​BBB – Big Bode Brasília

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O ministro Sérgio Moro entregou no Congresso os projetos de combate ao crime. O presidente Bolsonaro deve ir hoje ao Congresso com a reforma da Previdência. São dois projetos-chave, promessas de campanha; se derem certo, marcarão seu Governo. O momento é ótimo: o PT mantém a cabeça em Curitiba e a oposição pode ser convencida com baixo custo político.

Mas este é um Governo completo: se a oposição é fraca, os governantes providenciam sua própria e sanguinária oposição. Brigas feias em torno de conversas que, se houve (e houve) não fariam diferença. Bolsonaro e um filho brigaram com o chefe da campanha presidencial, Gustavo Bebianno, e o tocaram do Governo. Motivo? Uma importantíssima divergência sobre telefonemas que foram trocados, ou não foram trocados, entre o presidente e seu até então homem de confiança, Gustavo Bebianno. Os telefonemas, aliás, houve; e tanto o filho do presidente quanto o próprio acusaram quem disse que houve de mentiroso. Importância zero – mas o Governo rachou.

Bobagem? Quem chega ao poder pode ser tudo, menos bobo. Se houve ou não a conversa, isso foi pretexto. Então, por que a briga? Por causa do encontro marcado entre Bebianno e um alto funcionário da Rede Globo, no palácio? Bolsonaro não quer a Globo lá, disse no tal telefonema que disse que não houve. Mas dois de seus auxiliares mais próximos já receberam o mesmo cavalheiro, e ninguém brigou, não. Então, qual a causa da briga?

Sopa de letras

Vale a pena buscar também o motivo que leva o organizador da UDN, mais um novo partido, a dizer que a família Bolsonaro provavelmente irá para lá, abandonando o PSL. Qual o problema que o PSL causou, ou causa, ao presidente e a 01, 02 e 03, seus filhos? Que se saiba, nenhum. Qual será a divergência ideológica entre UDN e PSL? Nenhuma: as duas legendas se colocarão ideologicamente do jeito que Bolsonaro mandar. Por que sair de um partido estruturado para entrar num em estruturação? UDN será mais chique? Quantos eleitores se lembrarão de um partido extinto há 54 anos?

A grande atração

O repórter José Casado, de O Globo, levanta uma questão interessante: o financiamento de campanha. O PSL tinha representação minúscula e, com o impulso de Bolsonaro, formou bancada de 52 deputados. Com isso, uma legenda que recebia R$ 6 milhões anuais de Fundo Partidário passa a valer R$ 115 milhões por ano – e, se os costumes políticos no Brasil continuarem os de sempre, a bancada vai crescer e valer R$ 200 milhões de renda anual. Mas isso depende de Bolsonaro: se sai e leva seus deputados, o PSL volta à receita habitual, baixinha. O presidente do partido, Luciano Bivar, segundo Casado, administra 15% do financiamento eleitoral. Bebianno é seu vice.

A grande solução

site O Antagonista, que cita a análise de José Casado, avança e aponta a solução do problema: extinguir o Fundo Partidário e o financiamento publico de campanha. Este colunista não vê motivo nenhum para pagar a campanha de um candidato que, a propósito, nem sabe quem é. A questão é política, mas Paulo Guedes daria um jeito rápido nesta sangria de dinheiro.

A hora dos argumentos

Se na hora de mostrar força política o Governo racha, terá problemas: há parlamentares cujo faro é especialmente aguçado para detectar o momento certo de criar obstáculos. São pessoas que só se convencem quando ouvem o tilintar de argumentos ponderáveis e em grande quantidade. Bolsonaro marcou um café da manhã no Alvorada com líderes partidários, amanhã, e tentará mostrar-lhes as vantagens da reforma da Previdência. Mas só terá êxito se o cardápio for bom. Pão com leite condensado não os convence.

