Hoje é o dia da Língua Nacional

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DIA 05/11

"TUPY or not Tupy? That's the question."

Hoje comemoramos o dia da língua nacional?

Manifesto Pau-Brasil de 1925: "A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos." (Oswald de Andrade)

Mas, de que língua estamos falando?
Aquela que herdamos de Portugal, a língua d'além mar? Ou daquela que reagiu contra o colonizador ganhando voz de tacape, de berimbau, de bambu? Aquela que ganhou novas cores, novos ritmos, novos sabores? Aquela que engolimos, deglutimos e expelimos como Brasil?
O Brasil de Drummond, de Clarice, de Guimarães, de Graciliano, de Jorge Amado? A língua de Mano Brown, de Emicida, de Caetano, de Chico, de Leminsk, de Veríssimo, de Cora, de Cecília, de Patativa do Assaré, de Manoel de Barros, de Ariano Suassuna, de João Cabral...?
Essa língua carnavalizada, língua de calundu, amarga de falar, difícil de escrever, de descrever, linda de sussurrar, de falar, puro mel, mel fel, língua pra amar, língua pra xingar.
Essas línguas, dialetos, regionalismos, universalismos, de mil sons, mil grafias, mil gramáticas, comida de Brasil.

Diz Oswald:

"Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade".

"Quando o português chegou / Debaixo de uma bruta chuva / Vestiu o índio / Que pena! Fosse uma manhã de sol / O índio tinha despido / O português".

"Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará".

"Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós. Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei analfabeto dissera-lhe: ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia". (Trecho do Manifesto Antropofágico - Oswald de Andrade).

Língua de pensar, de escrever, de traduzir, de induzir, de sonhar, de analisar, de ver, de rever, de Reverter, de viajar, de poetar...

“Estou farto do lirismo comedido
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação”. (Manoel Bandeira)

De que 

​ENEM É COISA DE DOIDO

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(Antes que haja qualquer dúvida, a intenção deste artigo é ser seriamente descontraído)

  • CHUTA UM TEMA, PROFESSOR: Não sei qual será. E ainda bem que não sou cartomante. Confio em trabalho. Ninguém faz a mínima ideia. Em época de ministro atirador de óculos a distância, não ninguém sabe nada, provavelmente nem ele, já que nem ele, nem o presidente tiveram tempo de ler a prova, como prometeram. Mas, fique feliz: Todo mundo está no mesmo barco. Sua “obra” srá corrigida dentro dos mesmos parâmetros de outras. Não sofra.
  • O QUE EU FAÇO NA HORA DA PROVA: Você tem duas opções: ou sai correndo ou entra e faz. Vamos supor que tenha optado por fazer: sente-se, feche os olhos, respire fundo e mãos à obra. Desde que inventaram o número 1, é melhor começar por ele. Não comece pela matéria que mais sabe. Insisto: nem sempre, vem com as questões mais fáceis. Se começar a errar, o seu psicológico vai para o espaço. A estratégia é “sei, faço; não sei, pulo”.
  • ESTOU ESTRESSADO: Que bom! Você acabou de descobrir que não é um ET. Se não estivesse, não seria humano. Ninguém vence, sem “um pouco” de estresse. Só perde, quando entra em desespero. Aí, vá pescar. Você está com a consciência “pesada”? Poderia ter estudado mais? Essa foi a melhor descoberta: descobriu que tem consciência. Todo mundo pensa que poderia ter feito mais. E o chamado “consciente” coletivo. A gente sempre acha que pode mais.
  • TURBINA PARA O CÉREBRO: Você se embrenhou no mundo das descobertas. Acabou de descobrir que não tem um. Jamais tome Ritalina, Conserta (remédios para TDAH), sem receita médica. Podem provocar delírio. Vai ser o “maior barato” ver elefante voando pela sala. Imagine-se correndo atrás do fiscal, com a prova nas mãos, gritando: “Gostosinho, vem cá”.
  • COMIDA: Não leve um Big Mac (não vai entrar), para “matar a galera de inveja”, nem um bombom Sonho de Valsa, para desconcentrar a “galera”, ao fazer barulho quando for desembrulhá-lo Há cinco milhões de “sofredores” e seus concorrentes não estão todos na sua sala. Leve água e banana. Percebeu que todo atleta de alta “performance” come banana? Por incrível que pareça, você foi enquadrado na categoria atleta, atleta intelectual: tem que ser bom e rápido, uma mistura de Steve Jobs com Lewis Hamilton.
  • BANHEIRO: Quando começar a confundir Roberto Carlos com Ludmila, peça para ir ao banheiro. Não há perda de tempo nesse caso. Dê um “reset” em você mesmo(a). Aí sim, ganhará tempo, volta, de fato, a raciocinar. Desligou o módulo automático.
  • CELULAR: Não leve. Neste ano, não terá como fazer uma “selfie” com a prova no banheiro. Há uma preocupação enorme com segurança. Se ele tocar durante a prova, você será eliminado.
  • UM CHOPIS E DOIS PASTEL: Chope é bom, “só que não”. Sair para tomar um chope “nessa altura do campeonato”? Você já viu alguém estressado tomar um chope? Amnésia pós-porre é fato; bumbo dentro do vácuo formado dentro da cabeça também.
  • SE EU PERDER MEUS DOCUMENTOS: Faça um boletim de ocorrência e apresente. Se for perto do horário da prova, o site do Inep orienta: há um site para você fazer o boletim de ocorrência.
  • GABARITO: É uma ilusão crer que tem cinco horas de prova. 20 minutos devem ser atribuídos ao gabarito. Não marque à medida que faz. Arrependimento custa caro: às vezes um ano de cursinho.

