​Roubando o remédio do doente

Postado em:

Bolsonaro tem suas culpas – tantas, tão graves, que não é preciso inventar culpas novas para falar mal dele. No caso da busca e apreensão no Rio, em que o governador e sua esposa foram atingidos, ele até que gostaria de ser o responsável pela Operação Placebo da Polícia Federal, mas o comando é outro: quem pediu ao Superior Tribunal de Justiça que autorizasse a busca, a apreensão e a quebra dos sigilos foi a Procuradoria Geral da República. O procurador-geral, Augusto Aras, foi indicado por Bolsonaro, mas se o STJ autorizou a ação é que havia motivos para realizá-la. A coisa no Rio parece mesmo brava: dos sete hospitais de campanha, só três foram entregues. Um hospital, dado como pronto, só tinha as paredes: o equipamento, já pago, lá não existia. A empresa terceirizada que cuida da construção e manutenção dos hospitais já gastou um terço da verba total para seis meses, sem concluir sequer metade das obras de construção. E a manutenção?

Mas, se o responsável pela operação não é Bolsonaro, que tanto queria mudar a direção da PF no Rio que por isso até demitiu Sérgio Moro, se a operação ocorreu logo após a mudança por pura coincidência, resta explicar uma coisa. Na véspera da operação, a deputada ultrabolsonarista Carla Zambelli disse à Rádio Gaúcha que a Federal iria agir contra governadores. Era verdade – mas como é que ela soube? Quem, e por que, violou o sigilo?

Cadê o sigilo?

Carla Zambelli é uma parlamentar pronta a defender o presidente, mas não está no primeiro escalão bolsonarista. Além dela, quem mais sabia da operação? Ela sabia de mais coisas: na entrevista, disse que a PF tinha outras operações “na agulha”, que acabaram não sendo feitas. De novo a pergunta: como é que sabia? O senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, garante que começou o tsunami. É só palpite ou sabe de algo? Se sabe, como?

De tudo um muito

O Ministério Público diz ter provas de que houve fraude no orçamento até dos geradores dos hospitais de campanha do Rio. Mais: que, no topo da organização que fraudou o orçamento, está o governador Wilson Witzel.

Primeiro o deles

Há gente arriscando a vida para cuidar de quem contraiu o coronavírus. Há gente que se mobiliza para ajudar os que, por causa do coronavírus, estão precisando de dinheiro, comida e roupas. Há empresas que fizeram pesadas doações para ajudar a combater a pandemia – entre elas, louve-se enfim, a sempre criticada JBS, que também não demitiu funcionários. E há gente que, mesmo sabendo dos problemas que os vários governos enfrentam para pagar os custos do combate ao coronavírus, dão de ombros. E daí? Não é com eles. Na Bahia, um lúgubre retrato do que pode acontecer. No Tribunal de Justiça, saiu uma listinha de salários. Lembre: diz a lei que nenhum salário pago por cofres públicos pode ultrapassar o de ministro do Supremo, algo como R$ 40 mil mensais. Nos Estados, são cerca de R$ 36 mil. Na lista de 19 nomes do TJ da Bahia, o menor salário é de Itabuna, de um diretor de Secretaria de Vara, R$ 39.722,80. O maior é de Salvador, de um subescrivão de gabinete de desembargador, R$ 54.563,22. No miolo da lista, há um escrivão, com R$ 45.1448,29; um atendente de recepção, R$ 50.305,29; um técnico de nível médio, R$ 47.298,65. Tudo deve estar bem explicadinho, com certeza. E ajuda a encontrar a explicação da falta de dinheiro para pagar funcionalismo.

Alô, alô, colegas!

Não existe “protesto a favor”. Existe “manifestação a favor”. Protesto é uma manifestação contrária. Portanto, “protesto a favor de Bolsonaro” é uma contradição em termos: ou é protesto, ou é a favor. Segundo: na manifestação deste final de semana na avenida Paulista, em São Paulo, havia pelo menos uma bandeira da Pravy Sektor, a milícia fascista da Ucrânia. Deve ter sido falha deste colunista, que não viu menção a esta bandeira, nem entrevistas com quem a transportava. Só vi uma menção à Ucrânia, que talvez seja fake news: uma entrevista atribuída a Sara Winter, ex-feminista que hoje lidera um grupo radical de bolsonaristas. Segundo o áudio que lhe é atribuído, ela diz ter sido treinada na Ucrânia e que chegou a hora de ucranizar o país.

Tem de saber puxar

John Foster Dulles, o secretário de Estado do presidente Eisenhower (1953-1961) disse que os Estados Unidos não tinham amigos, mas países com interesses comuns. O presidente Bolsonaro, ingênuo ao ponto de achar que ele e seu filho tinham conquistado a amizade do presidente Trump, já enfrentou problemas mais de uma vez (como na indicação para a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, OCDE). Agora Trump proibiu a entrada nos EUA de pessoas que tenham passado pelo Brasil há menos de 14 dias, já que aqui o coronavírus cresceu exponencialmente. Até aí, vá lá; mas as palavras de Trump foram duras, “não quero ninguém entrando aqui para infectar nossos cidadãos”. Muy amigo.

COMENTEcarlos@brickmann.com.br

Twitter@CarlosBrickmann

​Um calor que gela os ossos

Postado em: - Atualizado em:

Prepare-se: a temperatura política deve subir a tal ponto nesta fria semana de outono que, mais que o clima, fará congelar as expectativas de que a crise termine pacificamente. Quem leu a transcrição do vídeo, preparada pela Advocacia Geral da União, pode imaginar o quanto é grotesco – e agora pode ser exibido, com exceção das menções a outros países. A linguagem é de cavalariça. As ideias não são ruins – nem boas, não existem. Existe xingação, inexiste qualquer pensamento sobre nosso grande inimigo, o coronavírus. E, fora da reunião, as ideias foram colocar um general na Saúde para hidroxicloroquinar o país. As associações médicas rejeitam o uso maciço do medicamento, pelos riscos de vida que oferece.

Só? Não: o PT e os partidos que sempre o apoiaram pediram ao STF o exame do celular do presidente. Não deve dar em nada: o ministro Celso de Mello enviou o pedido ao procurador-geral Augusto Aras, que dificilmente o aceitará. Mas o general Augusto Heleno já se manifestou, e disse, em outras palavras, que presidente é presidente, e um pedido “inconcebível” como este “poderá ter consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional”. Pois é: Bill Clinton precisou depor sobre um caso ruim e os EUA ficaram estáveis. O presidente, lá, não está acima da Constituição nem das ordens judiciais.

