Refém da angústia

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Fazia muito tempo que eu não via a noite se alvorecer. Aquela nesga de escuridão se dissipando, cedendo lentamente, até se transfigurar numa pálida luz verde-maçã. O sol nascera todos os dias de minha existência e, curiosamente, somente agora que ela se esvai, fui capaz de sorvê-lo, observando cada variação de entonação. Como eu haveria de cometer a estupides de morrer sem parar para admirar um alvorecer? Seria uma lástima!

O tiquetaquear do relógio parecia zombar da minha aflição. Na cama, labaredas esguias pareciam fritar minha pele. Cada segundo era uma eternidade. O sono parecia um animal receoso, a estudar o terreno, esperando o momento oportuno para desferir-me um golpe certeiro, o que não ocorrera. O pior de sofrer é amargar o sofrimento em silêncio na madrugada, afinal, seria egoísmo meu, perturbar o sono alheio com minha angustia. Somente o vento caminhava deliberado pelas ruas, acariciando a copa das árvores e penetrando nas casas que dormiam apagadas. Por motivos óbvios evitei o espelho, mas, sucumbi a uma olhadela de soslaio, o suficiente para furtar o reflexo deprimente de uma caricatura maltrapilha, forjada por algumas horas de insônia. Ah! Eu que sempre gostei de minha fisionomia, agora a evitava com todas minhas forças, como se o processo de despedida de meu ser já estivesse em curso. Meus sentimentos eram um misto de rompantes de histeria, que praguejava contra a lentidão da noite, contrastando com a melancolia, no medo do dia que nascia. Cigarros, fumei tantos quanto a indústria era capaz de produzir.  E descobri que mente, quem diz que acalma os ânimos.

No trajeto para o hospital eu tentava controlar um nervosismo inconveniente, ao passo que convencia-me de que era preciso ser forte, já no corredor, frio tal qual uma lápide, sentia que isso não seria possível. Àquela altura, o médico provavelmente lia seu matinal e tomava um café em família, sem imaginar que seria meu carrasco ao abrir o envelope. E tive pena dele. Ao pensar desta forma, afinal, ninguém ingressa na medicina pensando em ser um mensageiro da morte. Tudo era fúnebre. E, de repente, eu estava a passar toda minha vida em mente, tal qual aquelas revistas que eu folheava na recepção. Havia tanta coisa a ser feita ainda. Tanto havia a ser dito. Tanto a ser vivido.

 Um caroço, biopsia e eu. Derrotado, tentando ler cada palavra impressa naquele diagnóstico, através da face do médico, tão focado estava nela. Era capaz de furtar cada piscar de olho, cada movimento involuntário em sua tez. O coração parecia tentar romper cada tentáculo que o ligava a meu corpo.

 Pela forma com a qual reagira o médico, soube imediatamente que eu não era o único desequilibrado que lhe furtara a papelada e se negara a ouvir seu diagnóstico. Fosse ele qual fosse.

 -Perdoe-me doutor, mas, não quero saber. –Dizia eu todo trêmulo, refém do desespero que arrastava meu corpo para longe dali. Minha morte era certa. E eu não precisava ouvir isso de ninguém, ainda que os termos fossem ajustados para propor-me esperança. Ora! Tenho o direito de escolher como findar minha vida.  Eu parecia estar caminhando com agua até os joelhos, tão pesadas estavam minhas pernas. A respiração ardia, os olhos encharcavam-se e o coração batia em toda parte, sufocado por angustiada agonia. O alarido do trânsito aumentara minha confusão, e percebi tarde demais que já estava bem no meio da rua, atrapalhando o trânsito, sendo atropelado. O chão acolheu meu corpo adormecido com brutalidade. O mundo rodopiava lentamente. Tudo era turvo. Pessoas se assomavam pronunciando palavras confusas. Minhas mãos trêmulas recorreram-se institivamente ao papel furtado, agora manchado pela vermelhidão do sangue. E num último esforço, pude ler claramente, entre tantas termologias médicas, “células cancerígenas –Ausente”.


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

Nosso tempo está curto!

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Não, paciente leitor. Definitivamente, não se trata de uma daquelas premonições ou aspirações catastróficas, vendidas pelos tantos profetas do apocalipse nas esquinas.

Se você alguma vez ponderou se o tempo estaria a nos pregar a maior de suas peças, a de simplesmente se acelerar, saiba que não é o único. Grandes cientistas vêm travando constante labuta, afim de compreender este dilema que aflige todos nós.

Seria o tempo um aliado, ou, um inimigo impiedoso?

