​O preço do crime

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É provável que não houvesse alternativa à intervenção federal: Pezão, o governador, já havia demonstrado sua incapacidade para combater os narcotraficantes e a tragédia da insegurança no Rio tornava-se intolerável. Mas o presidente Temer mostrou que até quando faz o certo o faz de modo errado. A improvisação foi tamanha que até agora não se sabe de onde vai sair o dinheiro para pagar as despesas da intervenção – o que inclui desde a alimentação dos soldados até o custo operacional. O comandante do Exército, general Villas Bôas, quis saber de onde sairia a verba; o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, disse que não é mágico e que o dinheiro da intervenção terá de sair do corte de outras despesas. Mas como saber quanto será necessário, se o interventor, general Braga Netto, ainda não apresentou seu plano? Braga Netto foi apanhado de surpresa pela escolha, e só a aceitou porque, militar de brio, não rejeita missão. Mas o secretário da Segurança do Rio pediu demissão e Braga Netto não tinha o substituto.

A reforma da Previdência daria fôlego aos cofres oficiais, mas a própria intervenção impede que reformas sejam implantadas em sua vigência. E há desentendimentos: o Conselho Nacional de Direitos Humanos manifestou seu repúdio à intervenção. Tudo bem – se o Conselho não fizesse parte do Governo. O problema, portanto, não é concordar ou não com a intervenção: é saber que, mantida essa bagunça, não há nada que possa dar certo.

Velhos tempos...

A crise no Rio vem de longe, de muitos anos; o Rio esteve sob controle dos bicheiros, dos narcotraficantes, dos milicianos. Os bandidos, de certa forma, supriam a ausência do Governo: levavam doentes para hospitais, às vezes conseguiam remédios para os moradores, tudo em troca da submissão total. Nas eleições presidenciais de 1989, só Brizola podia livremente fazer sua campanha. Os outros candidatos, para entrar no Rio, precisavam acertar uma aliança com algum bicheiro de porte – e certamente não era de graça. O Correio atende no máximo à metade da população. A outra metade está em áreas perigosas demais. Só que isso tudo era conhecido e, mesmo sem a erupção de crimes dos últimos dias, já exigia ações bem planejadas. Não é só jogar o fardo para que os militares carreguem. Por que a improvisação?

...velhos dias

Há quem diga que Temer, sabendo que a reforma da Previdência seria rejeitada, armou um factóide para mascarar a derrota. Há quem diga que Temer, com a popularidade no chão, decidiu encarnar-se no herói que luta contra bandidos. Pode ser: ninguém jamais perdeu dinheiro ao apostar no caráter vacilante de um político. Mas por que não armar tudo direitinho? 

Os sujos e os mal-amados

Talvez haja um certo constrangimento no combate ao crime no Rio. Pois não é que no Conselho da República, convocado a aprovar a intervenção, há 16 conselheiros, dos quais nove sendo investigados no Supremo? São o próprio Temer, o presidente do Senado, Eunício Oliveira, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, o secretário-geral da Presidência, Moreira Franco, o líder do Governo no Senado, Romero Jucá, o líder do Governo na Câmara, Aguinaldo Ribeiro, o chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, o líder do Governo no Congresso, André Moura, e o líder da Minoria na Câmara, José Guimarães. No Governo, na oposição, na linha sucessória, quantos!

A minoria

Não estão sendo investigados os ministros da Fazenda, Henrique Meirelles, da Justiça, Torquato Jardim, do Planejamento, Dyogo Oliveira, Carlos Marun (Governo); os deputados Raymundo Lira, líder da Maioria no Senado, Humberto Costa, líder da Minoria no Senado, e Lelo Coimbra, líder da Maioria na Câmara. Os investigados são maioria absoluta.

Tudo paradinho

Com a intervenção no Rio, não é apenas a reforma da Previdência que para de andar. Há mais 536 emendas constitucionais – que, como estavam mesmo paradas, não chamam a atenção. Uma delas, do então deputado Clodovil, é a que reduz o número de deputados e senadores. Por isso parou.

Ódio é ódio

A mãe do prefeito carioca Marcelo Crivella, idosa, doente, foi tratada num hospital público do Rio. Os adversários do prefeito protestam: afinal, ela ocupa a vaga que poderia ser ocupada por um pobre. A briga política é muito feia: se a senhora tivesse sido internada num hospital particular, seria criticada por não confiar num hospital público. Em resumo, não há saída.

Sim, sim, pois é, né?

O presidente impichado Fernando Collor confirmou, no Senado, que sai candidato à Presidência da República. Suas virtudes, segundo o discurso: “Moderação, equilíbrio, maturidade”. Sua posição: “centro democrático, ao mesmo tempo progressista e liberal”. Simples – mas que é que quer dizer?

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​Os inimigos, sempre fiéis

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Os amigos, mesmo os melhores, nem sempre percebem quando deles precisamos. Os inimigos são mais fiéis: pode-se confiar em seu ódio.

O PSDB, principal adversário do PT, ainda está em processo de escolha de candidatos. Não conseguiu até agora definir quais seus melhores nomes. Os adversários já escolheram os eventuais candidatos tucanos com maior potencial de voto e desde já concentraram neles seu poder de fogo. A julgar pela violência e constância dos ataques, são João Dória Jr. e Luciano Huck.

O termo “adversários” não indica apenas PT e conexos, como o PSOL: indica também os tucanos fiéis ao governador (e pré-candidato) Geraldo Alckmin e conexos, como o ministro Kassab (PSD) e sua UGT, União Geral dos Trabalhadores. A campanha vem de vários lados, mas o mote é sempre o mesmo: marcar tanto Huck quanto Dória como engomadinhos (o que não é, convenhamos, tão difícil) e inimigos dos pobres - Huck porque, em seu programa de TV, reforma de graça casas populares em mau estado, em vez de resolver de vez o problema habitacional do país, e Dória porque promove encontros de empresários aos quais só comparecem empresários.

Os demais tucanos são poupados – mesmo o prefeito de Manaus, Artur Virgílio, adversário oficial de Alckmin – com uma só exceção: Fernando Henrique, por dizer que Huck é uma boa novidade na política. A campanha eleitoral ainda não começou, mas todos já estão em plena campanha.

