​Dominados pelo ódio

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Depois de uma campanha áspera, John McCain, o candidato republicano derrotado, cumprimentou o vitorioso Barack Obama e desejou-lhe boa sorte. Depois de tudo o que um havia dito do outro? McCain explicou: “Ele era meu adversário. Agora é meu presidente”. Churchill considerava o rival Attlee uma espécie, digamos, de chuchu. Mas os dois trabalharam juntos, e bem, no comando da Inglaterra, na Segunda Guerra Mundial.

Em política, ao menos, o brasileiro nada tem de cordial. Perpetuam-se os ódios e buscar acordos se torna difícil. O adversário é inimigo; não se aceita a divergência de ideias – talvez porque ambos os lados não as tenham. Dois ministros de Bolsonaro, Vélez e Weintraub, ameaçam demitir petistas, não por falta de capacidade e dedicação, mas por serem petistas. Haddad, batido nas urnas, faz insinuações rasteiras sobre amizades do filho de Bolsonaro. Um advogado (que defende os nove militares que deram 80 tiros num músico que deu o azar de passar por perto) deve receber do Ministério da Defesa a Medalha da Vitória. A notícia publicada num grande jornal sobre a medalha trata só das mortes, como se, em vez de advogado, fosse ele um atirador. E menciona a data da entrega, 8 de Maio, como “um mês e um dia após a morte do músico” – esquecendo que 8 de Maio é o Dia da Vitória sobre o nazismo.

Há projetos importantes no Congresso a discutir, mudar, aprovar, rejeitar. Que tal analisá-los, em vez de votar pensando só em quem o apresentou?

Data boa

Hoje seria uma boa data para que nossos políticos repensassem suas atitudes e deixassem de raciocinar com o fígado (como dizia o lendário dr. Ulysses, política não é função hepática). Hoje é Domingo de Ramos, é Páscoa; hoje é aniversário da morte de Tancredo, que levou muito povo às ruas para lamentá-lo, independentemente de divergências políticas; hoje é o Dia de Tiradentes, que morreu para que o Brasil pudesse ser livre. Seria um dia ótimo para que, em vez de trocar insultos, os brasileiros trocassem ideias.

Reconhecendo

Os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes são, como eles dizem, firmes defensores da livre expressão do pensamento. Verdade: conseguiram transformar uma reportagem enviada a alguns poucos milhares de pessoas num fenômeno de leitura global em todo o país, viralizando-a na Internet.

Do lado de lá

Ninguém é obrigado a gostar do ministro Alexandre de Moraes (ainda bem!) Mas não é preciso exagerar nas restrições a ele. A imprensa noticia que, no decorrer da Operação Acrônimo, foram encontrados documentos sobre o pagamento de R$ 4 milhões, pela JHFS, ao escritório de advocacia do hoje ministro. E daí? Daí que os pagamentos foram feitos e recebidos na forma da lei, por serviços jurídicos. Seria uma maneira de agradar um futuro ministro? Dificilmente: na época, de 2010 a 2014, os presidentes eram Lula e Dilma, e Moraes era mais próximo da oposição. Alguém pagaria propina a um advogado e professor universitário afastado dos Governos petistas? Mas as reportagens saem enormes, com o objetivo de desgastá-lo. Objetivo, para usar a linguagem dos tribunais, despiciendo: desgastar-se, ele o faz sozinho.

Previdência, enfim

O acordo parece estar fechado: a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara deve votar a aceitação da reforma da Previdência neste início de semana. Os parlamentares falam em votação na terça-feira. Pode ser, mas a quarta é mais provável, com mais tempo para que os deputados que se esfalfaram no fim de semana para ouvir as bases possam voltar a Brasília. E tudo indica que será aprovada, com pequenas mudanças, ficando pronta para ser submetida ao plenário. O Centrão, grupo parlamentar formado por gente de vários partidos, mas que atua com união invejável, desde que lhe permitam sacrificar-se e participar das tarefas de Governo, é pró-reforma.

O que se espera

Se aprovada, preveem economistas (e não apenas os do Governo), é possível que a economia brasileira retome rapidamente o crescimento e receba ainda neste ano muitos investimentos estrangeiros.

Cem bi

A primeira grande rodada de investimentos pode ocorrer no final de outubro, com o grande leilão de petróleo do pré-sal. Será fácil verificar se houve ou não alta dos investimentos: hoje, antes da reforma da Previdência, espera-se obter pouco mais de R$ 102 bilhões. Pequenas baixas ou altas não importam, fazem parte do jogo. Mas se o valor superar em muito os R$ 102,5 bilhões, será sinal de que a economia já prepara o período de reaquecimento.

Segurança?

São Paulo, o Estado mais rico do país, tem mais de 13 mil vagas não preenchidas na Polícia Civil – aquela encarregada de investigar crimes. Caso essas vagas não sejam preenchidas (e não há indício de que o Governo pense nisso) não há condições de Polícia alguma trabalhar direito.

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​Promessas que o asfalto leva

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Apenas pessoas maldosas podem dizer que o presidente Bolsonaro é refém dos caminhoneiros, só porque fez a Petrobras perder R$ 34 bilhões em valor de mercado por interferir no preço do diesel. Refém coisa nenhuma! Só porque prometeu construir e duplicar rodovias federais, prometeu liberar R$ 500 milhões do BNDES para dar crédito aos caminhoneiros autônomos, prometeu construir, nas rodovias privatizadas, pontos de repouso para motoristas, com banho, refeições e oficinas para consertos? Bolsonaro não é refém. Não tem culpa se os caminhoneiros acreditam em suas promessas.

Não seria preciso enfrentar uma ameaça de greve dos caminhoneiros para construir novas rodovias e duplicar as já saturadas (tapar os buracos também seria ótimo). Isso não foi feito até agora por falta de dinheiro. Temos estradas por onde nem mulas turbinadas, com tração nas quatro patas, podem passar. Temos estradas que permitiriam dirigir em paz se não fossem os assaltos e o roubo de cargas (e, frequentemente, o assassínio de caminhoneiros). É bem boa a ideia de melhorar a infraestrutura e, assim, reduzir custos e o tempo da viagem – mas quanto custa? E de onde virá o dinheiro?