Na verdade, paciente leitor, ironicamente, quanto mais ávidos estamos por ganhar mais tempo, mais o perdemos. Novas tecnologias são criadas diariamente sob o único propósito de saciar este desejo de se viver em alta velocidade, que vem assolando nossa humanidade. Falimos, miseravelmente, quando entendemos que tempo, é um adversário que devemos superar a cada segundo de nossa existência, sustentados por aquela sensação impotente, de que não conseguimos fazer tudo que realmente desejamos por falta de tempo. Ora! Bem sabemos que tempo é questão de prioridade, desde os tempos de Julio César, no século 1 a.C aos dias atuais -e um pouco antes e além disso tudo- os dias sempre possuíram 24 horas e, até que nenhum governante resolva destruir também esta questão, a contagem sempre será esta, portanto, cabe a nós utilizarmos cada instante de nossa existência da maneira que melhor acharmos convenientes. Você, que se dedicara um tempinho a ler tal analogia é um raro exemplo de interesse por qualidade do tempo, não quantidade. Antes que caia sobre este pobre mortal a acusação de superestimar tal texto, esclareço que há um estudo, que defende a teoria de que um adulto é capaz de ler até 350 palavras por minuto. Faça suas contas e verá que as exatas 596 palavras dispostas neste artigo, não lhe subtraíram muito de seu tempo existencial, e se de repente, nada do que foi disposto aqui, tenha lhe atingido de maneira positiva, pense no tempo em que se sentara, relaxara a mente para averiguar uma nova perspectiva.

Vivemos um período onde novas tecnologias geram demandas por velocidade. Estamos sob um tempestivo desejo de estar em diversos lugares, falar com maior grupo de pessoas, viver novas emoções e situações, tudo de uma só vez. Na velocidade da luz. Por esta razão, nascera recentemente um distúrbio chamado “doença da pressa”. E é também, por esta razão, que há muito as crianças já nascem adultas. E é bem provável que tanto eu, quanto você, já apresentamos alguns sinais desta nova patologia. É obvio que cada mortal é afetado pela contagem do tempo de maneira diferente, mas, o leitor há de convir que vivemos conectados no 220, tentando desesperadamente absorver cada milésimo de segundo sob a certeza de que este não voltará, com a vida, sempre a tiquetaquear em nosso ser. É justamente por tentar viver tudo o que há para ser vivido que, mais tarde, concluímos cansados que fomos seduzidos por uma intensa maratona, que nos roubara amigos, qualidade de vida, familiares e até nosso ser. É óbvio que como pobre mortal pecador que sou, também não descobri ainda a fórmula de não ser escravizado pelo tempo, mas, por outro lado, venho compreendendo formas de contradizer a filosofia que a tecnologia implantara em nossa sociedade e, nestes fragmentos, rompantes de um instante, concluo que não é o tempo que nos escraviza, são nossa prioridades. Martinho da vila sugeriu ir “Devagar, devagarinho” e, mesmo que pareça um movimento pela lerdeza, proponho, ao menos de vez em quando, desacelerarmos o ritmo e dedicar nosso curto e longo tempo a algo que contribua de maneira positiva para nossa existência.  


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

ENSAIO SOBRE O AMOR!

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Ah paciente leitor!

Não sei se por força da primavera, induzido pelo desabrochar da vida, renovado pelo florir de esplendor do horizonte, mas, o fato é que minha aura outrora turva, se veste de certa reflexão, que quase beira a melancolia.

Ora! Contenha o sorriso sarcástico, pois, por mais improvável que possa parecer, também possuo um coração, que, muitas vezes, surpreende as expectativas anatômicas e foge ao ritmado labor de mero músculo, para se inflar de sentimentos.

“O amor é fogo que arde sem doer” dissera um sábio poeta. E quem sou eu para propor novas definições, novas ramificações deste universo emaranhado e abstrato. Entretanto, o amor é um departamento universal, que permite a cada um de nós, dar pitacos e teorizá-lo da maneira que melhor nos convir. Quem você amou, paciente leitor? E quantas vezes já o fizera? É óbvio que não faço qualquer referência às paixões cinematográficas, tampouco, enveredo pelas obscenidades da carne, que como bom pecador também possuo. Falo sobre amor humano, sobre nossa essência. Um sentimento mágico de bem querer, assexuado, anarquista, incondicional e, sobretudo, pacificador.

