Bagunça fardada

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Há um ponto de coincidência entre democracias e ditaduras, entre países de todas as tendências, da extrema esquerda à extrema direita: as Forças Armadas têm de seguir a hierarquia. Quando este princípio básico deixa de ser respeitado, implanta-se a bagunça. E este princípio básico acaba de ser desrespeitado no Brasil. Quem deveria estar no comando está se omitindo.

O fato: um general da ativa, Antônio Hamilton Mourão, disse no dia 15, numa palestra em Brasília, que o Exército pode se sentir obrigado a intervir, e tem “planejamentos muito bem feitos” para isso. “Ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos de impor isto”.  E “a imposição não será fácil”.

O general deveria receber do comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, imediata ordem de prisão, por desrespeito à hierarquia. Se o comandante do Exército se omite, pode ser demitido pelo ministro da Defesa, Raul Jungman (que levou três dias para, em pífia nota oficial, dizer que há clima de disciplina nas Forças Armadas – o que agora é falso – e que chamou o comandante para explicar a fala do subordinado).  Há o comandante-chefe das Forças Armadas, que tem cara feia mas se calou: o presidente Michel Temer. Quem vai impor a ordem nas Forças Armadas?

Relembrando

Uma das causas principais da deposição do presidente João Goulart, em 1964, foi a quebra da hierarquia nas Forças Armadas, quando sargentos e cabos se rebelaram. A quebra da hierarquia fez com que oficiais favoráveis em princípio à manutenção do presidente passassem à oposição. E depois se soube que um dos principais incentivadores da quebra da hierarquia, o Cabo Anselmo, era agente provocador – que, mais tarde, faria a infiltração na guerrilha, trabalhando em sintonia com o delegado Sérgio Fleury.

Bagunça sem farda

A censura prévia é proibida pela Constituição (que também assegura a livre expressão do pensamento). A prática, porém, vem sendo outra:

*Uma exposição artística em Porto Alegre teve de parar porque seu patrocinador, o Banco Santander, se retirou, após manifestações hostis.

*Um projeto de iniciativa popular para proibir o funk está em análise no Senado. Proibir um ritmo? Aqui já se tentou proibir o samba, o maxixe e até um instrumento, o violão. Mas isso ocorria no início do século passado.

*a Justiça proibiu a exibição, no SESC de Jundiaí, SP, da peça teatral O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, na qual Cristo é transexual. O pedido de proibição diz que a peça é “atentatória à fé cristã”; o juiz que aceitou o pedido diz que, além de atentar contra a dignidade da fé cristã, “caracteriza-se como ofensa a um sem-número de pessoas”; é desrespeito “a uma pessoa venerada no mundo inteiro”, “o Filho de Deus”.

A exposição e a peça não são públicas. Vai quem quer (no caso da peça, comprando ingresso). Este colunista não iria a nenhuma das duas. Nos dois casos, podem ser de mau gosto e ofensivas. Mas induzem a agressões? Não. Enganam o público, para que veja o que não queira? Não. Então, não podemos agir como os malucos muçulmanos que assassinaram cartunistas do Charlie Hebdo, em Paris, e ameaçaram o jornal dinamarquês que publicou uma charge de Maomé. Somos diferentes deles – ou não?

Idiota? Nem sempre

O dirigente norte-coreano Kim Jung-un pode parecer bobo, mas se fosse não sobreviveria à disputa pelo poder com seus parentes – um dos quais já foi executado, e outro assassinado no Exterior. E a menção à ilha de Guam como possível alvo de suas bombas atômicas foi uma forma inteligente de mostrar conhecimento sobre forças e fraquezas americanas. Se Guam for atacada, o poderio americano na região do Oceano Pacífico sofrerá forte abalo, diz o especialista Richard Parker, em estudo para a Political Review de Arlington, EUA (http://wp.me/p6GVg3-3TL). Vale ler.

Jogo de soma zero

De Fernando Albrecht (http://fernandoalbrecht.blog.br/), ótimo colunista gaúcho: “Vocês devem conhecer a história de um vilarejo em que todos deviam R$ 100,00 para um amigo ou conhecido. É um exercício de lógica: no final, ninguém pagou ninguém e as dívidas foram quitadas. Nas 170 e tantas delações premiadas corre-se o risco de acontecer algo semelhante.

 “Eis o que pode acontecer: João delatou André que delatou Tiago que delatou Roberto que delatou Carlos que delatou Miguel que delatou José que delatou Luís que delatou Maurício que delatou Felipe que delatou Adriano que delatou Paulo que delatou João, mas como João já era um delatado premiado ficou tudo zero a zero e todos viveram felizes para sempre. Só que agora todos sabem de tudo.”

Mas, cá entre nós, quem é que não sabia?

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​Cada crime com seu nome

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Vamos falar claro: nenhum empresário deu propina a políticos, nenhum político recebeu propina. A palavra propina é sinônimo de “gratificação”, ou “gorjeta”, agradecimento livre e espontâneo pela prestação de bons serviços. Não é crime. “Gorjeta” deriva de “gorja”, garganta – algo como “tome uma dose”. Equivale ao francês “pour boire” – para beber. O que esses empresários fizeram foi “suborno”; Suas Excelências foram “subornados”. Todos os envolvidos no suborno cometeram crime.

Os “malfeitos” de que falava Dilma chamam-se crimes. A delação premiada foi essencial para desmascarar esse tipo de práticas. Mas deixemos de lado os eufemismos: aproveitemos as revelações da delação e desprezemos os delatores. São “caguetas”, “dedos-duros”, “alcaguetes”, “X9” - seres desprezíveis, que jogam cúmplices no fogo para salvar os próprios rabos sujos. Seres que não se envergonham de ostentar, perante filhos e família, a pena reduzida, o símbolo da traição. Visitar o cúmplice para gravá-lo? São traidores. Que tenham tido tantos privilégios para fazer coisas tão feias mostra o nível de bandalheira a que chegou a moral do país.

Na zona não há santos. Os ingleses diziam que um cavalheiro não ouve a conversa dos outros (diziam, mas ouvem; dizer era a homenagem que o vício presta à virtude). No Brasil do vale-tudo, em que milícias de policiais disputam com bandidos o controle da bandidagem, nem se faz, nem se diz.