A Paraná Pesquisas informa que, para 35% do povo, Bolsonaro é culpado pelas mais de 20 mil mortes por Covid 19. A China é culpada para 4%.

E daí?

Bolsonaro fez piada: “Quem é de direita toma cloroquina, quem é de esquerda toma tubaína”. Lula também foi mal: “Ainda bem que a Natureza criou esse monstro”. Queria dizer que é preciso que o Estado seja forte para agir. Nos dois extremos da política, ninguém tinha algo melhor para dizer?

Os homens do presidente 1

O general da Saúde se cercou de militares. Um é o major Angelo Martins Denicoli, novo diretor do Departamento de Monitoramento e Avaliação do SUS, muito ativo em redes sociais. Saúde? Defende a cloroquina, e só.

1 – em 8 de abril, disse que a FDA (Federal Drugs Administration), dos Estados Unidos, tinha aprovado a hidroxicloroquina, e que a Novartis, uma das maiores indústrias farmacêuticas do mundo, iria doar 130 milhões de doses. Tudo falso: o site da Novartis informa que as pesquisas da empresa são favoráveis à hidroxicloroquina e que, com base nelas, pediria à FDA e à Comissão Europeia de Medicamentos que a aprovassem. Nesse caso, iria doar 120 milhões de doses. A notícia foi copiada de um site bolsonarista (que publicou o número errado). Era fácil apurar a verdade: bastaria procurar em www.novartis.com. Informou o Ministério da Saúde que o major não sabia que a notícia era falsa e que, quando soube, imediatamente a apagou. Não era bem assim: até 19 de maio, quando a Folha o procurou, estava no ar.

2 – Disse Denicoli, sobre o Supremo, que Ricardo Lewandowski é amigo de traficantes, Celso de Mello apoia pedófilos, Rosa Weber é a garantia dos estupradores, Marco Aurélio dos assassinos e que corrupto só precisa ligar para Gilmar Mendes. Havia fotos de cada ministro, com nome e legenda com a informação falsa: “Votou a favor de corruptos (ou assassinos, ou pedófilos, ou estupradores) nunca serem presos”. Denicoli cuida hoje de Saúde.

Os homens do presidente 2

Responda depressa: por que, entre os integrantes da equipe de apoio do general que está na Saúde, foi contratado um advogado criminalista?

Lembrando o tempo petista

Um caso explosivo: o bilionário Beny Steinmetz, empresário do setor de diamantes, briga nos EUA para não pagar à Vale a multa de US$ 2 bilhões a que foi condenado pela Corte Arbitral Internacional de Londres. A Vale diz ter sido enganada por Steinmetz, seu sócio no projeto da mina de Simandou, na Guiné, uma das maiores do mundo. Steinmetz teria informado à Vale que a concessão da mina tinha sido obtida legalmente. Steinmetz não é uma pessoa comum: já foi condenado por corrupção pela Justiça de  Israel, Suíça, EUA e Guiné. E continua lutando: seus detetives gravaram conversas com diretores da Vale da época do presidente Lula, e ele as apresentou no dia 19 à Justiça de Nova York. Um áudio é atribuído ao ex-diretor de Minério de Ferro da Vale, José Carlos Martins, que diz que o Conselho de Administração da empresa tinha conhecimento de tudo, mas concordou em correr o risco pela importância estratégica da mina. Na época, havia também o interesse do Governo Lula de estreitar laços com a África (nos processos do Mensalão, revela-se que o interesse era também dos governantes).

Dinheiro não tem cheiro

Atribui-se a Martins a recomendação de fechar o acordo “de nariz fechado pois cheira mal, para não deixar o negócio com os competidores”. Roger Agnelli, presidente da Vale, teria dito “tem algo errado”. Mas, no final, o Conselho decidiu: “OK, vamos nessa. Não digam mais nada. Vamos fechar”.

COMENTEcarlos@brickmann.com.br

Twitter@CarlosBrickmann

​O cerco se aperta

Postado em: - Atualizado em:

O coronavírus, por enquanto, está ganhando a guerra. Já que é guerra, o Governo, oras, pôs na Saúde um general. O general se cercou de nove outros militares. Há as investigações sobre denúncias do ex-ministro Sérgio Moro, há investigações sobre a organização de atos contrários à Constituição, em que se prega o fechamento do Congresso e do Supremo, há 30 pedidos de impeachment na Câmara. As denúncias do antigo aliado Paulo Marinho, que se afastou de Bolsonaro, têm pontos que podem ser verificados. O cerco ao presidente se apertou tanto que, para manter a estabilidade, mergulhou de cabeça no que chama de Velha Política: trocar cargos por votos do Centrão.

Contra Bolsonaro propriamente dito, há as denúncias de Moro e os 30 pedidos de impeachment. Paulo Marinho atinge Flávio, o filho mais velho. As investigações sobre os atos antidemocráticos podem alcançar Eduardo e Carlos, outros dois filhos. Há ainda as notícias falsas, investigadas pelo STF.

O vídeo de uma reunião ministerial grosseira, com insultos a ministros do Supremo e a governadores, confirmou as denúncias de Moro e desmentiu Bolsonaro: sim, ele disse o que tinha dito que não disse. A maior denúncia de Paulo Marinho, de que Flávio Bolsonaro lhe contou que haveria operação da PF envolvendo pessoas próximas, cita reunião num lugar em que havia câmeras de segurança. É algo que pode ser investigado – e está sendo. Não se trata de uma gripezinha: é algo que arrisca a sobrevivência do Governo.

O vírus chapa-branca

Todos esses problemas estariam parados se Bolsonaro se ocupasse com o combate ao coronavírus. Ao contrário: pôs na cabeça que fora da cloroquina não há salvação e se comporta não como líder dos esforços para conter a doença, mas como desmoralizador dos planos que vêm sendo aplicados. Vai às ruas, faz comícios com gente aglomerada, leva sua própria filha pequena para perto da aglomeração, já cansou de negar a importância do coronavírus e, confrontado com o número de mortos, diz que não é coveiro. Deu um tiro em cada pé em quatro ocasiões: negando a pandemia, impondo um remédio que pode até, eventualmente, ser o correto, mas que ele não tem condições de julgar, demitindo ministros e brigando com governadores e prefeitos. O peso político do presidente é muito menor do que já foi, embora grande o suficiente para evitar o impeachment. Mas já não tem excesso para queimar.

