​DESVIDA NAS ALTURAS​

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Há uma terra, tão terra, tão chão, tão seca chamada Cisjordânia. Sobre ela chovem bombas. Bombas desconhecem seres humanos. Chovem tiros. Tiros estupram o ar. Homens enterram suas vidas para manterem delimitadas suas fronteiras.

Há belíssimas histórias de mártires, que adubaram terras e mais terras com sangue. Há histórias cruéis de corpos crivados de balas. Uma argamassa os juntou. Chama-se ideal.

A história da Cisjordânia se confunde com a dos filhos, que os pais renegam: não pertence de jure a nenhum Estado.  É também a de um povo forte, orgulhoso, guerreiro. Os jornais do ocidente só reconhecem essa terra, tão terra, tão solo, tão raiz, quando metralhadoras gritam, corpos aparecem empilhados nas ruas.

Não há páginas no ocidente dedicadas àarte e ao canto. A Cisjordânia só existe como bala, como tragédia. Então, eu, cultivador e manipulador de palavras, vou correr o risco de contar a história de um amor tão visceral, tão denso, tão guerreiro, que pode cortar como faca.

Rasmi Suwaiti gestou Jihad Al-Suwaiti há trinta anos. Criou-o, como aos guerreiros do seu povo: um homem capaz de dar a vida pelos seus. Não tenho a pretensão de contar a história desses dois seres humanos. Não conseguiria traduzir a força do lirismo trágico que ela encerra.

Rasmi Suwaiti viveu seus setenta e três anos, lutando contra a morte, encarando-a, olhando-a nos olhos. Venceu metralhadoras, prisões, fome, seca, canhões. No Hospital de Hebron, o câncer e o coronavírus a torturavam dia a dia, minuto a minuto, segundo a segundo.

O câncer começou a corroê-la, minando-lhe a resistência. O vírus oportunista atacou. Enquanto câncer a apodrecia, o vírus a sufocava. Certos inimigos cedem um último pedido ao moribundo; outros permite jamais. O câncer, pelo menos, permite a carícia através do toque, da troca de olhares, da fala; o vírus não, expulsa qualquer contato, sentido ou sentimento.

Jihad Al-Suwaiti, protagonista da própria história, subia pelos canos pregados nas paredes do hospital até chegar à janela de onde podia acompanhar a agonia de Rasmi Suwaiti. Precisava responder à interrogação de todos os dias: ela ainda estaria viva ou já estaria morta?

Este escrevinhador para por aqui, senão confinará no papel uma história tão visceral: mãe, câncer, vírus, filho, obstáculo, impotência, morte, amor e resistência. A resistência encerrada naquela magnífica foto de Jihad Al-Suwaiti, sentado na janela do hospital, lá nas alturas, com os olhos fixos na mãe doente, morta em vida. Com sua força, adubará a terra, tanto quanto a sua morte destroçou o coração do filho.

Toda crise traz consigo o umbigo

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A teoria lapidar de Karl Marx: A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa. A partir daí, pense: As pessoas sabem dos profissionais de saúde, de que são seres humanos, de que seres humanos morrem, de que arriscam suas vidas, de que muitos já morreram, de que estão no front contra a covid-19, porém creem que não fazem nada mais do que cumprir a obrigação de morrer por nós. Creem que o aplauso justifica a irresponsabilidade de evitar aglomerações. E os generais? Os generais nunca estão na linha de frente. Nunca se arriscam, a não ser tropeçar no tapete da sala de despachos, com ar condicionado. É o sempre normal.

Emmanuel Macron, incapaz de lidar com as crises políticas, econômicas, sociais e sanitárias de seu país, cunhou a expressão: o novo normal. Como político, sabe muito bem que as sociedades sofrem de Alzheimer. A língua portuguesa é impiedosa com suas ironias: a expressão “viralizou”. Jornalistas, filósofos, sociólogos, crianças repetem essa expressão, como um mantra. A história é também impiedosa em suas constatações. As canetas assinam as rendições sempre que é estabelecido o novo normal.

Em 1914, durante a primeira guerra capitalista mundial, o autor britânico, H.G. Welles, cunhou a frase: "A guerra para acabar com todas as guerras". A frase “viralizou”. O mundo nunca seria mais o mesmo. E não foi. A reboque da guerra veio a gripe espanhola. A humanidade não aprendeu com o novo normal. Apesar da viralização, ódios ficaram represados. Ódio represado é pior que faca amolada. O fanatismo se candidata a ser o pai das tragédias.

A guerra para acabar com todas as guerras promoveu uma quantidade infindável de crises econômicas, políticas, sociais, sanitárias que desembocaram na Segunda Guerra capitalista Mundial (1939 – 1945?). Joseph Goebbels, “sinistro” de propaganda de Hitler, cunhou a frase: Uma mentira contada mil vezes, torna-se uma verdade. A Alemanha criou a fake News. O mundo nunca mais seria o mesmo. E não foi. Os governantes sempre pregaram o novo normal, mas nunca aprende. As disputas trouxeram a reboque a guerra fria, uma infindável coleção de massacres.