DE RESTO: abrace muito, beije muito, fique perto de pessoas de alto astral e leia o artigo anterior.

CUIDADO COM AS FÓRMULAS MÁGICAS: OS PICARETAS E OS OPORTUNISTAS

ENEM CHEGANDO. O QUE EU FAÇO?

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Tenho algumas teorias:

1. A TERAPIA DO URSINHO: Compre um ursinho de pelúcia. No auge do estresse, bata nele até cansar. Viu? Descarregou o estresse. E não cometeu nenhum crime contra a fauna. Travesseiro também serve, desde que bem fofinho.
2. A TERAPIA DO GRITO: Vá para algum lugar onde não apareça ninguém que ache que você que é doido(a). Grite, grite, grite até desestressar. John Lennon sabia das coisas.
3. TERAPIA DO SHOPPING - Existe algum lugar melhor do que um shopping para não fazer nada ou fazer o que gosta (compras). Além disso, há até cinema? Qualquer filme serve: uns desetressam por causa do medo; outros, por causa da emoção; outros porque querem matar o vilão; outros engraçados em que você não achará graça nenhuma.
4. TERAPIA DO BEIJO: Quem pode, pode. Beije até querer mais. E mais. E mais. Destressam que é uma beleza.
5. TERAPIA DO ABRAÇO: Abrace as pessoas que ama ou gosta ou tem afinidade ou até estranhos dispostos a um momento de bondade. Mami, Papi e namorado(a) são imbatíveis nessa questão. Irmão "mala" não. Você é capaz de, ao invés de abraçar, enforcar.
6. TERAPIA DO CHORO: Junte a galera em casa, ofereça água e suco (suco de cevada, jamais) e reclame, fale mal de todo mundo, espere até alguém dizer que não vai passar e chore ate desestressar. Diga que também não vai. Chore mais um pouco. No outro dia," detone" na prova e "está" tudo certo.
7. TERAPIA DA AGULHA: acupuntura dá um medo danado, mas faz um bem danado. A delícia da agulhada vem depois, junto com a endorfina que ela libera. A gente perde até o rumo de casa.
8. TERAPIA DO VAMOS VER NO QUE DÁ: encontre com pessoas com alto astral. Se você acha que ir a uma igreja ou a um centro religioso ou à missa da bênção da caneta ou a um psicólogo ou a um pesca e pague, vá. "Tudo vale a pena, se a alma não é pequena.
9. TERAPIA DA MADRUGADA: A pior coisa do mundo é deitar e ficar olhando para o teto pensando que não vai passar. Se não dormir, não vai mesmo. Dormir ensina. O que você faz,então? Faça alongamento, alongamento, alongamento. Você faz deitado(a) na cama mesmo. Os japoneses dizem que alongamento é vida. Será que é por causa disso que vivem 100 anos ou passam nos vestibulares?
10. TERAPIA DO OMBRO: as pessoas com maior experiência em vestibular são os seus professores. Em algum momento, converse com o que tem maior afinidade. Se sentir que ele está mais estressado do que você, console-o. Você vai se sentir muito importante e isso é muito bom.
11. TERAPIA DO RISO: Rir de si mesmo(a) é a melhor coisa que existe. Não se levar a sério é melhor ainda. Junte-se com quem tem afinidade com você para lembrar os "micos" (que você pagou, que seus amigos pagaram ou que o professor pagou) durante o ano faz um bem danado. Tira a seriedade da escola e do vestibular.
12: TERAPIA DA GALINHA: Correr atrás de galinha dá um cansaço danado, mas uma satisfação imensa, quando se pega uma, tão intensa quanto acabar de fazer uma prova de ENEM. Um alívio.