Os EUA têm boas ferrovias, a Alemanha transporta boa parte da carga em barcaças. Antes, aqui produzimos locomotivas e vagões; hoje importamos até trilhos. Temos rios, mas poucas hidrovias de porte. Já transportamos tijolo de avião, para a construção de Brasília, por falta de outros bons meios de transporte. Mas, se os caminhoneiros acreditam nas promessas, tudo bem.

Ministro completo

Os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Morais criaram algo inédito na história do STF: fizeram a denúncia, comandaram a investigação, acusaram, julgaram e condenaram a revista Crusoé por fake news. Aliás, são fake news de novo tipo: a notícia era a transcrição de um depoimento do empreiteiro Marcelo Odebrecht, no qual esclarecia quem era “o amigo do amigo do meu pai” citado nas planilhas da empresa. Segundo ele, era o hoje ministro Dias Toffoli, que na época dos fatos mencionados era advogado geral da União.

O ministro relator, Alexandre de Morais, determinou à revista Crusoé e ao site O Antagonista que retirassem quaisquer menções deste fato em suas edições antigas da Internet, e nada mais publicassem, sob pena de multa diária e pesada. Mandou que os responsáveis fossem convocados a depor. E determinou à Polícia Federal que fizesse busca e apreensão de material de informática nas casas de outras dez pessoas, incluíndo um general da reserva.

Cada um no seu quadrado

A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, arquivou o inquérito, alegando, entre os motivos, a falta de obediência ao devido processo legal  e ao sistema penal de acusação. Segundo Raquel Dodge, o Judiciário, por lei, não pode conduzir essas ações e cabe ao Ministério Público conduzi-las.

E daí? Daí que estamos no Brasil. O senador Randolfe Rodrigues teme que o relator do caso, Alexandre de Morais, ignore o arquivamento e toque em frente a ação. Se o fizer, haverá problemas: há a possibilidade, caso a questão continue, de Toffoli e Morais serem derrotados em votação no plenário do Supremo. O palpite é 7x4. E muita gente, incluindo o vice-presidente general Mourão, diz que isso é censura e ainda mais que censura.

Abanando as brasas

De qualquer maneira, Toffoli e Morais conseguiram fazer com que uma notícia que seria lida por alguns milhares de pessoas se transformasse num caso nacional. A revista foi amplamente replicada nas redes sociais. Muito mais gente tomou conhecimento da reportagem. Tanto a revista quanto o site vencem: provaram que atingem muito mais gente do que imaginavam. E a Internet se encheu de memes com “o amigo do amigo do papai”.

Renomeando

O governador de São Paulo, João Dória, hoje o comandante de fato do PSDB, anunciou uma pesquisa para avaliar vários pontos, que incluem a mudança de nome do partido. Este colunista gostaria de colaborar com algumas sugestões: seguindo o exemplo do Podemos (o partido de Álvaro Dias), o PSDB poderia se chamar Hesitemos. Ou, seguindo Marina Silva e sua Rede, que tal o PSDB passar a chamar-se Muro? Haveria um nome mais popular, claro: o tucano, símbolo do partido, é uma ave de bico grande, voo curto, e que se caracteriza por, a cada passo, exigir que o chão seja lavado. Que tal essa característica denominar o partido que lança um Picolé de Chuchu a presidente da República?

Progressismo

A advogada Nasrin Sotoudeh está presa no Irã há oito meses, pelo crime de ter defendido nos tribunais mulheres que haviam sido detidas por remover em público os lenços que cobriam suas cabeças. Nasrin foi condenada, em processo secreto, a 38 anos de prisão e 148 chibatadas – daquelas que machucam e deixam marcas no corpo para a vida inteira.

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​Cem dias, sem calma

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Passados cem dias do Governo Bolsonaro, com alas internas em luta, com projetos importantes atrapalhados por brigas desnecessárias, com inesperada queda de popularidade, o presidente decidiu reverter o quadro: em 18 atos, colocou na linha de frente medidas há longo tempo defendidas por bons economistas – como a autonomia do Banco Central, com mandatos fixos para seus diretores, reduzindo a influência política na defesa do valor da moeda; leis desejáveis, como a proibição, ao menos no Executivo, de rapapés e formalidades do tempo do Império; e uma ação que lhe dará popularidade maior, o 13º salário para quem recebe a Bolsa Família. 

O Banco Central nasceu com autonomia, e nos idos de 66 já controlava a inflação. Mas estávamos na ditadura que, dizem, não houve, e o marechal Costa e Silva mudou tudo: deu o comando do Banco Central ao Ministério da Fazenda. A inflação cresceu bem, obrigado, e só foi vencida nos anos 90. Voltamos à posição correta: a defesa da moeda é maior que os governos. E, antes que digam que o presidente está fazendo demagogia ao se apropriar da ideia da Bolsa Família, implantada por Lula, é bom lembrar que distribuir dinheiro aos necessitados (em vez de dar-lhes serviços gratuitos) é a base do Imposto de Renda Negativo, ideia de Milton Friedman. E é bom lembrar que o superministro Paulo Guedes é discípulo de Friedman, membro da Escola de Chicago. Palpite deste colunista: a Bolsa Família tende a se ampliar.

Repassando

Vários teóricos liberais (que, no Brasil, seriam “de direita”) defenderam a entrega direta de dinheiro aos pobres. Como disse o economista austríaco Hayek, em visita ao Brasil, não adianta dar leite a quem quer farinha. É melhor dar dinheiro para que cada um o use conforme sua preferência, e não obrigá-lo a consumir o que não quer. No Brasil, o senador Suplicy, “de esquerda”, foi o grande batalhador desta causa “de direita”. Como funciona o Imposto de Renda Negativo, de Milton Friedman: estabelece-se uma renda de corte. Como, por exemplo, R$ 5 mil mensais. E um imposto, digamos, de 20%. Quem ganha mais de R$ 5 mil mensais paga, sobre o excedente, um imposto de 20%. Quem ganha menos recebe o suficiente para cobrir metade do que lhe falta para completar R$ 5 mil mensais. E os penduricalhos, tipo Leve Leite, água grátis em favelas, tudo isso acabaria. Muitos impostos seriam substituídos por este. E por que este colunista acredita na ampliação do Bolsa Família? Porque Paulo Guedes acredita nele e manda no pedaço. E porque mais Bolsa Família quer dizer mais popularidade para o presidente.