Preocupação dos traficantes

Os traficantes da Comunidade Camarista Outeiro, no Rio, determinaram que a partir de hoje o comércio só poderá abrir meia porta: “entrar, comprar e ir embora para casa”, com exceção de mercadinho, farmácia e hortifruti. “Todos moradores da comunidade terão de usar suas máscaras. Toque de recolher às 21h, todos em suas casas, exceto moradores que estão chegando ou saindo para o trabalho”. Mais: “Abraça o papo para o papo não te abraçar. A ronda vai passar e é sem simpatia”. Assinado, A Firma.

Traduzindo, os traficantes estão mais preocupados com a saúde de seu povo do que os milicianos.

Boas notícias

São boas notícias, simultâneas: o laboratório americano Moderna já entrou na segunda fase de testes de um remédio que pode curar, destruindo o vírus, e prevenir, criando em quem o toma os anticorpos adequados. Outro teste é o brasileiro: segundo Marcos “Astronauta” Pontes, ministro da Ciência e Tecnologia, a nitazoxanida,  Anita, um vermífugo muito usado no país, mostrou-se eficiente no tubo de ensaio, e entra em nova fase de testes, em seres humanos. Israel anuncia também uma vacina, para entrar logo em fase de fabricação. E faz poucos meses que o genoma do vírus foi decupado!

Mas calma: se tudo correr bem, haverá remédios só no último trimestre.

Más notícias

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, bem que resistiu: em vez de gente do Centrão, preferia nomear mais discípulos do escritor Olavo de Carvalho. Mas teve de ceder – e ainda informar à chefe do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, Karine Silva dos Santos, que seria trocada por Gharigam Pinto, indicação de Valdemar “Boy” da Costa Neto. Boy sabe: o FNDE dispõe de 20% das verbas do Ministério da Educação e de inúmeros cargos. Outros nomes já escolhidos: Carlos Marum, PMDB, e José Carlos Aleluia, DEM, ilustres membros do Centrão, estão no Conselho de Itaipu – seis reuniões por ano, e R$ 27 mil mensais de salários.

Verdade é mentira

O presidente Bolsonaro acusou a revista Crusoé de publicar três frases completamente soltas, “nada têm a ver com a verdade, nada”. Seguiu: “É uma vergonha o que a imprensa brasileira faz”. A Crusoé divulgou três frases na capa. As três foram ditas na reunião ministerial cujo vídeo foi exibido por ordem do ministro Celso de Mello. As três foram retiradas da transcrição divulgada pela AGU, Advocacia Geral da União. Mais oficial, impossível.

COMENTEcarlos@brickmann.com.br

Twitter@CarlosBrickmann

Nos tempos que já se foram

Postado em:

Pois houve uma época, caros leitores, em que Corona era marca de ducha, “um banho de alegria num mundo de água quente”. O nome completo, não se sabe por que, era SS Corona. Bons tempos: nem quem botou o SS nem os clientes associaram a SS à temida organização nazista. Eram mesmo os bons tempos: nazismo era coisa velha, superada, e nenhum ministro iria citá-lo.

Bandido era bandido, e se juntavam em bando para cometer seus crimes. Como diria o bandido Lúcio Flávio, Polícia era Polícia, bandido era bandido. Ele era assaltante de bancos e não se misturava com policiais. Aquele híbrido conhecido como “miliciano”, com origem na Polícia e ação como bandido, era inimaginável. E, se milicianos houvesse, gente decente jamais se misturaria com eles. No máximo saberia que eles existiam. Amigo, confidente, protetor ou protegido? Não: quem se colocasse ao lado deles bandido seria. E a desculpa “apenas meu conhecido” seria só uma desculpa.

Remédios esquisitos, caros e inúteis, estes sempre houve. Óleo de cobra, por exemplo, ou óleo de cobra elétrica. Servia exclusivamente como fonte de renda do vendedor (que também parecia ser o produtor, misturando óleo de amendoim com algum corante). Fazia mal? Acho que não. Nem bem. Era chamado de “panaceia” – remédio para todos os males. Em faroestes americanos o vendedor de panaceia aparece muito. Aqui o bandido aparece mais.

Aliás, caro leitor, que tal um happy hour com cloroquina on the rocks?

 A Porcina e o Porcino

Que vexame, Regina Duarte! Após sua ótima atuação em Roque Santeiro, como Viúva Porcina, a que foi sem nunca ter sido, deixou que um novato com a cara impassível de um Buster Keaton sem graça a superasse!

Teich foi sem nunca ter sido, assumiu sem ter assumido, um perfeito Viúvo Porcino! Médico bem conceituado, foi tocado do cargo por um capitão que só conhece remédios por comprá-los nas farmácias (e errados, ou não teria ficado desse jeito). Regina, não: desandou a falar igualzinho ao capitão e seus filhos.

Após esse episódio, está pronta para a política: pode até ser porta-voz de Dilma.

 Ele era o bom

Teich desafiou a sabedoria popular: “Se alguém engana alguém uma vez, a culpa é dele. Se engana outra vez, a culpa é do outro”. Teich viu Mandetta ser vítima de seu sucesso como administrador – e, exatamente por este sucesso, foi chutado. Achou que com ele seria diferente. Mas não parou para pensar no motivo pelo qual seria diferente. Por acaso o Capitão Cloroquina aceitaria outro medicamento que não fosse a cloroquina? E concordaria com o isolamento social, quando tudo que não quer é ficar isolado, e saracoteia pelas ruas no meio de gente aglomerada, trocando suores e perdigotos?

Por acaso o Capitão Morte passaria a se importar com os mortos da pandemia, se nem com a segurança de sua filha, uma criança, se importou, levando-a para o meio daqueles grupos de fanáticos que gritam Bolsonaro tem razão?

 Previsão

Dizem que no Brasil nem o passado é previsível. Mas Bolsonaro e seus milicianos digitais são previsíveis: as milícias (e seus robôs) vão explicar que Teich é comunista desde antes de Lênin e se infiltrou no governo Bolsonaro apenas para atrapalhar seu até então impecável funcionamento. Bem feito: por que Teich aceitou o desafio impossível de ser ministro de Bolsonaro?

 Medicina general

Muita gente preocupada com a possibilidade de efetivação do general Pazuello no Ministério da Saúde. Não deveriam se preocupar. O general, dizem, é bom organizador. Não deve entender nada de Medicina, o que não seria problema se pudesse ouvir o pessoal do Ministério; mas se fizer isso será o próximo a rodar. E qual a diferença? Mandetta e Teich têm boa formação médica, tanto assim que rejeitaram os palpites do leigo cujo sonho seria vestir farda.