A novilíngua

Todo esse esforço para amenizar o nome tradicional dos crimes lembra um romance clássico de George Orwell, 1984. Num Estado totalitário, em que os habitantes são permanentemente monitorados por câmeras, em que até o sexo tem de ser autorizado, tenta-se mudar o idioma para uma tal Novilíngua, em que certos conceitos desapareceriam, na falta de palavras para designá-los. “Liberdade”, por exemplo, era uma palavra politicamente incorreta. Aqui, em vez de cuidar da urbanização, saneamento, transporte, passa-se a chamar favela de “comunidade”, como se isso mudasse alguma coisa. A máfia de larápios que se entupiu de dinheiro para trair eleitores vira um grupo que “recebeu propina”. Queremos clareza: ladrão é ladrão.

E, veja, é médico!

Muita gente aqui tem amigos que de vez em quando viram inimigos mas logo voltam a ser amigos. Lula sempre tratou Antônio Palocci, coordenador de sua campanha vitoriosa à Presidência, seu ministro da Fazenda, indicado por ele para coordenar a campanha de Dilma, imposto por ele para a Casa Civil da nova presidente, como amigo de fé e irmão camarada, daqueles de se guardar do lado esquerdo do peito (lado do coração e da carteira). Agora, caguetado, eis o que disse do amigo Palocci, que pelo jeito agora é inimigo, para Sérgio Moro: “É médico, frio, calculista, simulador”. Que é que significa, na frase, “médico?” Um dia Lula diz “Conheço o Palocci bem. Ele é tão esperto que é capaz de simular uma mentira mais verdadeira que a verdade”. “Ele espertamente diz ‘não é que sou santo’, e pau no Lula”.

Amigos, amigos...

Do lado do procurador-geral Rodrigo Janot, a surpresa veio de onde ele menos esperava: de seu colega mais próximo, o procurador Marcelo Miller. Miller, um dos coordenadores da caguetagem dos dois Batista, demitiu-se da Procuradoria e começou a trabalhar no escritório de advocacia que defende os irmãos que dedaram Michel Temer. Não é comum, mas a lei permite – só que surgiram suspeitas de que Miller já orientava a defesa dos dois alcaguetes enquanto estava na Procuradoria. A Polícia Federal tem certeza de que as suspeitas são verdadeiras. Janot obteve a prisão de Miller.

...negócios à parte

Enquanto cuida da frente interna, Janot aproveitou seus últimos dias como procurador-geral (a partir desta semana, o cargo é de Raquel Dodge) para apresentar nova denúncia ao Supremo contra o presidente Michel Temer e o Quadrilhão do PMDB; Segundo a denúncia, o grupo, chefiado por Temer, incluía os ministros Eliseu Padilha e Moreira Franco, mais Eduardo Cunha, Rodrigo Rocha Loures, Geddel Vieira Lima, Henrique Eduardo Alves – estes quatro já presos. As fraudes em contratos da Caixa, Furnas, Petrobras, ministérios da Agricultura e da Integração, Secretaria da Aviação Civil e Câmara dos Deputados atingiriam R$ 587 milhões.

Calma no Brasil

A denúncia será agora examinada no Supremo. Se aceita, vai à Câmara, que terá de autorizar a abertura de inquérito. Não é fácil: se 172 deputados votarem contra, ou simplesmente não aparecerem, o pedido é rejeitado.

A festa do caqui

Joesley foi preso com um terço nas mãos (os outros dois terços não apareceram). Geddel chorou (e explicou: teme ser estuprado). Wesley, irmão de Joesley, diz que seu crime foi virar delator. Foi mesmo. Feio, né?

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​O mais longo dos dias

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É hoje: Lula, acusado de chefiar o esquema de corrupção na Petrobras, depõe ao juiz Sérgio Moro, em Curitiba. Esperam-se perguntas sobre o Pacto de Sangue entre a Odebrecht e Lula, citado por Antônio Palocci. 

Nesta mesma Super-Quarta, o Supremo deve decidir se as provas constantes da delação de Joesley Batista devem ser anuladas. Se forem, quase dois mil políticos nela citados ficarão mais tranquilos, ao menos por algum tempo – pois, embora não possam ser processados pelas acusações de Joesley, eleitor e Polícia saberão o que eles fizeram no verão passado.

O Supremo decide também se o procurador-geral Janot é suspeito para apresentar nova denúncia contra o presidente Michel Temer. Caso não seja, Janot tem a denúncia pronta, por chefiar organização criminosa, o Quadrilhão do PMDB, que envolve, além de Temer, seus auxiliares mais próximos. Na denúncia, deve ser citada a delação do doleiro Lúcio Funaro. O inquérito em que se baseia a nova denúncia foi concluído nesta segunda pela Polícia Federal. Atinge Temer, os ex-ministros Geddel Vieira Lima (o das malas de dinheiro) e Henrique Alves, os ministros Moreira Franco e Eliseu Padilha, e Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara. Todos devem ser denunciados por corrupção ativa, corrupção passiva, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, evasão de divisas e fraude em licitações. Destes, só Eliseu Padilha, Moreira Franco e Michel Temer estão soltos.

Tem mais, tem mais...

A Super-Quarta é o mais longo dos dias por ter começado na terça. No Congresso, foi instalada a CPMI do BNDES – M de mista, por englobar Senado e Câmara. Os dois membros petistas, o senador Lindbergh Farias e o deputado Paulo Rocha, chegaram atrasados – mas a tempo de reclamar  que Lula, o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o ex-presidente do BNDES. Luciano Coutinho, já tinham sido convocados para depor. O caro leitor tem uma chance de adivinhar os termos do protesto de Lindbergh. Claro: ele exclamou várias vezes “é golpe, é golpe”.

...e tem mais

Ainda na quarta, o Tribunal Regional Federal 4, em Porto Alegre, deve decidir se aceita o recurso de José Dirceu, que está em prisão domiciliar.

Maldade

Dizem que, terminado o mandato de procurador-geral, e após a confusão de ter um assessor próximo acusado de atuar dos dois lados do balcão, Janot fará cinema.  Ocupará o lugar de Peter Sellers, o Inspetor Clouseau, na refilmagem de A Pantera Cor-de-Rosa. Fará o papel de Inspetor Janot.