Senhor, senhora. E está ótimo!

Há quem diga que, num país cheio de problemas, não tem sentido proibir expressões como Vossa Excelência, Exmo. Sr. Professor-Doutor, ou o incrível Vossa Magnificência. O Império caiu há mais de cem anos e não há sentido em manter títulos desse tipo. Imagine que o caro leitor ache que um determinado ministro é uma besta quadrada, mas seja obrigado a chamá-lo de Excelência, como se o achasse excelente. E aquele reitor que, a seu ver, para burro só lhe faltam as penas, é Vossa Magnificência. Ridículo. Já vi, numa CPI, gente gastando tempo para explicar a uma testemunha que, caso fosse parlamentar, deveria tratá-lo de Vossa Excelência; caso não fosse, de Vossa Senhoria. Bolsonaro fez um gol. É uma lei que, espero, pegue.

Vai passar

Pesquisa publicada pelo jornal Valor Econômico mostra que 201 congressistas devem votar pela aprovação da reforma da Previdência. O número ainda não é suficiente, mas cresceu 35% de março para cá. A tendência é de que a reforma passe, embora com modificações.

Cada vez aumenta mais

O ministro Onyx Lorenzoni justificou os tropeços dos primeiros cem dias de Bolsonaro dizendo que o presidente está fazendo os mesmos ajustes que Felipão, técnico do Palmeiras, fez no ano passado e deram certo. Onyx entende de futebol o mesmo que de articulação política. O Palmeiras de Felipão perdeu a final do ano passado para a Corinthians em seu estádio, depois de gastar R$ 60 milhões em reforços. Neste ano, está fora das finais, eliminado pelo São Paulo. Na última Copa que dirigiu, Felipão levou de 7x1.

Boa notícia

A projeção da safra deste ano é de 235,5 milhões de toneladas. Garante a alimentação interna e o superávit nas contas externas.

Está preso. E daí?

O ex-presidente Lula, preso há pouco mais de um ano, espera que o STJ julgue o recurso que apresentou. Está tudo pronto e o recurso deveria ser julgado nesta semana. Como um ministro faltou, por questões particulares, o julgamento foi adiado. A semana que vem é Semana Santa. Portanto, o caso só será julgado no dia 23. A ideia de que a Justiça tarda mas não falha é falsa. A Justiça, quando tarda, é falha – seja para condenar ou absolver.

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​Era sólido e desmancha no ar

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Bolsonaro arrasou o PT até em tradicionais redutos de Lula, prometeu eliminar a velha política, nomeou os ministros sem ouvir os partidos, atraiu Sérgio Moro, foi recebido pelo mercado com forte alta da Bolsa. Logo no início do Governo apresentou seus projetos de alto impacto, a reforma da Previdência e o pacote contra o crime organizado. Recebeu a bênção de ter a oposição sob o comando de Gleisi e Haddad, que não se movem sem buscar instruções na cadeia. Deveria ostentar um nível inédito de popularidade; mas, insistindo em discussões inúteis sobre temas do passado longínquo, em brigas inúteis com quem não tinha motivos para hostilizá-lo, sem disposição para enquadrar as várias alas de seu Governo, tem hoje popularidade inferior à dos últimos presidentes, no mesmo período – inclusive Collor, que confiscou o dinheiro de população. Consegue estar abaixo até de Dilma.

Que é que aconteceu? Como se derreteu o Governo? Houve erros, claro; houve ministros que não se mostraram capazes, houve brigas com aliados (como Gustavo Bebianno), houve hostilidade à imprensa – que reagiu na mesma moeda, há administração por atrito. E houve, principalmente, decepção dos que esperavam um presidente pronto para se impor, com a força derivada de seus votos, e encontraram um líder hesitante, na defensiva, cheio de dedos para se livrar de gente próxima sob suspeita.

Quem votou no Super-Homem se decepcionou ao eleger Clark Kent.

Vai passar

     A reforma da Previdência já é debatida na Comissão de Constituição e Justiça e, ao que tudo indica, estará encerrada e aprovada no dia 17. O PT tenta retirá-la de pauta, atrasando a votação e a entrada em vigor, caso aprovada. Opinião deste colunista, com base na Pesquisa DataChute: a reforma deve ser aprovada, com modificações, mas nada que a desfigure.

De briga

Abraham Weintraub, ministro da Educação, é economista,  estudioso da Previdência. Fez campanha por Bolsonaro e foi levado ao Governo por Paulo Guedes. É professor rigoroso e, dizem, pessoa de trato difícil. Já se manifestou contra o que considera viés esquerdista no ensino superior. E, embora talvez tenha pontos de contato com Olavo de Carvalho, não é um olavete. Como se divulga que é “discípulo” de Olavo, um ótimo jornalista, dos que nada publicam sem confirmação, perguntou a uma repórter qual a ligação de entre ambos. Ela não sabia, mas disse que Weintraub era “considerado” seu discípulo. Considerado por quem? “Por todos, ué”.

Togas em festa

O Superior Tribunal de Justiça completou 30 anos e a data foi marcada por bela festa, paga pela Associação dos Magistrados Brasileiros, AMB. Época de contenção de despesas? Vejamos o que diz a empresa Renata la Porta Buffet, responsável pelo jantar: “Hoje é um dia de abundância: entrega de vinhos maravilhosos, caixas e mais caixas de materiais novos e a cozinha a mil, produzindo festas incríveis: amanhã estaremos celebrando os 30 anos do STJ para 800 convidados”. Preço, processo de contratação? Nem STJ nem AMB se manifestaram. A AMB só disse que pagou a festa sem qualquer apoio, direto ou indireto, de empresas públicas ou privadas. Além da festa, houve o seminário internacional O Poder Judiciário nas Relações Internacionais. Amanhã tudo termina com jantar num bom restaurante.

Tempestade do Rio

Disputa entre o prefeito carioca, Marcelo Crivella, e o Governo Federal: Crivella diz que Bolsonaro prometeu ampliar a participação de Estados e Municípios nas receitas do país, e que isso não ocorreu. Isso não ocorreu mesmo; mas a Prefeitura do Rio não aplicou até agora nenhum centavo de seu orçamento em obras de prevenção de enchentes. O Rio tem tido problemas sérios, com chuvas mais abundantes que as normais, numa fase em que não há investimento algum no setor. Detalhe: Crivella é um dos principais políticos do PRB, ligado à Igreja Universal, que apoia Bolsonaro.

