Brava gente brasileira

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Creio, paciente leitor, a quem tributo meus sinceros cumprimentos, que este, seja de fato, o título que melhor nos representa. No passado, obviamente, houvera quem reivindicasse, como Hino nacional, o patriótico Hino à Independência, onde está incrustada tal frase. O que seria louvável, pois o Hino que ai está, não passa de uma bajulação escancarada à coroa.

Quisera eu, este pobre amante das palavras, dispor da mesma inspiradora e eloquente capacidade que um certo Pero Vaz de Caminha, usou para retratar estas terras tupiniquins. Esta pátria mãe gentil, que às vezes amo profundamente, a ponto de semear aqui minha prole e que, num futuro (Que espero que demore absurdamente) certamente há de engolir a carcaça deste meu corpo que já vivera melhores dias. Esta pátria que incita-me a escrever novas palavras, mas, que as vezes causa-me asco, por ser tão oferecida, tão mansa.

Somos bravos e destemidos sonhadores, peritos na arte de alimentar esperança. E o senhor, paciente leitor, há de convir que é necessário muita coragem para se ter esperança. É na esperança de noites de sonos mais confortáveis, que sonhamos nossos planos numa cama repleta de calombos, mesmo ouvindo, lá no fundo de nossa alma, um sussurro a nos dizer que é tão pequena, a chance de deitar nossas cabeças sobre um travesseiro de pena de pavão que chega a ser desalentadora. É na esperança de um caviar no futuro, que somos manipulados a engolirmos com água, o boi diário, cuja procedência desconhecemos. Brincam com nossa esperança, é bem verdade, mas, somente brava gente é capaz de tê-la.

Nossa genética é invejável e nossa humildade é capaz de impressionar o mais puro dos seres canonizados. Em nossas almas, não sei se em função dos trópicos, queima a chama da alegria e o calor das relações inveja muitos dos europeus endurecidos. Há um pedacinho em nossa alma que nos incita a ignorar nossa realidade cruel é verdade, mas, talvez, seja um mecanismo de defesa e isso não nos tira a armadura de nossa resistência. Se somos resignados, ou mesmo, acomodados é outra questão. Mas, ninguém poderá dizer que não somos resistentes. Se parte dos europeus já deixaram o recém descoberto Brasil, por não suportarem a falta de saneamento, os animais silvestres, a comida peculiar e os tantos mosquitos que lhes dilaceravam a pele, imagine o senhor, paciente leitor, que convive agora com vespas enormes que fazem a malária ou aedes aegypti, miseráveis criaturas inofensivas, e que infestam o congresso nacional, de onde sugam, não somente nosso sangue, mas nossa essência.

Em nossas terras brotam raízes que o mundo desconhece. Colhe-se em abundância o que ninguém jamais sonhara semear. Um privilégio que inveja o mundo. E talvez, seja esta a nossa dura questão. O drama que assombra nossos festejos.

O Brasil, em seus primórdios, desde a primeira nau que aqui aportara, até os dias atuais, sempre foi visto como a lavoura do mundo. Não o pulmão, como algum veículo de mídia um dia inventara para massagear nosso ego. Somos a lavoura, onde ninguém semeou, mas todo o mundo colheu. A civilização nos tardou, pois, nossos primeiros habitantes estavam mais interessados em extrair o melhor que estas terras pudessem produzir e gozarem suas riquezas noutras pátrias. Junto com os tantos elementos naturais extraídos de nossas terras, levaram também nossa identidade e nos forjaram a base de chicote e obediência cega. Mas, ainda resta em nós, uma nesga de bravura que nos incita a defender nossas esperanças. A retomar o domínio deste pais que é nosso por direito. Mas, somos miseráveis tupiniquins, aglomerados em pequenos grupos diante de ocas, armados de arco e flecha, enquanto que, nossos inimigos, embora em menor número, têm em sua disposição, tanques e misseis.


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

De cabeça para baixo!

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​Saudações paciente e quase louco leitor!

Será que o mundo está mesmo ao contrário e ninguém reparou?

As vezes tenho cá a sensação, de que está tudo de cabeça pra baixo. Tudo às avessas.

Os, outrora, loucos, hoje mostram-se mais sensatos do que muita gente lúcida por ai. Gente que refletem a vida no banheiro, que protestam no sofá, e mudam o mundo na tela de um iphone.

Vejo, por exemplo, as pessoas entrando em seus carros, enfrentando trânsitos infernais para irem a uma academia, pedalar uma bicicleta parada! Vejo gente sã procurar a farmácia, em busca de um efervescente, porque exagerou na quantidade de comida, ou seja, quer a leveza da fome na barriga saciada. Todo mundo pede a aproximação, mas, erguem muros eletrificados e se trancam do mundo em condomínios. As pessoas compram belos carros, cada vez mais velozes, mas não se visitam, mandam um zap!

Vejo gente indo à igreja, pedindo a Deus que o torne uma boa pessoa, mas, na saída, já ignora o primeiro pedinte que encontra na escadaria. Vejo gente maluca, escancarando a vida nas redes sociais, depois, protestando contra as pessoas que opinam na mesma vida que ela acabou de expor. Tenho visto gente processando o ex companheiros, por divulgar vídeos de sua intimidade, dizendo-se constrangidos, mas, se era pra não ser revelado, porque cargas d’águas arquivar o momento em um dispositivo de fácil acesso?

