A SINA O boxeador e o vestibulando precisam vencer

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Assim é: Pisou no ringue. Começa a luta.

Assim é: O sangue pulsa. Começa a disputa.

Assim é: Os olhos do oponente dizem: “Vou ganhar”; os seus têm que dizer: “Não vou perder”.

Assim é: Ganhar. Perder. Começa a luta.

Assim é: A vida é um ringue. Grita o apresentador: “Segundos, fora!”.

Na verdade: A luta começa, assim que começa o treinamento.

Na verdade: Todo mundo nasce sozinho, meu amigo. Todo mundo morre sozinho.

Na verdade: “Se você tem medo de perder, já perdeu”.

O seu medo alimenta o seu oponente. Pelo corredor apertado, só passa um: “Segundos, fora”. Dois não ocupam a mesma vaga: “Segundos, fora”.

Você ou ele? A vida é assim, há os que tocam e os que dançam; os que batem e os que apanham. Há os que entendem que a força está na tática, na observação e na adaptação.

Você ou ele? A vida é assim, há os que vivem pedindo desculpas aos outros e os que vivem sabotando a si mesmos; os que fracassam sem intenção; os que fracassam com razão; os que se diminuem frente aos concorrentes; os que se escondem.

Quando você mente para os outros, há um problema: knockdown.

Quando você mente para si mesmo(a), o problema é ainda maior: nocaute.

Você entrou no treinamento com medo de apanhar? Seu adversário sem pena de bater. Ele escolheu o sparring mais forte, aquele de quem poderia apanhar. Você escolheu aquele em que poderia bater. Escolher o caminho mais fácil, quase sempre não é a melhor escolha. Treino é treino; o jogo é jogo. Simulado não é vestibular.

Você gosta de esportes? Vamos trazer a filosofia do esporte para dentro do vestibular. Gosto muito do trabalho de alguns técnicos. Um dos que mais admiro é Bernardinho: ganhou 28 títulos em 16 anos. É o maior vencedor da história dos esportes coletivos. Primeiro, propôs-se a recuperar a autoestima dos jogadores brasileiros. Nossa seleção era baixa para os padrões do vôlei mundial. A velocidade, então, passou a ser nossa arma letal. Os adversários aprenderam, tornaram-se rápidos. A consistência defensiva, então, se tornou nossa arma letal. Os adversários melhoraram suas defesas. A imprevisibilidade, então, se tornou nossa arma letal. Os adversários copiaram as jogadas. Nossa força mental passou a ser o nosso grande diferencial. Nossa seleção estabeleceu a maior hegemonia da história. Bernardinho se reinventou sempre, para vencer.

John Speraw, treinador dos EUA, estudou o Brasil e a segurança que virou “soberba”. O Brasil ganhava, antes de ganhar, então jogou a isca. Ganhávamos dos EUA na fase de classificação, mas perdíamos na decisão. Speraw percebeu que, a única forma de vencer, era criar estratégias mentais. É preciso aprender com o adversário, porém nunca ter medo dele.

“Mudando de pato para ganso”: Vencida a Copa do Mundo Feminina, a capitã Megan Rapinoe afirmou que sua seleção não entrou para jogar a copa, mas para ganhá-la. Disse que poderia soar como arrogância? Sim, mas, segundo ela, não: a seleção é apenas a extensão da cultura do seu país, da mentalidade vencedora implantada desde sempre.

Citei exemplos dos esportes americanos, adeptos dos treinos dos fundamentos e da força mental, mas poderia citar outros projetos vencedores, como os de Pepe Guardiola e Jurgen Klopp. O vestibular é competição. “Segundos, fora”. Muitos jogos são definidos aos 49 minutos do segundo tempo; o vestibular também. Ainda há tempo.

Meu amigo, este é o momento em que você começa a ganhar ou perder sua vaga na universidade. É o momento em que todo mundo reclama de cansaço. É o momento em que reclama de tudo. Alguns se agarram à reclamação, para dizerem que estão ansiosos ou depressivos. Força mental é a resposta: não cultive esse hábito danoso de sofrer por antecipação. Crie suas estratégias. Conscientize-se de seus limites. Controle seus medos. Quem passa, não é o mais inteligente, nem o mais esperto, mas o que melhor se adapta às regras da competição. 

ESCREVER BEM É CONSEQUÊNCIA DE PENSAR BEM

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O maior desafio do escritor é a folha de papel em branco. Como preenchê-la, se ela é o retrato em celulose do nosso pensamento? Ao expressarmos uma opinião, desnudamo-nos por completo. E se as pessoas não gostarem do que escrevemos? E se elas perceberem que não temos lá muita coisa a dizer? E se elas nos acharem mais ignorantes do que na verdade somos? E se elas acabarem por descobrir o que nem nós mesmos sabemos que temos?