Cai, cai

A Ciclovia Tim Maia, no Rio, que liga o Leblon à Barra da Tijuca, à beira-mar, desabou mais uma vez com as chuvas e as enchentes. Desde que foi inaugurada pelo prefeito Eduardo Paes, em janeiro de 2016, é seu quarto desabamento. Comparando: o Aterro do Flamengo, construído no Governo Carlos Lacerda há mais de 50 anos, nunca teve qualquer problema desse tipo, embora a cidade tenha tomado muito terreno ao mar. Explica-se: para realizar a obra, foram contratados estudos do Laboratório Hidrológico de Lisboa, um dos mais avançados do mundo. Houve medições, modelos matemáticos, construção correta, que seguiu o projeto, e a obra mudou a cara do Rio para melhor – o que parecia impossível. Como foi feita a ciclovia? O que se sabe é que desabou tantas vezes que talvez seja inviável reconstruí-la.

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A Terra é chata

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Paulo Guedes defende sozinho a reforma da Previdência, a votação mais importante que está na Câmara. Sérgio Moro defende sozinho seu pacote anticorrupção, a votação mais importante que está no Senado. O presidente Bolsonaro, enquanto isso, toma decisões: a) encontra-se com Romero Jucá e promete abandonar a expressão “velha política” (de agora em diante, diz, é a “boa política” contra a “má política”); b) anuncia que, ao que tudo indica, não mais haverá horário de verão; c) diz à imprensa, mas não ao principal interessado, que na segunda-feira deve demitir o ministro da Educação, que replicou dizendo que não vai entregar o cargo. Demissão “um dia desses” é novidade. Mais novidade é demitir um ministro que, qual Viúva Porcina, foi sem nunca ter sido. Como demitir alguém que, em mais de três meses, não chegou a exercer o cargo? Já o ministro tem toda a razão ao dizer que não vai entregar o cargo: se o cargo nunca foi exercido por ele, como entregá-lo?

Esperava-se que, em Israel, o presidente assinaria acordos que trouxessem ao Brasil a tecnologia de agricultura em terras áridas, que poderia fazer do  Nordeste uma região próspera, uma reedição do trabalho do agronegócio. Aliás, não eram acordos desse tipo que o ministro Marcos Astronauta Pontes esteve lá negociando? Esperava-se que o presidente estivesse na luta para aprovar pelo menos a Previdência, que permitiria ao país respirar e crescer.

Nada disso: como diz um guru do presidente, a Terra é chata. Muito chata.

Causa e efeito

Não é a mídia esquerdista, não são sociólogos petistas enrustidos, não é “pesquisa fake”: é uma empresa de investimentos de excelente reputação, a XP, que contrata pesquisas para orientar investidores, que mostra nova queda na popularidade de Bolsonaro. O presidente perdeu, em um mês, mais 2 pontos. Hoje, seu Governo é bom ou ótimo para 35% do eleitorado (eram 37%); e ruim ou péssimo para 26% (eram 24%). Para Bolsonaro, o melhor resultado da pesquisa é que 62% acham que ele representa a nova política.

Nhô ruim, nhô pior

E, mesmo com as trapalhadas do Governo, está difícil escolher outra corrente política. O PSDB, além de ter saído estilhaçado, está sob o comando formal de Alckmin, mas o comando real é de Dória. E a turma de um não se bica com a turma do outro. O DEM pode não admitir, mas com três ministros e as demonstrações de afeto entre Bolsonaro e ACM Neto, é claro que é o partido político governista mais estruturado (e que até agora não conseguiu botar ordem na casa). E o PT e seus penduricalhos, mesmo beneficiados por uma inacreditável falha da liderança do Governo, que os deixou sozinhos no diálogo do ministro, nada tinha a dizer senão insultos e grosserias. Não dá.

Desculpe o mau jeito

Bolsonaro voltou de Israel com muita disposição: já se reuniu com vários dirigentes de partidos e seis lhe prometeram apoio à reforma da Previdência, embora não se mostrem dispostos a integrar a base do Governo. Bolsonaro lhes pediu desculpas pelas caneladas. Os dirigentes prometeram, e talvez até cumpram a promessa de apoiar a reforma. E Bolsonaro talvez até deixe de distribuir caneladas. Mas seu filho Carlos, o 02, continua pronto para agir.

Meus caros amigos

Quem vem sendo atendido, na medida do possível, é o agronegócio. Sua representante, a ministra da Agricultura, trabalha em silêncio e ganha todas. Agora, Bolsonaro assinou o decreto que dá um bom desconto na conta de luz dos produtores rurais. Com isso, o Governo gastará R$ 3,4 bilhões por ano.

Outros amigos

Bolsonaro promete também assinar, nos próximos dias, a concessão de 13º para os beneficiários da Bolsa Família. Foi promessa de campanha.

Quem paga

Já quem ganha salário deve ter más notícias nos próximos dias: a partir do próximo reajuste, o salário mínimo subirá tanto quanto a inflação. Outros índices que poderiam reforçar o mínimo, como o crescimento do Produto Interno Bruto em anos anteriores, ficarão oficialmente de fora.

Previdência própria

A reforma da Previdência (que, apesar dos tropeções e caneladas, marcha para a aprovação) cria nova necessidade de investimento, para complementar a aposentadoria: a previdência privada. O assalariado vai poupando ao longo de sua vida de trabalho e, quando se aposentar, contará com os rendimentos que tiver obtido. A expectativa é grande: Luiz Barsi, que enriqueceu com os investimentos em ações (é até apelidado de Warren Buffet brasileiro) fará palestra, “Ações garantem o futuro”, e as inscrições se esgotaram no primeiro dia. Ver pessoalmente não é mais possível, mas haverá transmissão ao vivo no dia 10, às 18h30, pelo link http://www.oebtv.com.br . OEB é o projeto educacional de Louise, filha de Barsi, com os investidores Fábio Baroni e Felipe Ruiz, que ensina o público a poupar para a aposentadoria.