Gente maluca essa, que vai à shows e, ao invés de assisti-los, fica filmando no celular, mas, se era para assistir por uma tela, não precisava ter ido, bastava assistir na televisão! Vejo líderes religiosos promovendo a cura de seus fiéis, através de ato de fé, mas, quando se trata de sua própria cura, recorrem a hospitais!

Tem gente querendo acabar com a fome, desperdiçando alimento. Vejo miseráveis seres bondosos, misericordiosos com os cães, mas, extremamente impiedosos com os seus pares. E como não falar de verdadeiros “cristãos” defendendo pena de morte, e outros endurecimentos, que nada mais é, senão vingança.

As pessoas gastam a saúde tentando acumular dinheiro para se remediar na velhice. Lutam por conquistar uma bela e espaçosa casa, mas, dão de ombros para se edificar um lar, construir um relacionamento honesto com quem a habitará. Busca-se dinheiro, esquecem-se os valores. Tudo está se profissionalizando e se humanizando cada dia menos.

Gente maluca é essa que diz gostar de ouvir música mas, há tempos aboliram as belas letras e as substituíram por sons.

As pessoas acordam disposta a abraçar o mundo, mas, não abraçam sequer os próprios filhos. Gente construindo relógios para quem nunca tem tempo.

Gente maluca essa, que esfola a pele de emissoras de televisão, mas, não mudam de canal.

Não sei onde está o botão, e se há de fato uma maneira de se “resetar” está m.... ufa! mais uma vez, salvo pela nesga de lucides que ainda se conserva incrustrada em meu ser, caso contrário, estaria demitido por propor um palavrão. Aliás nesta atmosfera onde reina o politicamente correto nem sei se ser raiz é primitivo ultrapassado, ou ser modinha é efeminado e prepotente. Aliás, peço que parem este mundo um instante. Stop Please! Pois, há muito me atrapalhei com a coreografia desta dança confusa, e nesse gira-gira já nem sei mais de que lado estou, certo ou errado. Faz tempo que não sei se posso brincar no carnaval, sem ser acusado de ferir valores sociais, ou se fico em casa, dissertando sobre a futilidade deste festejo. Não sei se posso ter postura conservadora e ser classificado como extremista, nazista, ou pobre metido a besta, ou se posso defender a bandeira do socialismo e ser chamado de imbecil, comunista, esquerdopata e anarquista. Não sei se como alface em protesto à matança de animais, ou faço um churrasco para não ser taxado como esnobe. Não sei se posso dormir de meia e ser chamado de modinha, ou se ando nu e acompanho a moda.

Não sei se posso sorrir para uma criança, e assim me tornar suspeito de pedofilia, ou a ignoro e recebo rótulo de desalmado. Não sei se escrevo e aceito a pilheria de um “pseudo intelectual” ou, se abandono de vez as palavras e aceito o rótulo de analfabeto social.

A verdade, confuso paciente leitor, é que tanto eu, como você, há muito perdemos o passo, estamos sacolejando o corpo, tentando acompanhar ou ser acompanhado, acreditando que o sacolejar maciço é que fará de fato alguma mudança neste ritmo frenético, cá entre nós, não fará, portanto sacoleje seu corpo à sua maneira, de qualquer forma, o maluco sempre será você


.*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

De cabeça para baixo!

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Saudações paciente e quase louco leitor!

Será que o mundo está mesmo ao contrário e ninguém reparou?

As vezes tenho cá a sensação, de que está tudo de cabeça pra baixo. Tudo às avessas.

Os, outrora, loucos, hoje mostram-se mais sensatos do que muita gente lúcida por ai. Gente que refletem a vida no banheiro, que protestam no sofá, e mudam o mundo na tela de um iphone.

Vejo, por exemplo, as pessoas entrando em seus carros, enfrentando trânsitos infernais para irem a uma academia, pedalar uma bicicleta parada! Vejo gente sã procurar a farmácia, em busca de um efervescente, porque exagerou na quantidade de comida, ou seja, quer a leveza da fome na barriga saciada. Todo mundo pede a aproximação, mas, erguem muros eletrificados e se trancam do mundo em condomínios. As pessoas compram belos carros, cada vez mais velozes, mas não se visitam, mandam um zap!

Vejo gente indo à igreja, pedindo a Deus que o torne uma boa pessoa, mas, na saída, já ignora o primeiro pedinte que encontra na escadaria. Vejo gente maluca, escancarando a vida nas redes sociais, depois, protestando contra as pessoas que opinam na mesma vida que ela acabou de expor. Tenho visto gente processando o ex companheiros, por divulgar vídeos de sua intimidade, dizendo-se constrangidos, mas, se era pra não ser revelado, porque cargas d’águas arquivar o momento em um dispositivo de fácil acesso?

Gente maluca essa, que vai à shows e, ao invés de assisti-los, fica filmando no celular, mas, se era para assistir por uma tela, não precisava ter ido, bastava assistir na televisão! Vejo líderes religiosos promovendo a cura de seus fiéis, através de ato de fé, mas, quando se trata de sua própria cura, recorrem a hospitais!