De um bolso para outro

A Pilgrim’s Pride, maior produtora americana de carne de frango, acaba de comprar a irlandesa Moy Park, fornecedora de 25% do frango consumido na Europa, por US$ 1,3 bilhão. “A compra nos dá acesso aos atraentes mercados do Reino Unido e da Europa, atendendo nossa estratégia de diversificação do portfolio”, anunciou Bill Lovette, presidente executivo da Pilgrim’s Pride. Um detalhe: a Pilgrim’s é controlada pela JBS e a Moy Park é integralmente pertencente à JBS. Alô, Rolf Kuntz! Alô, Alexandre Schwartsman! Não é a mesma coisa que tirar dinheiro da carteira e botá-lo no bolso? Sabendo que quem comprou e quem vendeu foi a JBS, de Joesley Batista, será que não existe nada esquisito nisso? Tomara que este colunista esteja errado: será a prova de que nem sempre o que acontece é aquilo de que a gente comum, como eu, desconfia.

Meu pai-pai

Flávio Bolsonaro, deputado estadual (PSC – Rio), prova viva de que sobrenome ajuda em eleição, estreia em nova área profissional: biógrafo. Bolsonaro preparou um livro com passagens da vida de seu pai, o deputado federal (e candidato à Presidência) Jair Bolsonaro. O lançamento do livro deve ocorrer neste mês, a tempo de transformar-se em possível presente de Natal. Deve haver uma grande noite de autógrafos, com a presença do pai, Bolsonaro, e dos dois filhos deputados, Bolsonaro e Bolsonaro.

Recordando ACM

O principal cacique político da Bahia, Antônio Carlos Magalhães, volta a ser lembrado por escrito a partir de amanhã, às sete da noite: é o horário previsto para o lançamento de ACM em Cena, livro de crônicas sobre os tempos em que ele comandava a Bahia (diga-se, com mão de ferro). São, em textos que quem viveu esta época, “depoimentos e cenas de uma grande história de amor pela Bahia”. Preço do livro: uma lata de leite em pó. Este colunista, que jamais morreu de amores por ACM, mas reconhece seu papel dominante na história recente da Bahia, já encomendou o livro à amiga (e autora de uma das crônicas) Rose Vitaly. Junto com o lançamento do livro, no Cine-Teatro Gláuber Rocha, praça Castro Alves, deve ser apresentado ACM, Tempo e Espaço, documentário de Oscar Santana. Vale.

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A verdade vos condenará

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Há gente, sem a qual uma ladroeira desse porte seria inviável, festejando a liberdade. Estão enganados: o tesouro em dinheiro vivo encontrado no apartamento do amigo de Geddel traz o “Abre-te Sésamo” de investigações que poderão chegar a resultados espetaculares. Esqueçamos os dólares e euros: nossa moeda (e nosso tema) é o Real. Os quase 43 milhões de reais.

Imaginemos que o caro leitor tenha fundos para sacar R$ 30 mil de sua conta no banco. Não basta dirigir-se ao caixa: é preciso ligar antes, marcar hora, porque o banco não armazena grandes quantias. Sua transação será comunicada às autoridades e pode entrar nos cruzamentos de informações do seu Imposto de Renda. Aliás, essa comunicação às autoridades é feita a partir de retiradas, cheques ou remessas de R$ 5 mil em diante.

Como ensinou Deep Throat, o delator que ajudou os repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward a decifrar o escândalo de Watergate, que derrubou o presidente americano Richard Nixon, siga o caminho do dinheiro. Como é que Geddel pôde juntar R$ 43 milhões sem explicações? 

Ou os bancos não informaram as autoridades ou as autoridades fecharam os olhos. Nos dois casos, a falha é suspeita. Não se diga que os corruptores já mandaram as propinas em dinheiro vivo: grandes empresas fazem transferência bancária, pagam em cheque, emitem boletos. Esta é a hora de seguir o caminho do dinheiro. Chegarão aos bancos, ao Governo, a ambos?

Os puros

No quadro de investigações e denúncias da Lava Jato e conexos, brilham  os bancos pela ausência. Devemos imaginar que nenhum banco nacional ou estrangeiro concordou em dar apoio a campanhas eleitorais, em nome, claro, da democracia?  Nenhum terá oferecido um pixuleco a quem poderia ajeitar alguma situação desconfortável? Nem o BNDES, fonte inesgotável de empréstimos a juros baixíssimos, subsidiados por nós, a empresas como a J&F, de Joesley, controladora de JBS, Friboi e outras? É difícil acreditar que justo quem trabalha com dinheiro nunca tenha sido procurado.

Os impolutos

Há casos que mostram bom relacionamento entre bancos e governantes. Um ocorreu quando uma analista de investimentos fez previsões sombrias, e o próprio Lula exigiu sua demissão (lembra? “Essa moça que falou não entende porra nenhuma de Brasil e não entende nada de governo Dilma. Manter uma mulher dessas num cargo de chefia... Pode mandar embora e dar o bônus dela para mim que eu sei como é que falo”). O banco demitiu a analista imediatamente. Ninguém terá recebido o tal bônus, como agrado?

O demolidor

Não nos esqueçamos de que o ex-ministro Antônio Palocci fez um depoimento devastador por conta própria, sem delação premiada. Ele, antes de qualquer outro petista, estabeleceu contato com os bancos. Sabe o que o sistema financeiro fez no verão passado. Sua delação premiada promete.

O autogolpe

“Quando a esperteza é muita”, ensinava o sábio político mineiro Tancredo Neves, “vira bicho e come o dono”. Joesley Batista pensava ser esperto, depois que gravou uma conversa comprometedora com Michel Temer, para entregá-la à Procuradoria, em troca de pagar uma multinha, ficar livre e se mudar com a família, o dinheiro e as empresas para os EUA.