Carne forte

A Austrália, grande exportador de carne, enfrentou primeiro uma seca e, em seguida, chuvas devastadoras. Por causa da seca, muitas fêmeas foram abatidas; em 2018, com a abundância de carne, houve exportações de quase um milhão de toneladas, contra aproximadamente 1,4 milhão de toneladas do Brasil (mas à custa da redução do rebanho). A chuva matou 500 mil cabeças. Ou seja, as exportações futuras da Austrália serão bem menores. No Brasil, noticiou-se a seca e a inundação, mas a consequente redução das exportações não foi citada. Há quem acredite que os frigoríficos brasileiros fingiram não dar importância à Austrália, e com isso a repercussão foi mínima, para não indicar a próxima alta de preços da carne exportável.

Luz e leite

Aqui a crise é outra: os produtores de Goiás criticam a qualidade dos serviços da ENEL, que fornece eletricidade. As faltas de luz atingem com mais força os produtores de leite, deixando-os sem refrigeração. A Assembléia goiana já criou Comissão Especial de Inquérito sobre a ENEL.Parte inferior do formulário

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Alegria, Alegria – por enquanto.

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​As poucas informações de Bolsonaro sobre a reforma da Previdência já provocaram euforia no mercado: Bolsa em elevação, dólar em baixa. E, no fundo, Bolsonaro só disse de novo que a idade mínima para aposentadoria será de 62 anos para mulheres e 65 anos para homens (aliás, nem isso era exatamente novidade: a novidade é ele ter sacramentado essas datas). Mas a expectativa do mercado é boa: a Bolsa espera romper a barreira dos 100 mil pontos, o ministro Paulo Guedes fala em economizar R$ 1,1 trilhão em dez anos. Ah, há outra novidade: o prazo de transição será de dez anos. Ou seja, aprovada agora como foi proposta, a reforma da Previdência fará com que, no final do mandato de Bolsonaro, homens se aposentem com 61 anos e seis meses, e as mulheres com 57 anos e seis meses; em 2029, os homens se aposentarão com os 65 anos. A transição das mulheres deve ir até 2031.

Fechado? Não é bem assim. O que se comenta é que há um colchão na reforma, pronto para absorver emendas mais suaves propostas pelo Senado e Câmara. De qualquer maneira, o alívio nas contas públicas será grande.

E agora? O ideal para o Governo é aproveitar seu capital político, a força da vitória, e passar logo a reforma. Com o tempo, a lembrança da vitória fica mais tênue, e 001002 e 003 limarão o prestígio do pai até transformá-lo num Zero. Quem já brigou com o vice, com o chefe da campanha e um trator como Joice Hasselmann não pode ser subestimado.

Quem tem a força

O Governo Bolsonaro, imagina-se, acaba de começar. O primeiro lance, diga-se, foi um êxito: os chefões do crime organizado paulista foram para prisões federais, conforme pedido do Ministério Público, e as medidas de segurança que o Governo tomou impediram até agora aquilo que se temia: a volta do clima de guerra civil no Estado, com bandidos atirando em todos os policiais que viam. Esta é a área de Sérgio Moro, um dos sustentáculos do atual Governo. Se a reforma da Previdência passar, se forem cumpridas as promessas de privatizações e da redução da máquina administrativa, será um sucesso da área de Paulo Guedes, de longe o mais importante ministro de Bolsonaro. Se a economia der certo, os Recrutas Zero, os ministros mais pitorescos, a turma do vai-vem podem fazer bobagem que o eleitor não vai dar bola. Se a economia der certo, será um grande Governo. Se a economia não der certo, será no máximo um Governo médio com acertos e erros.

A voz do povo

A Taboola, líder mundial na avaliação dos desejos dos consumidores, apurou que Paulo Guedes, da Economia, é o ministro mais lido nas redes sociais. A Taboola chegou a esta conclusão a partir do acesso que tem a 9 bilhões de page-views e 70 milhões de horas na Internet. Guedes é o mais lido; o segundo é Moro. Damares, com todas as declarações que provocam turbulência, é a terceira, com menos da metade das leituras de Guedes.