Seria necessário muita tinta e demasiadas doses de bebida para, senão esclarecer, ao menos, desanuviar este bendito e enigmático amor, que revela novas faces toda vez que estamos por desvendá-lo. O que mais entristece, toda vez que ouso embrenhar por entre este caminho talhado em rochas pontiagudas, é constatar que amar, foge completamente às regras e dogmas romantizado por nós. A romantização do amor é que nos torna piegas e vulneráveis. E por esta razão o ocultamos, pois, nenhum ser, sob perfeito gozo de sua sanidade mental, cometeria o suicídio de revelar suas fraquezas. E o amor nos torna pateticamente fracos quando o romantizamos e identificamos, de maneira equivocada, uma necessidade de expectativas politicamente corretas. Confesso que não sou um perito neste assunto, somente um esforçado aprendiz, não do romantismo, mas, da essência do relacionamento humano.

Honestamente, percebo que o amor contextual, se revela de maneira bem menos poética que aspiramos. Se concretiza em gestos genuínos. No simples despertar no meio da noite a velar o sono alheio, no singelo voto de boas vibrações, no querer estar ao lado daquela pessoa. O amor verdadeiro está no relacionamento. Relacionamento de pessoas. Na maioria das vezes confundimos este sentimento, que rege todos os outros, com atração carnal entre gêneros, ou, na simples sugestão genealógica. Por esta razão, não praticamos tal, cientes de que nossa cota esta bem servida, na restrição do lar. Embora você, provavelmente não tenha percebido, ou, tampouco se dedicara a refletir sobre tal questão, sou capaz de apostar um destes olhos que o astigmatismo tenta corroer, que você ama todos os dias, muitas pessoas. Desde o cônjuge, os filhos, ao amigo com quem muitas vezes dividira a mesa de bar, a quem você recorre quando esta diante de uma catástrofe.

Pouca gente fala sobre amor nos dias atuais, por uma simples razão. Não dá ibope. Aliás, o amor nunca deu muito cartaz, pelo menos no âmbito popular, visto que ações violentas são sempre mais procuradas. Todo escritor que ousa trilhar tal caminho, corre sério risco de ser rotulado como meloso, mas, é bem provável que, a esta altura do campeonato o leitor já identificara por si só, que não sou do tipo que dá muito crédito às classificações alheias. Portanto, amável leitor, um brinde ao amor substancial e impopular! 


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

Tributo à criança que um dia fui

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Eis que nossos dias se vestem de trevas...

Não! Esqueça esta conversa catastrófica, paciente leitor! Lhe proponho um tema mais ligth, primeiro, porque já estou completamente exaurido, enojado de toda esta situação politica, que está bem longe de desanuviar. Segundo, para lhe provar que sei ser, senão amável, ao menos afável de vez em quando (tão constante quanto um eclipse lunar).

Se aproxima a data em que, comercialmente, se celebra o dia da criança e, principalmente nestes dias em que minha juventude se esvai com avidez, e a velhice parece um caminho provável, onde desaguarei brevemente, confesso que sinto uma vontade imensa de voltar a ser criança! Gostaria muito de reviver as banalidades inconvencionais, despir, pelo menos por uma fração de um mísero segundo, este manto claustrofóbico da vida adulta e, sobretudo, reviver as boas amizades que lá deixei.

Frequentemente ouço a afirmativa de que, “não se fazem mais crianças como antigamente.” para qual possuo uma resposta bem simples: as crianças de antigamente cometeram o maior de todos os crimes, se tronaram adultas. Ironicamente, exibem agora inúmeros instrumentos para computar as horas e nunca possuem tempo para as questões essenciais à vida, aquelas questões invisíveis aos olhos, que tantos poetas morreram tentando elucidar. Aquelas crianças de antigamente, deram de ombros para as sinceras amizades que possuíam e se aderiram às alianças convencionais. Aquelas crianças que prorrogaram a oportunidade daquele abraço, murcharam ante a voracidade do tempo, que levara precocemente quem ganharia tal abraço. Aquelas crianças se tornaram fábricas velhas, que muito produziram, mas, não saíram do lugar, repleta de engrenagens complexas e padronizadas. E não importa o quão se dediquem a lhe retocar a fachada, no seu âmago, pulsa a frieza de um galpão repleto de muitas quinquilharias, porém pouca luz.