O mundo real

Não era tão esperto assim. Numa gravação que entregou à Procuradoria, havia uma conversa com assessores diretos em que diz grosserias sobre a presidente do Supremo, usa frases que lançam suspeitas sobre as relações com um procurador que o investigava (e logo se demitiu, mudando de lado, para trabalhar com seus advogados), insinua ter sob controle vários ministros do STF. Há duas versões sobre o áudio que gravou e entregou:

a) Não conhecia direito o gravador, que se liga sozinho quando há som. Ao apagar a gravação, não sabia que ela fica fora do alcance, mas um perito a recupera. Só é mesmo apagada quando algo for gravado em cima. 

b) Queria vincular seus assessores à delação, para evitar traições.

Em qualquer caso, agiu como amador. E a Polícia Federal é profissional.

Sonho impossível

Joesley tinha um sonho: fazer a delação premiada antes de ser preso, ficar livre, levar suas empresas para os Estados Unidos (talvez a holding J&F para a Irlanda, onde a tributação é mais civilizada), viver no Primeiro Mundo. Acontece que o acordo da delação prevê a perda dos benefícios em caso de omissões ou falsidades. Seus bens podem ficar indisponíveis. Ele e as empresas podem ser acusados de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. As ações podem ser leiloadas para cobrir multas e prejuízos. O segundo maior acionista do grupo, o BNDES, passaria a controlador). Temer não perderia a chance de se vingar. Quem tudo quis nada vai ter.

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​Afasta de mim esse cálice

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Um sábio político mineiro, Magalhães Pinto, dizia que política é como nuvem: você olha, está de um jeito, olha de novo, está de outro. Ladroeira também. Há surpresas todos os dias; e nunca é para mostrar que alguém foi injustamente acusado de ser ladrão. Pior é que nem sempre é só ladrão.

Comecemos pelo Ministério Público, o implacável (flexível só no caso da JBS): o procurador da República Marcello Miller, braço direito de Janot, deixou a Procuradoria e nos dias seguintes trabalhava com os advogados de Joesley Batista. Já é estranho; mas surgiu uma gravação em que ele analisa a defesa quando ainda deveria estar no ataque, na Procuradoria.

Vamos para Joesley. Há fortes suspeitas de que sua delação premiada tenha sido sob medida: esqueceu alguns crimes e valorizou outros. Caso sua delação seja falha, perde os privilégios que obteve e pode ser julgado, como réu confesso, pelas bandalheiras que revelou ter patrocinado.

Que gravação é essa que surgiu de repente? Provavelmente foi feita por engano. Mas ficaria enrustida se a Polícia Federal não tivesse obtido o áudio por outras fontes. Só foi entregue, então, para que Joesley pudesse dizer que não havia escondido nada. Mas mesmo assim é dinamite.

E a Polícia Federal descobriu, no flat de um amigo de Geddel Vieira Lima, quatro caixas e oito malas de dinheiro que aparentemente são dele.

Até escrever sobre essas coisas faz mal. Há ladrões em cada canto.

Verdade

Cada nova revelação transforma a ladroeira antiga em dinheiro de troco.

O cenário

Caso as falhas na delação levem ao fim dos fabulosos privilégios dos Batista, ou de pelo menos parte deles, que acontece com os denunciados? Há duas correntes: uma, seguindo a Teoria da Árvore Envenenada (cujos frutos são imprestáveis), suspenderia todas as ações iniciadas com base nas denúncias; outra (à qual Janot se filia), acha que os maus delatores podem ser punidos sem que suas revelações se percam. A imprensa tem noticiado, erradamente, que esta ala defende o uso das provas trazidas pela delação. Mas não há provas: há denúncias que devem ser verificadas e confirmadas.

Por que, Janot?

Por que o Ministério Público deixou a Polícia Federal fora do caso Joesley? Sem a Federal, a investigação foi falha – tanto que de repente surge um áudio de quatro horas que tira tudo do lugar. Por que Janot não iniciou processo contra o presidente Michel Temer, quando sugeriu que poderia estar envolvido com Joesley e Marcello Miller – e insinuou que o perdão aos irmãos Batista foi generoso demais? Por que aceitou, sem reação, que Gilmar Mendes o chamasse de desqualificado? Por que aceitou premiar a delação de Joesley, quando a lei diz que chefe de quadrilha não pode ser beneficiado? Joesley admitiu ter subornado 1.820 políticos, mais procuradores, ministros e juízes Só pode ser chefe, jamais subalterno.

Cavalheiro, gentleman

Frase de Joesley, na tal gravação, em conversa com seu diretor Ricardo Saud, referindo-se a uma senhora que participava das negociações entre o grupo e o MP: “Já falei para o Francisco (de Assis Silva, diretor jurídico da JBS), você tem até domingo para comer a (nome da senhora). Se não, eu é que vou comer. Francisco, é trabalho! Vou te dar até domingo que vem. Ou eu é que vou fazer o serviço. Um de nós tem de botar ela na cama”.

Geddel vai às compras

Quando Antônio Carlos Magalhães era presidente do Senado, mandou preparar um vídeo, “Geddel vai às compras”, mostrando o crescimento dos bens do deputado. Mais tarde, ACM se referiu a Geddel como “agatunado”. ACM era autoritário, muito controvertido, mas conhecia tudo de política.

Geddel é acusado de desviar R$ 20 bilhões do FI-FGTS – dinheiro de assalariados, que o Governo usava para emprestar a empresas que criassem empregos. Tirar do FI-FGTS é atingir a poupança popular dos dois lados.

Titular absoluto

O presidente Itamar Franco chamava Geddel de “carrapato de gabinete”. Ele, efetivamente, está sempre num bom gabinete: foi ministro de Lula e Temer, e vice-presidente de Pessoa Jurídica da Caixa com Dilma.

Mãe Dinah? Não, Gilmar

O ministro Gilmar Mendes, do STF, acertou a primeira previsão: de que o MP poderia ter problemas quando alguns de seus membros enfrentassem “uma montanha de dinheiro”. Cita dois problemas: Ângelo Vieira (que foi preso) e Marcello Miller. Agora, em suas palavras, faz mais duas “previsões oraculares”: haverá inconsistências em outras delações, como as de Delcídio do Amaral e de Sérgio Machado (da Transpetro); e Janot vai terminar como Protógenes Queiroz – que, por ilegalidades cometidas na Operação Satiagraha, foi condenado pela Justiça e escapou para a Suíça.