​O ENEM E SEUS MITOS:

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  • Quem tem medo do ENEM? Se você tem, seu concorrente também. Se a prova do maior vestibular do Brasil gerava um estresse danado, neste ano esse estresse foi às raias do absurdo.
  • Eu o(a) aconselharia a ler o “discurso” do presidente na ONU. Aquele arrazoado constitui o “programa de governo” do partido que assumiu o poder no Brasil. O tema da redação pode estar ali.
  • O ministro da educação prometeu uma prova sem viés ideológico, o que, em se tratando de ciências humanas, é impossível. Não se incomode, imaginando como a redação será corrigida. Simplesmente defenda a sua opinião.
  • Por favor, não “meta o pau nos políticos”. “Meter o pau” constitui apenas juízo de valor não significa que está apresentando argumentos.
  • Evite doutrinarismos, sejam políticos ou religiosos. Doutrinar não é argumentar.
  • O tema vem representado por uma frase. Essa frase sempre traz palavras chaves. Se o tema for uma pergunta, sua resposta será a sua tese. Se não for, transforme-o em uma pergunta. Ex.: “O futebol é o ópio do povo”.
  • Se a dissertação exigida no ENEM é a “argumentativa”; no primeiro parágrafo, é crucial que você apresente sua tese (opinião ou ponto de vista).
  • Três são as palavras-chaves especificadas nas instruções: SELECIONAR, ORGANIZAR, RELACIONAR. Portanto, a redação não foi criada para você que você escreva tudo o que sabe sobre o tema. É preciso organizar os principais argumentos em sequência progressiva. (linha de raciocínio).
  • Relacionar argumentos (classes sociais, raças, teorias sociais, países...) é fundamental para que o texto flua de forma inteligente: demonstre maturidade.
  • Fatalmente, você “cairá” em questões relativas ao governo, então se lembre de que existe “governo estadual, federal e municipal”, especifique qual pasta: ministério, secretaria etc. Geralmente propõe campanhas (Qual o teor da campanha? Quem fará a campanha? A quem a campanha quer atingir? Quais meios serão utilizados?
  • Comece a prova pela redação. Nunca faça o rascunho e depois volte para passar o texto a limpo. Se faltar tempo para terminar, você não terá como “chutar”.
  • Se você não sabe nada sobre o tema, retire ideias dos excertos da coletânea. Preste atenção ao primeiro período que, geralmente, resume a ideia central do texto e às fontes de onde foram retiradas.
  • Nunca escreva o que sabe mais ou menos (o que acha que é). Evite os erros gramaticais e as “frases bonitinhas” que não se relacionam com o tema central. Essa estratégia não configura conhecimento (repertório cultural). Essas frases podem destruir o seu texto, se não tiverem qualquer relação com a tese apresentada.

Ópio é palavra chave. Escrever apenas sobre futebol constitui fuga ao tema. O tema não é uma pergunta, então o transforme em uma. A resposta será a tese. A dissertação argumentativa exige que haja uma tese.

A PSICOLOGIA DO "NÃO"

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(Prof.: Luiz Cláudio Jubilato - coordenador geral do curso Criar redação. Professor de Língua portuguesa e redação; Consultor educacional para vestibulares.

Já que uma quantidade enorme de alunos me pergunta o que cairá na prova do Exame Nacional do Ensino Médio, vou para o lado contrário, falarei do que NÃO vai cair:

1. NÃO SEI O QUE CAIRÁ. NINGUÉM SABE:

O professor cartomante diz o que cairá. Se todos acertarem, a prova deverá ter 1000 questões e não 90. Pergunto: Como vai cair? Como será o enunciado? Qual o gabarito? Há sites e mais sites que listam os 50 temas que mais caíram. Será que não cairão mais, já que foram suficientemente explorados? Ou são os que têm mais chance de cair? Estudá-los ou não? Eis a questão.

2. NÃO SE PREOCUPE SE PROFESSOR ACERTARÁ OU NÃO O TEMA DA REDAÇÃO:

Se ele acertar e você não tiver feito a redação? De que adiantará? Se tiver feito, lembrará de tudo? Não é melhor se preparar para quaisquer temas, para não ser surpreendido(a)? Você já sabe que a banca examinadora abordará um tema atual, que abordará tópicos do programa de governo do atual.

3. NÃO SE PREOCUPE SE A MATÉRIA ACUMULOU:

Estudar tudo de tudo? Impossível. Acumular matérias é absolutamente normal. Se alguém disser a você que está com tudo em dia, interne-o(a). É pura pressão psicológica. Ou então, já decorou a apostila. Se você se acha uma “anta”, porque há um vazio na sua cabeça, esqueceu tudo, não se esqueça de que as antas são espertas, tanto que continuam sobrevivendo. As coisas se decidem mesmo é na hora da prova. E se o concorrente "fodão" passar mal. "Já era".

4. NÃO ESTUDE EM CASA:

Estude na escola; em casa, revise, descanse. Você não é autodidata. Perde muito tempo tentando aprender sozinho. Aí começa o estresse, a sensação de não aprender nada.

5. NÃO FIQUE ACORDADO(A):

Aprenda com o seu corpo. O corpo ensina. Hora de ficar acordado, fique. Hora de dormir, durma. Dormir ensina. Não confunda ficar acordado(a) com estudar, No outro dia, terá que reler tudo o que leu. Aí sim a matéria acumula. Perderá, no mínimo, duas aulas no outro dia.

5. NÃO SE PREOCUPE COM A CONCORRÊNCIA:

Primeiro: quantidade não significa qualidade; segundo: você é o seu maior concorrente, pois se enfia em aulas dicas cansativas na véspera da prova. Vá beijar, abraçar, comer a comidinha da mamãe; terceiro: quando fica ouvindo um monte de asneiras dos derrotistas; quarto: quando não acorda para o fato de que o mesmo medo que tem do concorrente, ele tem de você; quarto: quando toma remédios para diminuir a ansiedade ou turbinar o raciocínio sem consulta médica.