Macron, além de incompetente, não chega sequer a ser original. A mais nova expressão do pensamento cínico no meio dessa pandemia é isolamento de rebanho. Temos que dar razão a Zé Ramalho: Vida de gado / povo marcado / povo feliz. O rebanho finalmente vai se render às evidências: é massa de manobra. O novo normal será o isolamento de rebanho. Por mais que a ciência esteja correta, chegam a ser irônicas essas expressões, que desembocarão mais uma vez na velha história do salvador da pátria. A sociedade realmente sofre de Alzheimer.

O Paciente zero não é apenas um filme idiota de ficção, é a experiência com um homem ratinho branco que deu errado. Nunca, depois da segunda guerra mundial, estivemos tão perto da obsessão americana: um mundo recheado de zumbis: o novo normal.

O ladrão zero não é ficção. Sinistro? Desgovernador? Imperfeito? Empresa de fachada? É um claro distúrbio, uma esquizofrenia, desde Caminha. Em troca de esmola, o populacho permite à canalha se locupletar facilmente, porque não sabe o que é estado de calamidade pública. A humanidade é muito mais suscetível à desumanidade à humanidade.

O vírus escancarou o significado de estado de calamidade pública. O governo socorre a população com um benefício de urgência, devolvendo, a contragosto, os impostos pagos por ela. Algum “sinistro” disse: “Vamos chamar de benefício a esmola” e propagar o novo normal. A humanidade não aprende mesmo, os políticos nunca perdem seus empregos, os juízes também não, os diplomatas também não. Você perdeu? Já está começando a pagar a conta, sem perspectiva de recuperação. A crença na mentira faz um bem danado: o sempre normal.

A língua é o pior instrumento de guerra, que existe. Pior que faca amolada. Sinto destruir o seu sonho, desesperado e impaciente leitor. Cabral não descobriu o Brasil. Quem primeiro viu a natureza inebriante de Pindorama foi um anônimo no ponto mais alto da caravela. A descarada Carta de Caminha ao rei descrevia as belezas da terra, autoelogiava-se, para se desculpar do fracasso da expedição: não havia ouro à primeira vista, o que não quer dizer que não houvesse. Os padres poderiam engrupir os índios e encontrar. O escriba terminava pedindo emprego para um parente. Inaugurou o novo normal.

​O perigo da história única

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(Fiz o que pude, mas ficou longo mesmo assim. Desculpem)

Que o Brasil não é para principiantes, Cabral descobriu ao atolar os pés nas areias de Porto Seguro e não achar ouro. Se não estivesse tão comprometido com a Coroa e a Igreja, teria rebatizado aquela enganosa beleza de Porto Inseguro. O venturoso rei D. Manuel precisava vender ilusões. Ricos falidos vieram dar com os costados nessas plagas. Padres vieram catequisar os “índios”. Catequisar significa impingir a “civilização”, ou seja, o modelo europeu incivilizado de vida. Pindorama virou a terra do faz de conta. A propaganda seria o negócio da alma, muito mais importante que a alma do negócio. O Papa bateu o martelo, legitimou a escravidão. Começou, então, o leilão. Pindorama se tornou uma grande fake News.

O bispo Pero Fernandes Sardinha, devidamente degustado, com cebolas e outros acepipes pelos índios caetés, foi o primeiro caso de deglutição, com pompa e circunstância, na Terra de Santa Cruz. Estudiosos de um país pouco afeito aos estudos descobriram que, muito mais que um ritual gastronômico, o banquete era um ritual religioso. Os caetés incorporavam, em homenagem ao degustado, o nome do guerreiro. Aos covardes, não comiam, relegavam-nos à inexistência em vida, às piores humilhações. Como incorporaram o corrupto bispo? A coroa matou as identidades adquiridas por eles a mosquetão. O Brasil definitivamente não é para iniciantes.

A história prova que os poderosos criaram maneiras mais sórdidas de degustação. Degustaram escravos à base de estupros e chibata, temperados com canela, cana e café. Machado de Assis, negro intelectualizado à custa do próprio esforço, foi engolfado pela crítica, que o embranqueceu, como se ele fosse uma espécie de erro histórico. Lima Barreto foi engolido pelos críticos Bruzundangas, porque, além de preto, bêbado, suburbano, não seguia os preceitos da gramática. Como preconizou, teve um triste fim, igual ao do nacionalista destrambelhado Policarpo Quaresma e amargurado como o Escrivão Isaías Caminha. Essa Nega Fulô, do branquelo Jorge de Lima, representa a literatura da negritude latina. O Brasil não é mesmo para principiantes.

Caetés domesticados, só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Mário de Andrade perscrutou essa alma em Macunaíma, herói de nossa gente que, ainda criança, fez coisas de sarapantar. O Brasil, de fato, não é para principiantes. A literatura da negritude saltou das brancas páginas para as mãos do branquelo homossexual, resolvido a escarafunchar o folclore de onde brotam a sensualidade e a sexualidade aos borbotões. Brancos, negros e índios, juntos e misturados, comendo-se, degustando-se. Os homens da moral e dos bons costumes se envergonhando.