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​O Livro dos Nomes

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Tanto o eleitor reclamou dos mesmos de sempre que foi atendido: nosso presidente da República, na viagem de Temer, é Rodrigo Maia, presidente da Câmara. Já não é um dos mesmos, embora seja filho do fluminense César Maia. No lugar de Maia, a presidência da Câmara, um político novo em folha: André Fufuca. Se o caro leitor não sabe quem é, vai continuar não sabendo. Cá entre nós, não faz falta. Deixando o cargo, Fufuca volta ao limbo, ao lado de deputados como Cabuçu, Petecão, Carimbão, Salame, Chapadinha, Junior Marreca e Kaio Maniçoba. Todos bem pagos por nós.

Os novos não são problema: se não têm o que mostrar, são baixo clero para sempre. O problema é que os mais antigos e experientes, bem mais conhecidos, têm muito o que mostrar. Dois dos ministros de Temer, Geddel Vieira Lima e Henrique Alves, estão presos. Outro ex-ministro, Romero Jucá, é alvo de 14 inquéritos no Supremo. Oito ministros têm desempenho inferior: Blairo Maggi, Bruno Araújo, Aloysio Nunes, Moreira Franco, Helder Barbalho, Eliseu Padilha, Marcos Pereira e Gilberto Kassab estão sob investigação no Supremo. Seu assessor e amigo próximo Rocha Loures está em prisão domiciliar. Seu ex-assessor Tadeu Filippelli está solto, mas em maio passou alguns preso. Todos foram amplamente citados em delações premiadas. E o próprio Temer só não corre - agora - o risco de impeachment porque a Câmara negou autorização para investigá-lo. 

Tá faltando um

Há ainda um político não tão próximo de Temer, mas seu aliado, que também enfrenta dificuldades: Eduardo Cunha, preso em Curitiba.

Questão de título

O problema é que, seja experiente, seja novo, seja cabeça-branca ou cabeça-preta (e onde é que localizariam o deputado catarinense Esperidião Amin?), parece que o político, para conquistar notoriedade e poder, não precisa ter currículo: basta exibir o prontuário.

Vai, volta...

Temer assumiu a Presidência da República, há pouco mais de um ano, prometendo colocar em ordem as contas, reduzir o número de ministérios, eliminar gastos. O que fez: deu generosíssimos aumentos a servidores já bem pagos, elevou a meta do déficit fiscal, mandou alugar um Boeing, maior que o AeroLula, para suas viagens, não dispensa nem a hospedagem no hotel mais caro de cada país que visita. Anunciou o fim do Ministério da Cultura, o Ministério da Cultura continua firme e forte. Mandou adaptar o Palácio da Alvorada, a residência oficial, para a segurança de uma criança, seu filho Michelzinho, e em seguida decidiu não se mudar para lá.

... adia

A última iniciativa dessas foi mudar o tipo de uso da Renca, reserva na Amazônia para mineração de cobre. A Renca era herança do regime militar: 47 mil km², do tamanho do Espírito Santo, reservados desde 1984 à pesquisa de minérios e mineração. Como deveria ser tocado por estatais, o projeto encruou. Temer o abriu para a iniciativa privada. Como de hábito, a comunicação oficial falhou. Passou para o público que Temer tinha liquidado uma reserva ambiental, para ajudar mineradores estrangeiros a lucrar com a devastação. Não era, mas Temer ainda deu dois recuos: 1) trocando o decreto por outro mais claro; 2) criando prazo de 120 dias para estudar o assunto. Daqui a quatro meses, quem vai se lembrar disso?

Dez vezes Joaquim Barbosa

Depois de longo silêncio, o ministro aposentado do Supremo Joaquim Barbosa volta a tratar de temas nacionais. Disse ao jornal Valor:

1 – Em nenhum país do mundo o presidente continuaria no cargo depois das acusações que Temer sofreu.

2 –Temer deveria ter a honradez de deixar a Presidência.

3 – É favorável às reformas propostas pelo Governo Temer, mas acha grave que sejam conduzidas por um Governo não respaldado pelo voto.

4 – Defende campanhas eleitorais mais curtas, com financiamento público “moderado”.

5 – Lula não deveria ser candidato. “Vai rachar o país ainda mais”.

6 – Não é candidato, mas percebe seu potencial. “Por onde vou as pessoas me abordam. Há potencial, mas não incentivo isso”.

7 – A denúncia contra Michel Temer é muito mais grave que as que levaram ao impeachment da presidente Dilma Rousseff.

8 – Um político que elogiou: Paulo Hartung, PMDB, governador do Espírito Santo. “Se eu entrasse nisso (política), iria chamá-lo.

9 – O país foi sequestrado por um bando de políticos inescrupulosos que reduziram as instituições a frangalhos.

10 – Parlamentarismo é, para esses políticos, a maneira de perpetuar-se no poder e se proteger. E já foi rejeitado duas vezes pela população.

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Mata que é polícia

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Há poucos dias, 26 de agosto, foi morto o centésimo PM do Rio em 2017. São 13 assassínios de policiais por mês. E o silêncio que se faz é atordoante, como se nada houvesse, como se PM não fosse gente. Imagine se matassem cem juízes, cem garis, cem religiosos. Haveria este silêncio?

Há 130 anos, em onze meses, Jack, o Estripador, matou cinco prostitutas em Londres, cortando-lhes a garganta. O assassino jamais foi identificado, mas a Inglaterra se mobilizou para localizá-lo. E, 130 anos depois, seu nome ainda é lembrado. Aqui, em oito meses morrem cem PMs – e não há qualquer comoção, excetuando-se a das famílias e a de quem é consciente.

Polícia é essencial em qualquer parte do mundo. Na Dinamarca, onde há educação de qualidade para todos, onde a desigualdade social é minúscula, há polícia, e eficiente. Só no Brasil se imagina que a Polícia, executora do monopólio estatal da força, pode ser desprezada. Após a ditadura militar, em que a Polícia aceitou gostosamente a permissão de atuar fora da lei, surgiu a crença de que os policiais foram os culpados pela violência, pelas torturas. Foram; mas houve também promotores que sabiam de tudo e se calaram, juízes coniventes, jornalistas cúmplices. Só os policiais pagam? E nem são mais os mesmos (que, dos velhos tempos, muitos passaram de vez para a vida fora da lei, trabalhando como bicheiros ou milicianos ferozes).