Os preferidos

Alckmin é candidato à Presidência. Seu candidato favorito ao Governo paulista é o vice Márcio França, do PSB (que levaria o apoio dos socialistas a Alckmin); e Dória é seu candidato a ficar na Prefeitura, e olhe lá. Os adversários de Alckmin articulam Dória para o Governo, Huck para a Presidência e Márcio França para o Senado. Alckmin tentaria a outra vaga – jogo duro, contra Eduardo Suplicy pelo PT e Marta Suplicy pelo PMDB.

Os inimigos amigos

Alckmin sempre foi adversário de Kassab. Kassab apoiou Serra, foi seu vice e, pelo acordo, seria seu candidato à sucessão. Alckmin atravessou e foi candidato, apenas para tomar uma surra de Kassab. Agora, Kassab está com Alckmin. Serra pensou em sair para a Presidência, não teve condições, mas gostaria de vingar-se de Alckmin, que queimou seu candidato Andréa Matarazzo e lançou Dória para a Prefeitura. Pode, discretamente, dar apoio a Dória, de quem era adversário. E, por que não, a Huck, com quem se dá?

Palpitando

Depois de ler um livro sobre Donald Trump em que o autor descreve, palavra por palavra, diálogos privados entre o presidente e algum assessor, em que nenhum dos dois lhe deu entrevista, e transcreveu entre aspas os mais íntimos pensamentos dos protagonistas, este colunista resolveu também dar palpite, com a vantagem de admitir que não passa de palpite. O candidato do PSDB à Presidência deve ser Alckmin, Dória tenta o Governo e Márcio França disputa o Senado ao lado de Aloysio Nunes. Puro palpite. Este colunista não sabe se são os melhores nomes para disputar, nem opina sobre seu desempenho se eleitos. Só acha que serão esses os candidatos.

Volta por cima

Este Carnaval trouxe de volta uma grande tradição brasileira: a crítica. O Carnaval paulista, que enfim se transformou em festa importante, a maior do país em número de participantes, ignorou uma tradição, a dos sambas e marchas, e foi de música latino-americana, com Sidney Magal, a funk e a pancadão; mas a tradição crítica se impôs, como no Rio, em Salvador, em Olinda e Recife. Paulada em todo mundo, em geral com bom humor. O Carnaval velho, aprisionado nas masmorras de sambódromos oficiais, morreu. Viva o Carnaval de sempre, que voltou crítico, alegre e gostoso!

Solução simples...

Decidido (tanto quanto uma decisão possa ser estável no Bonito por Natureza): o Carnaval do Crime, no Rio, convenceu o presidente Temer a criar o Ministério da Segurança Pública. Ao que tudo indica, a nova pasta será criada ainda neste mês, substituindo algum outro ministério inútil.

...que não resolve

Até agora, não há Ministério da Segurança, mas todos os Estados têm as Secretarias da Segurança – que vêm perdendo a guerra. E, se o problema fosse criar ministério, não se pode esquecer que o Brasil tem Ministério da Justiça, Ministério da Educação, Ministério da Saúde e Ministério do Planejamento. O Ministério da Marinha da Bolívia (Armada Boliviana) consome mais de 10% de seu orçamento militar. A Bolívia só não tem mar.

Que tudo se realize

Do jornalista Cláudio Humberto (www.diariodopoder.com.br), esta excelente sugestão: como o ano só começa depois do Carnaval, fica instituída a meia-noite desta quarta-feira, dia 14, como o réveillon de 2018.

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​Pois é Carnaval

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Nosso orçamento teve buraco superior a R$ 100 bilhões no ano passado e repete o rombo neste ano. A falta de dinheiro é tamanha que a Polícia do Rio, na hora em que sua atuação é mais necessária, não tem como fazer nem a manutenção das viaturas. Faltam remédios nos hospitais públicos. Faltou dinheiro para um estoque decente de vacinas contra a febre amarela, quando há anos se sabia que o mosquito transmissor tinha voltado ao país.

Economia, pois! O Governo joga pesado para reformar a Previdência e economizar nas aposentadorias – se não reformar, diz, o Brasil quebra.

Mas, na hora de dar exemplo de economia, Temer pega mulher e filho e vai passar o Carnaval na Marambaia, Estado do Rio, levando 40 serviçais. Não deixa de ser uma economia: inicialmente, tinha decidido levar 60. Ele poderia ficar no Palácio do Jaburu, onde mora, confortabilíssimo, luxuoso, espaçoso, com equipe de serviçais montada, cozinheiros habilitados a fazer seus pratos preferidos, sejam quais forem. Mas queria botar os pés na areia.

Ganha a gravação de um discurso de Temer quem já tiver visto Sua Excelência de short, e camiseta sem gravata, desfrutando a delícia da praia, traçando lulas recém-capturadas, regadas a gasosa (que é como deve se referir a refrigerantes). Com o seu próprio dinheiro, aí não. Com o nosso, sim – ele, família e comitiva. Como sua casinha na Marambaia é uma base da Marinha, os militares (sem verba) que se virem para cuidar da hotelaria.

Opinião filial

Luciana, filha de casamento anterior, defende a honorabilidade de Temer: “Conheço o pai que tenho e sei os limites éticos dele”.

Luciana Temer sabe. E todos nós sabemos.

Os visitantes

Talvez Temer tenha optado por viajar no Carnaval devido às aparições no Palácio do Jaburu. Há pouco tempo quem baixou lá foi Joesley. Nesta quinta, quem surgiu no palácio foi Valdemar Costa Neto, grão-cacique do PR, ex-presidiário condenado no processo do Mensalão. É arriscado ficar por lá recebendo essas criaturas: Joesley sozinho armou enorme escândalo, e Valdemar tem a sombra da ex-mulher Maria Christina Caldeira, que diz ter entregado ao Governo americano provas de que Lula depositou diamantes em bancos do Uruguai e Portugal. Mas o fato é que, se os referidos viventes lá aparecem, só entram porque lhes abrem as portas.

Levanta-te e recebe!