E daí? Pazuello deve ter uma formação apurada em assuntos militares, mas nada a ver com Medicina, Saúde Pública, contenção de epidemias. Não vai fazer a menor diferença: ou manda o país se abrir à epidemia (isso se os governadores e o Supremo deixarem) e ordena servir cloroquina na merenda escolar, ou cai como caíram seus antecessores.

 Bom exemplo

O general George Marshall foi combatente até 1945. Em 1947, o presidente Truman o nomeou secretário de Estado. Marshall criou então o Plano Marshall, que permitiu a reconstrução de 16 países da Europa Ocidental que, após a guerra, estavam em ruínas. Foi tão bom que, no Brasil, quando os generais propuseram a Bolsonaro mais uma versão do PAC de Dilma, deram-lhe o nome de Plano Marshall.

Só há um detalhe: Marshall foi um guerreiro que deu certo como secretário de Estado. Foram pouquíssimos.

 Prejuízo monstro

O prejuízo da Petrobras no primeiro trimestre de 2020 foi de R$ 48,5 bilhões. Maior que o lucro da Petrobras nos quatro trimestres de 2019.

COMENTE:

carlos@brickmann.com.br
Twitter: 
@CarlosBrickmann
www.brickmann.com.br

​A invisível roupa do rei

Postado em:

Não pensem que o presidente Bolsonaro é o único a mandar no ministro da Saúde, como é mesmo que ele se chama? O presidente, aliás, nem se dá ao trabalho de mandar: passa por cima dele, e ele que descubra, quando os repórteres lhe perguntam, o que foi feito no Ministério que ocupa. Não tem a menor preocupação com o que o ministro vai achar: ele não vai achar nada. E é provável que goste: embora tenha de pedir aos repórteres que lhe contem o que acontece na sua área, continua no cargo, mantendo-se em obsequiosa obediência. O fato é que não dá nem para disfarçar: acaba dando respostas tatibitates. Até seu rosto sempre impassível mostra que não sabia de nada.

Mas Bolsonaro vá lá: afinal de contas, é seu superior hierárquico, graças a ele deixou de ser conhecido apenas nos círculos médicos, virou estrela – estrela apagada, que já deu o que tinha que dar, estrela anã, mas estrela.

Porém, o ministro da Saúde tomou uma lição inesquecível ministrada por uma menina de seis anos. Foi visitar sua mãe no domingo, e quando ia tomar o elevador a menina lhe disse que não podia entrar. Teich, de máscara, já dentro do elevador, perguntou por que, pois o elevador era grande. E teve de ouvir da menina aquela norma que, embora ministro da Saúde, esquecera: nos elevadores residenciais, só deve entrar uma família por vez. Saiu e pediu desculpas: ainda bem, é um moço educado. Mas, como na fábula, foi preciso que uma criança se antecipasse aos adultos e informasse que o rei estava nu.

A sorte está lançada

Pois é, Sérgio Moro tinha razão. A história que narrou no depoimento à Polícia Federal foi confirmada pelo vídeo da reunião do Ministério em que, em meio a baixarias e palavrões, o presidente disse que precisava nomear o superintendente da Polícia Federal no Rio para proteger sua família. O filho mais velho de Bolsonaro, Flávio, vem travando longa batalha judicial para se proteger de investigações, mas não da Polícia Federal. Há rumores, porém,  de que outros dois filhos, Eduardo e Carlos, estejam na mira dos federais, por participar do esquema de distribuição de notícias falsas e convocação para atos antidemocráticos. Esta informação não é confirmada, mas circula já há um bom tempo. E antigos aliados de Bolsonaro, hoje rompidos com ele, fizeram parte do esquema de comunicação da campanha presidencial.

Gente fina

OK, como diria Bolsonaro. Uma reunião fechada não exige os códigos de comunicação de uma reunião aberta. Mas houve ali, fora a linguagem pouco educada, propostas francamente antidemocráticas: alguém propondo, por exemplo, a prisão de prefeitos e governadores (e dizendo que o faz em nome dos direitos humanos). A reunião não era aberta, mas esse tipo de proposta é enquadrável na Lei de Segurança Nacional. Não deve ir para a frente, já que o caso mais importante é o do presidente. Mas se o procurador-geral da República quiser, pode trazer problemas a quem a fez. Lembrando o caso de outro país, tudo o que ocorreu entre o presidente Bill Clinton e Monica Lewinsky foi fechado ao público, e por pouco Bill Clinton não caiu.

E agora?

Do jeito que Moro saiu, com uma carta contundente, que Bolsonaro não hesitou em desmentir, há duas possibilidades: Moro tem razão, e Bolsonaro está sujeito a responder pelas propostas ilegais, ou Bolsonaro tem razão, e Moro está sujeito a responder por denunciação caluniosa. Mas estamos no Brasil e há uma terceira possibilidade: ao receber o inquérito, o procurador Augusto Aras pode achar que não há motivo para oferecer denúncia contra ninguém. Pronto, caso encerrado. É sempre bom lembrar que impeachment precisa ter embasamento jurídico, mas só vai para a frente se tiver também embasamento político. Neste momento, com cerca de 30% do eleitorado a seu favor (e metade desses, pelo menos, fanaticamente a favor), não se pode falar em impeachment. Bolsonaro ainda precisa de desgaste para virar alvo.

A propósito

De qualquer forma, o presidente vem-se esforçando muito para aumentar seu desgaste. Já existe hoje mais gente que considera seu Governo péssimo ou ruim do que os que o consideram ótimo ou bom. Até nas redes sociais, em que tem força (e muitos robôs), Bolsonaro vem sendo derrotado há mais de 50 dias. Mas mantém o estilo briguento de administrar: hoje, no Supremo, tem relacionamento melhorzinho (embora não muito bom) com Toffoli e Luiz Fux. Com os outros nove, é ruim. Tem tido derrotas seguidas no STF. No Congresso, ao aliar-se ao Centrão, entregando-lhe bons cargos, está mais tranquilo. Mas o Centrão normalmente reivindica o tempo todo. Como nos tempos de hiperinflação, o preço de hoje é sempre menor que o de amanhã.

Notícia boa, notícia ruim

A notícia boa é que o Brasil deve ampliar as exportações de carne em 7%. A notícia ruim é que, enquanto os alertas de desmatamento na Amazônia crescem 55%, as verbas para combatê-lo são 36% menores que em 2019.