6. NÃO SE PREOCUPE POR ONDE VAI COMEÇAR A PROVA:

Preocupe-se em fazer as questões mais fáceis primeiro; nem sempre a matéria que você mais sabe é a que está mais fácil. O importante é não "chutar" sem ler.

E o professor, que não ensina, ensina? (Ninguém vai ler isso; é muito longo)

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  • Ninguém vai ler isso; é muito longo

                Ao longo de 42 anos de profissão, conheci todo tipo de aluno e de professor. Já dei aulas em inúmeras escolas e em tantas e tantas cidades. Vivi e convivi com professores que viajavam 1000 km por semana para ganhar a vida ensinando. Muitos a perderam. Ganharam lembranças, mas não viraram lenda. Atendi pais e alunos com possíveis dúvidas e problemas diversos, como professor, consultor e psicólogo. Formei uma enorme quantidade de professores e alunos. Dei uma média de 50 aulas por semana. Escrevi tanto material didático, que tenho a impressão de que as linhas enfileiradas facilmente chegariam à lua. Viajei mais de 1000 km/semana. Tive duas escolas e um AVC. E pronto. Chega.

Noutro dia, fui a uma feira dedicada a pessoas que poderiam escolher, por livre e espontânea vontade, uma escola para estudar. A idealizadora do ENEM deu uma palestra, depois abriu para perguntas. Senti-me um pária educacional, quando um professor, munido de um microfone, atacou o que, segundo ele, era a “indústria” dos “famigerados” cursinhos. Desde que me entendo por professor, dou aulas em cursinhos. Pisei na UFJF e um semestre depois já dava aulas no maior cursinho da cidade.

Os cursinhos deveriam existir? Se o sistema educacional fosse criado para seres humanos, não. Se as escolas fossem formativas e não informativas, não. Se fôssemos educados para saber e não para o mercado, não. Se não fôssemos ensinados a ser empregados, mas sim empreendedores, não. Se, em um país tão desigual, o ingresso às universidades públicas não levasse em conta apenas a tal meritocracia, não. Se não vivêssemos massacrados pelo tal vestibular, não. Se não houvesse a indústria do EAD e do PBL, não. Se não houvesse o ENEM, não. São o mal necessário. Sim.

                O professor ingenuamente (?) acreditou, de acordo com os seus interesses (?), que, com o advento do ENEM, os cursinhos acabariam. Ninguém é tão ingênuo assim. O ENEM, criado para uma coisa, virou outra, uma espécie de monstrengo balizador para a propaganda política. A cara do monstrengo virou a porta de entrada para as universidades públicas. Dessa forma, à imagem e semelhança dele, pariu uma infindável fábrica de cursinhos só para ele. Por culpa do “modelão” ENEM, retrocedemos duas décadas. Voltamos à decoreba. Ele promete aos pobres as mesmas chances dos ricos, mas isso é pura balela. Passe os olhos pelo questionário socioeconômico. Verá as distorções. Bato nesta tecla da obviedade e os números nunca me desmentiram.

           Os professores de cursinho exercem o seu papel fundamental no processo deseducacional. Levam o processo às últimas consequências. Ou alguém, em sã consciência, crê em aprendizado, depois de um conjunto de aulas de disciplinas diferentes, ministradas entre as 7h e as 15h? Na primeira aula, o aluno está com sono; na última, com fome. Nosso modelo, se é que podemos chamar assim, criou os cursinhos. Sabe o que vai acabar com eles? A infindável quantidade de universidades particulares abertas sem nenhum critério. Essas serão a universidade particular para os pobres; universidade pública é para rico que pode pagar cursinho.

E os lobbys dos grandes grupos educacionais? Que governo, em boa parte, financiado por eles, teria colhões para enfrentá-los? Os donos dos cursinhos grandes ganham milhões, empregam milhares de pessoas, acabam tampando hemorragia com band-aid. A disseminação do Ensino a Distância é a prova cabal, é a indústria que o professor esqueceu (?) de mencionar. O MEC incentiva a propagação do professor virtual, quer até fazer dele modelo para pais ensinarem seus filhos em casa. Mais que cursinhos proliferam plataformas digitais. Mas, educação não exige interação, aproximação, troca de experiências?  

                A prova do ENEM será feita pelo computador. Nem deus sabe como. Vai haver universidade para Hacker, pode acreditar, curioso leitor. A nova fronteira educacional é tornar a tela do computador humana e o aluno disciplinado? E o professor? Finge que há alguém do outro lado da câmera ou que o chat é o mesmo que um contato? Finge que ensina sem saber se o aluno aprende? Isso não é um "cursinho"?