Escrever é um ato de coragem, mas também de desprendimento. Uma parte de nós será dada ao leitor sem qualquer pudor, pois as entrelinhas externarão o que, de nós, definitivamente não conseguimos controlar. Deixaremos escapar o que nem sequer sabemos fazer parte das nossas memórias ou nossos princípios. Serão os chamados pressupostos e subentendidos. Quase sempre é essa faceta do texto que mete medo no escritor, mas quase sempre delicia o leitor atento, detetive das relações entre tema, texto e autor.
Escrever pode também ser um ato arrebatador, quando não temos coragem de por arreios no pensamento para que ele possa arrebentar a represa, inundar nossas emoções com palavras, frases, relações de sentido. Nesse momento, a caneta passa a correr atrás das palavras que começam a brotar em cascatas, sem dar conta de chegar ao fim de uma frase, sem já estar com a outra no colo. Euforia, nervosismo, mãos suando, coração batendo forte e, no ponto final, a sensação de saciedade. Texto perigoso feito faca de corte fino ou quebra-cabeça com peças espalhadas. É como riacho caindo nas cavernas obscuras da mente, é lindo, mas nunca se sabe onde vai dar.
Se há imagens e ideias querendo correr pelo pátio, deixe-as rolar pelo chão, sujar as roupas, contaminar-se com a alegria das outras e pararem entre risonhas e assustadas diante do choro das que ralaram os joelhos ou perderam uma parte da pele das mãos. Palavras são seres interessantes, pois se relacionam umas com as outras sem nenhum pudor ou preconceito. Às vezes, parecem crianças indomáveis que usam máscaras diversas, nem sempre de acordo com a música tocada. Primeiro, é melhor dar-lhes pés, para fazê-las sentir de perto a realidade. Depois, o negócio é dar-lhes asas, para que possam voar pela imaginação. Palavras, assim como as crianças, são seres mutantes, imprevisíveis, por isso, muitas vezes, o chicote e a cadeira farão de você um domador. Andará sobre a linha que dividirá o medo da excitação.
Escrever pode trazer profunda angústia, quando o fórceps não dá conta de extrair a criança encruada no útero da imaginação e já nos preocupamos com a cesariana que possa salvá-la. Muitas vezes, uma ideia precisa ser subornada com a inversão de valores, a cultura geral ou as experiências pessoais para passar pelo corretor apertado da criação e nascer, dependendo muito da habilidade do médico. Um adubo feito com cada um desses ingredientes pode fazer com que uma semente se transforme em broto e o broto cultivado frutifique. O segredo é atirar-se no papel desordenadamente, sem medo de ser feliz. Depois das vísceras expostas no papel, a escolha de um ingrediente para dar liga ao texto trará consistência ao resultado final.
Se as imagens e as ideias se recusam a tomar forma, não se entregue ao desespero. O Davi, de Michelangelo, nasceu de um bloco monolítico de mármore. Alguns ingredientes devem se somar para dar-lhes forma: uma dose de paciência, um pouco de disciplina e muito de espontaneidade. Como um bom detetive, é ora de vasculhar a mente em busca de relações, confissões e revelações. Sob a face explícita, a face oculta das palavras esconde muitas facetas como num caleidoscópio. Se uma ideia está em estado latente, coloque-lhe plumas, rabisque em volta dela as lembranças que ela lhe traz, depois empurre-a para frente, em seguida a faça voltar sobre seus próprios passos. Observe as suas reações ao deslocá-la para a direita e para a esquerda (a ambiguidade aqui é proposital). Pense no seu interlocutor e jogue-lhe na cara o fato de que aquela imagem tem vida própria, mas não quer se mostrar. Confesse para quem quiser lê-lo a sua dificuldade em descobrir as suscetibilidades de cada definição.
Escrever uma dissertação no vestibular exige uma conduta um pouco mais complexa, um verdadeiro trabalho de detetive, para descobrir o DNA de cada faculdade, já que elas possuem personalidades próprias e só aceitam quem realmente se adapta ao seu meio. Cada uma delas só desce a ponte que separa o castelo do resto da comunidade, o que lhes confere aquele ar de lugar impenetrável, quando o aluno conhece as fresas da chave mestra e os códigos necessários para abrir as portas. Faculdades são temperamentais, têm identidade própria, conceitos próprios e promovem o mais intenso tipo de darwinismo social de que se tem conhecimento na história moderna, o processo seletivo contido no vestibular. Não há lugar para os fracos e os vacilantes, muito menos os arrogantes e vaidosos. O vestibular só admite os camaleônicos, os que se adaptam a qualquer ambiente e se fazem capazes de desenvolver qualquer tipo de tema. Além disso, não se amedrontam diante de tempos escassos e nem de examinadores com caras de poucos amigos. O texto deve ser simples, direto e objetivo, com toques de emoção, espontaneidade, informação e confissão. A redação de vestibular ainda traz consigo um outro pequeno problema: o manual de instruções. Os investigadores nem ligam para isso, estão acostumados a decifrar códigos.

URGENTE

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​5h da manhã:

– Alguém liga para o meu celular com voz de quem chegou do inferno: Preciso falar com o senhor urgentemente.

– Quem fala?

– Um amigo.

– Qual amigo?

O professor Zé atropelou uma vaca, quando ia dar aula. A vaca morreu.

– Mas, são 5h. A aula só começa às 07h30min.

– Como ele está?

– Ele? Não sei. A vaca morreu.

(Ao fundo)

– Diga que eu estou na UTI.

– Ah, sim! Mandou avisar que está na UTI.

– Desliguei.

07h da manhã:

– Preciso falar com o senhor urgentemente. Tenho uma ótima notícia.

– Quem fala?

– Estou ligando para dizer que o senhor ganhou grátis a assinatura do jornal Tribuna.

– Não quero.

– Ganhou grátis, senhor. O senhor não estará pagando nada e estará recebendo o jornal 20 dias. Só estará pagando se continuar a receber.

– Não quero.

– Mas, o senhor não entendeu.

– Entendi sim. Desliguei.

08h30min da manhã:

– Preciso falar com o senhor urgentemente.

– Quem fala?

– A Pri. 

–Não estou passando muito bem. Não posso trabalhar hoje.

– O que você tem?

– Não sei. Me deu um troço no peito na quadra da escola, meu coração tá na boca.

– Se não passar, eu vou ao médico. Mas, amanhã tô aí.

– Vá ao hospital, para se consultar e ver o que há.

– Não precisa. Se der, eu vou.

– Desliguei.

10h14min

– Preciso falar urgentemente com o senhor.

– Quem fala?