Nos dias atuais, ao remoer as reminiscencias dignas de qualquer mortal pecador, frequentemente deparo com uma pergunta inquietante, para qual não possuo qualquer respostas: Em que momento assassinei a criança que habitava em meu ser? Seria no primeiro beijo? O primeiro voto talvez? O primeiro grande pecado? Não necessariamente nesta ordem, tampouco separados. O fato é quem em raros dias chuvosos, destes com cheiro de terra molhada, numa tarde regada a bolinho de chuva, ou, na simples sugestão das enxurradas na calçada, sou seduzido a deixar a mente vagar por entre os vales e grotões da memória e, de repente, estou completamente desnudo das convencionais posturas que se exige de um bom adulto, e neste momento reencontro um grande amigo, também no mesmo estado meu, um amigo que hoje chamo carinhosamente de leitor!

*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

​Eis que o destino nos propõe um divã!

A oportunidade única de olharmos para dentro de nossas entranhas.

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          Exatamente paciente leitor!

          De artigo em artigo, de analogia em analogia, caminhamos lenta e progressivamente para o exato ponto em que nos encontramos agora. Talvez, seja agora, o ápice da relação que lapidamos. Nossas afinidades se entrelaçaram, se enraizaram. Forjamos e concretizamos um ponto de vista comum e amadurecido. Nossas artérias conceituais estão interligadas suficientemente bem, para avançarmos um passo nessa relação. Não, decididamente, não se trata de um enredo de telenovela mexicana, também, não faço aqui, qualquer conspiração matrimonial, tampouco, meu editor se confundira e publicara os ensaios melancólicos de uma carta conjugal. Falo da sólida compatibilidade de conceitos que adquirimos no decorrer das edições.

          A locomotiva que conduz nosso estado já descarrilou faz tempo, isso é um fato. Houve a substituição polêmica do condutor, o vagão da primeira classe esta totalmente atolado, imerso no lamaçal da corrupção. Não sei quanto a você, caro leitor, mas, tenho a penosa sensação de que fomos esquecidos no vagão de cargas, rodeado de alfafa. Estamos em queda livre, sem qualquer item de segurança a nosso dispor. Por esta razão, caso ainda suporte meu novo estilo, o convoco para uma viagem extremamente necessária à nova reforma que estamos por executar. Uma viagem particular, a uma terra repleta dos mais complexos vales, grotescos pântanos e perfumados bosques. Uma terra colonizada e padronizada pelos mais sanguinários usurpadores. Nosso passaporte é um simples espelho.

          É no minimo, difícil, aceitar a realidade de que nós dois somos também cúmplices dos crimes praticados contra a pátria, direta ou indiretamente. Antes de nós, nossos pais, e os pais dos nossos pais. Herdamos a filosofia do extrativismo. As riquezas naturais de nossos terras nos induziram a tal. Nos frios tribunais de nossa mente, nossa defesa falhará, ante o arsenal de provas que revelaram uma cadeia de delitos praticados por nós, quando nos permitimos fácil manipulação e votamos em placas partidárias, quando sonegamos a prudente ação ao bem coletivo, decidindo em prol de nossas individualidades, do simples piratear de um objeto, à manipulação do sistema em beneficio próprio. Em nossa defesa, cúmplice leitor, alegarei que não, desligamos os aparelhos que causaram tantas mortes em vão nos hospitais, aliás, tampouco, fomos canalhas suficiente para praticarmos crimes financeiros contra o estado. Também, jamais pagamos ou recebemos propinas e uns certos milhões encontrados num determinado apartamento, juro que não nos pertence. No entanto, tristemente deverei nos delatar num ponto, e confessar que nos dois, em prol de nossa zona de conforto, não somente abrimos todas as portas para os criminosos, como também ficamos de sentinela. Isto faz de nós criminosos? Espero que o juri decida que não.

          Façamos então um juramento, cúmplice leitor, que por solidariedade, não abortara a leitura, proponho abolirmos qualquer fragmento de ato corruptível que venha a nos seduzir, a nodular as vértebras de nosso caráter. Novas eleições estão se aproximando e, com ela, talvez a ultima e misericordiosa oportunidade de realmente fazermos a diferença. Portanto, erga-te nobre cavaleiro, o futuro de nossos filhos está ameaçado, é hora de revogarmos todos os conceitos e reivindicar, com toda nossa força, a terra que nos é de direito. Amém.  

*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

Saudações! Paciente leitor!

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Antes de qualquer coisa, quero agradecer infinitamente o reconhecimento que tenho recebido, tanto nas ruas, quanto nas redes sociais. Vossos elogios fecundam minhas palavras.

                Que vivemos uma situação catastrófica, no âmbito nacional é fato. A questão é: qual vem sendo nosso verdadeiro papel, dentro desta atmosfera enegrecida que perpetua sobre a pátria?

