Em busca da cura: como funciona terapia de plasma autorizada pela Anvisa

Alguns hospitais brasileiros, como o Israelita Albert Einstein e o Sírio-Libanês vão realizar testes clínicos

Postado em: em Ciência

No sábado (4), a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) definiu regras para a terapia experimental com plasma que pode ser uma forte aliada no combate ao novo coronavírus, causador da covid-19. 

A técnica utiliza o sangue de pacientes curados dessa infecção para tratar pessoas que tenham sido infectadas pela doença e estejam em estado grave de saúde.

Alguns hospitais brasileiros, como o Israelita Albert Einstein e o Sírio-Libanês vão realizar testes clínicos utilizando essa terapia, informaram suas assessorias neste domingo (5). 

Nos Estados Unidos, um dos países mais afetados pelo novo coronavírus, testes também já estão sendo realizados. Na Itália, o tratamento também está sendo testado. 

De acordo com reportagem da agência Reuters, a terapia experimental com plasma envolve a retirada de sangue de um doador – no caso, alguém que tenha se recuperado da covid-19, que esteja em boas condições de saúde e atenda aos critérios de doação de sangue.

Então, o sangue coletado passa por uma máquina para a extração do plasma. O que sobrou do sangue volta para o doador. 

O plasma retirado do doador é o chamado "plasma convalescente". O processo leva cerca de 90 minutos para ser realizado e o plasma de um único doador pode tratar de três a quatro pacientes.

Os doadores precisam ter sido diagnosticados com covid-19 e precisam aguardar um certo período de tempo depois de testarem negativo antes de doar o sangue para a obtenção do plasma. 

Os pesquisadores norte-americanos também estão realizando testes para medir a quantidade de anticorpos contida nesses materiais.

Por que o plasma pode funcionar

Essa terapia experimental pode funcionar porque os sobreviventes da covid-19 acabam ficando com anticorpos na corrente sanguínea. 

Anticorpos são tipos de proteínas produzidas pelo sistema imunológico do indivíduo infectado para combater o vírus.

Assim, uma vez que a pessoa se recupera da doença, o componente sanguíneo que carrega esses anticorpos contra o vírus pode ser coletado e transferido para outros doentes.

Ainda faltam evidências para saber se o tratamento, de fato, funciona. Mas, segundo o Dr. Jeffrey Henderson, professor associado de Medicina e Microbiologia Molecular da Washington University School of Medicine, em St. Louis, nos Estados Unidos, “historicamente, esse tipo de tratamento já funcionou”.

E completa: “Antes do desenvolvimento de vacinas, esse tipo de terapia era usado para combater doenças infecciosas, como sarampo e difteria”, afirma. 

Segundo o especialista, o chamado “plasma convalescente” também foi usado, com sucesso, durante a pandemia de gripe de 1918.

Outros especialistas ouvidos pela Reuters afirmam que protocolos referentes a esse tipo de terapia, como a dosagem de plasma necessária para a transfusão, ainda não foram definidos para tratar os pacientes de covid-19.

Porém, eles acreditam que vale a pena apostar nessa terapia, ao menos até que uma vacina ou tratamento mais específico sejam desenvolvidos para conter a doença.

A clínica norte-americana Mayo e outros laboratórios dos Estados Unidos – e do mundo – já estão conduzindo estudos clínicos para avaliar a eficácia dessa terapia. 

Num dos testes desenvolvidos na China, observou-se que, após as transfusões de plasma convalescente, o vírus tornou-se indetectável na corrente sanguínea de cinco doentes afetados pela covid-19, segundo artigo publicado pelo The Journal of the American Medical Association.

No Brasil, a nota técnica emitida pela Anvisa no sábado (4) ressalta que o método deverá ter a sua eficácia aprovada pelo CFM (Conselho Federal de Medicina) e Ministério da Saúde.

Mas pode ser utilizado em caráter experimental, mediante a adesão às normas previstas para a realização de pesquisa em seres humanos no Brasil.

Os especialistas ouvidos pela Reuters reportam que os riscos envolvidos para esse tipo de terapia podem incluir algumas reações locais e alérgicas, porém raras.

"De todos os tratamentos que temos até agora para a Covid-19, acredito que o plasma convalescente oferece a melhor chance em termos de eficácia”, diz o Dr. Daniel McQuillen, especialista em doenças infecciosas do Hospital e Centro Médico Lahey, em Burlington, Massachusetts, nos Estados Unidos.

Por aqui, os hospitais que irão iniciar essa terapia experimental darão mais informações sobre os detalhes e procedimentos nesta segunda-feira (6).


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