Eduardo Pereira da Silva, servidor do Tribunal de Justiça da Bahia, acaba de ser transferido para Ituberá, também na Bahia, por ato do presidente do TJ, desembargador Gesivaldo Brito. Mas não se sabe quando tomará posse: isso depende de eventos improváveis, já que Silva faleceu em novembro último, mais de dois meses antes de sua transferência. Diz o tribunal que o equívoco ocorreu porque os sistemas de Recursos Humanos e do Administrativo não estão interligados.

O número e o fato

A taxa de juros Selic, paga pelo Governo brasileiro quando toma seus empréstimos, está no menor índice da História: 6,75% ao ano. Pena que, na vida real, os bancos cobrem essa mesma taxa, mas por quinzena.

Uma gente que não se vê

Três deputados federais estão presos: Celso Jacob, Paulo Maluf e João Rodrigues. Todos continuam sendo deputados federais, recebendo salários, recebendo os penduricalhos (mais que o dobro do salário), mantendo todos os funcionários do gabinete. Como exercer o mandato estando na cadeia? Com o seu dinheiro, caro leitor. Na Câmara não acham isso nada estranho.

Os recados

O deputado João Rodrigues, já condenado em segunda instância e tendo direito a novos recursos, foi preso por ordem do Supremo. Luís Eduardo de Oliveira e Silva, irmão de José Dirceu, condenado em segunda instância e com direito a novos recursos, recebeu do Suprem ordem de prisão imediata. Lula já foi condenado em segunda instância. Os sinais do futuro são claros.

A reação

Na Frente Brasil Popular, grupo de partidos e organizações de esquerda, há quem pense em levar uma multidão para a frente do apartamento de Lula para impedir que a Polícia possa entrar para prendê-lo. Pode ser – mas até agora as manifestações pró-Lula não têm reunido tanta gente assim.

A vida real

O secretário da Segurança de São Paulo, Mágino Barbosa Filho, recebe auxílio-moradia de R$ 4.377,73 do Ministério Público, do qual se licenciou em 2015. Mágino é promotor de carreira e, ao ir para a Secretaria, optou na forma da lei pelo salário do Ministério Público, maior que o do Governo. E maior ainda com o auxílio-moradia. Mágino ganha R$ 30.000; e tem, em São Paulo, dois apartamentos, com valor registrado de R$ 1,3 milhão.

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Mundo, mundo, estranho mundo

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*Anúncio de página inteira da Odebrecht nos jornais deste domingo:

“9 das 110 maiores empresas do Brasil tiraram a nota máxima na transparência de Programa Anticorrupção. A Odebrecht é uma delas.”

Caro leitor, imagine as empresas que não estão nem entre elas.

*O novo presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, desembargador Manoel Pereira Calças, disse em seu discurso de posse que devemos cuidar da ética na sociedade. “A ética a ser observada nas três esferas de Poder passa a constituir a pedra angular e perene, precisa ser impressa na mente de nossa juventude”. Fora do discurso, em entrevista, Calças defendeu o auxílio-moradia para juízes que já têm onde morar, inclusive ele mesmo – que, segundo disse, possui mais de um imóvel – e acha que é pequeno.

*Depois de 45 dias de férias (calma, caro leitor: não imagine que Nossas Excelências vão morrer de tanto trabalhar. Em julho há folga de mais 30 dias, e depois disso vêm as férias informais, o “recesso branco”, para que possam se dedicar à campanha eleitoral), o Congresso retomou as atividades. Mas sem exageros: dos 513 deputados, compareceram 65. O trabalho normal só recomeça depois do Carnaval, no dia 20, ou talvez 21.

*A bancada de apoio a Temer, aquela que ganhou cargos e ministérios, tem 346 deputados. A reforma da Previdência precisa de 308, mas ninguém tem certeza da aprovação. Talvez haja quem queira algo mais para votar.

A contagem

Os comandantes da luta pela reforma calculam ter entre 250 e 270 votos. Esperam conseguir os restantes com apoio de governadores aliados, hoje alheios ao problema, mas que talvez se mexam em troca de bons acordos.

Lula lá

Encerrados, em mais um ou dois meses, os recursos possíveis no TRF-4, que condenou Lula em segunda instância, o ex-presidente poderá ser preso?

No Brasil é difícil prever até o passado, quanto mais o futuro. Mas o Supremo determinou ontem a prisão imediata do deputado federal João Rodrigues (PSD-Santa Catarina), condenado em segunda instância. É caso igual ao de Lula, condenado em primeira instância, e que teve a sentença confirmada, com pena maior, em segunda instância, também no TRF-4.

Como era, como é

Até 2017, um condenado só podia ser preso depois de derrotado em todos os recursos. Em outubro, o Supremo decidiu que condenados em segunda instância poderiam ser presos, mesmo podendo ainda apelar. A decisão foi tomada por pequena maioria, 6x5; e havia a possibilidade de que essa maioria fosse revertida. O caso de João Rodrigues mostra que essa maioria manteve o entendimento. E isso pode atingir o ex-presidente Lula.

Normal e anormal

Este colunista jamais trabalhou para governos; o sistema de reembolsos a que está acostumado é o de empresas privadas. Quando um repórter viaja a serviço, é reembolsado por diárias (seu limite de gastos: se gastar menos guarda o excedente, se gastar mais fica com o prejuízo) ou na prestação de contas, de acordo com as notas fiscais e relatórios de despesas. Caso seja transferido de cidade, o habitual é que se combine um prazo para que ele se estabeleça. Nesse prazo recebe hospedagem (ou aluguel), e refeições. Pagar moradia a quem já tem onde morar é coisa típica da burocracia estatal.

Intermináaavel

A discussão sobre auxílio-moradia já devia ter acabado faz tempo, desde o primeiro governo de Lula. Em 2005, Lula enviou ao Congresso o plano de reestruturação de carreira dos magistrados. Acabava com a gambiarra do auxílio-moradia (na época, R$ 12 mil), a não ser em caso de transferência para lugares distantes. Em troca, havia um belo aumento de salários, mais a reestruturação da carreira. A ótima jornalista Helena Chagas acompanhou o processo e lembra que a questão só ressurgiu em 2014, quando o ministro Luiz Fux estendeu o auxílio a todos os magistrados, dele precisassem ou não. A despesa do Tesouro com esse item é de R$ 9 bilhões por ano.