                A sociedade é composta de indivíduos, portanto, seu caminhar depende da unificação de ações mutuas. Todavia, creio que seja este, o momento oportuno para compartilharmos experiências e praticarmos o velho e esquecido diálogo, para nos aliançarmos. É passada a hora de abolirmos nossas diferenças e unificar nossas forças. Somente assim seremos capazes de revogar o conceito de governo que nos rege.

                Outra questão que devemos sanar sem maiores delongas, além é claro das pendencias, nas quais resignamos por herança, é a urgência de estudarmos cada vez mais. Não faço referencias ao ensinamento escolar, tampouco, às filosofias sociais e obsoletas, que nos ensinam a ser um dócil cidadão hipócrita e politicamente correto, a aceitar tudo calado em prol das boas maneiras.  É sobre mergulhar nas profundezas das doutrinas que regem nossa sociedade, é sobre conhecer os conceitos que vigoram em nosso país. Entre outras palavras, é conhecer nossos direitos, já que, nossos deveres são esfregados diariamente em nossos narizes. Estamos sob um tempestivo conflito social, entre a classe politica e os meros cidadãos mortais. De fato, possuímos nossas pedras, que não titubearemos a utilizá-las, no entanto, em razão da falta de estudo apartidário da situação, atacamos alvos dispersos, na maioria das vezes, os administradores municipais, pela proximidade. Minimizamos nossas ofensivas e agimos de maneiras individualizadas. E, é exatamente neste ponto que somos derrotados. Seremos ouvidos quando unificarmos nossas vozes e cessarmos os gritos cegos e precipitados, que somente  importuna o sono daqueles que “não discutem politica”. Foi se aliançando, estudando brechas, que verdadeiros canalhas monopolizaram o poder do país e incrustaram tentáculos em todas as pilastras que sustentam o governo.

                A corrupção é o monstro a ser aniquilada. Por está razão, devemos combate-la diariamente, primeiro no seio de nossos lares, nas ruas, nas repartições, enfim, eliminar atos corruptíveis progressivamente e de forma ferrenha. Porém, o que preocupa é a nova modalidade de corrupção, tão belicoso quanto os ataques ilícitos contra os cofres públicos é a corrupção licita. Não, compreensivo leitor, decididamente, ainda não foi desta vez que enlouqueci, pelo menos, é o que ainda assegura meu psiquiatra, tampouco, estou a zombar de vossa paciência, lhe propondo tal paradoxo. Sofremos diariamente, golpes violentos através de ações amparadas por nossa constituição. Tão sueca na teoria e pateticamente Sri Lanka em sua prática.

                Raul Seixas dissera “Direito eu tenho mas anda escondido...” e no ensejo, proponho baixar o pano encardido que turva nossos direitos, desmistificar este complexo teorema social. Permita-me uma revelação, que boa parte da massa parece desconhecer, ou, ignora de forma proposital. Possuímos direitos senhores! Sim, direito de comprar onde, quando, como e na quantidade que quisermos, direito de fiscalizar, protestas, direito de reivindicar o direito. É necessário acionar o botão de alerta e ficarmos atentos nas decisões que implicarão nosso futuro. É extremamente crucial pararmos de rivalizar placas partidárias, tratando disputas eleitorais, como um evento esportivo, onde cada um escolhe o melhor lugar na arquibancada e passa a torcer pelo seu “nome” predileto. Onde, a vitória de seu candidato nada mais vale, exceto uma conquista particular sobre o conceito adversário. Chega de nos portar como meros espectadores, afinal, somos as engrenagens que movem este sistema complexo chamado BRASIL!


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras. 

Cabum!

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E, de repente, escuridão absoluta.

Somente os ruídos côncavos da lenta reconstrução.

Não, paciente leitor que segue minhas rasuras, a quem tributo meus cumprimentos, decididamente, não se trata de um roteiro cinematográfico, tampouco enlouqueci, pelo menos, é o que garante meu psiquiatra. 

O fato é que há uma evidente guerra mundial se levantando e a questão é: As nações estão preparadas para tal? Não faço qualquer referência às tecnologias de armamentos, quanto a isso, não resta dúvida de que, mesmo a mais pacífica das pátrias esteja bem munida de arsenais altamente eficientes, no quesito destruição. Além do mais, para tal, há penas mais valiosas que a minha. Falo da vulnerabilidade da classe civil. Qualquer compêndio de história está pejado de fatos que apontam as drásticas consequências atribuídas aos civis, que, no frigir dos ovos, são quem realmente sofrem as catástrofes dos conflitos. Eisten dissera uma vez que não sabia de que forma seria lutada uma possível terceira guerra mundial, mas, que a quarta seria lutada com paus e pedras. Isto, se restar realmente, o mínimo vestígio da existência humana na terra. Temo o momento em que estes conflitos isolados se unifiquem e abram um ataque sem precedentes contra um alvo em comum, as grandes metrópoles opressoras. Da ilha do norte bate um tiquetaquear sombrio e indomável, cuja obstinação para o desastre há de vigorar um dia, novos jihads se levantam diariamente no oriente, enquanto as relações czaristas se intensificam. O mundo está de fato por um triz, a um conflito de se propagar uma terceira guerra mundial.