COMENTEcarlos@brickmann.com.br

Twitter@CarlosBrickmann

​O toque do Mito

Postado em:

Midas, rei da Frígia, nação situada onde hoje é a Anatólia, na Turquia, foi um grande mito dos tempos antigos. Tinha um filho famoso, ciumento do pai, de quem se considerava protetor; seu apelido era Ceifador de Homens, por decapitar aqueles de quem desconfiava (talvez Ceifador de Homens tenha ainda outro significado, mas como saber quase três mil anos depois?)

Midas, o Mito, pediu aos deuses o dom de transformar em ouro tudo o que tocasse. Dizem que os deuses, quando querem destruir alguém, atendem a seus pedidos. Midas ficou feliz: transformou uma árvore em ouro, tocou a espada e a tornou de ouro. De volta ao castelo, o primeiro problema: abraçou sua filha e ela se transformou em ouro. Toda a comida virou ouro e ele não conseguia alimentar-se. Os vinhos que apreciava ouro se tornaram. Sozinho, com fome e com sede, apelou novamente aos deuses, que pelo jeito jamais estavam muito longe dele; e a bênção foi retirada para que ele sobrevivesse.

Mas Mito é Mito: Pã, o deus do pé de cabra, desafiou outro deus, Apolo, para um duelo de flauta. O deus Tmolo foi o juiz e deu a vitória a Apolo. Midas se irritou e desafiou o supremo magistrado. Apolo, indignado, fez com que as orelhas de Midas se transformassem em orelhas de burro. Midas passou o resto da vida usando turbante, ocultando de seus súditos as orelhas de burro que ganhara. Estas, não houve milícia de deuses que as removesse.

Esta coluna não é só política. Trata também de História. Que se repete.

O Mito e os mitos

O Mito de Midas é lembrado até hoje. Britney Spears, no sucesso Radar, diz que procura “um homem com o toque de Midas”. Em Act my Age, Katty Perry diz: “Dizem que tenho de perder meu toque de Midas”. E o contrário também vale: cita-se muito o Rei Sadim (Midas ao contrário), que tudo o que toca vira lixo. Botou a mão, estraga. Nem a Namoradinha do Brasil escapou.

Regina, volte!

Este colunista jamais viu uma novela na vida (nem um capítulo inteiro de alguma). Sempre tive, porém, muita simpatia por Regina Duarte, reforçada em poucos contatos pessoais. Mas a entrevista à CNN, em que teve chilique ao receber mensagem amigável de Maitê Proença, em que menosprezou a tortura (“Sempre houve tortura”. “Não quero arrastar um cemitério de mortes nas minhas costas. Sou leve, sabe? Tô viva!”), e usou estilo bolsonariano ao falar dos assassínios da ditadura ("Cara, desculpa, eu vou falar uma coisa assim: na Humanidade, não para de morrer. Se você falar 'vida', do lado tem 'morte'. Por que as pessoas ficam 'oh, oh, oh!'? Por que?!") não é digna da Regina Duarte que admiramos. Por que mudou, mudou por que?

O poder, mesmo sem mandar

Regina é hostilizada por uma ala do governo e foi desautorizada pelo próprio Bolsonaro, que manteve na sua Secretaria pessoas que ela quis demitir e não abriu caminho para seu diálogo com artistas. Entre a Secretaria e a imagem, escolheu perder a imagem. E vai perder a Secretaria.

Confessar...

Por que o presidente Bolsonaro resiste tanto em entregar ao Supremo o vídeo da reunião em que, segundo informação de Sérgio Moro, ele teria dito que iria intervir na Polícia Federal? Bolsonaro já disse que Moro mentiu. Não há melhor oportunidade de provar que o adversário é mentiroso. Por que Bolsonaro resiste tanto a mostrar seus exames de coronavirus?

...jamais

Tancredo Neves, um sábio da política, dizia que um segredo só pode ser guardado se ninguém mais o conhecer. Se dois souberem, vai-se espalhar. E uma reunião de Ministério, fora o pessoal que grava o vídeo, fora os seguranças, tem bem mais que duas pessoas. Nunca falta um fofoqueiro.

Dizem que o problema não é exatamente o que Bolsonaro disse a Moro, nem o vocabulário que utilizou. Mas parece que se queixou da China, usando o mesmo vocabulário. E atribui-se a Abraham Weintraub a declaração mais perigosa: o ministro da Educação teria se referido aos onze ministros do STF com palavrões. E é precisamente um desses ministros que vai ver o vídeo.

Quanto aos exames de coronavírus, por que não? Questão de princípios?

Os campeões de audiência

Os internautas do mundo inteiro, menos os do Brasil, estão hoje focados na pandemia. O tempo médio gasto por assunto cresceu 40% (notícias locais), governo e política (37%), tecnologia (40%), estilo de vida (44%), entretenimento (15%), jogos (18%), negócios (33%) – em tudo se envolve o coronavírus. No Brasil, política e governo (64%) foram os campeões no aumento de tempo consumido pelos internautas. Tecnologia bateu em 121%, negócios ficaram em 46%. Comida e bebida cresceram 54% - e o Brasil foi um dos poucos países que ampliaram o tempo gasto neste item. As notícias locais cresceram 63%. Pesquisa: Taboola, multinacional de comunicação de conteúdo, com acesso a nove bilhões de page-views no mundo.

COMENTEcarlos@brickmann.com.br

Twitter@CarlosBrickmann

Acredite se puder

Postado em: - Atualizado em:

A possibilidade de impeachment preocupa Bolsonaro – tanto que negocia o apoio do Centrão (que ele chamava de “velha política”, lembra?), o que inclui Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto, ambos já condenados por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, ambos já tendo cumprido pena de prisão. 

Bolsonaro não precisaria se preocupar: o caro leitor pode acreditar que Lula também participa de sua sustentação política. Já se disse contra o impeachment. Grandes advogados que sempre estiveram ao lado de Lula (Celso Antônio Bandeira de Mello, Marco Aurélio Carvalho, Lenio Streck) pedem ao Supremo que processe Sérgio Moro por prevaricação, pois deveria ter denunciado o presidente quando achou que tentava manobras ilegais. Não, não pediram que Bolsonaro seja processado por ter tentado manobras ilegais, das quais o acusou Moro só agora. Rui Falcão, ex-presidente nacional do PT, pediu ao Supremo que ordene à Procuradoria Geral que investigue se Moro cometeu outros crimes. A propósito, há fotos de Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, exultando ao saber que os petistas denunciaram Moro.