Coisa de bárbaros

A Justiça Federal autorizou a exportação de animais vivos para abate no Exterior. É a lei; mas é uma barbaridade, em termos humanitários, e uma besteira, em termos econômicos. A Minerva Foods está exportando 25 mil bois vivos para abate na Turquia. Não há como transportar tantos bois em boas condições. E, em termos econômicos, o correto seria abatê-los no Brasil, agregando valor à carne e economizando no transporte. Por que exportar matéria-prima e não produtos processados? O argumento de que a islâmica Turquia quer abatê-los de acordo com o ritual religioso não se sustenta: o Brasil pode efetuar o correto abate hallal, fiscalizado por clérigos muçulmanos. Durante anos o Brasil exportou frangos abatidos de acordo com o ritual para a rigorosíssima Arábia Saudita. Terá esquecido?

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​Vamos trocar de sobrenome

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Um grande artista, Vicente Leporace (de Franca, como este colunista), assinava seu programa na Rádio Bandeirantes como “Vicente Leporace Furtado”. Achava com razão que todo brasileiro deveria usar o sobrenome.

Uma queixa comum contra as tímidas tentativas de reformas é que, se gastássemos menos com os políticos, haveria dinheiro para aposentadorias, saúde, educação, segurança. Não é bem assim: o rombo é mais em cima. Mas dói saber que, enquanto Estados atrasam o salário dos funcionários, enquanto não há dinheiro para manter os hospitais em boas condições de uso, enquanto faltam verbas para equipar direito a Polícia, há juízes – que têm vencimentos próximos de R$ 30 mil mensais – que dão um jeito de receber até mais de R$ 100 mil, fora carro e motoristas; que todos os parlamentares federais multiplicam seus salários com penduricalhos vários, incluindo assessores que lhes prestam serviços privados; que o presidente da República tem um palácio para trabalhar, o Planalto, dois para morar, o Alvorada e a Granja do Torto, e habita um terceiro, o Jaburu. Cortar essas despesas inúteis não resolve os problemas nacionais. Mas dá o exemplo: que sente um cidadão ao ver que um juiz, já bem pago, com vencimentos superiores ao teto constitucional, briga para ganhar auxílio-moradia em dobro, considerando que sua mulher já o recebe? Com que moral vai ficar?

Assinado, Carlos Brickmann Furtado

Gastando em anúncios

O Governo não dá o exemplo, Congresso não dá o exemplo, o Judiciário não dá o exemplo, e tentam ganhar apoio a reformas gastando mais em propaganda. Como esta, baseada na publicidade dos postos Ipiranga:

Mulher: “Amigo, sabe onde eu encontro gente se aposentando com salário de 30 mil reais?

Homem: Uai, é lá no Posto da Previdência.

Mulher: E onde eu encontro aposentado com 50 anos?

Homem: Posto da Previdência.

Mulher: E onde eu encontro muita gente trabalhando muito para pagar esses privilégios de poucos?

Homem: Posto da Previdência.

Mulher: E onde eu encontro uma Previdência justa, com todos trabalhando igual e recebendo igual?

Homem: Ah, aí é só com a reforma da Previdência, uai!”

O caro leitor se convence com este anúncio? Mesmo tendo lido na coluna anterior, do dia 31 de janeiro, que um técnico em Administração do Tribunal de Justiça da Bahia se aposentou com quase R$ 50 mil mensais?

O gato comeu

Quando Brasília foi construída, não havia muitas moradias disponíveis. A Câmara e o Senado resolveram, então, criar as moradias funcionais, para parlamentares. Isso aconteceu no início da década de 1960. Hoje, 58 anos depois, Brasília tem residências para todos, tem hotéis de todas as categorias, mas as moradias funcionais não só continuam existindo como se espalharam pela estrutura administrativa, apesar da despesa que geram, em custos diretos e manutenção. É daquelas pragas que sempre sobrevivem, como dar aos parlamentares uma cota de selos. Hoje, quem precisa disso?

Onde está o dinheiro

O auxílio-moradia para juízes surgiu para os que são transferidos de cidade e ficam sem ter onde morar. Aí surgiram as reivindicações, houve as liminares, e hoje o juiz que trabalha na sua comarca, mesmo que tenha uma bela casa ao lado do Fórum, recebe R$ 4.253,00 (se o cônjuge for juiz, a ajuda vem em dobro, embora morem na mesma casa). Segundo a ONG Contas Abertas, essas liminares já custaram ao país uns R$ 4,5 bilhões.

Um caminho

Nem juízes nem parlamentares são obrigados a receber ajudas. Mas dos 513 deputados, só 26 renunciaram aos penduricalhos. Os juízes lutam pela ajuda, organizadamente: a Ajufe, Associação dos Juízes Federais, está mobilizada. É provável que a questão seja julgada no STF em março.

        Fato é fato

A feroz artilharia da falsificação de notícias não admite que não havia reunião da FAO marcada para janeiro, em Adis Abeba, Etiópia, e à qual Lula teria sido convidado. É só conferir o site oficial da FAO: http://www.fao.org/brasil/noticias/detail-events/en/c/1099176/ O que aconteceu foi uma reunião entre a ONU e a União Africana, na qual havia também funcionários ligados à FAO. O tema era o combate à corrupção. Convidar Lula citando a FAO era mais palatável.

Dúvida

Amanhã, atenção em Curitiba: o juiz Sérgio Moro interroga os empreiteiros que pagaram a reforma do sítio de Atibaia que não é de Lula.

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​A Pátria em que vivemos

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*Lula tinha avisado há tempos que, no dia seguinte ao do julgamento de sua apelação no TRF-4, viajaria para Adis Abeba, na Etiópia, a convite da FAO, para reunião internacional sobre fome. Só não foi porque lhe tiraram o passaporte. A FAO, entidade da ONU, é dirigida por José Graziano, que foi ministro de Lula. E não tinha reunião alguma marcada para a Etiópia. Veja em www.fao.org/about/meetings/regional-conferences/en: a reunião é no fim de fevereiro, em Cartum, Sudão. Um engano, claro: se a Etiópia não tem acordo de extradição com o Brasil, que tem isso a ver com as calças?