– É o Zé.

– Que Zé?

– O Zé, porra!!!

– O que você quer, Zé (seja que Zé for)?

– Quero lhe dizer que talvez eu precise de uma grana emprestada.

– O que aconteceu?

– Ainda não sei. Minha mulher ficou de me ligar.

– Desliguei.

11h45min

– Aqui é o Joel, seu aluno. 

–Preciso falar urgentemente contigo?

– Pode falar Joel.

– Não vou atrapalhar?

– Não.

– Tem certeza?

– Tenho.

– Não sei se presto vestibular para direito ou para medicina. Apesar de a gente estar em agosto e o vestibular ser apenas em novembro, já estou angustiado.

– Conversaremos pessoalmente na escola, é bem melhor. Pode ser?

– Ah! Tá bom.

– Desliguei.

12h15min

– Toca o telefone.


– Posso falar contigo? É urgente.

– Pode.

– Não estou atrapalhando o seu almoço?

– Só almoço ao meio dia e meia.

– Se eu estiver atrapalhando, te ligo às 2h.

– Dou aula às 2h.

– Se você quiser, te ligo no final da tarde.

– Na hora que você quiser.

– Valeu.

– Desliguei.

14h

– O presidente da república exigiu do presidente da Câmara votar a lei em regime de urgência.

– O presidente da Câmara disse que ela poderia trancar a pauta das votações.

– O presidente, então, disse que ele deveria tirar o “regime de urgência”, mas teria que ser votada até o final do mês.

Urgência X emergência

Durante este dia e os dias que se seguiram, por um motivo ou por outro, tudo era urgente para todo mundo. Algumas coisas realmente eram, porém, se fosse contabilizar, totalizariam não mais que 5%.

As pessoas confundem urgência com emergência.

Emergência significa ameaça imediata para o bem-estar,

Urgência é uma ameaça em um futuro próximo, que pode vir a se tornar uma emergência.

A emergência é o imprevisto, que precisa de uma solução imediata. A urgência precisa de uma solução em curto prazo.

No mundo dos smarthfones e redes sociais, tudo se tonou urgente.

Pergunte-se: “Urgente para quem?”.

No mundo em que tudo parece ser feito para ontem, vivemos, na verdade, esperando o amanhã: a sexta-feira, o feriado, as férias, o final do ano... É angustiante. Tudo demora a chegar e tudo passa muito rápido.

Tudo acontece tão rápido, que reclamamos o tempo todo de que falta tempo para fazer tudo. Mas, será que distribuímos esse “tudo” entre o que é realmente urgente, o que é emergencial e o que pode ser adiado?

Você crê que isso é perda de tempo. Não é?

Por que vivemos ansiosos, depressivos, temos crises de pânico e sofremos de agorafobia? Não seria porque não aprendemos a administrar nosso tempo?

Por que há uma juventude estressada que toma remédios que, décadas atrás, eram receitados para velhos? Todos envelhecemos rápido demais.

Urgente para quem? Para mim ou para a outra pessoa?

​EFEITO WERTHER: A REVOLUÇÃO DO NADA

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(O BOCA DO INFERNO – DIRETO DE UMA ESTÁTUA DA LIBERDADE)