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​As histórias mal contadas

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O presidente Jair Bolsonaro tem muitos defeitos, não perde oportunidades de perder oportunidades, lidera um Governo tão completo que cuida até de fazer oposição a si mesmo. É correto criticar Bolsonaro (e o Governo) por suas inúmeras falhas. Mas, se há tantas falhas, por que não criticá-lo por elas? É incorreto, e desnecessário, o esforço para criar falhas e então atacá-lo.

A viagem a Israel foi um bom exemplo. A imprensa, maciçamente, diz que ao abrir um escritório comercial em Jerusalém, quando havia prometido para lá transferir a Embaixada, desagradou a todos: aos árabes, contrários à qualquer iniciativa que envolva Jerusalém, e a Israel, decepcionado com o adiamento da transferência. Estranho, não? Considerando-se que a ideia do escritório nasceu numa conversa de Bolsonaro com o embaixador de Israel no Brasil, Yossi Shelly, em novembro, e que até as pedras de Jerusalém sabiam que era o que aconteceria, houve mesmo decepção? A propósito, a República Tcheca fez a mesma coisa: primeiro o escritório, a Embaixada irá mais tarde. E ninguém ficou decepcionado nem fez mimimi por isso.

O ministro Sérgio Moro também tem defeitos a criticar. Mas agora vem sendo atacado, via Internet, por não conseguir pronunciar direito a palavra “cônjuge” (ele diz “conge”). Isso é prova, segundo os críticos, de que ele não entende nada de Direito e mesmo assim se atreveu a condenar Lula à prisão – justo Lula, “o maior presidente” que tivemos. Lula dizia “menas”. E daí?

Pensando no passado

Bolsonaro, além de não perder oportunidades de perder oportunidades, não perde a oportunidade de entrar em brigas sem sentido. Começou com a ênfase à comemoração do 31 de março: há anos as Forças Armadas fazem suas cerimônias, tudo bem, mas ele quis mudar. Resultado: abriu a porta para a contestação do que houve há 55 anos. E, buscando novas brigas, resolveu seguir a cabeça de seu chanceler e afirmar, logo em Israel, que o nazismo é uma ideologia de esquerda. O Yad Vashem, o comovente memorial do Holocausto, centro de estudos sobre o antissemitismo, diz que o nazismo é de extrema direita. É discussão sem sentido: o nazismo, derrotado há 75 anos, é o mal absoluto – e essa convicção só não é partilhada por algumas pessoas nocivas. E que vantagem Bolsonaro pode obter no debate? Demonizar a esquerda? Não dá: de Pol Pot a Mao, a esquerda criou seus próprios monstros. Não precisa de outros, pois já tem seus pecados a expiar.

Paz...

Bolsonaro chega e, conforme combinou, deve se encontrar já amanhã com o pessoal do Centrão e do PMDB – são 166 deputados e 35 senadores. Seus partidos são conhecidos pela flexibilidade de negociação: rendem-se com facilidade a bons, sólidos, múltiplos argumentos. Como dizem, não se opõem a trabalhar com o Governo, dividindo os ônus da aprovação da reforma da Previdência; mas querem também os bônus, ou seja, ocupar bons cargos. O caroço da conversa é esse: o que entendem por bons cargos. Há definições já sacramentadas, como a do deputado que disse que na Petrobras queria cargos daqueles de furar poços. Bolsonaro terá de convencê-los a apontar nomes competentes e honrados para que possam ter uma participação no Governo.

...e guerra

Há hoje boas possibilidades de aprovação da reforma, apesar do lobby de servidores públicos, da pressão sindical e das propostas de afrouxamento do rigor da nova lei. Mas com Bolsonaro nunca se sabe: ele a qualquer minuto pode iniciar uma discussão, com direito a insultos em redes sociais, sobre as reais causas do início da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Culpa, é claro, do Kaiser da Alemanha e do Imperador da Áustria, notórios esquerdistas.

Então, tá

O empresário bolsonarista Osmar Stabile informou ao Congresso em Foco, importante portal de Brasília, que foi o responsável pelo vídeo de apoio ao golpe e ao regime militar divulgado no dia 31. Disse que fez o vídeo por sua iniciativa, com seu dinheiro. Certo: só resta descobrir como o vídeo foi distribuído pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República.

Brasil inzoneiro

Reforma da Previdência, tudo bem. Mas será obedecida? Porque a lei do teto salarial para servidores públicos não chega a ser rigidamente aplicada. O ótimo portal jurídico gaúcho Espaço Vital (www.espacovital.com.br) traz duas notícias interessantíssimas – a fonte é oficial, é tudo documentado.

Um analista judiciário do Tribunal de Justiça do Pará pediu aposentadoria e receberá R$ 56 mil mensais. O salário máximo de servidor é R$ 39.200,00. Detalhe: o salário dele é de R$ 6 mil. Os R$ 50 mil a mais são gratificação e adicionais. No outro caso, o aposentado pelo Tribunal de Justiça da Bahia ganha menos que os ministros do Supremo: só R$ 24.700,00 mensais. Era motorista, com salário de R$ 5.600,00. O restante engloba as vantagens pessoais, o abono permanente e a reposição de adicionais. Tudo explicado?

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​Amizade eterna enquanto dure

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Bolsonaro, Rodrigo Maia, Moro e Paulo Guedes estão de bem. Segundo Bolsonaro, houve pequenas rusgas, “chuvas de verão”. Mas a amizade deve durar ao menos alguns dias: a crise viajou, foi para Israel. Lá, com recepção festiva, muitos acordos para assinar, não sobra tempo para novas brigas.

Todos cederam um pouco. Maia tinha dito que não ia falar com Moro, mas falou. Moro exigia análise rápida de suas medidas de combate ao crime organizado, mas, com a escolha da relatora na Comissão de Justiça, aceitou uma pequena demora, enquanto seu projeto é fundido com um anterior, de Alexandre de Moraes. Bolsonaro liberou Paulo Guedes para acordos com deputados, dentro da lei: recebe as emendas (legais) ao Orçamento e procura colocá-las de modo a que sejam úteis e se mantenham dentro do teto de gastos. O vice Mourão, que nem estava na briga, ficou feliz ao ser festejado por uns 600 empresários. Tudo está ótimo, ao menos enquanto estiver.

