​Lantejoulas

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Quando você me dá a caixinha cheia de vidrilhos, uma agulha mais comprida, a linha quase grossa, e me ensina a encadeá-los, com um nó justo depois de cada conta, eu ainda custo a perceber que você me coloca sob um céu azul, junto com a lua cheia e uma estrela dourada, no desenho do seu sonho. Mas mesmo sem conhecer gestos e intenções eu estou decidido a aprender os movimentos que você se propôs a me ensinar. Quando você puxa o crepe georgete salmão e com uma tesoura afiada esgarça os fios, criando um corte simétrico que dimensiona bem o tamanho do nosso viver, eu apanho o rolo de babado e começo a fixar nele as miçangas e as lantejoulas com o cuidado de um artesão iniciante que se esmera para ver o seu esforço admirado. Eu olho nos seus olhos quando suas mãos pegam nas minhas para fazer os pontos com linhas suaves trespassar o pano incerto do destino. Dou a juntar paetês e a fazer apliques, admirando a parte como se fosse o inteiro, assim como os fragmentos se mostram para tentar explicar a clandestinidade. Nas muitas e muitas noites acordado na construção dos sonhos, quando o cansaço me chega deito minha cabeça no seu colo, apoio meus cotovelos nas suas pernas e sou seu cúmplice na construção de algumas fantasias. Então, olho com ternura o traje da esperança que brilha com a luz do luar, que não por acaso é testemunha da primeira prova. Ele combina bem com a faixa da saudade, que aperta mais do que o cinto da distância. Gosto também do vestido de coragem, feito de shantung amarelo palha, cortado no risco da determinação, para ser usado quando os laços cruzados despertam a emoção. Mas quase me perco com sorrisos, que de tão intensos provocam lágrimas, quando você veste o vestido da alegria, feito de seda, forte como o brilho do dia, intenso como o azul do céu, firme como o chuleio de ponto duplo. Ele te transforma em encanto, que só se desfaz no fim da madrugada, quando o dia inicia a volta. Ainda como a sonhar, você se esquece do jeans e faz das fantasias os trajes da vida.

​Quase inconsequência

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Deitados abraçados nos degraus da escada do jardim, na madrugada que ainda tenta segurar o verão no fim de março, só as estrelas iluminam nossos sonhos. As nuvens caminham lentamente, como que brincando de mostrar e esconder a inspiração. Mas quando a luz do luar transpassa as barreiras e ilumina o seu rosto, na sua expressão eu vejo nascer o amor. Quando você sorri sem nenhum pudor eu vejo nascer a paixão. Meus olhos parecem marinheiros no convés do teu carinho. Meus beijos parecem jardineiros aparando medos nos cantos dos seus lábios. Meus dedos parecem carcereiros prendendo desejo dentro do seu corpo. Pela luz que vem das frestas, eu te vejo como que nua e o que eu mais quero é me perder nas dobras do seu corpo. Você me pede para te ensinar quando na verdade sou eu quem aprendo tanto. O seu sussurrar tênue tem a força das divindades que despertam fantasias. Minhas mãos deslizam por seu rosto e assumem a medida do seu corpo, te enfeitando com os arrepios que nascem nos gestos de carinho e sedução. Na sua boca os meus lábios sentem o gosto de rosas vermelhas e o seu sorriso transforma a insegurança em calor de estrelas. Quero-te sem precisar querer e te faço amiga amante, transformada em segredo, desafio que brinca com o perigo. Com seu jeito corajoso de quase inconseqüência, você me ensina a brincar com o medo, a rir do meu temor de falhar. Com o seu sentimento que me inflama, você me ensina a amar. Com sua presença, você me ensina os ritos da paixão. Com seus passos você me ensina a caminhar, com sua obsessão pelo caminho você me ensina a cansar. Com o seu abraço você me ensina a descansar. Com o seu trajeto, você me ensina o horizonte. Na encruzilhada você me aponta a direção. Com sua ida você me ensina o fim do mundo, com a sua volta você me ensina o fim da saudade. Com a sua falta você me ensina a magia do querer. Só falta você me ensinar a deixar no passado o que eu nunca serei no futuro.

Sorriso de amor

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Eu sorrio um sorriso de amor quando você escancara as trancas da vida e chega com seu sorriso contagiante, fazendo ainda mais jovem o meu coração que nunca teve idade. E continuo a sorrir quando você coloca na minha boca o gosto doce da vida, como a sobremesa do almoço de domingo, feita na aflição de um desejo e saboreada na cumplicidade de um amor que não precisa de palavras para existir. Só de gestos. Intensos, desordenados, como a brisa da noite a brincar com a chama que arde dentro de nós. Cumplicidade que vive sem planejamento, mas não abre mão dos sonhos para fazer de cada dia uma eternidade. Que mistura noite e dia, esconde segredos, cria mistérios e sussurra melodias como trilha sonora de prazeres caprichosos, esperando a explosão interna que dói sem dor e confunde os sentidos para fortalecer seus laços. Quando vejo você com seu sorriso vindo na minha direção, com flores numa mão e mistérios na outra, não sei se corro a favor ou contra o tempo, não sei se sou jovem ou criança, se estou feliz ou perdi o juízo. Nem paro para pensar sobre o significado da vida. Só me preocupo com as conversas quase silenciosas fazendo planos. Sonhando viagens para os lugares exóticos, imaginando castelos, praias desertas, riachos cristalinos, gargalhadas como companhia e girassóis para admirar essa falta de compromisso que anda de mãos dadas. Só tenho olhos para os seus olhos e atenção para os gestos. Um olhar que vê, mas nem sempre entende. Caminho sem sair do lugar, marcando o compasso do desejo. Então me deparo com a mansa loucura de fazer algo novo a cada novo encontro. Uso minhas mãos como uma vara mágica, crio o vazio e o preencho com a chama de um amor que não enxerga limites, não conhece tamanhos, não caminha com o tempo. Que se equilibra sobre um alicerce que espera para ser construído. Que faz os seus momentos, balbucia suas próprias palavras, cria seus próprios sons, compõe suas próprias melodias. Que ninguém vai entender e nem poder cantar.