Parece estranho, mas se explica: 1) Bolsonaro quer o voto religioso, e o pessoal do Centrão é terrivelmente religioso, sempre em busca de um terço; 2) aqui é Brasil, e Brasil acima de tudo. A aliança entre Bolsonaro & Filhos, Lula, Centrão lembra a Oração de São Francisco, que louva a paz entre os inimigos: “É dando que se recebe. É perdoando que se é perdoado”.

Blowing in the wind

Sérgio Moro conseguiu uma façanha notável em seu depoimento de oito horas à Justiça: conseguiu repetir, sem um só acréscimo, aquilo que estava na sua carta de demissão, bem mais curta. Não há nada de novo, apenas mais do mesmo. Alguém esperava uma bomba? Há pouco menos de três mil anos, o poeta romano Horácio criou uma frase que, traduzida, é “a montanha pariu um rato”. Este colunista é do Interior e lá usamos uma frase mais simples: “muito vento, pouca chuva”. Na verdade, a frase não é bem essa: o vento é vento, embora malcheiroso; e a chuva é de algo que não fica bem escrever.

Sangue latino

Horácio é hoje pouco conhecido no Brasil, já que até as aulas de latim não mais existem. Mas boa parte de nossos líderes segue até hoje suas lições:

“Ganha dinheiro honestamente, se puderes. Se não, como puderes”.

“Vaiam-me na rua, mas em casa me aplaudo ao contemplar com afeto o meu dinheiro”.

Medindo as perdas 1

A demissão de Sérgio Moro custou sete pontos percentuais ao Governo Federal. A pesquisa é da XP, e seu objetivo é dar a operadores da empresa e a seus clientes uma avaliação do clima político que ajude a orientar seus investimentos. Ou seja, há dinheiro em jogo na precisão dos números. Após a demissão de Moro, a avaliação negativa do Governo Bolsonaro subiu de 42 para 49% - a maior até hoje. A avaliação positiva caiu de 31 para 27%, a menor até hoje. A margem de erro é de 3,2%.

Medindo as perdas 2

Em abril, o Brasil perdeu pouco mais de R$ 5 bilhões do dinheiro de investidores estrangeiros: trouxeram R$ 260 bilhões e retiraram R$ 265 bilhões da Bolsa. Coronavírus? Em parte, sim. Mas, de janeiro para cá, antes da pandemia, o balanço já era negativo. No total, saíram quase R$ 70 bilhões estrangeiros do mercado brasileiro de ações.

Hipótese 

Todas essas crises repercutem na Bolsa. O cai-não-cai de Mandetta, a saída de Moro, as manifestações em que há pedidos de fechamento do Congresso e do Supremo, os pedidos de intervenção militar... não estaria na hora de autoridades competentes analisarem se não há gente saindo da Bolsa em determinados momentos, logo antes de crises causadas por problemas bobos, e entrando de novo quando as ações caem?

Entrevista sem perguntas

Novidade brasileira: o presidente Bolsonaro disse que não responderia a perguntas numa entrevista e só falaria sobre “esta patifaria da Folha de S.Paulo”. A “patifaria” era a manchete, Novo diretor da PF assume e acata pedido de Bolsonaro – no caso, ter afastado o superintendente do Rio. Uma repórter perguntou-lhe se ele havia pedido o afastamento. Aí vem a novidade: “Cala a boca! Eu não te perguntei nada!” Até a véspera quem perguntava era o repórter. Mas Bolsonaro estava irritado. Talvez porque as Forças Armadas tenham deixado claro, publicamente, que rejeitavam qualquer golpe – portanto, a história de que estavam a seu lado só vale enquanto não tentar ultrapassar esse limite.

Feliz, por que não?

Bolsonaro deveria estar feliz: tem a seu lado os bolsonaristas, o Centrão, Lula, todos contra Moro e o impeachment. É o triunfo da Nova Política.

COMENTEcarlos@brickmann.com.br

Twitter@CarlosBrickmann

​Tá todo mundo doido, opa!

Postado em:

O Governo brasileiro, que já havia notificado o Governo venezuelano da decisão de expulsar seus diplomatas, voltou à carga: determinou que os diplomatas se retirem imediatamente do Brasil, no meio da pandemia de coronavírus. Há voo Brasília - Caracas? O Itamaraty do chanceler Eduardo Araújo não está preocupado com isso. Se os venezuelanos não saírem, seja por qual motivo for, poderão ser tratados como imigrantes ilegais.

Por que? Aparentemente, porque Bolsonaro não gosta do regime imposto à Venezuela pelo presidente Nicolás Maduro. Este colunista também não tem a menor simpatia pelo regime que levou a Venezuela à má situação atual e que pode ser classificado como ditadura. Mas temos relações diplomáticas com a China, que não é mais democrática que a Venezuela; e com o Irã, que enforca homossexuais em praça pública por considerá-los criminosos; e com a Síria, em que o presidente Assad há anos massacra os oposicionistas. Mas a questão nem é esta: é saber o que o Brasil ganha expulsando diplomatas, e num momento de crise sanitária da qual não será possível protegê-los.

Proteger os diplomatas, mesmo de países inimigos, faz parte dos hábitos civilizados. Quando o Japão, sem declaração de guerra, bombardeou Pearl Harbor, os americanos devolveram seus diplomatas. O procurador-geral da República, Augusto Aras, recomendou que a expulsão seja suspensa. Talvez haja tempo para que um pouco de bom-senso areje os ares do Itamaraty.

Sensatez

O procurador-geral recomendou que a ordem de expulsão dos diplomatas venezuelanos seja suspensa até que se avaliem “eventuais riscos para seu cumprimento”, fixando-se o prazo para a saída de acordo com o contexto da pandemia, a perspectiva humanitária, normas nacionais e internacionais”.

Palavras e fatos

Bolsonaro disse que a política de isolamento social não funcionou, tanto que o Brasil já superou os índices da China. Bolsonaro não disse que o índice de contaminação e as mortes variam conforme a situação de 15 dias antes – o prazo para que um contaminado passe o vírus para outros e estes mostrem sintomas da doença. Enquanto a quarentena foi mantida com alta adesão, os índices caíram. Depois que o presidente passou a sassaricar em padarias e no meio da rua, o mau exemplo fez com que a quarentena perdesse força, elevando os índices de contaminação e morte. Até o americano Donald Trump, ídolo mor de Bolsonaro & Filhos, fala mal do que ocorre por aqui.