*O ótimo site jurídico gaúcho Espaço Vital (www.espacovital.com.br) diz que a Petrobras, em leilão internacional, vendeu por US$ 38,5 milhões duas plataformas marítimas, P59 e P60. Ambas estavam paradas, só dando despesas. Mas uma única plataforma nova custa US$ 130 milhões. E pensar que a Petrobras pagou US$ 720 milhões por ambas, em 2012! Comprou-as do consórcio Paraguaçu, formado por Odebrecht, Queiroz Galvão e UTC.

*Dilma, então presidente, foi ao lançamento da P59, na Bahia. Fez um discurso com elogios ao presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, “o grande gestor que propiciou a construção dessa plataforma”. Elogiou ainda o diretor Renato Duque, que em 2017 seria condenado a dez anos de prisão.

*Stedile, do MST, e Boulos, do MTST, ameaçaram impedir a prisão de Lula, se for decretada. Pode isso, Arnaldo? Não pode. Mas até agora pôde.

Voa, dinheiro!

O Brasil vai doar R$ 792 mil ao Estado da Palestina, para restauração da Basílica da Natividade, em Belém. A Medida Provisória 819 foi assinada por Rodrigo Maia, presidente em exercício durante viagem de Temer. O Brasil é um país cristão; mas outros países mais ricos - alguns, como a Suécia, onde o cristianismo é religião de Estado - não contribuíram.

Dinheiro, voa!

André Luís Amado Simões, técnico em Administração do Tribunal de Justiça da Bahia, aposentou-se há uma semana (www.tjba.jus.br). Valor da aposentadoria: R$ 49.643,28. O teto constitucional de R$ 30.741,10 será respeitado. O interessante é que o salário de um técnico em Administração seja o mesmo de um desembargador. Ou seja, aquilo que era teto se transformou em salário-padrão. E não é só neste caso: na área federal, há inúmeros profissionais ganhando acima do teto, o rendimento mensal de ministros do Supremo. O próprio juiz Sérgio Moro, pelo menos em uma ocasião, recebeu num mês o equivalente ao triplo dos vencimentos dos ministros do STF. Tudo bem, é difícil, os beneficiados se defendem, mas que tal começar por aí a reforma da Previdência? E certos salários estatais não estariam acima do aceitável?

Tadinha!

A deputada federal Cristiane Brasil, do PTB, aquela que vai talvez não se sabe um dia desses virar ministra do Trabalho, divulgou um desastroso vídeo de defesa de suas posições. No vídeo, a deputada está num barco, em companhia de um grupo de homens sem camisa. Acabou tomando um puxão de orelha por seus maus modos. Até aí, já é ruim: uma deputada e ministra, espera-se, deve ter um comportamento público mais discreto. Mas o pior não é isso: é que quem lhe deu o puxão de orelhas foi seu padrinho politico (e pai) Roberto Jefferson, o político que denunciou o Mensalão, irritadíssimo por ter recebido menos do que o combinado com os dirigentes petistas. Cá entre nós, ter de ouvir lições de boas maneiras de um parlamentar como Roberto Jefferson... que fim de feira!

Por trás dos votos

Sempre que acompanhar o noticiário, lembre-se de que todo político tem, como primeiro objetivo, o mais importante de todos, sobreviver. Pode, eventualmente, deixar esse objetivo de lado em determinadas situações, mas não é para acostumar: esses casos são exceções. Entre os 81 senadores, 23, cujos mandatos terminam neste ano, estão sendo investigados pela Lava Jato e congêneres, e perder o foro privilegiado é um terror permanente. Alguns certamente vão desistir de tentar a reeleição, tentando manter o foro com mandato de deputado federal, mais fácil de conseguir. Outros vão correr o risco. E um deles não tem alternativa: Renan Calheiros. Seu filho é governador de Alagoas e Renan só pode concorrer ao cargo que já ocupa.

A grande lista

Estes são os 23 senadores que, se não se reelegerem nem conquistarem outros cargos, ficam no final do ano sem foro privilegiado: Romero Jucá, Eunício Oliveira, Lindbergh Farias, Humberto Costa, Renan Calheiros, Garibaldi Alves, Jáder Barbalho, Édison Lobão, Gleisi Hoffmann, Cássio Cunha Lima, Aécio Neves, Agripino Maia, Ciro Nogueira, Benedito Lira, Aloysio Nunes, Vanessa Grazziotin, Lídice da Mata, Valdir Raupp, Ivo Cassol, Ricardo Ferraço, Dalírio Beber, Eduardo Braga e Jorge Viana.

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Crepúsculo dos Deuses

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A superestrela de outra época foi esquecida, mas se acha ainda a rainha do cinema. Em sua mansão decadente, espera o grande retorno às telas, como se fosse essa a vontade do público. Na sua vida de ilusão, tem o apoio de um ex-amante, talentoso cineasta que trocou o sucesso pelo emprego de mordomo da mulher que adora; ele escreve as cartas com que ela se ilude, pedindo sua volta. O filme é Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950, direção de Billy Wilder). Nele surge um jovem William Holden, o roteirista que narra os fatos reais só depois de morto; Erich von Stroheim, o ex-amante que virou mordomo e ajuda a atriz a se imaginar um ídolo; e a monumental Gloria Swanson, ela própria a grande atriz dos filmes mudos, que não resistiu ao cinema falado. Gloria Swanson é Norma Desmond, a antiga rainha incapaz de perceber que os novos tempos a aposentaram, e o que lhe resta são as imagens do passado.

A vida imita a arte. Um astro de outros tempos, empolgante no regime militar, vitorioso na democracia, tenta se reinventar como desafiante. Só que agora não desafia acusações de subversão: enfrenta denúncias de corrupção, e quem o acusa não são generais ferozes, mas empresários que foram seus amigos, e seus amigos que viraram empresários. Tem, como tinha na ditadura, apoio internacional – mas só Venezuela, Bolívia, por aí.

No filme, Gloria Swanson vai presa. E vai feliz, de novo sob holofotes.