             Neste dia dos professores, que são todos, surgem histórias edificantes dos que deram e dão a vida por seus alunos e pelos projetos criados pelo governo, com cara de pirata e tapa-olho. Poucos se lembram que a “desforma” educacional pretendia expulsar boa parte deles, a pontapés, dos currículos escolares. Neste dia, todos falam dos “salários mérdicos” da rede pública. O idealismo (?) mantém muitos deles na escola. Sabe por quê, enrolado leitor? Porque não têm para onde ir. Boa parte só sabe dar aulas, mesmo depressiva, desorientada. Um ou outro prefere pular do décimo andar de um edifício a voltar para a sala de aula.

                O alto índice de depressão, o medo das agressões, o desespero de tentar ensinar a quem quer ou não tem como aprender afugentou quem queria ser professor. Ninguém ensina em um país em que vale a pena entrar em qualquer faculdade de fim de semana somente para ter o diploma de doutor. O sistema deseducacional dos absurdos mesmo: o aluno da escola pública não sabe ler e escrever, o da escola particular também não. Aprende a decorar um modelo para virar universiotário. Entrar para a universidade é difícil? Sair é muito mais. Um mau aluno vira um mau professor que cria um mau profissional que vira um mau professor, que cria um mau aluno... (o ciclo vicioso eterno)

                Jovens, como eu, que vieram de classes baixas, se tornaram professores, porque o curso é barato e dá para começar a trabalhar cedo. A vocação fica em segundo plano; o primeiro é sobreviver. Quando penso na minha profissão, penso no professor Barata de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, em Fraulein Elza de “Amar Verbo Intransitivo”. Hoje será um dia de sol, calor, lágrimas e homenagens; amanha será de mordaça, pequeno salário para muito mês, ilusão. IBOPE (do qual o professor de escola particular é refém) e leis estapafúrdias. Muitos professores me estimularam, porque eram bons; outros me estimularam, porque eram ruins. A que me inspirou era muito chata, chata mesmo, chata de carteirinha. Ela me inspirou, não por que não soubesse nada, mas por que não tinha paciência com a ignorância. Dizia: “Vim aqui para desasná-los”. Lembra-me o professor gordo, impaciente do conto “Os desastres de Sofia” de Clarice Lispector.

                Hoje homenageio, entre tantos, o professor de cursinho, que vive nas salas de aula ou morre nas estradas, que vive o estresse do aluno, como se fosse seu, que enfrenta o IBOPE todos os dias. Os que sabem e os que enganam bem (outra forma de sabedoria).

Será que seremos um remédio contra a burrice?

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Nada me indigna mais que censura. Apanhar na boca me indigna. Proibir me indigna. Impor limites às crianças me indigna. A atitude imbecil de um censor me indigna. Quem proíbe, gosta de ser enganado – Como nossos pais, diria Belchior. Quem um censor pensa(?) que é? Um ser iluminado? Que pode decidir sobre o que eu devo ler, ver, falar, avaliar, ouvir e pensar? A censura e o censor são certamente os maiores incrementos à burrice da história, depois vêm provas as sobre livros e a criação de um programa do Ministério da Justiça e Segurança Pública de usar a literatura como instrumento de tortura. O detento reduz a pena em quatro dias, se ler um livro. Genial. O plano mesmo é desafogar o sistema penitenciário. Genial. As obras mais escolhidas foram “Ensaio sobre a Cegueira” de Saramago” e “Crime e Castigo” de Dostoiévski. Detentos intelectuais, preparados para o mercado. Genial.

A história está cheia de iluminados guardiões da moral e dos bons costumes (seja lá o que isso signifique). São escudeiros de caudilhos que arrastam multidões, berrando verdades absolutas e se escondendo atrás do moralismo. Assim salvarão o mundo da ameaçadora livre manifestação dos direitos democráticos. O estado é laico, o censor não. É nada mais, nada menos que um idiota útil, descartável como papel higiênico, afinal não entende nada de coisa nenhuma. Se entendesse, não seria censor.

E a multidão acéfala engole faike na forma de sabedoria. Direita ou esquerda são partes do mesmo corpo, uma lava a outra. Ah! Desculpe-me. A Revolução Francesa já acabou faz tempo, leitor? A rotulagem é a melhor maneira de desqualificar o adversário, de se mostrar importante, de dizer que defende a família (qual família?). A juventude hitlerista começou a ser ajustada assim, quando o professor se viu amordaçado, escolas públicas viraram campos militares, alunos passaram a usar farda e bater continência, convenceu pais a abdicarem deles. Ninguém vestia azul, nem rosa.

George Orwell vislumbrou essa distopia: o estado opressor-policialesco; “sorria, você está sendo filmado”, as coisas mudam para ficarem iguais. Isabella Allende presenciou a distopia: tortura a céu aberto em estádio de futebol e morte por crimideia. Em uma ditadura, ninguém é inocente, nem que as apoia. A mentira é arma; a censura canaliza o óbvio, transmutando-o. Pais espancam filhos discordantes, filhos entregam pais vacilantes, vizinhos passam a ter comportamentos cambaleantes. O país precisa de uma guerra externa para disfarçar a miséria interna. Falta apenas desancar a velha Constituição, criando uma nova e “revolucionária” (A Polaca de Getúlio Vargas), estrangular as relações de trabalho (A carta dell lavoro de Mussolini), tornar a fé destemperada um apanágio à burrice (Os Index da contra-reforma) e promover a queima inquisitorial de livros, para recontar a história com um novo viés (Stalin e outros ditadores bananeiros da América Latrina). Estamos a caminho célere para nos encarcerarmos em um admirável pesadelo novo: vidas secas e angústias nos esperam, junto com os cassetetes e os porões.