Tem gente querendo acabar com a fome, desperdiçando alimento. Vejo miseráveis seres bondosos, misericordiosos com os cães, mas, extremamente impiedosos com os seus pares. E como não falar de verdadeiros “cristãos” defendendo pena de morte, e outros endurecimentos, que nada mais é, senão vingança.

As pessoas gastam a saúde tentando acumular dinheiro para se remediar na velhice. Lutam por conquistar uma bela e espaçosa casa, mas, dão de ombros para se edificar um lar, construir um relacionamento honesto com quem a habitará. Busca-se dinheiro, esquecem-se os valores. Tudo está se profissionalizando e se humanizando cada dia menos.

Gente maluca é essa que diz gostar de ouvir música mas, há tempos aboliram as belas letras e as substituíram por sons.

As pessoas acordam disposta a abraçar o mundo, mas, não abraçam sequer os próprios filhos. Gente construindo relógios para quem nunca tem tempo.

Gente maluca essa, que esfola a pele de emissoras de televisão, mas, não mudam de canal.

Não sei onde está o botão, e se há de fato uma maneira de se “resetar” está m.... ufa! mais uma vez, salvo pela nesga de lucides que ainda se conserva incrustada em meu ser, caso contrário, estaria demitido por propor um palavrão. Aliás nesta atmosfera onde reina o politicamente correto nem sei se ser raiz é primitivo ultrapassado, ou ser modinha é efeminado e prepotente. Aliás, peço que parem este mundo um instante. Stop Please! Pois, há muito me atrapalhei com a coreografia desta dança confusa, e nesse gira-gira já nem sei mais de que lado estou, certo ou errado. Faz tempo que não sei se posso brincar no carnaval, sem ser acusado de ferir valores sociais, ou se fico em casa, dissertando sobre a futilidade deste festejo. Não sei se posso ter postura conservadora e ser classificado como extremista, nazista, ou pobre metido a besta, ou se posso defender a bandeira do socialismo e ser chamado de imbecil, comunista, esquerdopata e anarquista. Não sei se como alface em protesto à matança de animais, ou faço um churrasco para não ser taxado como esnobe. Não sei se posso dormir de meia e ser chamado de modinha, ou se ando nu e acompanho a moda.

Não sei se posso sorrir para uma criança, e assim me tornar suspeito de pedofilia, ou a ignoro e recebo rótulo de desalmado. Não sei se escrevo e aceito a pilheria de um “pseudo intelectual” ou, se abandono de vez as palavras e aceito o rótulo de analfabeto social.

A verdade, confuso paciente leitor, é que tanto eu, como você, há muito perdemos o passo, estamos sacolejando o corpo, tentando acompanhar ou ser acompanhado, acreditando que o sacolejar maciço é que fará de fato alguma mudança neste ritmo frenético, cá entre nós, não fará, portanto sacoleje seu corpo à sua maneira, de qualquer forma, o maluco sempre será você.


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

Artigo com poema

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O fato é que eu, você e toda essa gente maluca ao redor, vamos nos desintegrar, tais quais as folhas secas, estraçalhadas, engolidas pelo solo. Afinal, somos, de fato, folhas que tarde, ou cedo demais, seremos apartados desta arvore gigantesca, naturalmente, ou, por consequência de uma tragédia. E não importa o quão preparados estejamos. Nós morreremos. Muito provavelmente, sem realizarmos boa parte de nossos planos. E tenha como um luxo restrito a pouquíssimos seres, se por acaso, conseguir despedir-se. De nós, só ficarão lembranças, eternizadas numa fotografia, ou materializadas num objeto, do qual gostávamos tanto, e que certamente será doado, ou, descartado. Talvez, você ainda sobreviva por uns dias, no restinho de sua loção preferida, odorificando a última roupa usada. Seus chinelos certamente calçarão outros pés e, aos poucos, você vai sendo substituído, porque, as pessoas vão se acostumando com sua ausência.

O fato é que, contrariado ou resignado, nós entraremos no trem, com passagem só de ida. Afinal, sempre estivemos na estação à sua espera. Não há maneira de se evitar isso. Não adianta qualquer tentativa de barganhar um fiapo a mais de vida.

Ah! Paciente leitor!

Concordo que ninguém abre uma página, esperando encontrar palavras tão fúnebres, e ainda que você esteja, neste momento, sob o ímpeto de abandonar tais palavras e seguir para outra seção, insisto que, tais quais estas linhas, nossa vida também terá um fim.

Não tenha aqui um epitáfio. Também não se trata de lamurias. É somente uma proposta clara de reflexão da vida. Imaginar nossos nomes impressos no próximo obituário, talvez, reanime nosso desejo de viver, de aproveitar cada instante desta vida maravilhosa. Não que devamos trabalhar em oposição ao relógio, que segue sempre em frente, mas, sempre há tempo de reativar as engrenagens da vida. Não essa vida mecânica, que eu e você levamos, baseada em labuta exaustiva e pasto ao fim da tarde.