E agora?

A pressão da Justiça e do Ministério Público sobre Lula é crescente: o Ministério Público Federal pediu que seu passaporte fosse apreendido (e o juiz concordou) e que seus movimentos fossem restritos a São Bernardo do Campo (o que o juiz rejeitou). De qualquer forma, Lula não pode sair legalmente do Brasil. O processo que o condenou a 12 anos de prisão foi o primeiro; há mais quatro na fila. O próximo deve ser julgado no mês que vem pelo juiz Sérgio Moro: o do sítio de Atibaia. Há mais provas no sítio de que o dono é Lula do que havia no apartamento da praia, processo no qual já foi condenado. Vêm depois Petrobras, Odebrecht... é muita coisa. E já há condição legal para que a Justiça decrete, se quiser, a prisão de Lula.

Chamando pra briga

Lula foi condenado no dia 24. No dia 25, perdeu o passaporte. Mas não perdeu tempo para analisar a situação e decidir o caminho a seguir: praticamente colocou o PT fora da lei (por enquanto, isso não tem grande importância, porque Lula muitas vezes incita o radicalismo e depois diz que não foi bem compreendido). Falando à Executiva Nacional do PT, que aprovou o lançamento de sua candidatura à Presidência da República, disse que não respeitará a decisão da Justiça que o condenou; pediu aos militantes petistas que o defendam e pregou o enfrentamento político, seja lá isso o que for. Mas, pelas palavras e pelo tom, Lula quer beligerância.

O futuro

Nem todo político é igual, claro; Palocci, importante auxiliar de Lula, resistiu a pouco tempo de prisão e se ofereceu para contar tudo; Dirceu, que foi tão ou mais importante que Palocci, resistiu mais tempo e não contou nada. Mas, no geral, político tende a fugir de partidos que se esvaziam. Normal: num partido que não atraia tantos votos, o número de eleitos será obrigatoriamente menor, e o político luta em primeiro lugar pela própria sobrevivência. O afastamento de políticos dos partidos que diminuem tende a provocar maior emagrecimento partidário. E o PT está reagindo de modo desconexo às pressões contra Lula. Há parlamentares, como a presidente do partido, Gleisi Hoffmann, defendendo a ampliação do desafio do partido à Justiça. O deputado Marco Maia propôs, em outras palavras, um levante. Seu texto no twitter: “Lula não deveria entregar seu passaporte. A hora é de rebeldia. Os fascistas estão se excedendo em muito. Ultrapassando todos os limites! Ao mexerem no formigueiro terão de aguentar as formigas!”

Como?

Mas imaginemos que Lula, com uma ordem, coloque o partido na linha que considerar correta e convença quem pensa em sair do PT a ficar e lutar. Outros problemas prejudicarão o desempenho eleitoral petista. Se Lula não for preso, poderá percorrer o país, mesmo sem ser candidato, para tentar popularizar o nome do poste que indicará para disputar a eleição em seu lugar (hoje, fala-se de Jaques Wagner, governador da Bahia, e em Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, derrotado já no primeiro turno quando tentou a reeleição). Mas, se for preso, quem terá prestígio para falar em seu nome? Pior: quem convencerá os partidos nanicos da esquerda, que sempre foram braços auxiliares do PT, a aceitar papel subalterno mais uma vez?

Confusão geral

A confusão do PT é maior que a dos concorrentes. Mas nenhum partido tem até hoje estratégia definida e estrutura planejada para as eleições.

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​A hora de a cobra beber água

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É hoje –e não é hoje. Lula pode perder por 3x0, com aumento de pena, e não vai para a cadeia, nem fica imediatamente inelegível pela Lei da Ficha Limpa. Pode ganhar por 3x0, sair livre, leve, solto, e nem assim o processo estará encerrado. O perdedor pode recorrer ao próprio tribunal, ao STJ, ao Supremo; para que a Lei da Ficha Limpa seja aplicada, caso confirmada a condenação, Lula precisa pedir o registro de sua candidatura, entre 20 de julho e 15 de agosto. Neste momento, o Tribunal Superior Eleitoral a impugna. Claro, há os recursos de praxe, inclusive ao Supremo, e há quem diga que o calendário permitirá que ele faça campanha, gaste o dinheiro do fundo eleitoral público, concorra e até seja eleito. Mas só toma posse se for vitorioso nesses recursos. Cadeia é diferente: se perder hoje, no julgamento, e nos futuros recursos, o tribunal pode mandar prendê-lo, mas só se quiser.

Então, se nada será decidido, qual a importância do julgamento de hoje?

O caso é importante porque, pela primeira vez, Lula entra em risco nos processos oriundos do Mensalão, Lava Jato e Petrolão. Fora esse, o do apê na praia, há outros cinco processos; há ainda duas denúncias. É acusado 246 vezes de lavagem de dinheiro, 21 de corrupção passiva, três de formação de quadrilha, 4 de tráfico de influência, 2 de obstrução à justiça. Para quem se define como “jararaca”, chegou a hora de a cobra beber água.

Talvez superar esse duro roteiro signifique para ele a pior das punições.

Dura lei

Caso a sentença imposta a Lula pelo juiz Sérgio Moro seja confirmada, ou aumentada, seu passaporte poderá ser apreendido. Sim, é pena acessória, mas que num político habituado a viagens internacionais deve doer muito.

Plano B

Caso Lula consiga manter a candidatura por algum tempo e tenha de retirá-la, o PT poderá indicar novo candidato até 20 dias antes da eleição. O Plano B de Lula, ao que tudo indica, seria Jaques Wagner, ex-governador da Bahia, ex-chefe da Casa Civil de Dilma. Wagner, hábil e simpático, tem o hábito de se relacionar civilizadamente com os adversários. 

A lei é dura...

Este colunista não é favorável nem contrário à prisão do ex-presidente Lula. Acredita que só deveriam ir para a prisão pessoas que, se soltas, ofereceriam risco de ações violentas. Isso vale para todos: Lula, Palocci, Sérgio Cabral, Joesley e todos os demais criminosos de colarinho branco. Condenados na forma da lei, devem ser punidos com dureza, mas da maneira que lhes doa mais: confisco de bens, para repor o que foi desviado, multas punitivas, despesas de investigação, proibição de trabalhar em determinadas áreas, bloqueio de viagens internacionais, trabalhos comunitários, mais o que os especialistas julgarem oportuno elencar, Prisão, não. Quem paga impostos não tem a menor obrigação de sustentar criminosos condenados, nem de cuidar de sua saúde e segurança.

