A mão de Deus entre os trovões

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Era madrugada, dia 20 de abril de 2015, umas 4h30. Lá fora caia uma torrencial chuva.

Estava ancorado em uma pequena e muito charmosa baia da ilha de Culebra, território de Porto Rico.

Acordei com os fortes estrondos dos trovões e percebi que a chuva que começara ao cair da noite ainda se fazia presente, agora ainda com muito mais vigor. Fui ao banheiro e resolvi dar uma olhada lá fora.

Para meu total espanto e início de desespero vi, vindo na direção do Aleluiah, um veleiro que havia desgarrado da sua ancora. A bordo dele estava um casal de idosos que, atordoados pelo sono e a situação de extremo perigo, não sabiam o que fazer e andavam como baratas na hora que se acende a luz da cozinha pelo convés... Debaixo daquela água toda que caia.

Nesse mesmo segundo vi que o Lucas, um dos tripulantes a bordo na época, que dormia na sala, também acordou e eu falei: tem um barco vindo em nossa direção.

Sem pensar, nos jogamos na chuva e corremos para a popa do Aleluiah, no exato momento em que ocorreria a colisão. Estávamos nós dois ali e seguramos juntos a proa do Island Packet , que havia se desgarrado, com toda força que tínhamos e não tínhamos.

Desviamos o rumo dele e nesse momento seu capitão, Sr. Marley, com quem tive uma longa conversa na manhã seguinte, conseguiu ligar o motor e se livrar de colisões em outros barcos que ali estavam também.

Do segundo que abri os olhos, ir ao banheiro,  sair no convés, e correr para evitar a colisão, passou-se nem dois minutos.

Não tive tempo de pensar.

Mas depois fiquei pensando: será que existe coincidência, acasos... Tenho certeza que não. Acordei de um sono profundo, estava muito cansado na noite anterior devido à navegada de Porto Rico pra Culebra. Sorte?... Tampouco.

Acredito mesmo em um Poder Superior que, acima de todos nós, tudo vê e nos devolve exatamente o que plantamos. A tal da lei da ação/reação é muito real e implacável.

E por ela ou nos safamos ou nos ferramos.

... ainda que a tragédia estivesse para acontecer, no escuro, tarde da noite, debaixo de um aguaceiro que encobria a voz de qualquer grito ou buzina pedindo socorro, ao som de trovões e relâmpagos assustadores, se você tem saldo positivo, esse Deus maravilhoso vai te levantar e te colocar no lugar certo, na hora certa.... Agora,se seu saldo for negativo, ai meu caro, não adianta nem rezar na hora do aperto.

Pude ainda depois sentar no cockpit e apreciar aquele belo espetáculo da natureza, que mais uma vez me mostrara que nada, nada, naaada somos perto da grandeza desse universo e a força dos elementos da natureza.

Pensem bem antes das atitudes, ainda que suspeitas. Quanto mais as de pura maldade ou falta de caráter, em qualquer sentido, porque um dia o universo vai cobrar, e o pior.... em dobro.

Na manhã seguinte fui até o barco que havia desgarrado na madrugada.

Saiu para me atender um senhor muito simpático, que de nada lembrava aquele de horas atrás, totalmente em pânico. Senhor Marley, um canadense que com a esposa velejaram do Canadá até o Caribe, sozinhos, em um barco fantástico.

O Island Packet é bem conceituado no mundo náutico por ser um barco robusto, de excelente navegação e muito espaçoso por dentro. Tinha 36 pés, tamanho ideal para um casal.

Ele me contou que um gomo da corrente da sua âncora se partiu e eles estavam dormindo quando o alarme de arrasto soou. Porém, até entenderem o que estava acontecendo, perderam um precioso tempo, onde deveriam já dar partida nos motores para a sua própria segurança e dos outros barcos que ali estavam fundeados.

Acabei por dar uma carona pra ele no meu bote e fomos àcidade levar o lixo e comprar pão, Ficamos um bom tempo ali na padaria conversando sobre o assunto preferido de qualquer velejador: o mar.