Acreditar que guerra é apenas fobia, ou, pior, romantismo literato é tolice. É ingenuidade ignorar o fato de que, assim como todos os dias nascem pessoas dispostas a propagar o bem comum, não haja indivíduos, cuja existência é dependente de um grande conflito. O mundo jamais possuíra tantas mentes estupidas no poder como ocorre agora. Brasileiro que sou, não hei de cometer a estupides de dar de ombros para esta questão altamente relevante, pois, se mesmo uma crise política na vizinha Venezuela é capaz de engrossar diretamente o caos, no qual tentamos sobreviver, imagine, caro leitor, um acontecimento catastrófico no âmbito global? Posso afirmar seguramente, que nosso país não suportaria os estilhaços de qualquer conflito globalizado, simplesmente, por estarmos padecendo sob a pior de todas as guerras, aquela que nos afeta em todos os setores estruturais, lenta e sorrateiramente. Nossos alicerces, como as manchetes comprovam, foram erguidos sobre uma região pantanosa. Difícil é conviver com a penosa sensação de estarmos sob contagem regressiva, até que um botão seja, finalmente apertado e, nos céus de toda parte, inicie uma chuva turva de bombas, restando a nós, meros mortais, somente o frio das estatísticas, para quais entraremos.  

*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

Há um monstro em minha casa

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"A primeira visão refletida no espelho sempre assusta. É estarrecedor. Indescritível o sentimento de derrota. Perplexa, fechei instintivamente os olhos e os reabri, implorando com todas as forças d’alma, para que pudesse acordar daquele pesadelo, ou, ao menos, me fortalecer diante daquele primeiro e doloroso impacto. É mentira! Sugeria minha mente. Isto não está acontecendo, não comigo! Em vão, aquele pedaço de vidro idiota, refletia uma mulher que parecia habitar este planeta desde sua origem, tão caricata, decrépita e frágil era sua expressão sombria. Abaixo daquela cratera ossuda, onde dois olhos apagados buscavam se esconder do mundo, duas rodelas roxo-violetas que, nem mesmo o mais sofisticado aparato de maquilagem seria capaz de esconder. Nos lábios que há muito não sentia o fulgor de um contato humano, vários vergões azulados se uniam. Hematomas se destacavam em toda parte. O corpo todo ardia, mas, era a alma que as labaredas verdadeiramente consumiam. Uma alma dilacerada, em frangalhos, apertada. As primeiras gotas de uma lágrima quente, ondulavam pela superfície daquela face de papelão amarrotado. Brota em meu âmago ferido uma pergunta acusadora. Como fui capaz de me apaixonar por um ser humano tão agressivo, um monstro covarde e insano? Muitas decisões inquiriam imediata resposta, atitudes se faziam crucialmente necessárias, mas, no momento, o maior e mais temoroso desafio era um só: Como eu sairia à rua? Qual seria a primeira pessoa a quem eu mentira sobre o fato? Será que novamente a escada mereceria a culpa? Ou, novamente, seria a queda de bicicleta? E o pior de tudo, quantos dias levariam até uma próxima agressão? ”

                Este é um relato fictício, criado por este que aqui rasura tais palavras, somente a pretexto de abordar uma questão gravíssima que, em plena revolução tecnológica, no ápice da manifestação da sapiência humana, se torna parte do cotidiano. Tais quais células cancerígenas em constante multiplicação, é o crescimento dilacerado de crimes domésticos. Verdadeiras barbáries ocorrem contra o sexo feminino, bem no seio de seus lares, contraditoriamente, no local onde deveriam gozar a proteção que se espera de um lar. Há, no Brasil, a estimativa de que a cada dois minutos, cinco mulheres sofrem com a violência doméstica, enfatizando o fato de que, somente as denúncias concretizadas constam realmente nas estatísticas, portanto, não seria difícil imaginar que o número há de se triplicar. Somente quem cresceu, ou tivera a infelicidade de partilhar um ambiente destroçado pelos estilhaços da violência é conhecedor da lenta cicatrização dos hematomas produzidos na alma de uma família inteira, quase sempre, vítima de um só agressor, ou seja, “o companheiro”, “o pai de família”.