Talvez, paciente leitor, esteja na hora de fazer aquela viagem em família, que foi adiada pela décima vez, afinal, há uma possibilidade de você fazer esta viagem mais tarde, sozinho. Talvez, seja a hora de perdoar ou pedir perdão àquela pessoa, ouvi-la ou falar-lhe mais, pois, talvez, amanhã você ainda esteja aqui, mas, esta pessoa não.

Viva, paciente leitor!

Na mesma intensidade de um último dia, pois, cá entre nós, pode ser mesmo nosso último dia.

Por falar em morte...


Sebastião nos quintos do céu

Acordou no céu assustado.Com bando de anjos do lado.Não sabia o que lhe tinha acontecido,

Mas, que havia morrido,

Não foi difícil entender.

Ouviu liras angelicais,

Numa calmaria assaz,

Ficou logo agoniado,

Foi pensando ressabiado,

“Aqui não tem nada que fazer”

Não que estivesse reclamando,

Mas, aquela gente toda rezando

Já lhe dava agonia.

E perguntou revoltado,

Com medo de ser pecado,

Qual seria o desgraçado que lhe tirou da putaria?

Viu arcanjos e querubins,

Pensou, “se a morte é chata assim

Não quero mais morrer”.

Foi quando um tal de Pedro,

Lhe apontando o dedo,

Pediu-lhe um passo à frente.

E ele já mostrando os dentes,

Foi logo se adiantando.

Ao que o santo já se desculpando

Tratou de resolver.

Dizendo: Meu senhor!

Queira, por favor,

Aceitar nossas desculpas,

Pois, foi por minha culpa,

Que se encontras neste estado.

E ele já animado,

Sentindo a razão do lado,

Disse convencido,

Que aquilo seria esquecido

Sem qualquer ressentimento.

Desde que retornasse imediatamente.

Não que fosse exigente.

Mas, se lhe desse um bocado mais de anos

Para desfazer de vez o engano,

Não teria mal algum,

Pois, como todo bebum,

Voltaria ao boteco,

E com um ou dois canecos,

Daria por encerrada a questão,

Sem demais aborrecimento;

Ao que o homem disse: Não!

Houve sim um erro,

Mas, foi no seu enterro

Que confundi um papel,

E lhe trouxe de engano ao céu,

Mandando para o cão,

Um outro Sebastião

Que deveria cá estar.

E ele sem pestanejar

Disse: Deixemos esta peleja,

E onde quer que meu xará esteja

Que Deus o ajude,

Mas, a melhor atitude

É declarar morto o assunto.

A menos que queira ir junto,

Explicar ao pai celestial,

Que fizeste um grande mal,

Trocando os presuntos.

Imagino que o lastimável incidente,

O deixaria descontente,

Ao qual adicionaria uns trechos mais,

E diria que o próprio satanás

Tem em ti um Judas traidor,

Que, às custas de um favor,

Trouxe cá um outro defunto.Uma alma penada

Pra endiabrar a “anjarada”

E fazer do céu um inferno.

Seu castigo, por certo, será eterno,

E eu que nada tenho a perder,

Por certo, hei de descer,

Mas, pode anotar na caderneta,

Pois, sou porreta.

Na lábia, levo o senhor, pra morar junto d’eu com o capeta.


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

A PLANTAÇÃO NOS AGUARDA

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Saudações paciente leitor!

Passadas as férias natalinas, com o espirito revigorado, ainda arrependidos dos exageros nas ceias festivas, o fato é que aqui estamos novamente, compartilhando analogias, às vezes turvas, reconheço, mas, sempre honestas.

O que você espera deste 2019?

Creio que fizeste uma lista de possíveis mudanças, novos projetos e promessas. Mas, o que este ano recém-desabrochado pode esperar de você?

O que temos a oferecer a estes novos dias?

Proponho que vejamos este ano que rompe o útero materno, como um vasto campo, arado e incrivelmente fértil. Um terreno no cio, pronto para ser fecundado e lhe retribuir com gosto o que nele semear. Espero profundamente que, quando chegada a hora, em que os bagos deste ano estiverem pejados de frutos, você possa colher um abraço sincero daquele relacionamento que você regou e cultivou com verdade e amor. Que você possa buscar aconchego e proteção à sombra larga e refrescante da família, na qual você empenhou tempo, amor e, sobretudo, o seu melhor. Que você possa também, acompanhar a frutificação de seu pólen, vê-lo se espalhar pela terra, conquistando nossos horizontes, se entrelaçando a novas possibilidades. Que você consiga, com a sabedoria de um exímio jardineiro, adubar e preparar o terreno onde semeaste sua prole, tanto quanto, subtrair qualquer capim silvestre e erva daninha que possa se entrelaçar em sua fragilidade e ameaçar sua evolução saudável. Que você seja capaz de atingir entendimento suficiente para aceitar que nem todos os dias serão ensolarados, com chuvas moderadas no final da tarde. Às vezes, você nem conseguirá enxergar a beleza de sua plantação, tamanha a neblina que se instalará sobre ela, mas, tenha certeza de que os caules que você fortificou com seu amor e cuidado, resistirão com bravura. E o que importa de verdade, é saber que eles ficarão bem. Muitas vezes virão tempestades impetuosas, que encharcarão o solo e ameaçarão tombar as relações que você vem cultivando e transformando em lamaçal o solo arado, que esperava a semente. E de repente, num estalo de desespero, você até deixe cair suas ferramentas se sinta encorajado a abandonar seu cesto de sementes, talvez até pragueje contra a fragilidade de sua lavoura. E de repente, num imprevisto qualquer do destino, pode ser que você esteja sozinho numa região pantanosa, caminhando com águas até os joelhos.