Quando nossa vida corre risco, quem é que chamamos? O ladrão?

Detalhes

O seguro de vida para o policial que expõe sua vida foi criado há pouco mais de 20 anos, pelo governador Mário Covas. Antes, não existia. Colete à prova de balas? Existe, mas não para todos. Um policial tem de esperar a volta do colega para pegar o colete dele, sem tempo sequer para arejá-lo. E, para enfrentar o poder de fogo dos bandidos, só armas nacionais, pequenas.

Como era, como é

Em 1983, ou 84, houve uma onda de assaltos a passageiros de ônibus. O governador paulista Franco Montoro determinou que PM fardado não pagasse passagem. A presença do policial no ônibus afastou os bandidos. Na época, tinham medo. Hoje, o policial esconde a farda fora do horário de trabalho. Não carrega seu crachá, pois os criminosos o matam se souberem que é policial. Os bandidos perderam o respeito. Não têm o que temer.

O crime e a pena

Lembra de Henrique Pizzolato, que foi diretor do Banco do Brasil, fugiu para a Itália usando documentos falsos com o nome do irmão falecido e foi condenado a 12 anos e 7 meses de prisão por corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro? Ele começou a cumprir a pena em fevereiro de 2014, quando foi preso na Itália (veio para o Brasil em outubro de 2015). Faça as contas: 2014 mais 12 anos=2026, certo? Errado: Pizzolato já está no regime semiaberto, que lhe foi concedido pelo ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo. Dorme na cadeia. De dia, vai trabalhar na rádio OK FM, como assistente de programação, algo que jamais fez na vida. O salário é de R$ 1.800,00 mensais. Mas que fazer? A lei exige um emprego! A rádio pertence a seu companheiro de cela, Luiz Estêvão, hoje também seu patrão.

Exclusividade

Não estranhe o caso de Pizzolato. Num país onde Suzane Richthofen teve folga da prisão no Dia das Mães, que é que se pode esperar?

Sexo é ciúme

A delação mais esperada no país, hoje, é de um tipo diferente: tem, além da ladroeira, sexo, ciúmes, chifres, brigas federais. O que se sabe: um captador de recursos teve um caso com uma parlamentar federal casada. Houve belos hotéis, brigas com arranhões, ciúmes ferozes, erros (o marido entendeu que o casamento agora era aberto, e também andou escapulindo; a esposa não quis saber, e por pouco não se cria uma crise – o Chifrudão).

Sexo é cultura

Nomes? Imagine! Este colunista adora continuar vivo. Mas pitadas de cultura e pesquisa ajudam a chegar lá. Comece por Jacques Offenbach, compositor de sucesso, francês nascido na Alemanha, rei do can-can. E vá para Shakespeare, Julio Cesar, no monumental discurso de Marco Antônio nos funerais de Cesar. Termina aqui a parte cultural: o restante é briga feia de casal. Se a chefia não enquadra marido e esposa, a coisa iria longe. O fato é que os chifres doeram, mas pior seria perder os excelentes empregos.

E calou-se o sabiá

Recife, Praça N.S. do Carmo. Dia 25, a caravana de Lula parou ali para um ato público. Mas, no lugar em que queriam botar o palanque, havia uma palmeira imperial grande, de mais de 20 anos. Simples, não? Só montar o palanque ao lado. Mas o PT não perdoou: cortou a árvore. Tudo (com fotos) em  http://www.chumbogordo.com.br/14665-minha-terra-tinha-palmeiras-por-jose-paulo-cavalcanti-filho/. Os sabiás que entrem no MST.

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​O país do Agora, Vai

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Gente de sucesso, profissionais mundialmente reconhecidos, deve disputar as eleições de 2018. Um deles, duas vezes escolhido o Melhor do Mundo, é Ronaldinho Gaúcho, do Podemos (ex-PTN) em Brasília. Pode tentar o Senado, onde ficará ao lado de seu companheiro de partido, Romário; ou buscar a deputança. No Rio, o fantástico Bernardinho, craque do vôlei e vitorioso técnico da Seleção, tem tudo para disputar o Governo, talvez enfrentando Eduardo Paes, o prefeito das Olimpíadas. E há Tiririca – que talvez desista, por achar que o Congresso não é lá essas coisas.

As demais articulações são semi-secretas (os envolvidos desmentem, mas um deles vaza a notícia). Aécio e Tasso se unem para evitar que Alckmin chegue agora ao comando nacional do PSDB. Mas Tasso garante que Alckmin deve ser o próximo presidente do partido, no fim do ano. E diz que Aécio, presidente licenciado, não volta ao comando: ele, Tasso, o presidente interino, é, em suas palavras, “o único presidente do PSDB”. Dória diz que não é candidato a presidente da República, Geraldo Alckmin diz que gostaria de ser candidato – o que não é novidade, porque já foi uma vez, perdeu, e hoje não trata de outro tema. Dória o apoia, mas corre o país em campanha. Fernando Henrique falou mal de Dória, mas se reuniram e tudo bem. Qual a verdade? No caso do PSDB, não creia em alianças. Mas acredite em notícia de briga de tucanos. Eles detestam uns aos outros.

Palpite distante

Falta mais de um ano para as eleições, e em política isso é muito tempo. Já é possível, porém, fazer uma primeira avaliação: Alckmin está na frente no PSDB. Deve apresentar-se como líder tranquilo, experiente, maduro, capaz de acalmar o país. Dória só sai se o eleitorado quiser alguém mais agressivo, capaz de enfrentar o embate com o Lulinha ex-paz e amor. Seu destino mais provável é o Governo do Estado. Deixar a Prefeitura no inicio do mandato? O vice é Bruno Covas, e isso ajuda: seu avô, também Covas, que foi prefeito e governador, deixou bom nome na política paulista.

Amizade é para sempre

O colunista Cláudio Humberto (www.diariodopoder.com.br) informa: nesta semana, ninguém achou em Brasília o senador Renan Calheiros. Renan foi a Alagoas para receber, na quarta-feira, os amigos da caravana de Lula, e depois ficou por lá. Aliás, a palavra “amigos” não é irônica: Renan apoiou Collor, Fernando Henrique, Lula e Dilma, e apoia Temer, embora às vezes dê uma falhada. É um dos políticos mais coerentes do país: o Governo pode mudar, mas Renan não muda. Está sempre com ele.