Nesta fria tarde de domingo, vasculho uma obra arrepiante do Romantismo francês, “A liberdade guinando o povo” de Eugène Delacroix. A liberdade, no centro da tela, parece prestes a pular para fora da cena. O frio torturante convida a uma taça de um “Grand Crus” da região de Bordeaux, impiedosamente invadida pelos cães nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. A obra expõe as vísceras do idiotizado mundo pequeno burguês, que se acredita predestinado a ser, um dia, burguês.
A Liberdade panfletária está representada por uma bela mulher de seios fartos. Um à mostra; o outro semicoberto. O sensual escancarado amamenta a sede de ilusões; o semicoberto camufla certeiras intenções. O bico desnudo fere despudoradamente a moral; o bico mal disfarçado abriga a hipocrisia do pudor. Assim é a liberdade. Nua da cintura para cima; vestida da cintura para baixo. Da cintura para cima, alimenta sensações, desejos, ilusões; da cintura para baixo, sonega, desalenta, acoberta ilusões. Ora ambígua, ora intempestiva, ora engana, ora desengana. Veste-se como uma “misérrima deusa grega”, entre Atena e Medusa, Hera e Afrodite. Leva aos devaneios de Baco os idealistas, ao inferno de Hades os oponentes. Assim é a liberdade. Antes acorrenta, de escapar. Antes fanatiza, para ficar.
Assim são as revoluções. Impassível, arrogantemente pacífica, a Liberdade segura a bandeira francesa em uma das mãos; um mosquetão, uma baioneta na outra. O cano cospe a morte aos borbotões; a baioneta espeta opositores como porcos, empilha cadáveres no chão coalhado de sangue. Para conquistá-la, é preciso pisotear, engolir a sorte, cuspir a morte, ora com asco, ora com gosto. Assim é a liberdade. Pisa corpos, seguida por sôfregos jovens idealistas e calejados adultos furiosos em seu nome.
Assim são as revoluções. Aos pés da dita Liberdade, um homem a olha suplicante esperando que ela se compadeça dele. Impiedosa, ignora-o. O rosto é pura soberba expelindo o caldo de emoções, é irmã xifópaga do Caos. Seus olhos desertam da luta, miram a História, filha das horas, da ação dos homens, degustando as vísceras da vitória sangrenta. Assim é a liberdade. A farsa. Não é ela que luta, os idiotas, os corvos, as meias verdades, os idealistas é que lutam para serem donatários dela, que jamais se submete a nada, nem a ninguém. Sempre insatisfeita. Sempre antropófaga.
Delacroix pinta a tempestade cobrindo o Céu raivoso comendo a genitália de Gaia desafeta da sua sede de orgasmos. Assim são as revoluções. Libertè, Igualitè, Fraternitè: suprema ironia. Saturno corta o pênis de Urano (céu inclemente) em nome do próprio furor. A burguesa arrasta o povo bucha de canhão para uma guerra em que há apenas um futuro, só haverá um vencedor: ela, com sua sede de orgasmos. Os urubus se empanturram de carniça. Um revolucionário não passa disso, um cadáver insepulto, não um titã. Titã come seus filhos como Saturno o fez. Assim são as revoluções burguesas. Cria titãs ao invés de deuses. Ao invés de luz, escuridão. Raios machucam Gaia, a vingança turva a visão. 
O pintor pensou em tudo isso, me perguntam? Sei lá; eu sim. Há infinitas interpretações convenientes para a liberdade e as revoluções. A minha é esta. Hipocrisia, mãe da revolução burguesa, se banha com o poder da vitória. O lucro mata com mosquetão; a desigualdade corta com faca. Os cegos, que derrubaram o castelo, suicidaram-se, ao se tornaram tardiamente reféns da percepção, bêbados com a farsa do poder. Sobrou o suicídio, como alternativa. A ansiedade e a depressão, como sintomas do real atropelado pela ambição. O que ama burguesia? O dinheiro. Quem ama o burguês? O arrivista. O que a burguesia pode comprar? O poder. Até mesmo a dignidade e a amizade. A arma do burguês? A guilhotina. Cada homem tem um preço, diz o burguês, corrompendo com a promessa de um novo status quo. A vaidade do pequeno burguês colabora. 
A burguesia compra paliativos para as dores do físico, da alma e do coração. Comprimida se entope de comprimidos para entontecer a razão. Cura corpos, mas sofre de frustração. O suicídio, arma da solidão do agora, da ansiedade pela rapidez de um futuro próspero, da depressão por causa de um passado inapetente, é a desrazão. Efeito Werther? Assim são as revoluções. Externas afligem as internas. Os sofrimentos do jovem Werther contaminam como praga. O burguês não aprendeu a sofrer com sua criação: Libertè, Igualitè, Fraternitè. Não consegue conviver com sua hipocrisia.
Nunca houve uma revolução popular. Pergunte à história? O povo nunca esteve no poder, observe a pintura de Delacroix. Enraízam-se no poder os espertos, os acumuladores, os possuidores, os que se impõem pela razão sem nenhuma razão. Os que dominam, os que criam crises para ganhar. Os donos do pó. Os donos do cimento. Os que transformam carnes em adubos. Os que carregam os cegos sem lhes dar a bengala, muito menos a mão. Os que vendem caixões, os generais. Enfim, quem tem dinheiro, como matéria prima. Nunca os soldados, os carpinteiros, os sabedores, os professores. Protestar sem fazer não é arma contrarrevolucionária. Vaias são a covardia dos iludidos e arrependidos. Se estamos no mundo da pós-verdade, para piorar vem aí o mundo da pós-realidade. A revolução através da vaia virtual. Uma oração não compra um perdão: sentenciou a lúgubre obra do pintor poeta. A tarde continua fria. O sol não esquenta o corpo nem a alma. Nossa própria alienação vê apenas uma bela estátua, incapaz de nos ajudar. Não há um “grand cru”, há só desejo e paladar; há olhos sim para degustar e se perder nos meandros da obra Delacroix, com a liberdade prestes a saltar do meio da cena para nos embriaga

​De 15 em 15 anos, o Brasil esquece do que aconteceu nos últimos 15 anos

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(Ivan Lessa).

(O Boca do Inferno - direto do centro do centro da política)

Para quem não sabe ou não se lembra, Ivan Lessa foi um jornalista polêmico, instigante, sarcástico, um dos grandes a criar o jornal O Pasquim. Seus comentários eram ácidos.
Lembrei-me dessa frase dele, ao ler neste domingo a coluna da deputada Tabata Amaral do PDT na Folha de São Paulo. A combativa deputada que, por sinal, demonstra que a juventude não está perdida, ainda se interessa por política. Saiu-se bem nos raros momentos em que Pedro Bial lhe fez perguntas relevantes no programa Conversa com Bial. Advinda de uma classe média, estudante bolsista em um escola particular, impressionou-me positivamente também ao encostar a ministra Damares Alves na parede, ao se valer de um discurso articulado, baseado nas suas experiências, cheio de posições muito claras e argumentos inteligentes. Vê-se nela o que se convencionou chamar de emponderamento. O Brasil adora uma convenção e ainda mais uma palavra "noiva" para habitar discursos modernosos.
No artigo, ao qual me refiro, impressionou-me mal. A jovem deputada repetiu antigos jargões e se perdeu em expressões vazias, como "partido de centro-esquerda" (divertido isso, pois há a centro-direita e o centrão, falta o centro-centro), "velha política" (qual é a nova? Todos os salvadores da pátria repetiram esse jargão e continuamos exatamente onde sempre estivemos), "convicções sociais", "crescimento sustentável", "esquerda inflexível" (estamos ainda na conversa fiada de rotulagens? Então, quer dizer que há uma direita flexível? Então, o centrão é flexível quanto à distribuição de cargos e verbas?).
Só concordei com a jovem deputada, quando ela afirmou que o Brasil precisa de uma "reforma" (detesto essa palavra, porque traz a ideia do velho com botox) "política" (temos partidos?) "urgente". 
Não me importa se o indivíduo é de esquerda ou direita. Chamar o indivíduo de petralha ou de bolsominion nos fez sair do lugar ou só estimulou o confronto)? Importa-me que ele tenha o mínimo de "SENSO" para defender suas posições. Todo conflito interessa a alguém que está de fora rindo. Neste caso, interessa a quem?
Abismou-me a deputada cair na lábia de que a "REFORMA DA PREVIDÊNCIA" ajudará a resolver os gaves problemas que o país enfrenta (esta reforma cria distorções ainda maiores. Muita gente a defendeu em passeatas sem saber do que se tratava. Quando descobriu o estrago que os tentáculos do monstrengo, tentou voltar, mas já era tarde). O Ministro da Economia se arrepia ao tocar no imposto sobre grandes fortunas (até porque Paulo Guedes não é exatamente pobre), corte de privilégios do legislativo e do executivo (isso provocaria superlotação de enfartados nos hospitais de Brasília), a partir de ontem. Perceberam que no momento de votar os pontos de destaque da reforma, o congresso entrou em recesso? Não? Rodrigo Maia rapidinho tirou o dele da reta, porque sabe o que vem por aí. Então, esperem os congressistas voltarem oficialmente e verão. Muitos não voltaram para casa, continuam nas sombras de Brasília negociando verbas e cargos. 
Torço deputada para que a razão seja maior que a sedução. Cuidado, quando políticos consideram qualquer político noiva.