...mas é lei

Entretanto, enquanto a lei é a atual, que seja cumprida com rigor. Se Lula for absolvido, que se pare de falar do apartamento que não é dele. Se for condenado, que se apliquem as punições legais. E que os lulistas parem de gritar em coro que eleição sem Lula não é eleição, é fraude. Esse tipo de slogan assegura aos lulistas que são mais iguais do que todos. São iguais aos outros, como se sabe; mas sempre disseram que o PT seria diferente.

Nós e eles

É curioso ler os manifestos iguaizinhos redigidos por entidades ligadas ao PT. Todos, no fundo, mostram a verdade de uma frase irretocável de Millôr Fernandes, uma jóia de definição do que é política: "Democracia é quando eu mando em você. Ditadura é quando você manda em mim".

Foto-potoca

Twitter do deputado federal José Guimarães (PT-Ceará), postado na segunda-feira às 17h11: “Caravanas rumo a Porto Alegre em solidariedade a Lula”. Na foto, uma estrada lotada de ônibus, que bloqueiam toda a pista direita. Só que não: esta foto vem sendo repetida na Internet desde 2014. E a que se refere? A legenda mais antiga diz: “Comboio da muamba em Foz do Iguaçu, 04/10/2002”. Na ocasião, a Polícia Federal bloqueou centenas de ônibus de sacoleiros e revistou-os em busca de contrabando. Publicar a foto agora, como se fosse atual, para informar falsamente que caravanas de lulistas se encaminhavam em massa para Porto Alegre, mostra que a mobilização petista fracassou – tanto que foi preciso recorrer a uma foto de outro evento. Mas há uma ponta de verdade: os ônibus, em 2002, também transportavam gente que acreditava na violação da lei como modo de vida.

A frase que ninguém disse

Se o Lula for absolvido, mato ou morro. Ou me escondo no mato ou fujo pro morro.

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​O gato de Alice

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No País das Maravilhas, Alice perguntou a um gato sorridente qual o caminho a seguir para sair dali. “Depende: aonde você quer chegar?”, perguntou-lhe o gato. Alice disse que o lugar não importava muito. O gato respondeu: “Então não importa o caminho que você vai seguir”.

Sábio gato: mesmo aqui, no País das Armadilhas, como saber para onde as pessoas vão se não sabemos aonde querem chegar? A resposta é simples: querem ir aonde for melhor para eles. Mas o que é melhor para eles? Gleisi Narizinho Hoffmann, presidente do PT, diz que para Lula ser preso muita gente vai morrer – como se multidões fossem lutar para manter solto o Grande Líder. Lindbergh Faria, Lindinho, senador petista pelo Rio, diz que a esquerda precisa estar “mais preparada para o enfrentamento, para as lutas de rua”. Nenhum dos dois concordará com uma sentença contra Lula: a Justiça só existe, acreditam, se Lula for absolvido. E que acontece caso nenhum dos dois concorde com a sentença? Pois é: absolutamente nada.

Eles sabem disso. Mas aonde querem chegar? À intimidação da Justiça. Gleisi enfrenta dez processos; Lindbergh, sete. Podem ser absolvidos em todos, mas ambos parecem não acreditar nessa possibilidade. Preferem a tática da ameaça disfarçada em advertência; agem em benefício próprio, mas disfarçado em luta pela liberdade de um companheiro. Aceita a pressão, Lula será beneficiado, mas quem ganha são Narizinho e Lindinho.

Serra fora

José Serra decidiu manter-se no Senado, “cuidando dos projetos que elaborou”, e desistindo de vez de sair para o Governo ou a Presidência. Que é que Serra quer, que o leva a desistir de tentar realizar o sonho para o qual se preparou, de ser presidente da República? Não, não são seus projetos, pois várias vezes já deixou mandatos pela metade para tentar novos cargos. O que Serra quer, agora, é um pouco de anonimato, longe da máquina de moer carne que é uma campanha. Acusado por delatores, o que quer é paz.

Alckmin dentro

Fernando Henrique, o cacique-mor do PSDB, determinou: o candidato do partido será Geraldo Alckmin, Ignorou numa boa o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, que em 4 de março enfrenta Alckmin nas prévias tucanas Alckmin já tomou uma surra histórica de Lula em 2006, tendo menos votos no segundo turno do que no primeiro; não está bem situado nas pesquisas; seu inegável charme é sintetizado pelo apelido de Picolé de Chuchu; deixou de defender, quando teve oportunidade, as privatizações de Fernando Henrique – pior, vestiu uma ridícula jaqueta com símbolos de estatais, para garantir que não era privatizante. Ora, estatista por estatista, Lula é mais tradicional. E Alckmin nunca foi sócio-atleta da ala de Fernando Henrique.

Por que, então, Fernando Henrique o apoiou? Porque viu em Alckmin melhores chances de vencer ou de atrapalhar o candidato oficial (perder para Meirelles, Rodrigo Maia ou Temer seria pior do que para Lula, pois os centristas poderiam engolir os tucanos). Ruim com Alckmin, pior sem ele.

Boa troca

Enfim, uma proposta de negociação sobre a reforma da Previdência boa para a população: os parlamentares, em vez de cargos e verbas, pedem que os juros dos bancos sejam reduzidos. A inflação em 2017 foi de 2,95%; os juros básicos fecharam o ano em 7%; os juros bancários foram, em média, de 325% ao ano, no cheque especial. Os cartões chegaram a 340% ao ano. O deputado Fábio Ramalho, emedebista de Minas, diz que, baixando-se os juros bancários, haverá apoio para reduzir as regalias do setor público. Por que a proposta? Para que os candidatos à reeleição mostrem ao eleitor que há algumas barganhas no Congresso em benefício da população.