Seguem-se Onyx Lorenzoni, Ernesto Araújo, Tereza Cristina, Ricardo Salles, Marcos Pontes, general Fernando Azevedo, da Defesa, e Ricardo Vélez Rodríguez, da Educação. Os outros – bem, os outros estão atrás não só da Damares mas também do Rodríguez. Não se preocupe com eles.

Podia, mas não pode

Fábio Giambiagi, um notável economista, fez praticamente toda sua carreira profissional no BNDES, como funcionário de carreira, nos mais diversos governos. Nessas condições foi convidado a escrever artigos no jornal Valor Econômico. Em 2015, quando o Valor comemorou 15 anos, promoveu uma série de entrevistas com seus colunistas, incluindo Fábio Giambiagi, e salientando sua condição de economista do BNDES.

Bom, 2015 era época de Dilma presidente. Agora, Fábio Giambiagi foi afastado do Valor por ser economista do BNDES – seu emprego de sempre. Só mudou uma coisa: o nome do presidente é Bolsonaro, não Dilma.

A lei é para todos

A deputada federal Bia Kicis, do PFL brasiliense, quer revogar a PEC da Bengala – a emenda constitucional que passou a idade de aposentadoria de ministros do Supremo de 70 para 75 anos. Diz que a extensão do mandato dos ministros “impede a oxigenação da carreira”.

Mas o objetivo é outro: é abrir vagas para que Bolsonaro nomeie ministros que considere mais próximos. É um erro: Lula acreditava nisso e descobriu que as promessas de um candidato nem sempre são cumpridas após a nomeação. Segundo, a lei deve visar casos futuros, e não mudar as regras no meio do jogo. Os EUA não forçam ministros da Suprema Corte a se afastar: aposentam-se quando não mais se sentem em condições de julgar (se um tiver problemas e não se afastar, os demais votam sua aposentadoria). Para que pagar aposentados a mais e perder a experiência dos mais velhos?

Mal comparando

Pensando bem, o Michelzinho deu muito menos trabalho.

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​A hora dos generais

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Que ninguém se iluda: não há divergência séria entre Bolsonaro e o vice. Há divergências entre os filhos de Bolsonaro e o vice; mas alguém me disse que essas divergências, embora continuem a existir, serão dia a dia menos barulhentas. Olavo de Carvalho, ideólogo de boa parte do Governo, autor da indicação de pelo menos dois ministros, Educação e Relações Exteriores, da total confiança de Eduardo Bolsonaro, tem seguidores e já abriu fogo contra o vice Mourão. Olavo é ouvido. Mas muito mais ouvido do que ele é um ministro que fala baixo, porém silencia as estridências de outros: o general Augusto Heleno, respeitadíssimo, principal contato de Bolsonaro com as Forças Armadas. Augusto Heleno, por sua força, evita ao máximo os conflitos abertos. Mas, em caso de divergência, é ele que ganha.

Heleno tem excelentes relações com Mourão e com Bolsonaro. Dizem que já pediu aos filhos de Bolsonaro que, exatamente por ser filhos, não se sintam tentados a pressionar o pai. Tudo indica que foi ouvido.

Um bom exemplo da ação de Heleno é o Sínodo da Amazônia, que se realiza em outubro, no Vaticano. Governistas radicais acusaram a Igreja de dar voz à esquerda para atacar Bolsonaro. Heleno disse que o Brasil deve só defender a Amazônia brasileira, sem se envolver em nada que envolva soberania de outros países ou temas religiosos. O Brasil não aceita lições de países que desmataram mais do que nós. Foi duro – e sem ataque à Igreja.