ARCO DE FOGO A natureza da razão

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Arco de fogo é o nome de uma operação da polícia federal na Amazônia, deflagrada para autuar e prender madeireiros no meio da imensa floresta cerrada e serrada. É também o título da obra do Delegado Edson Geraldo de Souza e do repórter investigativo João Carlos Borda. Na nota dos autores, previnem: Esse é um livro para quem tem sangue frio. Um livro para quem tem estômago de ferro. Na apresentação, explicam: Essa é uma obra inspirada em fatos reais. O narrador, ao mergulhar na mente de pessoas “reais”, torna-os personagens ficcionais. Ele os vira ao avesso fato a fato, ao relatar, por exemplo, o episódio em que policiais precisavam atravessar o rio caudaloso sobre uma balsa sob uma tempestade, impiedosa, dirigindo um caminhão sem freio, carregado de madeira roubada. A correnteza aumenta, a carga escorrega, quase levando a balsa a pique. O único “pecado”, se é que se pode dizer isso, são as fotos em preto e branco. Coloridas, mergulhariam ainda mais o leitor no universo amazonense.

No início da leitura, o leitor se depara com uma sucessão de relatos sobre as operações da Polícia Federal (PF), do Instituto Chico Mendes de Biologia (ICMBIO) e do IBAMA (governo federal), como se os autores pretendessem redigir um diário de guerra, no entanto, à medida que a leitor avança, o relato cede lugar à análise do ser humano que habita cada policial. A maioria deles abandonou suas famílias para se embrenharem na floresta, enfrentando garimpeiros, grileiros, serralheiros e, pior, politiqueiros. O narrador nos remete a um fato deveras curioso: há homens que não vivem sem a adrenalina do combate permanente. Só ali se sentem verdadeiramente úteis. As notas de pé de página são esclarecedoras de fato.

Prender um carregamento de madeira não é apenas uma questão de exercer a autoridade, mas de legitimar a honra. O delegado Henrique que, pelo terceiro ano consecutivo, não comemora o aniversário de casamento com a esposa, é a síntese do homem cumpridor de seus deveres, mas também da impotência daquele que não tem como cortar os fios de uma teia que se espalha por todo país, cujo cordão umbilical habita Brasília. Busca saídas para cumprir seus deveres, porém esbarra nos documentos forjados pelos poderosos locais, estaduais e federais. Matar policiais é ato de bravura recompensado com caraminguás.

São evidentes os tentáculos ardilosos do poder político e econômico e até mesmo policiais. Usam os desvalidos para se perpetuarem no poder e se manterem à margem da lei. O narrador desvenda esse modus operandi. Usam pessoas miseráveis para sabotarem qualquer intervenção da polícia, do IBAMA e da ACMBIO na mata fechada. Advogados corruptos, a serviço dos donos de Santarém, Curuatinga, Uruará, Mucuxipi, dentre outros tantos aglomeramentos de pessoas, a que chamam de povoados, têm livre trânsito nos tribunais e delegacias para liberar as cargas apreendidas e seus burros de carga.

Alerta: “O importante é sempre descobrir o fluxo de madeira, que muda constantemente de lugar, conforme o esgotamento ou repressão. As apreensões e serrarias móveis causam grande prejuízo aos criminosos. Caso haja descontinuidade no mapeamento, há risco de demorar-se excessivamente na localização da ova fonte. As demandas podem vir de análise social por satélite ou de investigações da base. A extração atual, provavelmente, está migrando para a região de Curuatinga”. (pág. 68)

Os ativistas morrem antes de morrer, um policial também. A impressão é a de que vivem cotidianamente com uma bala prestes a entrar nas suas cabeças. As grandes empresas e os grandes fundos internacionais fazem do replantio de árvores um grande jogo de cena – diz o narrador. Tudo não passa de jogo político e econômico. Como deixa claro o delegado Henrique, constante narrador dos fatos, em 1ª pessoa, só há madeireiros e serrarias clandestinas, porque há compradores para a madeira. Essa prática se ramifica por grandes e médias cidades. Operações são constantemente deflagradas e o resultado parece ser cavar um buraco na areia. Na capa, a “guerra invisível no coração da Amazônia”, só é invisível, porque a desinformação interessa muita gente. A contracapa deixa bem claro: “No coração da Amazônia, uma batalha pela sobrevivência – de árvores e de homens. Para socorrer a floresta que sangra, uma corrida contra o tempo...”. Uma corrida contra a desinformação e contra a corrupção.