Neste turvo momento, é necessário que você, experiente paciente leitor, lembre-se de que já superara incidentes bem maiores, bem mais adversos. Olhe para você, veja bem! Tornaste um bom e cuidadoso agricultor, veja os calos em suas mãos, serão suficientes para lembrá-lo disso. Lembre-se que, embora a tempestade possa ter afetado a beleza das folhagens de sua plantação, suas sementes de relações humanas ainda pulsam no útero do solo que você preparou. De toda forma, quando os dias derrotarem este ano que nasce agora, você terá sua colheita. Nossos dias, assim como o solo em que pisamos e um dia nos engolirá, são abundantes e são recíprocos, nossos principais juízes, nos devolvem exatamente o resultado de nossas sementes. Eu, você e todos os demais agricultores que arregaçam as mangas diariamente nesta lavoura sofrida, decidiremos, se sorveremos a macies de frutos maravilhosos, ou mastigaremos a contragosto o amargo das angustias e maldades que o solo nos devolve.

Este espaço, será meu campo virgem, onde pretendo semear e cultivar de maneira mais madura nossa relação que não é de hoje, vem se fortalecendo. Honestamente, paciente leitor, espero ainda encontrar-te muitas vezes nas ruas, e continuar com os nossos debates, em torno das analogias que proponho, abordar os tantos “entretantos” da vida. Lhe desejo uma boa plantação, amor suficiente para regar suas sementes, amadurecimento para cuidar de sua lavoura, mas, acima de tudo, lhe desejo muita paciência para os dias que virão.


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

A GRANDE COLHEITA

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Nos arredores de uma aldeia, ladeada por cenário árido, decorada por arbustos secos e montanhas rochosas que, à noite, revelavam contornos góticos, havia um pequeno sitio, onde cabras magras passavam o dia todo tentando furtar fiapos de capins silvestres, escondidos nas fendas rochosas. Durante o dia, o sol reinava absolutamente, metralhando o seres com raios impetuosos. Nenhuma nuvem ousava opor-se. Mas, quando o manto negro trazia a noite, o clima amenizava e a brisa trazia um frescor almiscarado e agradável.

Quando chegava dezembro, as aldeias vizinhas celebravam a boa colheita com muitos festejos de adorações aos deuses. As ruas eram enfeitadas com flores e galhos de palmeiras, as pessoas se abraçavam e sorriam frequentemente. O espirito rejuvenescia e se revigorava para, nos meses seguintes, recomeçarem o plantio. Porém, para Jalau e sua família, não havia qualquer razão para comemorar. Mais um ano infrutífero. Aquele seu solo, onde cabras secas definhavam era absolutamente estéril. Nada nascia, nada florescia. As más línguas afirmavam que aquele pedaço de terra, para onde Jalau levara sua família, era amaldiçoado. Por esta razão, todos evitavam aquele apêndice triste, até mesmo a chuva.

Numa noite qualquer, quando a família se reuniu à mesa, para saborear a sopa rala, ouvindo a sonorização dos festejos das aldeias, que o vento trazia, Jalau surpreendeu uma lágrima discreta, rolando no canto dos olhos de sua amada esposa, ao que ela correu a disfarçá-la. Ele evitou indagá-la, até porque, sabia bem a tristeza que maculava o âmago daquele guerreira que, ao seu lado, lutara muitas batalhas, tombando em quase todas elas. Ele sabia que as trevas da incertezas, rondavam o coração de sua família. Sabia que temiam o amanhã que, provavelmente, nasceria com durezas e a miséria certamente se agravaria.

Jalau fitava a sopa sem ânimo. Sem fome. Cotovelos sobre a mesa, as mãos massacradas pela labuta diária lhe amparando o queixo. Olhos tristes, quase apagados na orbita, circundada por uma face ossuda, onde, a pele lembrava um papelão amarrotado. Ele se permitiu imaginar-se entre aqueles homens que festejam tão próximo. Imaginou-se sorrindo, e seu celeiro, onde nada mais havia, exceto uns poucos feixes de capim e ferramentas, de repente, se inundasse de sacos de grãos. Mas, como uma nuvem que se dissipa com a rajada de vento, seus pensamentos se dissolveram e ele viu sua triste realidade, afundada naquele prato de sopa rala.