Agora vivemos uma espécie de cegueira verde-amarela escarnecendo da cegueira total: uns poucos se manifestam, muitos viram massa de manobra, indo a passeatas para beber e ver o show. Meu amigo, o poder serve a alguém, não a você. Você já se perguntou a quem? Ninguém nasce usando um terno Armani, mas todo mundo aprende a usá-lo junto com a maior das pragas dessa América Latrina: o populismo. O servilhismo, o ufanismo, o caudilhismo, o corporativismo e o nepotismo são os irmãos siameses dessa praga. Em nome de uma religião se fratura uma Constituição. Em nome de uma Constituição, institui-se a manipulação do pensamento. Por que será que, quando os alemães invadiram os países da Europa, correram atrás das obras de arte que tanto condenaram?

Conta a lenda que Pablo Picasso estava de frente para Guernica, quando um soldado o interpelou: Foi o senhor fez isso? Ele teria respondido: Não, foram vocês. Por que a Luftwaffe destruiu uma cidadezinha sem equipamento antiaéreo? Resposta simples: “para matar ideias”. Disse o poeta que nenhuma bala pode matar uma ideia. A censura, pior que bala, pode. Pode disseminar o Alzheimer coletivo.Estaremos em duas prisões: não saberemos o que está fora de nós, nem saberemos quem somos de nós. Seremos nós. Viveremos noz. Basta verificar: a leitura virou instrumento de tortura, elas são indomáveis. Estamos ficando monossilábicos. Quem não reconhece a textura e as plumagens das palavras, não sabe explicar o que é e quem é. Isso interessa a alguém? Você já se perguntou a quem?

Adiantou censurar O Crime do Padre Amaro? Ridicularizar a Impressão do Sol Nascente de Monet? Vaiar o Bolero de Ravel? Queimar os livros de Monteiro Lobato? Felizmente, o sol nasce todos os dias. Essas obras renascem todos os dias, apesar de atitudes idiotas como a de impedir o Queermuseu: pensava eu que tínhamos saído do século XIX. Agora censuram filmes, peças teatrais e toda forma de livre expressão, em nome da família (qual família?). Muitos censores constituíram mais de uma. Para essas também vale a regra geral.

Mortalha

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Nem borboletas, nem beija-flores, nem abelhas. Só poeira. Caos. Poluição. Cidade de chumbo. Cidade cobre mundo. Caos. Chuvas ácidas. Morte. Não é sorte. Sorte é Morte. Inseticida. Pesticida. Sociedade suicida. Sociedade ensandecida. Morte. Comida? Veneno vertendo morte. Veneno empesteando garrote. Comida? Futuro sem norte. Mulheres com cortes.

Mato aprisionado em vaso. Peixe encarcerado em aquário. Cachorros geneticamente modificados. Animais geneticamente domesticados. Animais substituem menores abandonados. Criança, que se esquece, padece, embrutece, emburrece. Menino assassino. Morre. Menino ferino. Morre. Meninas inexatas. Morre. Meninas baratas. Morre. Meninas estupradas. Morre. Ataca. Matatatatata... Assalta Matatatatata... Menino. Adulto. Bruto. Detento. Excremento. Matatatatata...

Mundo invertido. Mundo carcomido. Comida transgênica. Comida anti-higiênica. Água reciclada. Bebida adulterada. Felicidade engarrafada. Ração enlatada. Lata. Ataca. Mata. Quem somos nós? Somos nós? Tormento? Esquecimento? Animal peçonhento? Com arma na mão. A sociedade lhe diz não, lhe diz cão. Deixa sangue no chão. Sangue contaminado? Fome. Míseros ossos. Fome. Homem destroços. Fome. Matatatatata...

Roda viva. Roda da Viva.

Viramundo. Giramundo.

Conservantes, edulcorantes, antioxidantes, corantes, espessantes, estabilizantes, umectantes, fertilizantes, acidulantes... O que eu como? Geleia de bactérias? Gelatinas deletérias? Partículas de coisa nenhuma? Restos de coisa alguma? Gosto de coisa nenhuma? Vida sem cor. Vida com dor. Refugiados. Terror. Soldados. Horror. Fedor de inseticida. Fedor de pesticida. Sinto-me edulcorado, sinto-me despedaçado. Estou adubado. Estou contaminado. Ser destroçado. Ser massacrado.

Pouca gente para plantar, muita gente para comer; muita gente para respirar; pouca água para beber; muita matéria-prima para transformar; pouco planeta para sobreviver. A terra enterra a terra. A guerra contamina a terra. Enorme população. Mínima educação. Armas cuspindo morte.Armas matando a sorte. Amazônia. Governo. Ama a zona. Desgoverno. Ilha de plástico. Plastifico. Plástico no pacífico. 