                Ao leitor, permito a criatividade de batizar nossa personagem com o nome que melhor lhe convir, há uma infinidade deles. Trata-se de uma das tantas “Marias” que frequentemente encabeça as manchetes de jornais e se resumem a meras estatísticas. Porém, não nos esqueçamos de que esta poderia ser a história de nossas filhas, nossas mães e nossas esposas. Portanto, já que em minha modesta concepção, refletir é, talvez, a ação mais válida que podemos de fato praticar, pensemos e labutemos na árdua luta de se erradicar de vez este mal que assola inúmeros lares diariamente.  “O inferno são os outros”, apontara sabiamente Sartre, pois, lamentavelmente, há, espalhado em toda parte ao redor, verdadeiros covardes sendo, diariamente, inescrupulosamente, um inferno na vida de mulheres que nada mais possuem em sua defesa, exceto o silêncio, exceto o medo, no qual amargam uma existência turva e traumatizante.

É fato que, estranhamente, há mulheres que transparecem mesmo satisfação em dividir os dias com seu agressor, é mais um dos tantos mistérios restritos aos seres humanos e seus fetiches, ao que prefiro deixar em mãos dos estudiosos, porém, ressalto, que o texto faz referência especial às verdadeiras “mulheres” de fato.

Sei que em algum lar, infelizmente, alguém estará entre lágrimas, ou, pelo menos tentando contê-las, ao ler tais palavras, enquanto memória dolorosas lhe surgem na mente, quais labaredas esguias a lhe queimar o ventre. É especialmente a você, que sofre direta ou indiretamente com a violência doméstica, a quem tributo meus sinceros sentimentos, além é claro, os votos para que tenha coragem e denuncie seu agressor, antes que seja tarde demais.

                Pensamento:

                “(...) tive incontrolável ímpeto de lhe estapear a face fêmea, mas, percebi que, a covardia é a podridão da minha incapacidade de conquistá-la.”

                Valdeci Santana. 


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

Feliz dia dos pais!!!

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Saudações amigo leitor!

 E especialmente um PARABÉNS a você que é pai, neste mês que é todinho seu. Na verdade, é crucial explicar que, em agosto, se comemora o dia dos país, não o dia do “Orgasmo”, portanto, dispenso de meus cumprimentos aquele que somente procriou, mas, fugira à bela responsabilidade de ser pai.

E se há quem dispensa a missão de ser pai, por outro lado, milhares de filhos são adotados por força da ocasião, por anjos que executam bem este papel, muitas vezes, na pele de padrasto, tio, irmão mais velho, avô, padrinhos, e por aí vai.... Então, a vocês PAIS, em todas as vertentes, dedico o texto abaixo.

Pai...

Quem sabe um dia amadureçamos e, de repente, até dividiremos o calor da mesa de um bar.

Talvez, dediquemos um tempo a polir as peças do velho carro, esquecido sob a lona, onde tantas vezes, em seu colo, fingi ser motorista.

Quem sabe um dia o senhor nos faça uma visita e, talvez, até critique a rigidez, com a qual trato meus filhos. Ao que rebaterei, argumentando que assim fui criado.

Quem sabe um dia, eu crie coragem e lhe apresento meus projetos futuros, mesmo que seja para ouvir sua experiência dizer que está tudo errado.

Ah! Pai...

Quem sabe um dia, eu lhe peça para contar aquelas mesmas histórias, que ainda hoje repasso aos meus filhos.

Ou, se as circunstâncias permitirem, talvez, cedemos às velhas brincadeiras, das quais o senhor participara cansado ao retornar do trabalho.

Pai...

Perdoe-me contrariar seu pedido e quebrar a promessa que fiz, a de nunca crescer, mas, os dias foram passando e hoje sou também refém das horas, cometendo os mesmos erros que tanto critiquei em ti.

Não se entristeça, se a fraqueza natural dos seus braços não me sustentar o peso, pois, se possuo o corpo saudável hoje, é justamente, porque estes braços velhos foram fortes um dia.

Não temas decepcionar-me, se uma lágrima ondular na superfície de seu rosto, portanto, não é necessário escondê-la, aliás, comovê-lo positivamente sempre foi meu maior objetivo, onde muitas vezes fracassei.