Naquela noite, todos dormiram cedo, maltratados pela angustia e o sofrimento. Mas, jalau se permitiu recostar na varanda, em reflexão, enquanto as estrelas no céu, refletiam em seus olhos marejados. As labaredas lhe queimavam a alma. Deus não estava sendo justo, pensava ele, sempre foi um bom sujeito, honesto, caridoso, amoroso e de fé, mas, sentia-se esquecido, definhando naquela terra, onde nada nascia. Até que, como um estrondo repentino, uma sugestão de um instante, uma estrela cruzara o céu e morreu em seu celeiro. No entanto, não era uma estrela qualquer, era imensa, única, e seu brilho era grandioso. Um brilho majestoso, que assanhava a curiosidade. Foi quando percebeu que uma pequena chama tremulava em seu celeiro. Jalau se aproximou receoso, cuidando para não produzir qualquer som que revelasse sua presença. E viu, pelas frestas, iluminado por uma pequena fogueira improvisada, um casal aninhando o filho recém-nascido nas palhas de seu celeiro. Nos olhos da mãe exausta e trêmula, mergulhada em suor, viu a felicidade produzida pelo primeiro nascimento ocorrido nas terras de Jalau.

Jalau jamais esqueceria aquele 25 de dezembro.

-Jesus! –Murmuraram os pais emocionados.

Dizem que o solo infértil de Jalau acordou pejado de lavouras, que vazavam da terra e que a fartura se estabelecera em seu lar. Outros afirmam que aquele nascimento, não transformara em nada a vida miserável do homem. Mas, todos reconhecem que aquela foi a melhor colheita da terra.

*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

BARQUINHOS DE PAPEL

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Não percebemos, mas, ainda ontem, estávamos brincando na chuva, navegando enxurradas em barquinhos de papel, sem leme, bussola ou âncora. Temendo os trovões impetuosos é fato, mas, encorajados com a certeza de que não se pode perder tão magnifico espetáculo.

Ontem mesmo, conversávamos na calçada de um amigo, fantasiando milhares de situações da vida adulta, enquanto o dia se tingia de negro e a noite nos surpreendia. Situações onde teríamos aquela mesma liberdade, que nos permitia tolices.

Éramos destemidos cavaleiros empunhando espadas, salvando lindas donzelas, desafiando monstros imaginários que faria tremer o próprio Dom Quixote.

De lápis em punho, modelávamos um mundo maravilhoso, resplandecido num Éden verde e azul, convidando a viver.

Ontem achávamos o hoje incrivelmente distante que, de repente, talvez sequer nos chegasse, correndo o risco de se dissipar durante o longo percurso.

Mas, tal qual os grãos de areia fugindo por entre os dedos, o hoje nos chegou. Com ele, a materialização de monstros que jamais imaginamos combater. Monstros semelhantes a nós, criados e alimentados por nós. Monstros que conhecem nossas fragilidades, sabem que abolimos nossas espadas e o ar de herói. Aliás, ficamos tão parecidos com os tantos monstros que desenhamos que, por vezes, é bem difícil distinguir-nos. Nos tornamos o adulto que complica, que não vê graça, que tudo sabe e nada ensina. Somos o tipo de gente que sabe palestrar com conteúdo, qualquer filosofia da evolução humana, compreende o mecanismo de translação que faz a terra girar, mas, lamentavelmente, não compreende o complexo prazer que um carrossel pode proporcionar. Não compreende que é na simplicidade que estão as coisas mais sofisticada. Não entende que o substancial não se compra.

O que houve com a gente?

Para onde foram nossos sorrisos?

Afinal, em que momento, nos tornamos a “vizinha chata” que nunca devolvia a bola?

Ainda ontem, tínhamos milhares de medos e não éramos reféns deles. Sabíamos que nem sempre o sol brilharia, que às vezes, a chuva tingiria o dia de cinza, mas, aproveitaríamos da mesma forma. Sabíamos reconhecer a importância do nosso e do riso alheio.

Hoje somos folhas mortas, secando gradativamente na calçada deste longo percurso, quebradas sob os pés.

Éramos o dia azulado e hoje somos a noite que o escureceu integralmente.

Se há ainda, alguma coisa que carregamos de nossa infância, na pouca bagagem para a vida adulta, sem dúvidas, é a capacidade de interpretar vários personagens. Trouxemos milhares de máscaras, seguindo a sugestão que alguém falou para alguém, de que são extremamente necessárias na vida adulta. O fato é que nossas mascaras refletem opiniões, estereótipos e até a aparência deste mundo, só não reflete nossa alma, onde uma criança aprisionada grita desesperada, por retornar ao mundo.

Somos aquele barquinho de papel, que ninguém viu para onde foi. Desaguamos num mar de possibilidades, onde dissolvemos tanto, que nos tornamos a própria agua salgada.

E se, por acaso, algum dia você, amado paciente leitor, se surpreender sorrindo abobalhado de uma idiotice qualquer, para qual nenhum adulto parece demonstrar qualquer importância. Ou se, no meio do alarido do trânsito, um balanço solitário, uma árvore pendida sobre um muro ou mesmo um barquinho de papel, ondulando mansamente sobre enxurradas, lhe seduzir, não se preocupe, lhe asseguro de que não estás louco, é apenas alguns sobressaltos da criança aprisionada rogando pela vida. E talvez, você nem se lembre, mas, um dia, estas pequenas coisas, aparentemente insignificantes, foram extremamente valiosas em sua vida.

“A criança que um dia fui. É o adulto que eu queria ser.”


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

EM CACOS...