Roda viva. Roda da Viva.

Viramundo. Giramundo.

A SINA O boxeador e o vestibulando precisam vencer

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Assim é: Pisou no ringue. Começa a luta.

Assim é: O sangue pulsa. Começa a disputa.

Assim é: Os olhos do oponente dizem: “Vou ganhar”; os seus têm que dizer: “Não vou perder”.

Assim é: Ganhar. Perder. Começa a luta.

Assim é: A vida é um ringue. Grita o apresentador: “Segundos, fora!”.

Na verdade: A luta começa, assim que começa o treinamento.

Na verdade: Todo mundo nasce sozinho, meu amigo. Todo mundo morre sozinho.

Na verdade: “Se você tem medo de perder, já perdeu”.

O seu medo alimenta o seu oponente. Pelo corredor apertado, só passa um: “Segundos, fora”. Dois não ocupam a mesma vaga: “Segundos, fora”.

Você ou ele? A vida é assim, há os que tocam e os que dançam; os que batem e os que apanham. Há os que entendem que a força está na tática, na observação e na adaptação.

Você ou ele? A vida é assim, há os que vivem pedindo desculpas aos outros e os que vivem sabotando a si mesmos; os que fracassam sem intenção; os que fracassam com razão; os que se diminuem frente aos concorrentes; os que se escondem.

Quando você mente para os outros, há um problema: knockdown.

Quando você mente para si mesmo(a), o problema é ainda maior: nocaute.

Você entrou no treinamento com medo de apanhar? Seu adversário sem pena de bater. Ele escolheu o sparring mais forte, aquele de quem poderia apanhar. Você escolheu aquele em que poderia bater. Escolher o caminho mais fácil, quase sempre não é a melhor escolha. Treino é treino; o jogo é jogo. Simulado não é vestibular.

Você gosta de esportes? Vamos trazer a filosofia do esporte para dentro do vestibular. Gosto muito do trabalho de alguns técnicos. Um dos que mais admiro é Bernardinho: ganhou 28 títulos em 16 anos. É o maior vencedor da história dos esportes coletivos. Primeiro, propôs-se a recuperar a autoestima dos jogadores brasileiros. Nossa seleção era baixa para os padrões do vôlei mundial. A velocidade, então, passou a ser nossa arma letal. Os adversários aprenderam, tornaram-se rápidos. A consistência defensiva, então, se tornou nossa arma letal. Os adversários melhoraram suas defesas. A imprevisibilidade, então, se tornou nossa arma letal. Os adversários copiaram as jogadas. Nossa força mental passou a ser o nosso grande diferencial. Nossa seleção estabeleceu a maior hegemonia da história. Bernardinho se reinventou sempre, para vencer.

John Speraw, treinador dos EUA, estudou o Brasil e a segurança que virou “soberba”. O Brasil ganhava, antes de ganhar, então jogou a isca. Ganhávamos dos EUA na fase de classificação, mas perdíamos na decisão. Speraw percebeu que, a única forma de vencer, era criar estratégias mentais. É preciso aprender com o adversário, porém nunca ter medo dele.

“Mudando de pato para ganso”: Vencida a Copa do Mundo Feminina, a capitã Megan Rapinoe afirmou que sua seleção não entrou para jogar a copa, mas para ganhá-la. Disse que poderia soar como arrogância? Sim, mas, segundo ela, não: a seleção é apenas a extensão da cultura do seu país, da mentalidade vencedora implantada desde sempre.

Citei exemplos dos esportes americanos, adeptos dos treinos dos fundamentos e da força mental, mas poderia citar outros projetos vencedores, como os de Pepe Guardiola e Jurgen Klopp. O vestibular é competição. “Segundos, fora”. Muitos jogos são definidos aos 49 minutos do segundo tempo; o vestibular também. Ainda há tempo.

Meu amigo, este é o momento em que você começa a ganhar ou perder sua vaga na universidade. É o momento em que todo mundo reclama de cansaço. É o momento em que reclama de tudo. Alguns se agarram à reclamação, para dizerem que estão ansiosos ou depressivos. Força mental é a resposta: não cultive esse hábito danoso de sofrer por antecipação. Crie suas estratégias. Conscientize-se de seus limites. Controle seus medos. Quem passa, não é o mais inteligente, nem o mais esperto, mas o que melhor se adapta às regras da competição. 

ESCREVER BEM É CONSEQUÊNCIA DE PENSAR BEM

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O maior desafio do escritor é a folha de papel em branco. Como preenchê-la, se ela é o retrato em celulose do nosso pensamento? Ao expressarmos uma opinião, desnudamo-nos por completo. E se as pessoas não gostarem do que escrevemos? E se elas perceberem que não temos lá muita coisa a dizer? E se elas nos acharem mais ignorantes do que na verdade somos? E se elas acabarem por descobrir o que nem nós mesmos sabemos que temos?