A verdade, é que somente aprendi a ser um bom filho, quando me tornei pai. E hoje sei, que ser o super-herói de alguém exige imensas dificuldades, para as quais, muitas vezes, não estamos preparados, pois, ser pai, é acordar sobressaltando no meio da noite como o choro da frauda molhada.

É fazer aviãozinho, é imitar lobo mau, é se expor ao ridículo de coreografias infantis na sala de casa. É fazer guerra de travesseiro, mas também, conferir se lavara bem os dentes e atrás das orelhas.

Ser pai é ser torcedor fanático e exigente, é meteorologista lunático, para quem sempre vai fazer frio. É ser o médico que fraqueja ao primeiro sinal de febre, é experimentar mamadeira quente, xarope amargo e papinha. É se espremer na cama pequena para consolar o pesadelo. É explicar sobre a cegonha e se enrolar nas perguntas antes do tempo.  

Ser pai é carregar o título de mais forte, mais engraçado e mais corajoso, é dar broncas querendo sorrir, é saber que sempre haverá preocupações e esquecer todas elas ao primeiro sorriso do filho.

                “O amor que sinto pelos meus filhos é tão imenso, que não há maneiras de dizer, por estão razão demonstro...”  (Valdeci Santana)


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

Saudações paciente leitor!

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De fato, sinto-me mergulhado na paciência de um divã, toda vez que escrevo aqui minhas analogias.

Por mais que vasculhemos nossos vales e grotões da memória, infelizmente, não somos capazes de tocar as recordações de nossos primeiros dias de vida. O que é uma lástima, pois, creio que boa parte de nós gostaria mesmo de reviver as primeiras projeções do mundo, desabrochando ao nosso dispor. De repente, sorveríamos a maciez do colo materno outra vez, a nos embalar o choro, na proteção de um conforto. E, mais do que qualquer coisa, contemplaríamos a nudez de nossa pureza. Trago comigo a crença de que, nosso cérebro se encarrega de segredar estas primeiras lembranças no fundo do nosso âmago, somente como uma tática de autodefesa, uma tentativa prudente de nos aliviar o peso das expectativas que produzimos ao nascer. Logo que rompemos o útero materno, criamos, no fundo de nossa consciência, uma primeira expectativa, a de agradar nossa genitora. No decorrer do tempo, absorvemos milhares de expectativas que, muitas vezes nos levam à beira da loucura, ou, muito além dela.

O amor imenso que nutrimos por nossos filhos, naturalmente, nos força a pintar um mundo de expectativas, dotados de vertentes politicamente corretas, para as quais passamos a lapidá-los. Queremos estender-lhes o melhor da evolução que conseguimos alcançar, a parte reciclada dos conceitos que herdamos ou produzimos. Desconhecemos, portanto, o pequeno deslize que cometemos, uma mísera fagulha capaz de descarrilhar por completo nossas relações humanas. E a palavra-chave, que altera todo o conceito de humanidade é expectativa. Permita-me um conselho, caridoso leitor, que semanalmente cede alguns minutos a este pobre mortal e a minha necessidade de dar vazão ao turbilhão de pensamentos que se multiplica em meu ser. Esqueça as expectativas. Ainda que seja um pouco tarde, abandone de vez a expectativa lhe atribuída ou de sua própria autoria. Alguém, com o lápis mais poderoso do que o meu, dissera, certa vez, que o homem só começa a dar bons conselhos, quando sua idade o impede de dar maus exemplos. Portanto, cansado dos maus exemplos que produzi ao longo dos anos, ou, tentando, pelo menos, redimi-los, proponho substituirmos qualquer expectativa por relacionamento. Quando nos sentarmos, numa noite qualquer, ao lado da verdade, nos despimos dos personagens que forjamos em nossa defesa e passamos a rever nossas ideologias, cada vez mais, nos convencemos de que, o relacionamento é o coringa deste baralho que chamamos de vida. Um relacionamento verdadeiro, não exige a necessidade de máscaras de submissão e de posturas politicamente corretas, aliás, dane-se o politicamente correto (Ufa! Em tempo. Ainda não será nesta edição que ousarei libertar um palavrão). O mundo cor de rosa realmente existe e esta é a questão, já está pronto, não é necessário pintarmos novamente. É justamente, por tentar pintar o mundo, que o ser humano está destruindo todas as possíveis relações.

Todavia, agastado concluo, para entrarmos de vez em qualquer relacionamento humano é necessário livrarmo-nos das expectativas. E esta possibilidade nos assombra, pois, nos sentimos despidos de nossas armas. No entanto, que utilidade nos possibilitará armas, se aniquilarmos nossos conflitos e deleitarmos uma existência saudável.


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.