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Saudações paciente leitor!

Aliás, tenho cá minhas dúvidas, se és ainda tão paciente assim!

Particularmente, defendo a opinião de que, quem manipula palavras, deve valer-se do mesmo cuidado de quem manuseia uma granada, ou qualquer objeto do gênero. Pois, um deslize e a coisa vai para os ares. Por esta razão, tento, na maioria das vezes, quando a lucidez permite, ser tão coerente quanto honesto em minhas linhas. Ainda que a linha entre ambos é, por vezes, extremamente tênue.

Dadas devidas explicações, devo admitir que estas benditas eleições presidenciais, deste turvo 2018 tem se revelado como um divisor d'aguas na história moderna desta nossa sociedade brasileira.

Dizem por ai, que o Brasil se dividiu. Pertinente. Mas, quando é que o Brasil foi unido? Aliás, devo observar que são raras, as nações verdadeiramente entrelaçadas numa mesma causa. Ora! A quem pretendemos enganar? O Brasil sempre foi dividido em cacos, portugueses e índios, negros e brancos, monarquistas e republicanos, conservadores e liberais, elitistas e miseráveis e por ai vai. Aceito a alegação de que aprendemos, ao longo dos anos, na medida do possível, conviver senão saudável, ao menos o mais próximo de tolerantes, uns com os outros.

O fato é que temos hoje, em Haddad e Bolsonaro, duas propostas de filosofias distintas. Aliás, creio que minha geração nunca teve duas propostas tão extremadas. Oito ou oitenta. De um lado, a proposta de se manter tudo do jeito que está, reabilitando uma popularidade estremecida, mantendo programas populares e corrigir rachaduras que foram se alargando ao longo destes últimos anos. Na outra raia, favorito ou azarão, só o tempo nos dirá, corre um típico anti-herói, que propõe resgatar valores esquecidos e guiar o Brasil por um novo caminho.

Como são extremadas as opções, neste menu duvidoso, quase indigesto, naturalmente, nasce uma clara divisão de opiniões entre os eleitores. Honestamente, e eu jamais escreveria tais, se não fosse tutelado pela honestidade, isso pouco me preocupa, pois, acredito que divergências de filosofias são fundamentais para o crescimento social, desde que as partes estejam preparadas para refletir sobre opiniões opostas. Entretanto, divergências em terrenos dilacerados pela miséria de valores, de educação e de toda sorte de comportamento social, tende a inclinar para confrontos extremamente agressivos. Trocando em miúdos, proponho ao leitor, imaginar um enorme liquidificador, nele, adicione, falta de identidade, abandono intelectual e cultural, desvalorização familiar e social e uma grande mídia televisiva altamente manipuladora. Some a esta mistura, as fragmentações dos resultados disso tudo, ou seja, intolerância de opiniões, preconceito, desinformação, racismo etc, pronto, criou-se os tantos seres lamentavelmente robotizados e manuseados, que se estapeiam nas esquinas virtuais, defendendo filosofias governamentais, armados de argumentos extremamente agressivos e intolerantes. O que me preocupa de verdade, é a clara disseminação de ódio e os muros sociais que estão se erguendo. E triste, é perceber que boa parte da massa está sendo manuseada pela desinformação, causada pelos longos anos de comodismo e desinteresse.

Quando afirmo que esta eleição pode se tornar um marco na história moderna Brasileira, faço referência ao modelo político que se perpetuará neste imenso bordel. Se será a bandeira de Haddad, ou de Bolsonaro, a tremular no planalto, somente as urnas dirão. Mas, claramente, as cortinas caíram, e revelaram um povo altamente despreparado para os novos desafios que virão. O povo brasileiro tem se tornado torcedor de organizadas políticas e, consequentemente, fazendo de partidos políticos, o clube de coração e isto me assombra. Temo que com isso, se agrave a manipulação midiática, os conflitos resultantes de todo tipo de intolerâncias. Quanto à nossa paciência? Posso afirmar que já está tão diluída quanto os cacos desta pátria que nos pariu.


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

EM TEMPOS DE VOTAÇÃO...

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Politico é esquisito,

            danado “pra” falar bonito,

            mas, não dispensa um grito,

            quando lhe some a razão.

            E já no aperto de mão,

            deixa clara a mensagem,

            de vender bem a imagem,

            de cidadão bem honesto

            Tem do tipo que contesta.

            Pra este ninguém presta.

            Tem até aquele que faz festa,

            pra garantir a eleição.

            Mas, tem o tipo simplão,

            na camisa falta botão.

            Faz o humilde e chorão,

            manhoso em cada gesto.

            Político brasileiro,

            honesto ou fuleiro.

            Gosta mesmo é de dinheiro.

            Se tem alguma exceção,

            de gente de reputação.

            É incapaz de governar,

            pois, se incomodar,

            logo lhe dão sumiço.

            Tem político cara de pau,

            este é patrimonial,

            só tem no ano eleitoral.

            Tem político modinha,

            diz que adora coxinha,

             que seu lugar é com o povo,

            come até pão velho com ovo

            e visita cortiço.

            Tem do tipo militar,

            com conduta exemplar.

            Que promete disciplinar.