Escrever é um ato de coragem, mas também de desprendimento. Uma parte de nós será dada ao leitor sem qualquer pudor, pois as entrelinhas externarão o que, de nós, definitivamente não conseguimos controlar. Deixaremos escapar o que nem sequer sabemos fazer parte das nossas memórias ou nossos princípios. Serão os chamados pressupostos e subentendidos. Quase sempre é essa faceta do texto que mete medo no escritor, mas quase sempre delicia o leitor atento, detetive das relações entre tema, texto e autor.
Escrever pode também ser um ato arrebatador, quando não temos coragem de por arreios no pensamento para que ele possa arrebentar a represa, inundar nossas emoções com palavras, frases, relações de sentido. Nesse momento, a caneta passa a correr atrás das palavras que começam a brotar em cascatas, sem dar conta de chegar ao fim de uma frase, sem já estar com a outra no colo. Euforia, nervosismo, mãos suando, coração batendo forte e, no ponto final, a sensação de saciedade. Texto perigoso feito faca de corte fino ou quebra-cabeça com peças espalhadas. É como riacho caindo nas cavernas obscuras da mente, é lindo, mas nunca se sabe onde vai dar.
Se há imagens e ideias querendo correr pelo pátio, deixe-as rolar pelo chão, sujar as roupas, contaminar-se com a alegria das outras e pararem entre risonhas e assustadas diante do choro das que ralaram os joelhos ou perderam uma parte da pele das mãos. Palavras são seres interessantes, pois se relacionam umas com as outras sem nenhum pudor ou preconceito. Às vezes, parecem crianças indomáveis que usam máscaras diversas, nem sempre de acordo com a música tocada. Primeiro, é melhor dar-lhes pés, para fazê-las sentir de perto a realidade. Depois, o negócio é dar-lhes asas, para que possam voar pela imaginação. Palavras, assim como as crianças, são seres mutantes, imprevisíveis, por isso, muitas vezes, o chicote e a cadeira farão de você um domador. Andará sobre a linha que dividirá o medo da excitação.
Escrever pode trazer profunda angústia, quando o fórceps não dá conta de extrair a criança encruada no útero da imaginação e já nos preocupamos com a cesariana que possa salvá-la. Muitas vezes, uma ideia precisa ser subornada com a inversão de valores, a cultura geral ou as experiências pessoais para passar pelo corretor apertado da criação e nascer, dependendo muito da habilidade do médico. Um adubo feito com cada um desses ingredientes pode fazer com que uma semente se transforme em broto e o broto cultivado frutifique. O segredo é atirar-se no papel desordenadamente, sem medo de ser feliz. Depois das vísceras expostas no papel, a escolha de um ingrediente para dar liga ao texto trará consistência ao resultado final.
Se as imagens e as ideias se recusam a tomar forma, não se entregue ao desespero. O Davi, de Michelangelo, nasceu de um bloco monolítico de mármore. Alguns ingredientes devem se somar para dar-lhes forma: uma dose de paciência, um pouco de disciplina e muito de espontaneidade. Como um bom detetive, é ora de vasculhar a mente em busca de relações, confissões e revelações. Sob a face explícita, a face oculta das palavras esconde muitas facetas como num caleidoscópio. Se uma ideia está em estado latente, coloque-lhe plumas, rabisque em volta dela as lembranças que ela lhe traz, depois empurre-a para frente, em seguida a faça voltar sobre seus próprios passos. Observe as suas reações ao deslocá-la para a direita e para a esquerda (a ambiguidade aqui é proposital). Pense no seu interlocutor e jogue-lhe na cara o fato de que aquela imagem tem vida própria, mas não quer se mostrar. Confesse para quem quiser lê-lo a sua dificuldade em descobrir as suscetibilidades de cada definição.
Escrever uma dissertação no vestibular exige uma conduta um pouco mais complexa, um verdadeiro trabalho de detetive, para descobrir o DNA de cada faculdade, já que elas possuem personalidades próprias e só aceitam quem realmente se adapta ao seu meio. Cada uma delas só desce a ponte que separa o castelo do resto da comunidade, o que lhes confere aquele ar de lugar impenetrável, quando o aluno conhece as fresas da chave mestra e os códigos necessários para abrir as portas. Faculdades são temperamentais, têm identidade própria, conceitos próprios e promovem o mais intenso tipo de darwinismo social de que se tem conhecimento na história moderna, o processo seletivo contido no vestibular. Não há lugar para os fracos e os vacilantes, muito menos os arrogantes e vaidosos. O vestibular só admite os camaleônicos, os que se adaptam a qualquer ambiente e se fazem capazes de desenvolver qualquer tipo de tema. Além disso, não se amedrontam diante de tempos escassos e nem de examinadores com caras de poucos amigos. O texto deve ser simples, direto e objetivo, com toques de emoção, espontaneidade, informação e confissão. A redação de vestibular ainda traz consigo um outro pequeno problema: o manual de instruções. Os investigadores nem ligam para isso, estão acostumados a decifrar códigos.