Mais um amigo que ele, o mar, me deu.

Boa semana a todos.

A pior das travessias

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Tinha tudo para ser apenas 12 horas de uma rápida e prazerosa velejada entre as Ilhas britânicas Virgens até San Marteen.

Porém o vento exatamente contra e violento, anunciando uma das piores tempestades que, alguns dias depois,  arrasou boa parte das ilhas Virgens.

Ondas gigantescas vindo de todos os lados possíveis, que se juntavam exatamente por onde navegávamos, pareciam um caldeirão do diabo. De repente me vi dentro de uma máquina de lavar roupas ligada em aceleração máxima.

A noite seria longa, e quase mortal.

O Aleluiah chacoalhava tanto que era impossível parar em pé na parte de dentro. Só conseguia  ouvir tudo  caindo ao chão, todas as portas dos armários se abriram e tudo, tudo mesmo, foi ao chão.

Íamos negociando sem negociação com todas aquelas montanhas desgovernadas de água.

Ele é valente, e foi feito exatamente para isso, pensava eu, tentando em vão me acalmar.

Comecei a marear, enjoar, o que já não me acontecia há bastante tempo. Nosso corpo se ajusta a tudo, mas uma situação daquelas ainda não tinha enfrentado.

Administrar as  horas que não passavam não era fácil, ainda mais vomitando até as tripas...

Sabia o que tinha que fazer, e fazia o básico. Só e mais nada.

Ao amanhecer pude ver no horizonte, ao longe, o desenho de San Maarten. Me animei, mas nada de o mar melhorar.

Assim que o sol começou a subir, minha aproximação da ilha me trouxe alivio.

A ilha formou uma barreira salvadora, tanto para as ondas como também para o vento, que passou de 35 para 17 milhas por hora.

Pude chegar e adentrar com o Aleluiah na baia, muito bem abrigada de uma das ilhas mais charmosas do Caribe.

Uma ponte que abre em certos horários estava há 30 minutos da próxima abertura. Que bom, em breve estaremos totalmente seguro e bem amarrados em uma marina.

Port de Pleisant foi a escolhida entre muitas que passei dando uma olhada primeiramente.

Opção correta,  a marina e todo seu pessoal foram formidáveis comigo e com o Aleluiah.

Atracagem difícil pela velocidade do vento estar acima do normal, mas o pessoal era muito bem preparado.

Ali fiquei por cinco dias. A ilha é a mais organizada e bonita de todas que já passei. Metade dela comandada pela Holanda e a outra metade pelos franceses. A parte holandesa dá de dez a zero....!

Em pouco tempo nem perdia tempo em ir para o lado francês, que além de sujo e mal organizado, ainda tinha que lidar com os maus humorados e sem muita paciência dos franceses, que fazem questão de não falar inglês e você que se dane para entender a língua deles.

Na quinta-feira, depois de três dias ali, vi pelos aplicativos de meteorologia que estava vindo uma grande tempestade tropical e deveria atingir toda parte central do Caribe em poucos dias, causando pânico nos velejadores e desespero na população.

Se ficar o bicho pega se correr o bicho come!!!

Tinha pela frente duas opções: a primeira, ficar  e enfrentar os ventos violentos ali mesmo.

A segunda: zarpar o mais rápido possível para o Sul e fazer a maior travessia em solitário que já havia feito. Quase 500 milhas sem ter nenhum pedacinho de terra para parar em qualquer emergência. Seriam cinco dias diretos sem direito a nenhuma parada, dia e noite. A bordo, somente eu.

Não sei se estava preparado para tanto, mas algo me disse: vai.

Joguei meu coração lá na frente,  em Bonaire, e sai em busca desse paraíso, eu o Aleluiah e Deus.

Na próxima publicação conto essa que foi minha maior aventura pelos mares até então: San Marteen/Bonaire. E a perfeita escapada do furacão que se aproximava. Inacreditável.

Bom domingo de dia dos pais para todos.

Fraterno abraço.