Por culpa do vestibular, eu, um branquelo, fui obrigado a estuprar “Ponciá Vicêncio”, que fora estuprada por seu dono branquelo nas páginas da obra de Conceição Evaristo. Resumi a busca pela sua identidade em meia dúzia de linhas. Teria eu a oportunidade de me redimir, ao ser convidado pela Fundação Feira do Livro, para mediar o debate dela com a plateia. No dia do evento, Conceição teve uma isquemia. Tive medo que a memória fugisse. Conceição também teria de buscar sua identidade tateando como Ponciá?

Quem lê este arrazoado (herói anônimo), se perguntará: Aonde esse idiota quer chegar com essa confusão? Explico: O Brasil não é para principiantes. Falta reconhecer O perigo da história única, como apregoa a preta nigeriana Chimamanda Adichie, que caiu na armadilha de enxergar os mexicanos através dos olhos dos americanos, assim como a americana colega de quarto a via. Cria que a África era um país, e miserável. O professor branquelo crítico americano tentou degluti-la, ao afirmar que seu romance não era verdadeiramente africano, porque não falava nem da fome, nem da miséria africanas. Ela lhe virou as costas.

O Brasil, Porto Inseguro, nunca foi para principiantes. Como Macunaíma, faz coisas de sarapantar, uma delas é comprar “a história única”, inadvertido do perigo que advém da compra. Ou embranquece um negro ou o relega ao esquecimento, se não o estuprar ou chicotear antes. Eu, um branquelo, professor, estuprei uma negra sabendo o que fazia. A isquemia de Conceição me fez perceber algo seríssimo: Pedir desculpas não adianta, o mal está feito. Meu resumo existe como prova cabal. Cabral sabia o que estava fazendo, a Coroa e a Igreja também. Sabem porque o Brasil não é uma terra para principiantes? Porque ele próprio não encontrou sua identidade. O Brasil é uma espécie de Ponciá.

​Ler para que, se você pode se esconder?

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Houve um tempo em que o governo, para se mostrar preocupado com a crescente ignorância da juventude, inseriu a prova de redação nas provas dos vestibulares e fez uma campanha bombástica para estimular a leitura. A tática de “dominar um povo burro chegou ao limite”. Para conseguir tal milagre, criou um órgão pomposo, a “Câmara do Livro”. Nele instalou “burocratas”, “sabujos”, “apaniguados” nem imaginação. Aquele, que se acreditou o iluminado, pariu um slogan sugestivo: “Quem lê, viaja!”.

Viciados em drogas começaram a mergulhar nas páginas dos livros na esperança de alçar altos voos. Não conseguindo, rasgaram as páginas, enrolaram-nas para fumá-las. Vendo a inutilidade do feito, pararam para contemplar as letras, depois as palavras, os parágrafos, as páginas, os personagens. A partir daí, afogaram-se em histórias. Às vezes riam, às vezes choravam; ora olhos impregnados de horizontes; ora, afundados no chão. Ora perscrutavam os olhos de pessoas; ora, mergulhavam no seu íntimo.

Pais, entre preocupados e desesperados, começaram a monitorar os filhos na ânsia de saber aonde iria dar a tal viagem. Eles próprios tentaram experimentar. Cheiraram as páginas, mas só encontraram odor de papel com tinta. Não entendiam como uma capa com um miolo causava tanta euforia, desejo, medo... Então decidiram se aventurar pelas primeiras linhas, todavia pararam no primeiro parágrafo. Largaram. A droga não os drogava. Não como um lança-perfume. Não como a sonolência da maconha ou a avidez da cocaína.

Um problema, nascido dessa campanha, se tornou crônico: crianças não desgrudaram mais dos livros, andavam com eles debaixo do braço ou dentro das mochilas. Contavam histórias fantásticas em que viajavam para planetas nem pais nem professores imaginavam onde ficavam. Pior, começaram a construir mundos para si, livres das amarras de um sistema educacional que pretendia deseducá-las: professores e coordenados que tentavam moldá-las.

Os jovens pareciam loucos, choravam porque se identificavam com lugares já há muito esquecidos e pessoas estranhas, com as quais jamais tinham convivido, os tais personagens. Pior, contavam mentiras descaradas, absurdas, impossível de serem concretizadas. Chamavam a isso enredo. Desesperaram-se os dadores de aulas, pregadores de emoções baratas e lineares, que não conseguiam consolá-los, usando suas fórmulas amarrotadas.

Era comum ver pessoas nos parques, nas filas, nos consultórios, no metrô e, até mesmo nos banheiros, lendo. Era ainda mais comum ver aquele olhar perdido a sonhar com o destino de outras pessoas que as influenciavam. Leitores de todas as idades começaram a se embrenhar, contaminados pela doença das linhas e entrelinhas. Traziam consigo aquele olhar sôfrego de quem se revira em busca de um não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como, e dói, não sei por que. Muitos mergulhavam nos significantes das palavras, para se travestirem com seus significados, como se se carnavalizassem. As cidades passaram a criar feiras, nas quais, ao invés de frutas e legumes, as barracas vendiam passagens para a imaginação, a alegria, o sofrimento, os desejos dos mais superficiais aos mais ocultos. O impossível se tornou possível; possível, impossível.