Fatos e palavras

O presidente Bolsonaro também nada falou sobre a demora na aplicação de recursos federais contra a pandemia. Até abril, o Governo Federal gastou apenas 23,6% dos recursos previstos para este fim. A informação é oficial, do Ministério da Economia: foram previstos R$ 253 bilhões para combater a pandemia, mas até 30 de abril foram gastos R$ 59,9 bilhões. O restante – bem, como já disse o presidente, todos nós um dia vamos morrer.

Os favoritos da República

Os trabalhadores do Porto de Santos estão arriscadíssimos a perder o emprego: acusam o Governo (que comanda o porto, e anuncia que o prepara para a privatização) de liquidar empregos, dando prioridade ao agronegócio. Só que São Paulo é o maior polo industrial do Brasil e há outros portos que podem atender melhor ao agronegócio. De qualquer forma, trocar produtos que utilizam contêineres por granéis e fertilizantes é só um dos objetivos da reforma: outro é abrir espaço para a Rumo, empresa ferroviária do grupo Ometto, sem que o grupo tenha necessidade de comprar terreno. Outra é permitir que produtos potencialmente perigosos – por exemplo, gás natural, comprimido até ocupar 1/10.000 do volume original – operem pertinho de Santos, uma grande cidade. Pode ocorrer um acidente? É torcer para que não.

O mesmo dono

A propósito, a empresa que opera gás natural altamente comprimido pertence também o grupo Ometto, o mesmo da ferroviária Rumo e de distribuição de combustíveis. Para que o terreno seja entregue bonitinho ao grupo, o Governo anuncia que não vai renovar a concessão, já aprovada em todos os escalões técnicos, de uma empresa de armazenamento alfandegado de contêineres, que gera dois mil empregos diretos e quatro mil indiretos.

Hora tucana

A Procuradoria-Geral da República denunciou o deputado federal Aécio Neves, do PSDB mineiro, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O então governador de Minas (que teria recebido, entre 2008 e 2011, R$ 65 milhões em propinas da empreiteiras Odebrecht e Andrade Gutierrez) foi eleito senador, e mais tarde perdeu a Presidência para Dilma Rousseff.

Aécio foi citado na delação premiada de Marcelo Odebrecht, o Príncipe dos Empreiteiros, que passou dois anos na prisão. Outra investigação sobre um ex-governador tucano, Geraldo Alckmin, foi arquivada – a Procuradoria concluiu que não havia motivo algum para denunciá-lo. 

COMENTEcarlos@brickmann.com.br

Twitter@CarlosBrickmann

Balança mas ainda não cai

Postado em: - Atualizado em:

Esperteza, quando é muita, vira bicho e come o esperto. Bolsonaro achou que era esperto ao levar para seu Governo o popularíssimo juiz Sergio Moro, odiado pelo PT. Tinha certeza de que Moro aceitaria qualquer ordem, já que seu sonho era ir para o Supremo. Moro achou que era esperto ao desafiar o presidente. Tinha certeza de que Bolsonaro não o demitiria, por temer reação popular e para não acirrar os ânimos dos federais que investigam seus filhos.

Ambos foram devorados. Bolsonaro esqueceu que Moro, experiente nos tribunais, certamente estaria colecionando documentos e gravações de sua passagem pelo Governo. Moro esqueceu que, embora popularíssimo, terá de passar dois anos ao sol e ao sereno, sua lembrança se esvaindo, para só então disputar a Presidência. Que mais pode querer, a essa altura? Quem ousará apadrinhá-lo, sabendo de seu hábito de colecionar documentos e gravações?

Com a entrada do Supremo no jogo, Moro poderá até derrubar Bolsonaro – mas sem ganhar nada com isso. E mesmo tendo apanhado o presidente no contrapé, balançando, derrubá-lo não é simples. Bolsonaro até que faz força para cair, criando uma crise após outra; mas não é à-toa que, com uns trinta pedidos de impeachment, Rodrigo Maia não mandou nenhum para a frente. Impeachment exige não apenas um crime de responsabilidade (e maioria no Congresso), mas principalmente condições políticas.

Bolsonaro já não é tão forte, mas tem um terço do eleitorado. Pode cair, mas precisará se esforçar.

 As pedras no caminho

Há mais problemas sérios para Bolsonaro enfrentar. A Polícia investiga seu filho Flávio, hoje senador, no caso Queiroz. Funcionários de Flávio na Assembleia entregavam a Queiroz parte do salário, que, suspeita-se, iria para Flávio. Há investigações sobre notícias falsas (em “português”, fake news), que parecem estar próximas de dois de seus outros filhos, Carlos e Eduardo. Mas o presidente não pode ser responsabilizado por problemas dos filhos. Seria preciso provar que participou dos fatos, ou se beneficiou, ou os acobertou.

 O Satânico Dr. Go

Um dos principais estrategistas do regime militar, o general Golbery do Couto e Silva, hoje notaria que todos os Estados banhados pelo mar, menos um – o Paraná – estão na oposição. Ao romper com o presidente, Ronaldo Caiado, de Goiás, deixou-o ilhado em Brasília. A aliança dos governadores contra ele é mais séria que a posição do Congresso ou do Supremo, e o deixa instável. Bolsonaro conseguiu trazer de volta a Política dos Governadores, parada desde a campanha pelas diretas. E a trouxe contra ele.

 Hora e lugar

O ministro Celso de Mello ordenou à Procuradoria Geral da República que investigue as acusações de Moro a Bolsonaro (e, caso sejam falsas, de Bolsonaro contra Moro, por denunciação caluniosa). Foram denúncias pesadas e, como se viu, Moro andou colecionando documentos. Mas há um problema, apontado pelo ministro Gilmar Mendes: o prazo. Em novembro, Celso de Mello se aposenta por idade. O presidente indica o substituto, que herda seus processos. Bolsonaro indicou o perfil que escolherá: o de alguém “terrivelmente evangélico”.

E, ao mesmo tempo, terrivelmente bolsonarista.

 Repetindo a história

Celso de Mello votou contra Sarney, que o nomeou (e por isso o ministro da Justiça, Saulo Ramos, rompeu com ele), Luiz Fux prometeu “matar no peito” o processo contra José Dirceu (e Dirceu acreditou!), oito dos onze ministros do Supremo foram indicados por Lula e Dilma (e a cúpula do PT acabou na prisão). Quando alguém chega a um cargo vitalício bem pago, com garantia total para sua independência, fica independente que só vendo.