            Diz que mata até o capeta,

            que, com a ponta da caneta.

            Ele faz nossa segurança.

            Se precisar beija criança,

            se for pra sair bem na foto

            tem do tipo que nada fez,

            mas, garante que agora faz,

            e que se for olhar pra trás,

            entraremos em retrocesso.

            Que a marcha do progresso,

            é seguir sempre em frente.

            Tem até quem se diz crente,

            fiel e muito devoto.

            Tem o tipo bandido.

            deixa o povo iludido,

            está todo envolvido,

            em bandidagem imensa.

            Mas, culpa a imprensa.

            Que o caso é perseguição,

            que é exemplo de cidadão,

            que ficou rico trabalhando.

            Este poema é um clamor,

            pedindo pelo amor,

            para que, você, eleitor.

            Eleja com cuidado.

            Quem vai gerir o estado.

            Tem politico de verdade.

            Mas com tanta falsidade.

            Estamos todos atados.


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.


OS TIGREIROS DA ERA TECNOLÓGICA

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Quem aportasse no Rio de Janeiro do século XIX, ou seja, na capital do império brasileiro, recorreria imediatamente ao socorro de lenços perfumados, para que pudessem camuflar o futum exalado das vias públicas, ao qual os habitantes já estavam acostumados. O bodum era tamanho, que os brasileiros recorriam a aromatização das vias, através do cultivo de hortelã, canela e cravo-da-índia, para tonar o ar, digamos, respirável.

De longe, avistariam, principalmente ao nascer do sol, valendo-se do frescor da manhã, os famosos “tigreiros”, que eram os escravos encarregados de transportar sobre os ombros, barris repletos de excrementos e dejetos de seus senhores. Os barris eram desovados nos terrenos baldios e, impiedoso ou não, o fato é que aquela atividade rotineira se tornou uma competição entre os cativos. Os escravos concorriam sobre quem era capaz de erguer o maior monte de b... (Em tempo, por pouco escapa-me um palavrão, com ele, provavelmente, meu emprego neste jornal ha-ha). Quem de longe observasse, veria dezenas de morrinhos de dejetos humanos, coroados com bandeirolas, esperando pela próxima chuva, para que fosse dissolvidos e escoados para o mar. Veriam também, ao alvorecer, o desfile de bebuns, que varavam noites em pândega nos tantos bordéis e que, agora, saiam destes, cambaleantes e amarrotados, procurando nos terrenos baldios, entre os morrinhos de dejetos e os escravos que os juntavam, um lugar “decente” para vomitar.

A alcunha de “tigreiros”, deu-se graças à mistura pastosa e amarelada que, vez ou outra, num descuido do cativo que a transportava, despencava na pele negra, remetendo à alusiva comparação com a coloração de um tigre.

Engana-se o leitor que imaginar que a questão “tigreiros” é coisa do passado, ou mesmo conto de fadas. Na verdade, estes pobres seres, que dedicam a vida a carregar as fezes alheias e até brincar com elas, ainda existem, em plena revolução da tecnologia, elas existem. Eu esbarro nelas no dia a dia, e toda vez que olho no espelho. Exatamente, digníssimo paciente leitor, por incontáveis vezes, ao refletir minha situação nesta sociedade, cada dia mais hostil, mais sinuosa e vulnerável, sinto-me um próprio “tigreiro”, transportando sobre meus ombros (no caso franzinos, diferente da musculatura vigorosa dos negros do século XIX) os dejetos de meus senhores. E o pior de tudo, paciente leitor, que não sei porque cargas d'agua não abandonou minhas rasuras, é que consigo me ver, também, tal qual os negros do Brasil império, erguendo castelinhos de merda alheia. E, se ainda há possibilidade de piorar o quadro, me divirto com isso. Esta é a atual situação do pobre neste país. Mas, é ainda pior, a situação das pobres almas que ainda não entenderam que não pertencem a elite, que não há meio pobre ou meio rico. E passam sua existência, desovando barris maiores e produzindo-os em igual medida, só que amparados por rótulos ou sugestões sociais que, de alguma maneira os colocam acima dos pobres.

O fato, paciente leitor, é que no fatídico dia 13 de maio de 1888, aboliram a escravidão e, consequentemente, os “tigreiros” que eram forçados a transportar os dejetos da elite, mas, no mesmo dia pariram uma nova espécie de tigreiros, numa versão simbolicamente livre, igualitária em direitos, porém, mediocremente, mais resignada. Eis que aqui, brota-me uma questão. É fato que fugirei um pouco à questão dos tigreiros, e tal desconexão poderia irritar meu editor, mas, por outro lado, a parte jovem que ainda resta neste corpo corroído pelos anos, sugere sempre uma anarquia textual. E assim, proponho que faça a si próprio uma pergunta: Você é inteiramente livre? Não falo em liberdade de expressão, ou coisa do gênero. Falo sobre sua situação dentro da sociedade e consequentemente, do estado em um todo. Do tipo de liberdade que só conhece quem experimentou a profundeza de um rio com os dois pés. Reflita, enquanto vou até o terreno mais próximo desovar este barril de tributações que começa a derramar sobre meus ombros.

*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.