Combate-se o descalabro na Amazônia com um band aid, se muito. Deixa, nas entrelinhas, o narrador por vezes onisciente, que essa é a conclusão a que chegam todos os comandados do delegado. O narrador afirma que a floresta sangra, mas ainda pulsa na UTI. Os dilemas, os medos, as vitórias, a honra desmistificam a ideia de que todo policial é corrupto, contudo não lhes impõe a pecha de heróis. São homens que cumprem seu dever com dignidade, apesar da perda de companheiros e de amigos que não suportam lutar uma batalha que acreditam perdida. Henrique crê que é possível, pelo menos, minimizar.

João Carlos Borda é profissional que adora o perigo. Sua diversão nas férias é se enfiar nos buracos mais lúgubres do mundo em busca de aventuras e pesquisas, refém da adrenalina. Talvez isso se deva ao sangue do marinheiro que não sabia, mas nasceu jornalista. A prosa discorrente de Edson e João é um convite à leitura da obra e à reflexão. É um mergulho na Amazônia e também na alma humana. É tão profundo quanto o mergulho na floresta. Arco de Fogo é um convite ao prazer de ler. 

NAU DOS INSENSATOS

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(O BOCA DO INFERNO – DIRETO DO MAR EMPANTURRADO)

Nesta fria tarde de julho de Ribeirão Preto, navega uma jangada repleta de corpos empilhados sob um céu tempestuoso bem na minha frente. É possível sentir o fedor da morte e a dor dos que agonizam. É possível imaginar os urubus. “A Balsa da Medusa”, naufragada nas costas da Mauritânia, é a obsessão de Théodore Géricault, que chegou a entrevistar e pintar os míseros e minguados sobreviventes. Assim são as revoluções: os artistas pintam os corpos empilhados, o sofrimento como praga e a esperança indigesta, antropófaga. Os poetas criarão lendas, os trovadores as cantarão, os historiadores se perderão.

A tarde convidava a uma bela taça de Romanée Conti, minha obsessão, justamente por ter o gosto oposto ao das invasões: aromas e sabores florais, manteiga, frutas vermelhas, terra fértil. Do útero da terra de Vosne-Romanée, brotam as uvas pinot noir que tintam a terra de vermelho, adubando o chão. O Romanée-Conti é considerado o grand cru da Borgonha pela sua elegância. A região ostenta o título de Apelação de Origem Controlada. A única empresa que detém o direito de explorar essa riqueza, chama-se Domaine de la Romanée-Conti. Domaine significa produtor: o que fertiliza a terra.

A “Balsa da Medusa” coalhou o mar de vermelho. O mar tem fome. Fome de gente. Fome de almas. Mesmo com tanta água, aventureiros, idealistas, sonhadores e conquistadores morreram de sede. Ironicamente, mesmo com tanta comida ao alcance das varas, morreram de fome. Não tiveram um lote na terra esturricada pelo sol do Senegal, mas tiveram seu quinhão de água salgada, por culpa das tempestades. Somente o rei pode explorar a terra e a água. O rei não é produtor, é executor. A fragata naufragava, enquanto o rei tomava seu cálice de vinho com sabor de frutas e terra fresca.

A utopia da França escravagista sufocou o ódio de tribos inimigas figadais há séculos, debaixo de chibata, canhões e espada. Deu o nome a esse lugar irreconhecível de Senegal. A África escravizada, mal amada, maltrapilha, estuprada pelos brancos patrões, repleta de “maus” costumes pagãos, virou pesadelo distópico para a grande potência ignorante. As tribos não falavam a mesma língua, não compartilhavam dos mesmos deuses, não se reconheciam sob a batuta de um maestro que criou um réquiem apelidado de Senegal.

Assim são as revoluções. Inimigos não têm idade, não têm raízes, não têm alma, só têm corpo, mas têm riquezas. A tortura machuca o corpo, a alma, a razão, a identidade em busca de enriquecimento.  

Aos dominados, sobra a humilhação, os restos e a podridão. O Papa legitimou a escravidão, as potências legitimaram as invasões, as delações e as destruições. O sol esturricou o solo, o francês com o mosquetão tingiu o solo estéril de vermelho, os urubus comeram as carnes, as carcaças não apodreceram, não adubaram o chão. Os deuses dos negros não se irmanaram com o deus branco, no entanto ambos são vingativos. Deuses não têm cara, mas seus seguidores têm armas fanatismo e nenhuma piedade, nem coração. E como se mata em nome de deus!!!!

A fragata Medusa soçobrou. O capitão inconsequente foi acusado de incompetente, inexperiente, mas seria nomeado intendente das terras que os enganados habitariam. Mas era nobre. Mas era obcecado pela fama. Ao peso de tantos mortos, o rei soçobrou. Os incompetentes nomeados viram marionetes dos abastados e os sonhadores insensatos, crendo-se ungidos por deus, como carneirinhos, não carregam nenhum juízo, carregando os herdeiros das tragédias. Assim são as revoluções. O povo nunca esteve no poder e nunca estará. Os incultos, propositalmente, só conhecem uma migalha da história. Nunca houve a verdade. O povo nunca tem a consciência dos seus destinos, enquanto os poderosos se regozijam com taças e mais taças de Romanée-Conti. Interessado leitor que chegou até aqui no final deste arrazoado, não fui convidado para o banquete. Como eu, você sonhará com uma taça de um dos vinhos mais caros do mundo que só os beiços dos ricos consegue encontrar. Você está na balsa da medusa, como tripulante. Você só não sabe e nem saberá do momento em que ele vai encalhar e soçobrar. Iludido, a bordo de um dedo, você apertará o botão que, como um passe de mágica, fará tudo mudar.