 Acredite se puder

O canadense Grant Peterson, ex-policial, casado com uma brasileira, escreve livros policiais no estilo de Richard Prather, criador do detetive Shell Scott: seus personagens são conservadores, duros, adeptos da manutenção da ordem a qualquer preço. Peterson mandou dois livros, cuja história se passa no Brasil, para a Fonte Editorial, que os traduziria e lançaria aqui: Southern Cross Back in Slowly. Na tradução, os livros foram modificados e viraram petistas. Peterson está processando a Fonte Editorial.

Num dos livros, um personagem, “o senador Buscetti, do PMDB”, tenta “derrubar Dilma por corrupção”. Na tradução, Buscetti “estavam tentando derrubar Dilma do poder por uma invenção da mídia golpista brasileira”. E são denunciados por boa parte da opinião pública pelo “grande crime que destruiu a democracia inclusiva e participativa brasileira, que estava sendo construída no governo do Partido dos Trabalhadores (…)”. No original, “não parece que o PT vá sobreviver à Lava Jato”. Na tradução, o PT é “o maior partido popular da América Latina e quiçá do mundo”.

Eduardo de Proença, editor da Fonte, diz que o tradutor Daniel Costa foi dispensado. Costa acha que melhorou o livro, tornando-o “mais isento”.

COMENTE:
carlos@brickmann.com.br
Twitter: 
@CarlosBrickmann
www.brickmann.com.br

​É uma brasa, o Moro

Postado em:

Nos tempos da Internet a manivela, um empresário me convidou para ser diretor-adjunto; uma das minhas funções seria vigiar o meu chefe. Explicou: “Ele me rouba”. OK, e por que não o demite? “Não posso. Ele sabe muito”.

Bolsonaro queria livrar-se de Moro desde que descobriu que o ministro não podia, nem queria, intrometer-se nas investigações da Polícia Federal. E por que o levou a sair agora, mesmo tendo noção de que Moro sabe muito? O ótimo portal Consultor Jurídico, baseado em informações de um colunista com três prêmios Esso, informa que o inquérito da Federal sobre notícias falsas chegou ao Gabinete do Ódio – e, portanto, a Carluxo, um dos filhos de Bolsonaro. A mesma investigação apura quem organizou a manifestação pró-golpe a que Bolsonaro compareceu – há suspeitas sobre dois dos filhos do presidente, Carluxo, o 02, e Eduardo, o 03. Entre o governo e a família, Bolsonaro escolheu a família. E corre o sério risco de perder o governo.

O ministro Celso de Mello, decano do Supremo, deu dez dias de prazo ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, para apresentar informações sobre um dos pedidos de impeachment do presidente. Maia tinha deixado o pedido na gaveta, confiando na tradição do STF de não intervir nesses casos. Mas a tradição mudou: ele terá de agir. Bolsonaro, quem diria, nas mãos de Maia!

Impeachment precisa ter base jurídica, mas é ato político. Sem Moro, os grupos pró-impeachment ganham mais base política. E o vice é um general.

Os tiros de lado a lado

Moro bateu duro na entrevista em que anunciou sua demissão. Acusou o presidente de pelo menos cinco crimes. Em quatro das denúncias, só será possível provar o que diz se tiver gravado as conversas – o que seria desleal, mas no campo da política é algo bem disseminado. Bolsonaro, na entrevista em que apresentou a história como ele a viu, narrou seu relacionamento com Moro de maneira diferente, em que esses crimes não aparecem. E, o que é importante, pediu a Augusto Aras, procurador-geral da República, que apure as acusações de Moro. É uma atitude forte, de quem acha que tem razão.

Quem é o mentiroso?

O pedido ao Ministério Público para que investigue as denúncias de Moro tem importância, já que atribuir falsamente a alguém a prática de crime é também um crime. Mas há uma acusação de Moro que pode ser comprovada ou desmentida: a de que sua assinatura foi colocada na demissão do delegado Maurício Valeixo sem que ele a tenha assinado. Se a assinatura foi colocada no documento sem que ele o soubesse, o responsável pode responder por falsidade ideológica, crime previsto no artigo 299 do Código Penal. Uma boa investigação pode determinar quem é o mentiroso e quem fala a verdade.

Velhas histórias

De Jair Bolsonaro em novembro de 2018, em entrevista à Rede Record, sobre o convite a Sérgio Moro: “Eu não vou interferir em absolutamente nada que venha a ocorrer dentro da Justiça no tocante a esse combate à corrupção. Mesmo que viesse a mexer com alguém da minha família no futuro. Não importa. Eu disse a ele: é liberdade total para trabalhar pelo Brasil”.

Histórias velhas

Uma das declarações de Moro, em sua entrevista de demissão, é estranha: disse que, quando convidado, pediu a Bolsonaro apenas que lhe garantisse uma pensão para a família, caso morresse no combate ao crime. Em que lei estaria baseado para fazer o pedido? Por que para ele (embora, pelo mundo, muita gente que se destacou no combate ao crime tenha sido assassinada) e não para Paulo Guedes, cujas decisões poderiam fazer com que milionários ficassem menos ou mais milionários? Moro não avançou no tema. E deveria.

The day after

Sérgio Moro já não é juiz, deixou de ser ministro. Estará interessado em se envolver na política, disputando, digamos, a Presidência da República? A deputada Joice Hasselmann, do PSL paulista, que rompeu com Bolsonaro, já lançou sua candidatura. O problema é que é muito cedo: Moro é hoje muito popular, mas daqui até as eleições terá de ficar ao sol e ao sereno. E, como candidato, na faixa de centro-esquerda até a centro-direita, terá adversários fortes além de Bolsonaro: João Dória, por exemplo, que pretende ocupar o mesmo campo político em 2022. O pessoal mais à esquerda não se sentirá à vontade para apoiar o candidato que, como juiz, não só revelou a corrupção dos governos petistas como ousou condenar Lula (e, com suas delações premiadas, demolir o relacionamento entre empresários corruptos e políticos corruptores, ou vice-versa). Terá como adversário, também, quem condena o estreito relacionamento – aliás, ilegal – entre juiz e Ministério Público. Terá jogo de cintura para evitar que esses adversários tomem seus votos?

Que pretende?

Moro deixou abertas todas as opções. Pode também advogar e palestrar. Ou esperar: se por acaso Mourão chegar lá, iria buscá-lo? Ele voltaria?

COMENTEcarlos@brickmann.com.br

Twitter@CarlosBrickmann