Muda sem mudança

A história de reformar a política sem definir qual a reforma que está sendo proposta não deu muito certo: o próprio presidente da Câmara, Rodrigo Maia, diz que o sistema eleitoral e o financiamento de campanhas devem continuar como estão. “É provável que a Câmara aprove apenas o fim das coligações para eleição proporcional e a cláusula de barreira” (que reduz drasticamente o repasse de recursos a partidos que não obtenham certo número de votos). É difícil acreditar que Suas Excelências desistam do financiamento público, mas todos sabem que usar dinheiro do Tesouro em campanhas é muito impopular. Financiamento público, diz-se nas ruas, é pagar para escolher aqueles que vão querer beneficiar-se cada vez mais.

Notícia triste

Não pode passar batida a impressionante notícia de um aluno de 15 anos agredindo a socos a professora Márcia Friggi, 52 anos, deixando-a com o rosto inchado e coberto de sangue. Este colunista é do tempo em que o aluno reconhecia a autoridade do mestre. Minha mãe era professora primária, severa; deu aulas em lugares difíceis – num deles, descia do ônibus e atravessava uma trilha de seus 200 metros na mata fechada. Difícil era, mas não perigoso. Ninguém imaginava que no futuro poderia haver agressões assim. Pior foi a desculpa do rapaz: que perdeu a cabeça depois de ser insultado, insulto que ninguém na sala ouviu. Napoleão Bonaparte dizia que a educação de uma criança começa cem anos antes de seu nascimento. Aqui, pelo jeito, ainda nem começou.

Boa notícia

Ainda é pouca coisa, mas já configura uma tendência: de acordo com a Federação do Comércio, o número de empregos cresce há três meses no setor atacadista. Só neste? Não: o atacado compra dos produtores. Se contrata mais empregados é porque a produção aumentou; e vende ao varejo, que se compra mais é porque tem mais clientes. É a primeira vez desde 2013 que há mais admissões do que demissões no mês de junho. A alta é de 0,1%, levíssima, mas consistente, repetindo-se mês a mês. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, baseando-se em dados de outras fontes, afirma que o emprego e o produto interno bruto crescerão em 2018.

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​Lobo e Cordeiro, agora amigos

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Surpreenda-se (ou não): Lula disse nesta segunda, numa entrevista em Sergipe, que Michel Temer não fez nada de errado para conseguir derrotar na Câmara, logo no início, seu processo de impeachment: “Eu acho que o Temer fez o que qualquer presidente faria, buscar maioria para evitar que ele fosse cassado”. Veja o vídeo em https://twitter.com/claudiotognolli

Lula, bom político, sabe que o pau que bate em Chico bate em Francisco e que os problemas de um são os mesmos do outro. Talvez variem em grau, mas bastam para encerrar carreiras políticas e colocar em risco o gozo, em liberdade, das aposentadorias pelas quais tudo fizeram. Lula sabe que, do outro lado, também há bons políticos, que preferem desfrutar as delícias do poder (ou da oposição) a evitar que seus adversários as desfrutem.

Fernando Henrique, por exemplo, já disse que buscar doações para o acervo de ex-presidentes (como a que o Instituto Lula obteve da OAS, mais de R$ 1 milhão) é absolutamente normal. Em depoimento ao juiz Sérgio Moro, lembrou que ex-presidentes são obrigados legalmente a manter o acervo presidencial, mas não há destinação de recursos nem de locais para isso. E Lula disse que Aécio jamais pediu algum cargo em seu Governo – com isso, livrou-o da acusação de ter cobrado propinas no período lulista. 

Quem é lobo, quem é cordeiro? Tanto faz – ora um é um, ora é outro.

Time articulado

A direção nacional do PMDB promete punir os políticos do partido que se mostram mais amigos de Lula do que seria conveniente. O governador sergipano Jackson Barreto e seus seguidores seriam os primeiros, pelo calor da recepção a Lula, ora peregrinando pelo Nordeste. Outro alvo podem ser os Renans de Alagoas – o senador Renan Calheiros e seu filho Renanzinho, governador. Mas não é bem assim: o PMDB não vai perder governos cheios de bons cargos só para manter a coerência. E, a propósito, que coerência? Temer foi vice de Dilma. Romero Jucá, Renan e Padilha, até mesmo Gabriel Chalita, todos trabalharam juntinhos com o PT até que ficar com Dilma se mostrou inviável. O governador paranaense Roberto Requião é ainda tão pró-PT que até apoia Nicolás Maduro. Os dirigentes nacionais do PMDB fazem cara de bravos. Bem conversados são muito mais suaves.

Jogo profissional

Mas essa história de brigar no palco e acertar-se nos bastidores não é para todos: só para os profissionais. A senadora Kátia Abreu, por exemplo, que se transformou de líder ruralista em amiga de infância de Dilma, pode ser punida. Ela poderia até parecer muito amiga, mas só de mentirinha.

O mundo gira

No mundo real, a Lava Jato fez estragos de verdade: mesmo que grandes alvos escapem da prisão, imagens e popularidade foram prejudicadas. Um exemplo: em Miguel Leão, município de 1.474 eleitores no interior do Piauí, o prefeito foi cassado pelo TRE por abuso de poder político e houve eleições para substituí-lo. O Piauí é governado por um petista, Wellington Dias (que, segundo Lula, é um gênio da política). Em 2006, Lula teve 87% dos votos em Miguel Leão. O candidato de Wellington Dias e de Lula foi Jaílson de Souza, do PT. Lula gravou vídeo de 30 segundos, enviado aos celulares dos eleitores, dizendo: “O Jaílson é do PT, e você sabe que o PT sabe governar o Brasil, sabe governar Miguel Leão. Por isso, no domingo não esqueça, vote em Jaílson”. Mas quem ganhou, com 51,48% dos votos, e tomou posse nesta segunda, foi Roberto César, Robertinho, do PR. “O eleitor”, disse Robertinho, “sabe que Lula não é o santo que imaginava”.