Crianças, jovens, adultos, velhos que se embrenhavam pelo intrincado mundo da literatura político-social, tornaram-se incrivelmente críticos. Críticos ferinos, intragáveis na sua sanha de justiça. Passaram a usar expressões ofensivas contra os poderosos, como: “Justiça social”, “Abaixo a censura” e coisas tais. Os que se dedicavam aos romances começaram a expor seus sentimentos com tal falta de pudor, que incomodaram os carolas e os violentos, dando-lhes motivos para essas mentes obtusas agredi-los fisicamente em quaisquer lugares, pois não conseguiam agredir suas convicções. Vários deles se dedicaram ao suspense e à ficção científica. Os civis passaram a usar suas habilidades dedutivas para resolver intrincados crimes, que a polícia não resolvia com suas armas. Os idiotas da objetividade acreditavam no seu poder de decidir destinos, não suportavam ser confrontados por personagens egressos da história, agora desvestidos pela literatura.

Os que se criam detentores de algum poder, vomitadores de regras, normas, leis, disseminadores do medo, começaram a se preocupar com o seu próprio futuro. Espalharam, sem nenhuma vergonha, o boato de que a leitura tornava as pessoas frouxas, sensíveis em demasia, desconectadas da realidade objetiva. Tecnocratas transformaram o boato na teoria do comportamento. Várias reportagens tomaram conta do horário pobre. Era preciso mudar esse estado de coisas. Urdiram, então, um plano demolidor. A primeira medida: aumentar o preço dos livros. A segunda: colocar capas monumentais com couro bordado com fios de ouro em obras ocas. Arrancaram as páginas, estupraram obras, para que pudessem servir como objetos decorativos. A terceira: contratar pseudoescritores para reescrever obras de grandes autores dando a elas roupagens simplórias. Dos dedos frouxos e imaginações capengas, brotaram histórias rasas de autoajuda, com o intuito de embotar, fazer uma lobotomia nos viciados. A quarta: transformar livrarias em papelarias, cafeterias, sorveterias, brinquedotecas tirando delas a sua essência. A quinta: encarcerar os críticos, arrancar sangue das suas frontes para que reneguem seus ideais e se tornem cidadãos papel higiênico.

Os "burrocratas", subornados, submissos, sabujos fizeram pior, espalharam que ser escritor era ter uma espécie de doença da alma, um sério desvio de caráter. Todo escritor é um mentiroso compulsivo. Pior, afirmaram, de pés juntos que, quem lê, se torna chato, intragável, porque se torna crítico demais e ser crítico, é muito ruim, afasta os amigos.

Os comedores de dicionários, já deformados pela superficialidade, prolixos, puramente gramatiqueiros, ditadores da palavra, cultuadores das denotações olhavam desconfiados os aficionados pela subjetividade, os idealismos, os amantes das revoluções internas, das conotações sem entender o real motivo de uma pessoa passar a vida sendo governada, sem o desejo inerente aos humanos de governar. Não entendiam também, como leitores encontravam o equilíbrio entre a ficção e as evidências, tornavam o histórico, atual; o atual, histórico; o histórico e o atual, atemporais.

Os magnatas, comerciantes de palavras, organizaram grupos de mercadores de consciências, de acordo com a sua conveniência, para falarem o óbvio para os óbvios, tolices para os tolos, para os inseguros, os medrosos, os impotentes, os desiludidos, os iludidos, os tímidos, os inseguros. Conclamaram aproveitadores das desgraças alheias: executivos, psicólogos, técnicos de esportes, os que criam ter encontrado o milagre para atrair o dinheiro fácil, os que criaram modelos de qualidade de vida para parirem livros apelativos: “Como emagrecer em sete dias”. “Como deixar de ser tímido”. Batizaram o amontoado de palavras de “literatura” de autoajuda. No entanto, não só faltava a literatura como também a ajuda. Como o apelo comercial é enorme, as pessoas sempre estão doentes da razão, o grande negócio do negócio é fazer chorar. Para começar o ridículo périplo de páginas, cunharam coisas assim: "Toda caminhada começa com o primeiro passo". Então, tolos viram sabedoria na ignorância.

De fantasias heréticas a lendas urbanas, de ilusões românticas a pesadelos realistas, a literatura foi perdendo gradativamente o contato com a palavra. Com o tempo, o óbito de personagens, enredos, tramas, fantasias foi inevitável. Morreram os leitores de livros, nasceram os internautas. Esses se entregaram ao Instagram, ao Facebook, como às balinhas de ecstasy. O Google passou a ser a casa, a consciência, seu mundo. No auge da excitação, os argonautas do ciberespaço inventaram até um novo idioma, sem as palavras. Comunicavam-se por gestos, grunhidos, carinhas, bichinhos, que substituíram momentos de amor, desespero, raiva, pudor, humor por frases desconectadas de textos ínfimos, sem enredo. As redes sociais pescaram a criatividade.