Bem aposentados

Há meses o país debate a reforma da Previdência – e fomos informados de que, se não houver reforma, o Tesouro quebra. Goiás, depois de longo período de Governo tucano, está em situação de emergência financeira. Mas nem todos ficam tristes: a folha de pagamento oficial de auditores fiscais, alguns na ativa, alguns aposentados, mostra que em dezembro o menor salário foi de R$ 54.893,00 – mais de 50% acima do recebido pelos ministros do Supremo Tribunal Federal, o máximo que poderia ser pago se no Brasil a lei fosse cumprida. O maior pagamento é de R$ 58.797,00.

Muito bem aposentados

Mas não inveje os auditores fiscais de Goiás: na Bahia, igualmente com imensas dificuldades financeiras, há pagamentos mais substanciosos. Bom exemplo é a folha de dezembro de desembargadores ativos e inativos. O mais bem aquinhoado recebeu, líquidos, após os descontos,R$105.346,66. No meio há quatro ganhando pouco acima de R$ 95 mil (e um, menos favorecido, ganhando apenas R$ 90 mil e algumas quireras). O mais mal pago das Excelências tem de sobreviver com R$ 32.370 mensais – e, como é salário líquido, também superior aos vencimentos dos ministros do STF, que deveriam ser o teto dos pagamentos feitos a servidores públicos.

Claro, este salário é em folha. Vantagens extras, como carro com chofer, gasolina, plano de saúde e vale-refeição, são pagas por fora.

Ideia de fôlego

O Governo e a indústria química acabam de lançar um projeto que, além de suas finalidades específicas, sejam quais forem, já que pelo título fica difícil entender quais serão, testará o fôlego de quem se envolver nos trabalhos. Nome: "Programa de Articulação Nacional entre Empresas, Governo e Instituições Acadêmicas para a Prevenção e Mitigação  do Risco de Eventos Químicos, Biológicos, Radiológicos e Nucleares Selecionados". O programa já nasce com um apelido: Pangeia. O nome é grego e significa “toda a Terra”. E todo o ar, para respirar enquanto se diz o nome da coisa.

Muitos em um

El Salvador, na América Central, escapou à disputa tradicional entre os dois maiores partidos e elegeu presidente da República um deputado não muito conhecido: Nayib Bukele, 37 anos. Sua avó paterna, católica romana, nasceu em Belém, na área que hoje é administrada pela Autoridade Palestina; o avô paterno, ortodoxo grego, nasceu em Jerusalém. Seu pai se converteu ao islamismo. Sua esposa é judia. Um exemplo de conciliação, num país que enfrentou décadas de guerra civil e ainda hoje tem as marcas.

Não para

Bolsonaro se recupera bem, mas enfrentou há pouco uma séria cirurgia e teve pneumonia. Aparentemente, não dá importância a isso: tem viagem para os Estados Unidos de 18 a 20 de março, a convite de Trump. Passa rapidamente por Brasília, rearruma as malas e segue para o Chile, de 22 a 23 de março. Aí tem um mês e pouco de permanência no Brasil e volta aos EUA, em 14 de maio, para receber o título de Pessoa do Ano, conferido pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos - “reconhecimento de sua intenção fortemente declarada de fomentar laços comerciais e diplomáticos mais próximos entre Brasil e EUA e seu firme comprometimento em construir uma parceria forte e duradoura entre as duas nações”. O título é entregue num jantar de gala no Museu de História Natural de Nova York.

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​A vida é apenas um detalhe

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Não, não foi um incêndio que matou dez crianças e feriu três no Centro de Treinamento do Flamengo, no Rio. Quem os matou pode ser descoberto sem o rigoroso inquérito. Basta verificar quem mandou abrigar as crianças em contêineres, num terreno que, sem condições, não poderia ser usado.

Não, não foi a ruptura da barragem de Brumadinho que deixou mais de 300 mortos e desaparecidos e envenenou os rios que levavam água para a população. Dois dias antes da ruptura, revelam e-mails trocados entre duas empresas que cuidavam da segurança da barragem e funcionários da Vale, a mineradora tinha sido avisada dos problemas nos sensores que deveriam monitorar a estrutura de Brumadinho. Que fez a Vale, nesses dois dias? Na melhor das hipóteses, orou para que nada ocorresse. Na pior, nem deu bola: seu negócio é minério, não vidas humanas. Não verificaram nem as sirenes.