A semana Lava Jato

Suas Excelências trabalham contra, mas a popularidade da Lava Jato se mantém em alta. Nesta semana, saem dois livros sobre caça a corruptos. O do procurador Rodrigo Chemim, do Ministério Público, Mãos Limpas e Lava Jato: a corrupção se olha no espelho (Citadel Editora), compara a Lava Jato à italiana Mãos Limpas e sugere mudanças para que nossa investigação vá ainda mais longe.  Já à venda, R$ 40,00. E o do jornalista Carlos Graieb, PF – a lei é para todos, Editora Record. Primeira edição, 10 mil exemplares, já vendida. Também estreia um filme com o mesmo nome.

Fofoca da quente

Nota do ótimo portal jurídico Espaço Vital (www.espacovital.com.br):

“Adultério arranhado - A rádio-corredor da OAB do Paraná aqueceu o frio curitibano, ontem (dia 21), com pitadas calientes sobre uma das muitas delações premiadas ainda mantidas em sigilo oficial pelos procuradores da Lava Jato. Trata-se do caso de um operador de propinas que confirmou seu romance com uma parlamentar federal que é... casada.

“As viagens ao exterior eram bancadas com recursos públicos, ou do propinoduto. O oblíquo casal temporário teve também brigas e arranhões causados por recíproco ciúme doentio.

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​Noves fora, zero zero zero

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Lula está disposto a tudo para ser candidato – e, ao menos por algum tempo, livrar-se de Curitiba. E, para mostrar a seus adeptos que fora ele não há salvação, admitiu na Bahia a possibilidade de ser impedido de disputar a Presidência (é a primeira vez que fala em público sobre esta hipótese). Seu substituto, disse a Mário Kertesz, da Rádio Metrópole, seria escolhido entre os governadores Fernando Pimentel (Minas), Rui Costa (Bahia), Camilo Santana (Ceará), Wellington Dias (Piauí), e o ex-governador baiano Jaques Wagner. Fernando Haddad, que tenta viabilizar-se como candidato, não é citado: claro, perdeu a reeleição por ampla margem, e no primeiro turno.

Nas palavras de Lula, “o golpe (o impeachment de Dilma) não fecha” se ele não for judicialmente impedido de se candidatar. O risco é alto: Lula já foi condenado em primeira instância, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, a nove anos e meio de prisão, e se seu recurso for recusado pelo Tribunal Regional Federal cai na Lei da Ficha Limpa. O problema é que, apesar da alta rejeição (que dificultaria sua vitória no segundo turno), ele é o primeiro colocado nas pesquisas. Os nomes que sugere como substitutos nem foram lembrados pelos pesquisadores. E, depois de Dilma e Haddad, a era dos postes, que só existiam por seu apoio, parece ter chegado ao fim.

Lula está em campanha – oficialmente, “caravana”, porque campanha antecipada é ilegal – por nove Estados do Nordeste. Visita 25 cidades.

...com quem andas

A comitiva de Lula na campanha – quer dizer, “caravana” – inclui Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, acusada de crime eleitoral, lavagem de dinheiro e corrupção passiva, José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, acusado de improbidade administrativa, e o ex-governador baiano e ministro Jaques Wagner – contra quem o Supremo determinou a abertura de processo, acusado de participação no esquema Odebrecht.

A bainha dos tucanos

O PT pode ter candidatos de menos, mas todos farão o que Lula mandar. Já o PSDB tem candidatos demais, três deles já derrotados pelo PT, outro derrotado dentro do partido quando quis se candidatar; e um que aparece bem, mas que por isso mesmo vem sendo sabotado pelos outros. No PSDB todos são amigos desde os bancos escolares, mas ainda acham que as costas uns dos outros são a bainha para seus punhais. Geraldo Alckmin e Aécio Neves, ambos já derrotados por Lula, vêm conversando sobre como anular João Dória Jr., com prestígio em alta (e com o dobro das intenções de voto de Alckmin, nas pesquisas). José Serra, surrado por Lula e Dilma, quer ser lembrado como candidato e não fala mal de Dória; mas seu aliado José Aníbal fala mal por ele. Tasso Jereissati, atropelado por Serra no PSDB quando quis se candidatar, é o presidente do partido – e mandou sozinho no programa de TV, criticado pelos demais tucanos (entre outras coisas, o programa atacou o Governo, em que o PSDB tem quatro ministérios dos bons). Todos querem derrubar Tasso; aceitam até Aécio de volta.

Ao mestre, com carinho

Mas Aécio teve de se licenciar da Presidência do PSDB quando foi alvo das gravações de Joesley Batista, a quem pediu R$ 2 milhões. Joesley diz que era suborno, Aécio diz que era empréstimo. E o Supremo, a pedido do procurador Janot, analisa a possibilidade de mandar prender o senador.

Outra possibilidade é antecipar para outubro a convenção nacional, que escolherá o presidente. E, inicialmente, antecipar as convenções estaduais. No caso, o favorito para presidente é o governador goiano Marconi Perillo.

O PSDB, como sempre, decidiu não decidir. Vão consultar Fernando Henrique, que não é candidato nem quer ser, para que decida por todos.

Quem parte e reparte...

Todos querem votar depressa a reforma política, mas só para garantir a mamata dos R$ 3,6 bilhões de financiamento público de campanha. Como fica a eleição (distrital, distrital misto, distritão, proporcional), não importa muito. Mas, sem decidir esses detalhes, como garantir já a dinheirama? Os parlamentares estudam qual o sistema que melhor lhes facilite a reeleição.

...fica com a melhor parte...

Na terça, promete o presidente do Senado, Eunício Oliveira, entra na pauta o pedido de urgência para extinguir o sigilo dos empréstimos do BNDES. O projeto é do senador Lasier Martins, do PSD gaúcho; e o PT é totalmente contra, com certeza por motivos técnicos e patrióticos. Lasier Martins cita casos em que o fim do sigilo permitirá que se entenda tudo: o porto de Mariel, em Cuba, empréstimo de US$ 682 milhões; o metrô do Panamá, US$ 1 bilhão. As empreiteiras são as de sempre.

...e conhece a arte

Do portal Quanto Custa o Brasil: lista de deputados federais e senadores em débito com a União (goo.gl/Xbxh5f).

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