A AMAZÔNIA CALVA SANGRA

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Começa com AMA

Quem ama, cuida. E não cuidamos. Sofremos. Mas não cuidamos.

Testemunhamos. E nunca cuidamos.

Não conservamos. Cortamos. Não replantamos.

A ignorância é uma bênção, é também a tragédia: a praga.
Vendados pelo discurso dos idiotas, não cuidamos.

Na pele, sofremos com o sol e com o frio.
E falamos e falamos e falamos e falamos. E nada fazemos. Só falamos. E só.
Protestamos. E só. Praguejamos. E só. Só sabemos protestar. E só. Só sabemos praguejar. E só.
Quem cuida, morre.

Ativistas viram notícias de pé de página. Orelha de livro ou nome de ONG, quando muito.

Como sempre viram memória. Como sempre, acabam esquecidos, ignorados.

Todos os dias morrem ativistas. E os governos safadamente surdos e mudos os empilham como carvão.
E nós, como sempre, desativados, alienados, abobalhados. Surdos e cegos por conveniência ou indecência.
As árvores agonizam. Os rios agonizam. As populações agonizam.
Aprisionados nos nossos umbigos, aplaudimos o discurso dos idiotas de plantão. Dos interesseiros e despreocupados. Dos lobistas. Dos canalhas de plantão. Interessados si8m na verba para a próxima eleição.

Interesse no capital e desinteresse na humanidade, no SER humano em algum momento da vida. Discursos proferidos como merda aos borbotões em uma ilha chamada Brasília.

Terra de todos e terra de ninguém, onde se fala, fala, fala do que não sei. Sei do escuso? Do obtuso? Sei.

E sofremos. E não entendemos, porque não queremos.

Consentir vale muito. Consentir desobriga. Mas, vale dinheiro. Muito dinheiro. E muito suborno.
Poderosos e indecorosos mentem e mentem. Em nome de interesses, mentem. 
E sabemos. E nos acovardamos. E nos escondemos. Da morte. Da sorte.
Morre a árvore. Morre a seiva da terra. Estéril.

A árvore não tem cio. Não gera filhos. Não existe comunhão.

Só chão esturricado. Desértico. Só chão. Terra batida. Só chão. Só deserto. Só chão. Sem pássaros, sem fauna, sem flora, só a morte aflora. Sobra morte.
Morremos ressecados, esturricados ou afogados, engolfados, como sempre e não nos damos conta.

E reclamos, e reclamamos, e reclamamos das secas inclementes e enchentes indecorosas.
Fazemos de conta que não entendemos. Só da terra do faz de conta. 
O ativista morre antes de morrer.

O dedo do gatilho apertado, mesmo antes de o cano cuspir a morte.

Viver assim?
Agoniza a Amazônia. Já calva. Cada vez menos ar, para cada vez mais gente respirar.
A gente morre cada dia um pouco. Sabemos. Mas não queremos saber.

A Amazônia já calva morre todo dia, estuprada a céu aberto.

A morte do “s” no final de tudo

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Um “agroboy” espremido em uma calça jeans hiper-super apertada do tornozelo à cintura. Dúvida cruel: Como ele conseguiu se enfiar nela? Claro! passou vaselina no cós e pulou do guarda-roupa para se encaixar? Caminhou soberbo como um pavão em direção à mesa. Piadistas cochicharam: “Esse aí usa calça zero a zero pra se mostrar fodão”. Portava um boné todo desgrenhado de uma famosa marca de agrotóxicos encrustado na cabeça. Vinha enlaçado por um largo sinto bandejão, que certamente o enforcava pela cintura. Dúvida cruel: “Será que dá para fritar um ovo naquilo?” Pisava ritmado com suas botas desgastadas, como se tocasse bumbo. Jogou a chave de uma caminhonete sobre a mesa. Olhou para as bocas em volta, só faltavam babar: “fodão”. “Consegui. cogitou com suas lombrigas”. O barulho, como os trovões, tinha a função de descaradamente demonstrar “phoder”. Puxou a cadeira, como se puxasse as rédeas de um cavalo. Várias senhoras o olhavam de rabo de olho.

Uma mocinha de tranças, enjaulada em uma calça jeans hiper-super justa, vinha à distância de um comando. Ah! Se as feministas radicais, que protestavam em frente ao Pedro II contra a “coisificação” e “opressão” do mundo machista vissem isso? Seria o caos. O jeans modelava suas formas. Piadistas, na mesa ao lado, elucubraram que o narrador de O Cortiço diria sobre ela o que disse sobre Rita Baiana: “Tinha ancas largas de égua no cio”. Beleza estonteante, insinuante. É o batom vermelho? E a camisa xadrez apertada, estrategicamente desabotoada para dar a impressão aos fotógrafos do pensamento de que os seios pulariam para fora do sutiã rendado a qualquer inspiração? Sentou-se em frente ao mancebo com seus olhos de piscina pregados nele. Certamente tinha PHD na arte de seduzir. Indiferente ao olhar, enquanto alguns olhos do bar a despiam e outros despeitados a invejavam, o macho alfa levantou a mão, como se fosse fazer uma pergunta ao professor, e gritou com voz de trator: – “Negão!!! Me traiz um chops, dois pastel e uma Coca estupidamente gelada. O chops pra ela e a coca pra mim,(kkkk), que estou guiando”. Será? Ela sorriu maliciosa. Ele a olhou como se a estúpida não apenas fosse a Coca.

– “Depois me traiz dois café com aqueles chocolatinho que só oceis tem”.

– “Dois café, né dotô?”, respondeu com uma pergunta e carregando a bandeja recheada de felicidade adquirida gelada para regar a imaginação.