Houve um tempo em que as pessoas entendiam melhor o mundo, porque entendiam melhor as palavras. Sabiam que tudo que está dentro ou fora de cada um, na imaginação ou na razão, é traduzido por palavras. Ler é adquirir vocabulário, portanto entender melhor as coisas e poder falar melhor com elas e sobre elas. Talvez seja por isso que as guerras são cada vez mais frequentes. O discurso faliu. A diplomacia morreu As pessoas se tornam cada vez mais agressivas, não conseguem expressar mais suas emoções, se é que ainda as têm. Será que ainda têm capacidade de se indignar? O mundo de hoje está muito sem graça. A arte de transmutar o mundo em palavras, letras e significantes e significados faliu. A criação parece um deserto. Virou "cover" e “releitura”. A originalidade agoniza. Caminhamos massificados em um deserto criativo: uberização; macdonaldização. 

O ENEM NUNCA CUMPRIU A PROMESSA

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Em artigo anterior, propus uma carta aberta ao senhor Ministro da Educação ou falta de educação, Abraham Weintraub, que adiasse a prova do ENEM. Nesse mesmo dia, em entrevista, ao vivo, na CNN, ofendeu a jornalista Monalisa Perrone. Para quem já ofendeu a China, segunda maior potência do mundo, nossa maior parceira comercial, destratar uma jornalista competente é fichinha. Ainda bem que a CNN saiu em defesa dela.
Weintraub, desde que se aboletou na cadeira de Ministro, mostrou total despreparo. Desmontou o INEP. Escreveu absurdos, deu mostras de racismo, misoginia, censura, falta de conhecimento da pasta que comanda e do país em que vive, posou de censor e se tornou um dos maiores fabricantes de "pérolas" da sabedoria de boteco, cada vez que abre a boca. A última sobre o ENEM: "Não é para atender injustiças sociais, é para selecionar os melhores".
Suportou humilhações públicas: O presidente disse textualmente, em frente às câmeras de tevê, que ele é a vítima preferida dos seus "esporros" diários.
Na primeira aula, brinco sério com meus alunos: "Só uma coisa eu sei neste ano, o ENEM vai dar errado neste ano". Um olha para o outro, o outro olha para o um, que cria coragem e pergunta: "Como é que o senhor sabe?". Fácil:Nunca deu certo. Entre a proposta e a execução há buracos enormes. Entre a promessa e a concretização, há buracos maiores ainda. Olhe o questionário socioeconômico.
É óbvio que o ENEM DIGITAL não tem como dar certo. Escolas públicas estão mais do que sucateadas. óbvio que a prova deveria ser adiada devido à pandemia. Ontem afirmou nervoso: "Vai haver ENEM". Hoje passou por cima do seu cadáver ambulante, foi obrigado a recuar para que o governo não sofresse uma derrota acachapante na câmara dos deputados. Parodiando Chico Buarque, a quem o ministro odeia, "a pandemia passou pela janela, só Abraham não viu". E o vírus não tem data para ir embora. Se for.
Para piorar, o exame nacional do ensino médio foi adiado entre 30 e 60 dias. É o foguete brasileiro Saci Pererê, segundo Chico Anísio: Pode cair no Oceano Atlântico, entre o Brasil e a África, se não chover. Prepare-se, pule sete ondinhas, faça pedidos mirabolantes, porque o ENEM pode acontecer apenas em janeiro, se não chover. Cuidado para não perder o rumo: o Abraham pode recuar, esse é um governo gangorra.


Carta aberta ao Ministro de Educação​

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Sr. Abraham Weintraub:

Apesar de todas as críticas que faço ao ENEM, que, na minha opinião, é um dos sistemas mais desiguais de ingresso às universidades públicas do país, venho solicitar: "Adie a data da prova". Não faz sentido mantê-la, por questões óbvias.
Seja inteligente, apesar de viver em um mundo paralelo. Pense. Pandemias não têm data e hora marcada para serem controladas. Vírus não podem ser ofendidos em fake news, nem espancados em manifestações.
Mesmo que o vírus seja controlado, não será possível preparar "os alunos de escola pública", em um tempo minimamente razoável, para disputar uma vaga com os de escolas particulares.
Observe: vários alunos de escolas públicas, contrariando a lógica, conseguiram ser aprovados. São exceções tão absurdas que os jornais correm para entrevistá-los. Acabam servindo de exemplo para estimular uma massa considerável de estudantes, que pretende desistir de estudar, afinal não vê sentido em entregar uma parte de sua vida a algo que não lhe servirá para absolutamente nada.
Sei que o senhor não conhece o Brasil, apesar de viver nele, mas "pense", se possível: A desigualdade digital no país é perversa. Uma das mais perversas do mundo. A internet do sul e sudeste é absurdamente mais veloz do que a do norte e nordeste. Muitos municípios sequer têm acesso a ela, nem a computadores. Usar um celular, mesmo no sul maravilha, para fazer inscrição em um sistema sobrecarregado, que cai a cada momento, não é fácil. Para conseguir a inscrição, é preciso passar o dia inteiro tentando.
Quando o aluno precisa pedir isenção, na hora H, curiosamente, o sistema cai. Parece brincadeira, mas convenhamos, é uma brincadeira nefasta.
Adiar a prova significa reorganizar um calendário: Será que o MEC não sabe sequer como fazer isso pelo menos?
O aluno brasileiro, mesmo o de escola particular, não tem disciplina para estudar online. Os professores não também foram capacitados para isso. A escola está sobrecarregada.
Há um surto de desespero, ansiedade e depressão tannto de pais quanto de alunos, que não sabem o que fazer. Pessoas apostam tudo nessa prova e, hoje, vivem de incertezas. O vírus escancarou a incompetência.