E se chama Brasil

Por que o presidente Temer insiste em nomear Cristiane Brasil para o Ministério do Trabalho, recorrendo a instância após instância judicial? O colunista Cláudio Humberto (www.diariodopoder.com.br) dá a resposta: “Falta coragem ao presidente para desconvidar Cristiane Brasil, tanto quanto para extinguir o Ministério do Trabalho, de gritante inutilidade”.

Guerra conjugal

O governador paraibano Ricardo Coutinho, do PSB, foi notificado pelo STJ em ação movida por sua ex-esposa Pâmela Bório, com base na Lei Maria da Penha. O processo corre em segredo de Justiça. Mas alguns fatos são conhecidos: Pâmela Bório responsabiliza o ex-marido por hackear seu celular, no qual, segundo se comenta, haveria fotos do casal em momentos íntimos. O relator do processo no STJ é o ministro Francisco Falcão. O processo tende a esquentar por dois motivos: primeiro, o hackeamento das fotos da bela primeira-dama; segundo, a posição política de Coutinho. Distante da linha partidária, que oscila entre candidato próprio e o apoio a Geraldo Alckmin ou a Marina Silva (Rede), o governador fecha com Lula.

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​Cadeia de equívocos

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Juristas das mais diversas tendências, estrategistas políticos, acusadores e defensores que nos perdoem, mas só falta uma semana para que o Tribunal Regional Federal examine o apelo de Lula contra sua condenação em primeira instância. O que se sabe é que as questões que importam não devem ser resolvidas. Muito barulho por nada: mesmo que, dia 24, Lula perca por unanimidade, 3x0, não será preso (quem diz é o presidente do TRF-4, desembargador Thompson Flores). E pode ser que a Lei da Ficha Limpa, segundo a qual réus condenados em segunda instância por um colegiado não podem ser candidatos, por algum motivo deixe de ser aplicada. Conforme a tendência política do jurista consultado, a lei é clara ou tem muitas brechas, abrindo campo para recursos mil. Em resumo, pode sair uma sentença com a qual ou sem a qual a eleição continua tal e qual.

Lula, sem dúvida, sai vitorioso: ao contrário do que muitos imaginavam, abre-se a possibilidade de arrastar a candidatura até a eleição, ou pelo menos perto o suficiente para que ele se apresente como vítima e lance um poste para herdar seus votos. Se for preso, melhor: vira mártir. Nem precisa atacar a Justiça, pois tem quem faça isso por ele. Como Gleisi Hoffmann, que disse que para prender Lula será preciso matar gente. Logo se desculpou, mas é o que pensa. E já se sabe que, para muitos, a Justiça só é justa quando é favorável a Lula. Teremos um ano bem quente.

O apito final

A grande esperança de Lula é levar o caso até Brasília. Por um lado, por ganhar tempo; por outro, sente-se melhor com ministros do Supremo, que já conhece, com quem teve alguma convivência, do que com o pessoal de primeira e segunda instâncias. Ao longo de treze anos de poder petista, coube-lhe, e à sucessora Dilma Rousseff, nomear sete dos atuais ministros (só Gilmar Mendes, escolhido por Fernando Henrique; Celso de Mello, por José Sarney; Marco Aurélio, por Fernando Collor; e Alexandre de Moraes, por Michel Temer, não foram indicados por eles).

Olha o candidato!

Michel Temer deve terminar seu mandato em 31 de dezembro. No dia 1° de janeiro de 2019, deixa de ter direito ao foro privilegiado. Os processos que o Congresso suspendeu voltam a andar, e o então ex-presidente estará sujeito a juízes de primeira instância, tendo de explicar a conversa com Joesley Batista, a corrida de seu amigo Rocha Loures com a mala e sabe-se mais o que. É ruim, aos 78 anos, antever essa aposentadoria.

Todas as atitudes de Temer na área política devem ser avaliadas levando em conta esse fato. Nos EUA, ao deixar o poder, Nixon combinou com o sucessor Gerald Ford que seria indultado. O indulto foi bem aceito, já que era a condição para o país voltar à vida normal. Aqui, com a radicalização em alta, quem pode garantir que o indulto será dado e validado? Se é para ficar na luta política, Temer tentará a reeleição. Nada é impossível, nem isso. Na opinião do presidente, se a economia for bem, ele pode até ganhar.

Michel Temer vem aí

Teremos um ano bem quente. E com cenas inimagináveis: amanhã, 18, Temer grava uma participação no Programa Sílvio Santos. Eles têm algo em comum (como o bordão “Quem quer dinheiro? Quem quer dinheiro?”), mas só se pode imaginar os dois juntos na TV levando em conta o esforço de Temer para elevar seus índices de popularidade. O programa com Temer vai ao ar no dia 28, mas foi preciso gravar com antecedência porque Sílvio viaja de férias já neste fim de semana. Tudo bem, Michel Temer deve ser coisa nossa, mas nem tanto que interrompa o intervalo de férias de Sílvio.

Outra saída

Há gente de boa cabeça trabalhando com outra hipótese: disputar com um candidato de centro, que tenha o apoio de Temer (dependendo das pesquisas, aberto ou discreto), e que, eleito, lhe garanta o foro privilegiado.

A tese básica desse grupo é que nenhum candidato radical terá chances de vencer a eleição – o que elimina Lula e Bolsonaro (mais os anedóticos, tipo Boulos, Maria do Rosário, Contra Burguês Vote 16 e outros). Um bom candidato de centro teria grandes chances de vencer, e nomearia Temer no dia da posse para o Itamaraty. Ele viajaria pelo mundo e manteria o foro.

Bolívia x Brasil

Evo Morales e Michel Temer trocam elogios e gentilezas, mas há um sério problema no futuro das relações entre Brasil e Bolívia. Dois altos funcionários bolivianos, o procurador-geral (na Bolívia, Fiscal-General) e o chefe de Polícia, que participaram da investigação oficial sobre a morte de três estrangeiros suspeitos de planejar o assassínio de Evo Morales, descobriram algo que ainda não querem revelar (até se sentirem em segurança) e fugiram para o Brasil, onde conseguiram refúgio. Ambos dizem que estão sendo ameaçados de morte. A Bolívia os quer de volta.

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