem mesmo, minha querida netinha veio passar o dia comigo. Peguei um lençol de solteiro e ele se transformou em capa, depois em véu de noiva, depois em rede de balanço, em coberta para as bonecas, em asas para voar. Apenas com um lençol que todo mundo tem em casa. Há que abrir espaço e deixar a casa bagunçada para a ordem interior imperar.

Meus filhos também tiveram oportunidades diversas de cursos variados. Eu não tinha o quintal com árvores, mas o pequeno espaço que tínhamos era bem explorado com armadilhas construídas, busca por joaninhas, procurar bichinhos que enrolam, tirar matinhos dos canteiros e ver crescer uma nova semente que plantávamos...

Quanto aos cursos, puderam satisfazer quase todas as vontades, aulas de bateria, de violão, piano, informática, inglês, francês, alemão, italiano, futebol, basquete, aulas de origami, de teatro, enfim... Tudo aquilo que poderia lhes oferecer uma nova habilidade era proposto e eles aceitavam. Eram experimentadores de tudo.

Sempre achei que explorar o quintal de casa era uma atividade preciosa e fazer deste quintal um palco, uma floresta, um local de jogos e brincadeiras. Guerras de água com bexigas ou mangueira, e até um canteiro razoavelmente grande virou uma piscina de barro onde se atiravam. Um cantinho na frente da casa, foi feito um cercado onde tinha uma montanha de areia.

Semana passada estava com minha netinha à noite e ela pegou uma lanterna. Não tive dúvida, apaguei todas as luzes da casa e fomos ‘ investigar ‘, salvamos uma boneca que estava perdida na floresta das roupas para lavar e passar e descobrimos o teatro das sombras que meu filho tem habilidade de fazer e ela ficou encantada.

Delegamos ao supérfluo e ao eletrônico todas as nossas capacidades de adultos...

Meus amigos se lembram com saudades quando iam à minha casa e ficávamos mexendo no piano e eu ensinava algumas melodias curtinhas a eles e brincávamos a 4 mãos no piano. Uma adolescência também produtiva, alegre e saudável. Descobrir talentos e potencialidades deveria ser LEI.

Utilizar objetos da casa como brinquedos incentiva a invenção, a criatividade e acima de tudo o reaproveitamento. Se não tenho isso, substituo por aquilo. Lembro-me que assistíamos a um programa na TV Cultura que meus filhos adoravam: Senta que lá vem história. A moça que contava histórias fazia uma caneta se tornar uma pessoa, um rolo de papel higiênico ser uma corneta e assim todos os objetos comuns passavam a ter vida e desempenharem outros papéis.

Imaginação!

Observo meus alunos de piano improvisando músicas, ou utilizando seu poder de dedução para decifrarem uma partitura, ou ainda imaginando uma cena quando vão tocar uma música, criando uma história. Poder de abstração.

Como é importante abstrair dos problemas para encontrar novas soluções!

Todas estas habilidades são desenvolvidas quando se oferece à criança as oportunidades diversas em Arte, Esporte, Música e brincadeiras.

Temos muito a falar sobre isso. Mas a semente está lançada mais uma vez.

Vamos consumir livros, instrumentos musicais, atividades esportivas!

*Esta coluna é semanal e atualizada aos domingos.​