Atenciosamente

(Luiz Cláudio Jubilato - coordenador geral do curso Criar Redação, com 40 anos de experiência em vestibulares)

​HIPER-REALIDADE

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Cena: Homem bem vestido. Terno. Semblante sério. Voz empostada, mas não agressiva de vendedor de seguros: Não queríamos falar sobre isso neste momento de incertezas, mas, se você é um profissional de saúde, faça o seu seguro de vida agora. Você terá 50% de desconto e não haverá carência. Nossa seguradora foi a primeira a pensar na sua saúde e no seu futuro.

Máxima capitalista: Enquanto uns choram, alguns vendem lenço. É a morte literal do sermos humanos. O dr. Duncan MacDougall calculou, sem certeza, que, logo após a morte, todos perdem 21 gramas. Segundo ele, seria a perda da alma. O cálculo variou. Seres inumanos ganham muito à custa da desgraça alheia, esses não têm alma. Burlaram o cálculo.

“Nunca faça surpresas, porque, ao invés de surpreender, você pode ser surpreendido”. “Esse ditado popular é mais velho que o rascunho da Bíblia”. Ridículo: usei o pleonasmo depois do pleonasmo. Nossa vida virou uma sucessão de pleonasmos. É uma catacrese.

Não fomos surpreendidos, estamos, há muito, escrevendo nossa distopia, como se estivéssemos sentados frente a uma cartomante: Acredito (fui lá), mas não acredito (o futuro é feio, mas pode ser lindo). Pior, sabemos que o vírus clone virá e sem data marcada, mas virá, matará mais com requinte de crueldade. Dizem que este é um momento único na história. Mentira. Todas as gerações que passaram por isso creram que foi uma praga envida por Deus ou lemos, com clareza, as previsões de Nostradamus. Mentira. Somos maus alunos.

O boletim do mau aluno: Gripe Russa (H2N2 – 1889-1890) 1,5 milhão de mortos no Usbequistão, África, América, Europa, Ásia e Brasil. Gripe espanhola (H1N1 – 1918-1919) 100 milhões de mortos África, América, Europa, Ásia e Brasil. Gripe asiática (H2N2 – 1957-1958) 2 milhões de mortos China, Ásia, Oceania, África, Europa e Estados Unidos, Brasil. Gripe de Hong Kong (H3N2 – 1968-1969) 3 milhões de mortos Hong Kong e EUA.Gripe suína (H1N1 – 2009-2010) 17 mil. México. Gripe aviária (H5N1 – 1997 e 2004) 300 de mortos Sudeste Asiático, Europa e África. Surto de ebola (2013-2016) 11.323 mortos África, Ásia, Europa, EUA. Pandemia de covid-19 (?) todos os continentes.

Recriamos a realidade no cinema e na fotografia, agora nas redes sociais e antissociais: o hiper-realismo. Pessoas trancafiadas por vontade. Assustador, a doença andou na contramão, os ricos a pegaram primeiro e, agora, muitos estão à deriva em navios luxuosos, caixões flutuantes. Não há nenhum porto seguro. Nesta distopia, os ricos foram dizimados primeiro.

Montes de mortos extraídos do chão por empilhadeiras, antes de virarem adubos, de mortos depositados em caminhões frigoríficos, antes de empestearem o ar. Os sistemas de saúde, em colapso, condenam os velhos à guilhotina e os médicos ao dilema de deus em pânico. Salvem o futuro até 40 anos; enterrem o passado de 70 anos para cima.

Vivemos a hiper-realidade, uma espécie de imitação destrambelhada da noite de São Bartolmeu, em que os mortos eram transportados em carroças e depois queimados em covas coletivas. Vivemos um maluco holocausto, porque bala escolhe inimigos; vírus não.

Os donos do capital? O capital é a alma do negócio. Nossa história é mesmo uma sucessão infindável de pleonasmos: Trump paga mais caro por produtos chineses para combater o vírus. Pratica pirataria à luz do dia. O Brasil, aliado(?), ficou literalmente a ver navios. Trump chegou atrasado ao baile, mas tem cacife para comprar o clube; ao Brasil, cabe o nefasto papel de parede. O primeiro mundo escolhe quais povos do terceiro mundo vivem, quais morrem. Trump: American First. Brasil: “Ame-o ou deixe-o”. À elite, interna-se; aos pobres, enterra-se.

“O mineiro só é solidário no câncer”: frase que Nelson Rodrigues enfiou na boca do Otto Lara Resende. O brasileiro é solidário no desastre. Os espertalhões são solidários no roubo. O governo decretou estado de calamidade pública: já não estávamos antes? As “otoridades” só legalizaram a festa para a qual você não foi convidado. Estado de calamidade pública permite ao governante gastar sem licitar. Tudo passa a ser urgente. O governo não socorreu ninguém. Você não ganhou nada. Sua dívida está sendo “rolada”. Os boletos estão no fim do túnel. Que túnel?