Todo mundo é “dotô” nesse país. Tem dinheiro? Está disposto a pagar a conta? Então, é “dotô”.

Olhou para ela com aquele olhar de comando e o perdigoto se suicidou com o “S” na palavra: “vamo”. Contei esse episódio, que já virou piada, porque, como sou cego casado ou casado cego e o meu cúmplice de muitos chopes é surdo, mudo e niilista. Sorte nossa é que temos um animal piadista à mesa, apelidado por nós carinhosamente de O Boca do Inferno como tradutor. Tem a sutileza de uma mãe exasperada com o boletim do filho vagabundo que estuda, à custa de muito sacrifício, na escola particular.

Voltemos ao que interessa para você desvendar o tema dessa crônica, anódino leitor. Nocauteado pelas evidências, o “S” agoniza na UTI da fala, prestes a ser enviado para o exílio do dicionário. O falante nativo finge não vê-lo, como o faz o rapaz apertado, ou o considera estúpido, como encara com a mocinha enjaulada, ou se acostumou a engoli-lo quando bem quiser, como beber Coca-Cola, porque crê que está guiando alguma coisa. O professor, guardião da gramática, volta e meia, também dá suas escorregadelas. Ninguém está imune ao “erro” por contaminação linguística por mais erudito que seja. Assim são os agrotóxicos encrustado na gaveta.

O coitado do “S”, passou até a sofrer perseguição política, acusado de ser um dos pilares de uma elite intelectual entediante, preconceituosa, defensora do português castiço que não faz concessões. Para o povão, quem pronuncia os “Ss” é tido como pedante. Ora o som é o de /c/, ora o de /z/; ora água o chope, ora sensualiza o Luís, ora bagunça a lógica “Palmeiras é um time”. No final das palavras, indicando plural, é que toma surras homéricas do bom senso.

O calça apertada de boné disse à calça justa com batom insinuante que “tava doido pra chegar a Barretos”. A festa “do pião ia cê da hora”, segundo ele. Ele ia “pegá umas gata”; ela “pudia pegá uns gato” que quisesse, afinal, numa festa como essa “nóis pode tudo”, diferentemente da gramática normativa que vive de TPM. A boca de batom fez biquinho. Dizem os maldosos que, desde que inventaram o biquinho, homem não ganha briga. O da bota estava excitado, não com ela, mas com outra coisa, ia conhecer a cidade, onde ia “fazê” vestibular. Segundo ele, “é um saco fazê essas prova, mais não tem outro jeito pra entrá em medicina prá ajuda as pessoa”. O problema é que o “S” estaria presente nas opções das questões que, logicamente, o derrubariam mais rápido “nas prova” que uma garrafa de corote, caso não começasse a plantá-lo, adubá-lo e aguá-lo todos os dias. “Mas lê é chato, num é?”.

A música popular, seja a da periferia, do sertanejo, da elite branca, usa e abusa do Alzheimer. Ninguém sabe ainda se esse não é um dos grandes segredos de a música ser “popular”. O que se sabe, sem medo de errar nas observações, é que, para ser presidente da república, nos últimos quatro pleitos, o candidato tinha que travar uma verdadeira luta verbal com a língua portuguesa. A vítima maior? O “S”. Só falta a câmara votar alguma lei amalucada: “Morte ao S, junto com esses comunista”. No passado se tentou pelas via de fato: “Nunca, na história desse país, nossos discurso matou o “S” com tanta competência companheiro”. “Quero ver quem matou mais o “S” do que eu?!”. O palanque virou um verdadeiro show de horrores, porque os pronunciamentos feitos à base de improvisos também se tornaram um verdadeiro nocaute na clareza, da coerência, da coesão e do bom senso.

Aproximar-se do povão significa brandir uma espécie de caneta Bic maneta, assassina das concordâncias verbal e nominal. A função de um político, logicamente, não é ensinar gramática à população, mas tem a obrigação de não ferir o bom senso, proferindo frases destrambelhadas, matando descaradamente o “S”: Eu acredito que nós teremos uns Jogos Olímpicos que vai ter uma qualidade totalmente diferente e que vai ser capaz de deixar um legado tanto… porque geralmente as pessoas pensam: 'Ah, o legado é só depois'. Não, vai deixar um legado antes, durante e depois.

Aviso aos torcedores: “Palmeiras é um time” e não “Palmeira são um time” (concordância). Aviso ao presidente de um certo clube: “Nóis corintiano amamo nosso time, amamo nosso manto sagrado”. Aviso aos de botas e bonés e também aos que não usam essa indumentária característica: “As provas de redação dos diversos vestibulares devem ser redigidas na norma culta padrão da língua portuguesa”, portanto deem uma chance a vocês e ao “S”, senão correm o risco de tropeçar e cair na armadilha de Drummond: “No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”.

Politizado leitor: antes que tente achar pelo em ovo (meu deus! Que catacrese feia), o agroboy e a agrogirl são amigos do Boca do Inferno, leram, riram e hoje fazem curso para aprenderem a escrever dentro da norma culta padrão da língua portuguesa. Ademais esse texto é uma ironia e a luta entre singular e plural não se restringe a lugar, raça, religião, classe social etc, etc. Ficaram extasiados de servirem para amolecer cérebros empedernidos, resistentes a bastanteS aprendizadoS. Ambos acham que é muito melhor ter senso do que censo. Apesar de o “S” não estar no final da palavra. Se errei em algm momento, desculpe-me, é a contaminação. Agora boto um ponto final neste arrazoado.

P.S: o agroboy quase passou para a faculdade de medicina, via SISU. Quem sabe, no final do ano, passe e aí sim possa ajudar as pessoas como se sempre quis.