Velejar é uma filosofia de vida

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​Entre uma parada e outra nos lugares mais lindos da terra acessados pelo mar, estarei confabulando sobre o que vejo, sinto e aprendo nessa fantástica volta ao mundo à vela com vocês, nessa coluna.

Antes de ter o veleiro Aleluiah, fiz vários cursos de vela oceânica em Ilha Bela, com o capitão André Magalhães Homem de Mello, um dos melhores e mais destemidos velejadores do mundo. Além de ser um cara bacana demais. Amigo do coração.

Me lancei ao mar com o Aleluiah há quatro anos atrás. A saída e a preparação final foram feitas em Fort Lauderdale, Flórida, Estados Unidos.

Local escolhido estrategicamente para a compra do barco. Lá  temos a maior quantidade e variedade de  barcos do mundo. E aperfeiçoar o inglês, fundamental para a comunicação via rádio pelo mundo afora.

O Aleluiah, um Hylas de 49', 15 metros, é acima de tudo uma barco seguro, considerado o melhor barco para ondas grandes e mares turbulentos. Robusto. E de tão perfeito o seu  projeto, não mexem em nada nele há 26 anos.

Projetado pela dupla de projetista mais premiada no mundo náutico,  Sparkman & Stephens.

Ali  permaneci por um ano  e meio aprendendo a lidar com os elementos da natureza, e a entender como essa máquina complexa, que é o veleiro Aleluiah, funciona e se comporta em alto mar.

Fazia viagens constantes ao sul da Flórida, Key West e Bahamas.

Aos poucos fomos nos entendendo e criando uma bela amizade.

Ainda não aprendi tudo, mas o suficiente para me garantir sozinho a bordo desse inseparável melhor amigo, o Veleiro Aleluiah.

Eu cuido dele e ele cuida de mim.

Sim, ele cuida muuitoo de mim,  me abriga, me dá conforto necessário e me conduz por esse marzão sem fim,  de belezas que a cada dia me surpreende e ensina mais.

São ilhas paradisíacas, na sua maioria desabitada, povos de culturas muito diferentes da nossa, sabores, cheiros e jeitos que me encanto por cada canto que passo.

Desde a partida na charmosa ilha Hendricks Isle, onde deixei grandes amigos. Essa é uma das melhores partes de se velejar: os amigos que fazemos nas marinas, sempre pessoas do bem, dispostas a ajudar no que for. Como diz meu amigo Loyd, que mora na marina de Marathon, ao sul da Flórida: Only first class people.

Não é só alegria e vida boa, meus amigos. Muito trabalho e consertos fazem parte dessa jornada.

Mas vamos focar só nas coisas boas e belas.

Agora me encontro nas Ilhas Britânicas Virgens, um paraíso formado por várias ilhas de uma beleza descomunal. Sem duvida, um dos melhores locais do mundo para se velejar e praticar mergulhos autônomos. 

A vida marinha é muito preservada e abundante. Para se ter uma ideia, é proibido ancorar nas praias para não comprometer o fundo de corais. Só podemos apoitar (amarrar o barco direto em boias presas ao fundo do mar) nas poitas feitas pelo governo.

Se a Polícia Marítima pegar alguém com a âncora na água, a multa é altíssima.

O legal é que todos respeitam e têm a consciência de que temos que preservar nosso meio ambiente.

Há um grande respeito também pelo alheio. Ninguém mexe em nada de ninguém.

Barcos dormem abertos... A segurança é total.

A moeda é o dólar americano, a língua oficial o inglês. As ilhas estão sob proteção e governo da rainha da Inglaterra.

E isso dá um orgulho danado em toda população, predominantemente descendentes de escravos, que herdaram um belo paraíso, e o preservam e o governam com espantosa competência.

Crianças todas uniformizadas na escola, índice zero de evasão escolar.

Bonito demais de se ver.

E nosso Brasil, será que chega lá minha gente?