Você corre o risco de perder o seu emprego; os políticos não.

Melhor comprar um seguro de vida, com o moço de eterno vendedor.

​Dos Smarthphones às plataformas de ensino

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Em outros artigos sobre educação, confessei minha aversão pelas palavras “oficina” e “plataforma”. Porcas, parafusos e roldanas, em formato de cérebro, me parecem não ter nada a ver com educação, e sim com mecanização, afinal educar não significa “consertar” e sim “concertar”. “Plataforma” me passa a sensação de prisão. Educação exige muito mais que fincar os pés no chão, propõe “alçar voo”, “mergulho”, “descobertas”.

Há também duas frases às quais tenho aversão. A primeira é “no meu tempo era melhor”. Quem se propõe a falar isso, apropria-se da história. A história, na verdade, não é de ninguém. Usá-la para embotar o jovem, como se ele tivesse cometido o crime de lesa-velhice, aí sim é crime. Vida é mutação, nunca estagnação. A segunda é “precisamos dar limite a essa criança”. Penso que a crise de criatividade, no mundo moderno, talvez se deva a isso, “impor” limites, embotar a criatividade da criança, torná-la a imagem e semelhança dos pais.
Como diria o grande filósofo Mussum: “É aí que está o busílis”. Há pouco participei de um debate com pais e educadores sobre “O uso do smarthphone em sala de aula”. Sempre fui favorável ao uso. O que me assustou foi a frase repetida por vários: “No nosso tempo era melhor”, a gente lia mais, prestava mais atenção às aulas, respeitava mais os professores. Mentira. Observem o mundo que legamos aos nossos filhos.
“Precisamos dar limites aos filhos, muitos pais deixam eles (sic) pra lá”. Eles terão a vida inteira para serem tolhidos. Ao invés de “limites”, não seria melhor criarmos estratégias para descobrir talentos. O uso do smarthphone nos tornará intrépidos educadores? Claro que não. Mas, ele já sinaliza duas questões: 1) Quais estratégias as escolas desenvolveram para usá-lo a seu favor? 2) Por que insistimos em uma escola punitiva e não proativa, que nunca levou nem ela, nem o aluno a lugar nenhum? Só a estudar para passar e não para saber.
As escolas estão a reboque da revolução tecnológica. A resistência a mudanças as torna “chatas”: 1) O celular se tornou a extensão do corpo e do cérebro. Os debatedores consultavam seus celulares a todo o momento 2) A única forma de comandar uma revolução é penetrar no mundo do revolucionário. Quem proíbe gosta de ser engando. 3) A escola, tal como a conhecemos hoje, está extinta, somente as paredes continuam de pé. 4) O professor, dono e senhor do conhecimento, tem que repensar sua conduta. A bordo de um dedo, qualquer aluno checa facilmente quaisquer informações. 5) A escola “impositiva”, sustentada pelas paredes da sala de aula, “enenzada”, “conteudista”, “punitiva” está fadada a morrer.
Professores, que só têm como recursos os slides, o powerpoint, a câmera de celular têm a falsa ilusão de que mergulharam no mundo da tecnologia. Ilusão? Sim. A linguagem virtual tem outra dinâmica: simplificada, móvel, colorida, interativa. Sentar um jovem em frente a uma tela de computador, durante 1h, “assistindo” a uma aula, chega a ser bisonho, basta observar a linguagem dinâmica do Facebook e do Instagram. São grandes os desafios: Como usar a tecnologia a favor da escola de forma interativa, o aluno não pode apenas ser um assistente do que a escola crê que deve ensinar? Como estabelecer uma relação que não envolva o mero adestramento via “plataforma”, tal como ela é usada hoje?
A pandemia do corona vírus fez com que essas discussões ganhassem contornos ainda mais fortes. No debate, todos queriam trocar impressões sobre como será a escola pós-pandemia. Eu não. Queria propor impressões sobre a escola de hoje, obrigada a pegar carona na calda do vírus, mais preocupada em dar uma rápida satisfação às famílias. Simplesmente transferiram a escola presencial para plataformas de videoconferência. Essas “plataformas” colocam o aluno, de novo, na condição de ser passivo. Diante de todos esses fatores, o professor quer que o aluno fale, participe, opine. Por isso, a redação é um bicho papão.
A escola foi pega com as calças nas mãos por um vírus. Inimaginável? Sim. Foi um ser microscópico que pôs a escola contra a parede. Mostrou o despreparo de educadores e escolas para lidar com uma situação inusitada. A sorte dela é que o aluno “enenzado”, acossado, “cheio de limites” só se preocupa com quantidade de horas/aula. Os professores do ensino fundamental estão à beira de um colapso, tiveram que criar estratégias de “ensino” na marra. Mas, mantiveram o mesmo sistema estressante de horas/aula sem levar em conta que entupir o aluno de atividades só geraria mais estresse.
Alguns problemas precisam ser ponderados: 1) A grande maioria dos professores não foi capacitada para usar ferramentas virtuais, apenas reprisam aulas presenciais. 2) Alguns professores são “analfabetos digitais” e não querem sair da sua zona de conforto. 3) A escola perdeu o bonde da história. A história do smarthphone, que contei acima, joga luzes sobre o hoje. “Não quero que meu filho use o celular na sala de aula, mas uso o meu nas reuniões”. Meu filho fica o tempo todo no celular.
A pandemia fez com que os pais finalmente aprendessem a diferença entre educação e ensino, filho e aluno. O confinamento desafiou pais a criarem estratégias para manterem crianças atarefadas, professores a se desdobrarem para chegar até elas. A escola do presente precisa olhar para o umbigo agora, para não se perder, querendo, “a toque de caixa”, fazer o que nunca fez. Agora é hora de dialogar, construir uma escola sem paredes.
Hoje, em uma propaganda, vi uma faculdade chamar pessoas para se matricularem, porque dá aulas com o mesmo número de horas de uma universidade presencial. Passei para outro canal.