Os parlamentares, mesmo os mais pragmáticos, precisam se comportar. Se rejeitarem a reforma da Previdência e as consequências forem as que se anunciam – inflação em alta, menos investimentos, queda de empregos – vão levar a culpa. Colaborando, emplacam mais emendas, ficam de bem com o Governo Federal; e, se houver mesmo a tal “chuva de investimentos” que Guedes diz ser possível, tirarão fotos com ele e serão convidados para inaugurações. Claro, o filho 02 Carlos pode melar tudo. Mas nada é perfeito.

Como diz o poeta

Há quem diga que Jair Bolsonaro andou conversando com alguns de seus ministros militares, adeptos de mais moderação. É, porém, explosivo, reage com dureza quando se sente desafiado, e não serão conselhos de amigos, por mais respeitados que forem, que conseguirão contê-lo. Mas os negociadores de seus, dependendo do dia, aliados ou adversários, já sabem disso. E, para citar a própria expressão de Bolsonaro, de que as divergências foram chuvas de verão, é bom lembrar o que diz o autor da letra, Fernando Lobo: “Podemos ser amigos simplesmente/ coisas do amor, nunca mais”.

Pós-Israel

Bolsonaro combinou encontrar-se com Rodrigo Maia logo que voltar de Israel. O encontro deve selar o acordo de paz que ambos já anunciaram.

A guerra em números

Os índices mostram que as divergências entre Bolsonaro e Rodrigo Maia tiveram alto custo. O Índice de Confiança do Consumidor (FGV) desabou ao menor valor desde outubro de 2018, quando ainda havia dúvidas sobre o resultado das eleições. Em três meses – período de Bolsonaro no Governo – outro índice, o de Confiança do Comércio, caiu 8,3 pontos.

As armas do ministro

Guedes, embora não tenha experiência de articulação política, mantém bom entendimento com os parlamentares. E, além das conversas positivas sobre emendas ao Orçamento, acena com nova medida que agradará a Suas Excelências: um pacote de R$ 10 bilhões para Estados em dificuldades. Há governadores que assumiram Estados com cofres vazios e grandes dívidas. Ficarão felizes com a ajuda – e saberão que, se suas bancadas parlamentares estiverem de bem com o Governo Federal, será mais fácil obtê-la. O pacote, Programa de Equilíbrio Fiscal, está sob a responsabilidade do secretário do Tesouro, Mansueto Almeida. Ainda será analisado pela Procuradoria-Geral da Fazenda e passará pelo ministro Paulo Guedes, mas a promessa é de que tudo será enviado ao Congresso, para exame e votação, em 30 dias.

Os prazos

O deputado Marcelo Freitas, relator escolhido para a reforma da Previdência, promete entregar seu texto em 9 de abril. O projeto de segurança – junção dos textos de Alexandre de Moraes e de Sérgio Moro – deve estar pronto para votação, segundo as previsões dos especialistas em plenário, dentro de 45 dias. Isso, é óbvio, se o entendimento entre o Governo Federal e os parlamentares continuar bom até lá. De qualquer forma, a tramitação da reforma da Previdência no Congresso será iniciada no Senado, não mais na Câmara. A proposta foi feita por Moro e aceita tranquilamente por Maia. E Moro não criou obstáculos à fusão de seu projeto com o de Alexandre de Moraes, hoje ministro do Supremo. O acerto de posições entre ambos abre amplo campo para o entendimento político entre Governo e Congresso.

Águas passadas

Afinal, devem ou não os militares comemorar o 31 de março? Simples: se quiserem, que comemorem, como o vêm fazendo discretamente há muitos anos. Se não quiserem, que não comemorem. É tão ridículo proibi-los de lembrar a deposição de Jango quanto exigir que a festejem, 55 anos depois. É mais do que hora de trocar os militantes pelos historiadores. E não nos esqueçamos de que a grande imprensa, que hoje condena o “golpe”, na época o apoiava e chamava de “Revolução” – às vezes, Revolução Redentora.

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​O jogo do vai-vem

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Que é que o presidente Bolsonaro ganha brigando com Rodrigo Maia, o presidente da Câmara? Nada: Bolsonaro já venceu as eleições, embora nem sempre pareça convencido disso, e não causa qualquer prejuízo a Maia, que só enfrentará as urnas em 2022. E que é que Bolsonaro perde? Nessa briga, em que ele provavelmente nem sabe por que entrou, arranja um adversário bem colocado para atrapalhar o andamento da reforma da Previdência, seu projeto-chave, sem o qual será difícil manter a economia do país em ordem.

Parece – na atual situação, nunca se sabe – que tanto Bolsonaro quanto Maia concluíram que a briga é ruim para ambos. Já houve sinais de boa vontade. Maia disse que talvez dê para votar até o projeto de segurança do ministro Moro ainda no primeiro semestre. Seu principal interlocutor, o ministro Paulo Guedes, que no início do dia tinha desistido de conversar com parlamentares, já ajuda a indicar o relator da reforma da Previdência,

O fato é que o Governo está perto de aprovar a reforma, com algumas mudanças ditadas pelo Congresso (que manteria a aposentadoria rural e o benefício de prestação continuada). Cerca de 300 parlamentares votam pela reforma – e aí não estão os 54 do PSL, partido de Bolsonaro, nem os oito do Novo, que por definição querem reduzir as despesas do Governo. São necessários 308 – há, portanto, margem até para traição, sem que o projeto caia. Se os twitters se calarem um pouco, a reforma pode andar rápido.

Guedes, articulador

Paulo Guedes não foi à reunião com deputados (acertou-se, agora, que irá em outra data), mas não parou o dia inteiro. Conversou por três horas com governadores, e deve levar-lhes em 30 dias um plano de recuperação econômica dos Estados. Confirmou presença amanhã na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, onde tratará do mesmo tema. Embora tenha falado de outros assuntos, pensa é na reforma da Previdência. Se não houver a reforma, de onde sairá o dinheiro para os Estados?

Hora H

As conversas voltaram a fluir em boa hora. Exatamente a hora em que o vice-presidente Hamilton Mourão recebe apoteótica homenagem na Fiesp, na presença de empresários que comandam mais de um trilhão de reais.