O melhor de se morar em um veleiro é ter a liberdade de partir para onde quiser e quando quiser, junto com sua casa e toda a tranqueira que juntamos a bordo.... rs...Isso é fantástico.

Melhor que isso é o combustível de graça: só preciso de vento.

Velejar é uma filosofia de vida, uma religião, uma paixão...

Sem dúvida, a melhor forma de se viajar e conhecer os mais distantes, inacessíveis e preservados locais desse fantástico Planeta Terra.

Bons ventos a todos, e até a próxima.

A luta pela vida me mostrou a beleza do mundo

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Me chamo Frederico de Oliveira Ludovice, tenho 43 anos, sou pai de quatro filhos: a Clara, o Luca, o Neto e o João Davi. Sou formado em publicidade e comunicação social. 

Vivo duas paixões em minha vida: meu amor pelos animais, com a  fazendinha Zoomix, e o veleiro Aleluiah... não por coincidência, as duas nasceram do mesmo proposito. 

Em meados de 1994, eu estava totalmente derrotado por uma droga que viria mais tarde a aniquilar as bases familiares de todo um pais. O crack. 

A grande epidemia se espalharia pelo país 10 anos mais tarde. 

Eu e  um grupo de amigos de Franca fomos, seguramente, os primeiros viciados dessa maldita droga, que chegou até nos através de um famoso jogador de basquete, vindo dos Estados Unidos e que jogava na vitoriosa equipe da Ravelli. 

Seis meses de uso e eu não tinha mais vida, amor próprio e não me importava com mais nada, senão com a próxima pedra. 

Fui internado em abril do mesmo ano, e na clínica de recuperação percebi que havia uma chance. Via uma Luz, uma salvação, um poder superior que poderia me ajudar a sair dessa. DEUS. 

Me agarrei a essa luz, orava e conversava todos os dias com Ele, como se soubesse que eu não podia partir ainda, que tinha de ter a oportunidade de ter os maiores tesouros da minha vida: meus quatro filhos, 

E de pronto fiz uma promessa. Se eu conseguisse sair daquela situação e me curasse, eu faria o que achava ser a coisa mais difícil do mundo. Nada de andar a pé ate Aparecida do Norte, nem subir escadarias de joelhos.... 

Prometi a esse Deus maravilhoso que daria uma volta ao mundo à vela, a bordo de um veleiro. Naquela época eu nada sabia sobre navegação. 

Só pensava em tempestades, ondas gigantes etc...e via essa volta ao mundo como a coisa mais perigosa que eu poderia enfrentar para retribuir a cura da outra coisa mais perigosa do mundo que viva, o vício no crack. 

Achei uma troca justa na época. 

Mal sabia eu que fazia ali a promessa mais gostosa e prazeirosa de se cumprir. 

ELE fez a parte Dele.... 

Sai da clínica em junho do mesmo ano e nesses 23 anos que se passaram, tive somente uma recaída, no mês de novembro daquele fatídico ano de 94. 

E nunca mais coloquei o crack na minha vida, graças a Deus. 

Hoje, estou cumprindo essa promessa, conhecendo o mundo a bordo de um veleiro, que me leva com segurança para aonde for e tem me mostrado as paisagens mais lindas e encantadoras dessa bolinha que habitamos, chamada de Terra. 

Nem preciso explicar o porque do nome Aleluiah, né?? 

No momento, estamos deixando as Ilhas Britânicas Virgens pela popa (parte de trás do barco), um local fantástico, por onde ficamos por dois anos, de tãooo bonito que é, e seguindo para mais um paraíso, San Marteen. 

Vai ser uma navegada dura, com ventos e ondas contra, mas nada que meu amigo Aleluiah não tire de letra. 

Esperamos ver terra novamente em aproximadas 28 hs. Que Deus, mais uma vez, nos proteja e nos guie com segurança ate o próximo porto. Amém. 

Sempre que puder estaremos, eu e o Aleluiah, aqui nesse espaço dividindo nossas aventuras com todos vocês. 

Aleluiah amigos e um ótimo Domingo para todos. 

29 de julho de 2017