PALAVRA COME HOMEM

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O presidente diz o óbvio. O ministro desdiz o óbvio. O assessor prediz o óbvio. O presidente diz que não disse o que todo mundo diz que ele disse. O ministro desdisse o que disse sobre o que o presidente disse. O assessor prediz o que o jornalista dirá sobre o que o presidente disse e o que ele diz que o presidente não disse. O presidente, o ministro, o assessor se apressaram a acusar a imprensa que imprensa de manipular o que o presidente diz que não disse.

O analista diz que o presidente manipula o ministro, que manipula o assessor, que não manipula o jornalista, que manipula o leitor. O presidente é imprensado pela imprensa, impressionada com o ódio destilado contra ela pelos correligionários dele. Os correligionários do presidente precisam da imprensa para propagar o seu ódio contra a imprensa. O presidente aponta o seu dedo acusatório. A imprensa disseca o acusador. Ironiza o seu dedo, que acusa a acusação.

O presidente berra que não tolerará a esquerda, que berra que não tolerará a direita, mas ambos entram na contramão. Os inimigos de hoje serão os aliados de amanhã: foi assim, é assim e assim será. Os da situação querem criar a lei para calar a oposição. Os da oposição querem criar a lei para calar a situação. E quem não é de esquerda, nem é de direita? Cala a boca? O equilíbrio não se sustenta, sustenta o desequilíbrio. Os espertalhões inventaram a centro direita, a centro esquerda e o centrão, uma espécie de virado a paulista: restolho de tudo o que há.

Direita volver!!! Esquerda volver!!! O maniqueísmo continua a assombrar o mundo. Mata sorrateiro mais que revolução. E a revolução que montava grupelhos do lado direito e do lado esquerdo da tribuna, que acabou em 1789, ainda nos assombra; a guilhotina também.

O ódio é fé cega, é faca amolada. Viraliza-se nas redes sociais virtuais e reais.A palavra manipulada pelo ódio mata mais que faca amolada. Uma mentira, dita mil vezes, não se torna verdade. Na verdade, atesta sim a burrice de quem não se embasa para desmenti-la. Se o fato é mais real, que qualquer realidade, imprima-se o fato. Mas, o que é mentira? O que é real? O que é fato?

Um post postado por um presidente vira fato, logo, em seguida, o suposto autor do suposto fato o retira, acusado de mentir. Mas, a mentira já se espalhou como fato. Imprima-se o fato? Vem uma enxurrada de comentários da direita e da esquerda comentando o comentário. Mas, e o fato de postar que virou também o fato de mentir? O assessor afirma que não foi o presidente que postou o post. O jornalista investiga para saber se a mentira é verdade.

Destruir a honra de alguém é muito mais fácil que construí-la, por isso os governantes governam agora via redes sociais. Sempre é: “Não fui eu”. “Forças ocultas querem me derrubar”. “Querem me derrubar”. A claque contratada aplaude a luta contra o sujeito indeterminado e apieda-se do vitimizado. É mais fácil construir uma verdade, que é mentira ou mentir sobre a verdade, que é verdade. O impacto viraliza, independentemente de ser verdade ou mentira: Primeiro, ambas são relativas; segundo, ambas sempre interessam a alguém.

Você já se perguntou a quem? Meias-palavras; meias-verdades, desinformação, subterfúgios: letalidade. Palavra mal intencionada é ovo da serpente. Você não entendeu nada? Informe-se. Cuidado: você está sendo enganado. E lapidado. E usado. E não é vítima. É responsável.

​HOJE É O DIA DO JORNALISTA

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Nunca a imprensa teve um papel tão significativo, tão importante quanto o dos dias de hoje. Jornalistas "sem fronteiras" literalmente.

Apesar de receber ataques verbais constantes, agressões de várias físicas, os jornalistas continuam a informar, a debater, a contribuir, a criticar. Uma grande quantidade morre nos "front".
Há os maus jornalistas? Claro. Os salários são ridículos? Claro.
Apesar de tudo, meus cumprimentos, principalmente aos amigos que fui construindo ao longo da minha história.