A grande frase

Do general Mourão, condenando excessos dos radicais, em frase citada pelo colunista gaúcho Fernando Albrecht (http://fernandoalbrecht.blog.br/): “Não se combate o comunismo com comunismo ao contrário”.

Cortinas de fumaça

Alguns dias de paz são suficientes para que as coisas engrenem. Dentro de pouco tempo o presidente Bolsonaro vai a Israel. Deve assinar acordos já acertados pelo ministro da Ciência, Marcos Pontes, em dessalinização e irrigação. Pode haver alguma surpresa, tipo transferência da Embaixada do Brasil para Jerusalém – um agrado ao primeiro-ministro Bibi Netanyahu, que logo depois enfrenta duras eleições. Durante esta viagem o noticiário cuida não das brigas entre bolsonaristas, mas dos acordos com Israel.

Outro debate

A deputada Joice Hasselmann anuncia um projeto que também ajudará a dividir os debates: eliminar a contribuição anual obrigatória dos advogados. Se desapareceu o imposto sindical, fazendo com que sindicatos e centrais vivam por conta própria, por que obrigar advogados a pagar OAB? São coisas diferentes, mas o projeto provocará muito barulho da Ordem.

Como é mesmo?

Temer, Moreira Franco e outros presos receberam habeas corpus, estão soltos, mas uma questão não foi esclarecida: aquele depósito em dinheiro de R$ 20 milhões num banco. Bancos são monitorados por câmeras, e seria interessante ver o tamanho do depositante capaz de carregar uns bons 50 kg de papel moeda dentro da mala. E como os seguranças deixaram entrar no banco um cavalheiro transportando a mala capaz de conter 50 kg?

Dia D

A TV Gazeta de São Paulo acaba de contratar o ex-governador Geraldo Alckmin para participar quinzenalmente do programa Todo Seu, de Ronnie Von, agora em novo horário: 13h30. A estreia é dia 1º de abril. Alckmin falará sobre saúde e qualidade de vida, alimentação saudável, importância da atividade fixa. Deve ser interessante: Alckmin é médico. Anestesista.

Dinheiro voa

Caro leitor, diga: por que o Detran precisa de propaganda? Tem concorrente? Pois o Detran de Goiás, nos últimos quatro anos do Governo de Marconi Perillo, PSDB, gastou em propaganda R$ 22,5 milhões por ano. Nestes mesmos quatro anos, o Governo goiano gastou no total algo como R$ 500 milhões em propaganda. O Ministério Público goiano já começou a agir: pede que o dinheiro gasto pelo Detran seja devolvido ao Tesouro.

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​Era vidro e se quebrou

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O jogo ia bem: dois projetos da mais alta importância, a lei de combate ao crime e a reforma da Previdência, entregues ao Congresso logo no início do Governo, uma definição clara de prioridades (primeiro a Economia, logo depois a Segurança, manter tranquilo o que já funcionava, o agronegócio), e fazer barulho com outros temas para distrair a oposição. E que é que se poderia pedir de melhor do que uma oposição dirigida por Gleisi Hoffmann?

Pois Bolsonaro está conseguindo não ganhar o jogo: permitiu que temas destinados apenas a fazer barulho dominassem de verdade a pauta oficial, passou a impressão de que um escritor residente nos Estados Unidos manda em parte do Governo, e não conseguiu controlar as iniciativas de seu filho Carlos, o 02, a quem chama carinhosamente de “pitbull”. Ou, pior ainda, é conivente com os ataques via twitter a aliados de que necessita – alguns de seu próprio grupo, como o vice Mourão; outros de fora, como Rodrigo Maia.

Bolsonaro não está em fase de boa sorte. Na disputa entre Supremo e Lava Jato, foi atingido Moreira Franco – sogro de Rodrigo Maia. A tropa virtual bolsonarista festejou, e Rodrigo Maia, já chateado com Moro, se cansou. Não rompe com o Governo, nem desiste da reforma da Previdência, mas coordenar a ação política oficial, de maneira a conseguir os votos suficientes para aprová-la, isso não. E que governista poderá fazer a coordenação? Onyx Lorenzoni? Eduardo, filho 03? Melhor não: perder de muito é ruim demais.

Deixa...

Há muita gente de prestígio tentando convencer Rodrigo Maia a ficar no barco, como Janaína Pascoal, uma das redatoras do pedido de impeachment de Dilma, deputada estadual paulista com a maior votação de um parlamentar na história do país. Paulo Guedes, o superministro da Economia, trabalha nisso. E há quem tente convencer Bolsonaro de que o papel de seus filhos não é constranger o Governo – posição da ala militar, cujo porta-voz é o vice-presidente Mourão. Aliás, Mourão já avisou Bolsonaro de que não tem mais paciência para as ofensas que Olavo de Carvalho lhe dirige. Cansou.

...disso

O integrante mais surpreendente da turma do deixa-disso é o senador Flávio Bolsonaro, o filho 03. Pelo twitter, disse: “O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, é fundamental na articulação para aprovar a Nova Previdência e projetos de combate ao crime. Assim como nós, está engajado em fazer o Brasil dar certo!” No mesmo post, desagravou Rodrigo Maia dos ataques de seu irmão Carlos e do ministro Sérgio Moro, que tinha deixado claro que em sua opinião o presidente da Câmara dava prioridade à Previdência e deixava para sabe-se lá quando o projeto de combate ao crime. 

A paz militar

Pode ser que o presidente Bolsonaro tenha ouvido os conselhos do grupo militar e dado comando de ordem unida ao filho 02 e aos guerrilheiros de Internet. Afinal de contas, ou é isso ou não haverá reforma da Previdência (nem o pacote da segurança de Moro). E, a continuar assim, nem Governo.

Coincidência

A gravação da conversa de Michel Temer com Joesley Batista foi divulgada poucos dias antes da votação da reforma da Previdência. A prisão de Moreira Franco ocorreu no momento em que seu genro era o principal articulador da aprovação da reforma da Previdência. A discussão de Sérgio Moro com Rodrigo Maia, em que o ministro disse que o povo não aguentava mais a insegurança (e recebeu dura resposta) aconteceu na mesma ocasião. O destino, ó destino cruel, parece conspirar contra a reforma da Previdência.

O show da vida

A prisão de Temer e Moreira Franco foi parte de um duelo entre Operação Lava Jato e Supremo. O Supremo tomou decisões que reduziram a margem de ação dos procuradores da Lava Jato (que deixaram clara sua irritação), e esta poderia ser a primeira resposta – o que explica o estardalhaço com que foram feitas, com paralisação do trânsito (e, claro, imagens da TV). 

Os bois gigantes

Por falar em prisões, sai nesta segunda, no Brasil e nos EUA, o livro Traidores da Pátria, do jornalista Cláudio Tognolli. Na capa, a foto dos irmãos Joesley e Wesley Batista – a conversa de Temer com Joesley, que a usou em delação premiada, quase derrubou o então presidente. No livro, documentada, a história do crescimento da JBS, com propinas para muita gente, inclusive, diz a delação, Michel Temer. Para crescer, a JBS se ligou ao Governo da época, do PT, e usou dinheiro de bancos públicos. Os irmãos por pouco não se livraram de qualquer pena, como prêmio pelas denúncias. Mas a delação tinha suas falhas, foi anulada, e o Supremo pode prendê-los.

Um lançamento inusitado: dois bois gigantes de fibra de vidro circularão por Brasília das 11h30 às 15h30, com DJ de música caipira e locutor. O livro sai no Brasil com três mil exemplares e nos EUA, em inglês, com dez mil.

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​A economia, só a economia vale

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Bolsonaro não fala inglês, oh céus! Guilherme de Orange não era inglês nem falava inglês, mas liderou a Revolução Gloriosa e foi um dos grandes reis da Inglaterra. Stalin não falava inglês, se aliou a Roosevelt e Churchill e ninguém se queixou – até porque ninguém era besta. Pedir outra Águia de Haia – para quê? Na visita de Bolsonaro aos EUA, só a economia importa. O resto é besteira, inclusive as tosquices e a tietagem do presidente.

Em economia, que veio para nós? Dois velhos pedidos foram atendidos: os EUA recomendaram o ingresso do Brasil na OCDE, Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, onde os países mais ricos do mundo decidem as normas da economia internacional; e passaram a considerar o Brasil aliado preferencial fora da OTAN – do ponto de vista militar, garante mais equipamento para as Forças Armadas; do econômico, exportação de armas made in Brasil. E na Base Aeroespacial de Alcântara haverá cooperação, ótima para o desenvolvimento de tecnologia nacional. Em troca, o Brasil dispensou os americanos (e japoneses, canadenses, australianos) de visto de entrada, sem que estes países deem a mesma regalia a brasileiros. É chato? É. Mas abre o Brasil a muito mais turistas.

Bolsonaro se entusiasmou ao ver de perto seu ídolo Trump. Tietagem desnecessária. Mas se a viagem der bom resultado econômico, ele pode até botar orelhas de Mickey. Ridículo? Nada é ridículo quando tem êxito.

Moro na CIA

Oh, céus, Moro visitou a nefanda CIA. Mas com quem conversaria sobre cooperação na luta contra o crime organizado? Bolsonaro foi com ele. Dos presidentes brasileiros em visita aos EUA, é o primeiro a visitar o QG da CIA, em Langley. Mas Juscelino teve longas reuniões nos EUA com Allen Dulles, o chefão da CIA – em sigilo, fora da agenda. 

Guedes é o nome

O ministro da Economia, num discurso fluente, em inglês, usou palavras pouco polidas, ao se referir à ousadia de Bolsonaro no corte de privilégios. Oh, céus!!! Falar em “balls”! Lá ninguém achou ruim – só aqui, em que um presidente jamais disse que tinha “aquilo roxo”. Guedes deixou excelente impressão – talvez por ter o que mostrar, num Governo em que só ele tem grande importância: a Bolsa passou a barreira dos cem mil pontos, o leilão dos aeroportos foi um sucesso (o preço obtido superou de longe o previsto), há algum superávit nas contas públicas, a inflação se mantém baixa, há fortes indícios de que a privatização está sendo bem planejada. Para os investidores, isso conta mais do que um eventual mau uso de palavras.

A fala dos números

O XP Investimentos elaborou pesquisa sobre a popularidade do Governo Bolsonaro. O presidente teve uma pequena queda, mas continua sendo muito bem visto. Há esperança de que leve adiante seus projetos. Duas coisas importantes: as redes sociais – menina dos olhos de Bolsonaro e seus filhos – são vistas como pouco confiáveis. E a grande imprensa continua sendo vista como o meio mais confiável de informação. Importante: o XP encomenda a pesquisa para ajudá-lo na busca de bons investimentos. Não é questão ideológica: a precisão na pesquisa e análise dos fatos vale dinheiro.

Brigas e briguinhas

Há parlamentares ameaçando derrubar o decreto pelo qual só quem tem ficha limpa poderá ser nomeado para cargos em comissão (aqueles que não exigem concurso). Querem que o decreto valha a partir de 1º de janeiro, dia da posse de Bolsonaro. Quem foi nomeado a partir daquela data só fica no cargo se tiver ficha limpa. O decreto fixa a data de 15 de março. Acham os parlamentares que Bolsonaro quer restringir as indicações que fizerem. Não gostam também do decreto que eliminou 21 mil cargos federais. A ameaça é dificultar a reforma da Previdência. Mas se a economia estiver dando certo, quem terá coragem de fazer isso? A economia é a chave do Governo.

Briga de...

O Ministério Público ofereceu denúncia, já aceita pela 6ª Vara Criminal, contra três dos quatro proprietários do grupo Marabraz, gigante do varejo. A denúncia enviada à 6ª Vara Criminal é de prática de crime tributário.

...gente grande

A Junta Comercial do Estado de São Paulo enviou ao Ministério Público informações de que a alteração societária da empresa LP Administradora de Bens, parte do grupo Marabraz, tem texto diferente do que consta em escritura pública do 26º Tabelião – segundo a informação, falta a parte em que consta um irmão e sócio. O Ministério Público investiga o caso.

Novidades na Folha

Sem discutir o afastamento de Cristina Frias da direção da Folha de S.Paulo, decidido por seu irmão, Luís Frias: o substituto de Cristina, Sérgio Dávila, é um jornalista extremamente competente e respeitadíssimo.

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