Não, não será um acidente, nem uma fatalidade, se Itabira, muito maior que Brumadinho, for vítima de uma barragem com 200 vezes a capacidade da que se rompeu. O repórter Rodrigo Hidalgo, da Band, filmou as brechas na segurança e a matéria foi ao ar, em rede nacional. E a Vale? Silêncio.

Não, não são casos isolados, o do Flamengo e o da Vale, o de Mariana e o de Brumadinho, ou, que Deus não o permita, o que ameaça Itabira. São todos o mesmo problema: o importante é cuidar exclusivamente do negócio e não se mexer para torná-lo seguro. A vida humana é apenas um detalhe.

Assassínio a prazo

Não, não foi um temporal inesperado o culpado pelas mortes e o caos no Rio. Os radares detectaram a movimentação da tempestade de Paraty para o Rio com quatro horas de antecedência. Se ninguém se mexeu, não é culpa dos radares. O fato é que há muitos anos as verbas para proteção da cidade contra temporais foram reduzidas a uns 30% do que se gastava – e que já era pouco. Percorra o Rio (não só o Rio, boa parte de nossas cidades, mas lá a área é sujeita a chuvas muito fortes) e verá que os esgotos estão fora de uso há tempos, até com capim nascendo nas bocas de lobo. A ocupação desordenada de morros eliminou as árvores que reduziam a velocidade das águas. As favelas estão em áreas de risco. Desculpe, caro leitor: já não há mais favelas, há comunidades. O nome é outro, apenas o risco é o mesmo.

A saúde do presidente

Um deputado federal do PSOL disse que o presidente Bolsonaro estava às portas da morte. Some-se a isso a pneumonia, uma doença perigosa; as fotos em que o presidente, com sonda nasal e provavelmente irritadíssimo por não poder sair logo do hospital, mostrava péssima aparência; e houve uma onda de boatos sobre a saúde de Bolsonaro. Seus médicos foram direto ao ponto: a pneumonia cedeu, o presidente voltou a comer (era alimentado, antes, por sonda), sua recuperação é boa. Fica mais alguns dias no hospital, mas vai bem. E aos poucos vai sendo autorizado a receber seus ministros.

Sarar é preciso

O ideal, acredita este colunista, seria que Bolsonaro aceitasse relaxar: no hospital, cuidaria exclusivamente da saúde, sem tentar ao mesmo tempo exercer a Presidência. Tem um vice, que ele escolheu, e se assumir por uns dias permitirá que Bolsonaro fique um pouco mais tranquilo. E é bom para o Governo: hoje, falta a voz do presidente bem na hora das reformas.

Impunidade, não

Lembra da juíza que colocou uma adolescente numa cela em que só havia homens adultos? A juíza Clarice Maria de Andrade foi severamente punida pelo Conselho Nacional de Justiça: está sem trabalhar (“em disponibilidade”) mas ganha seu salário direitinho, como se estivesse em plena atividade. A maldição bíblica - “ganharás o pão com o suor de seu rosto” - não a atinge. Mas não imagine que esta é uma situação provisória, imposta pelo CNJ: já foi confirmada pelo Supremo Tribunal Federal.

Lula, segunda sentença

Com a condenação a 12 anos e 11 meses (esta pelo sítio de Atibaia), Lula acumula pouco menos de 25 anos de pena – e restam ainda sete outros processos. Caso a nova condenação seja confirmada em segunda instância, Lula, mesmo que seja absolvido em todos os demais processos e libertado o mais rapidamente possível, terá quatro anos e alguns meses a cumprir. E o pior, para o PT, é que está havendo dificuldade para mobilizar militantes para manifestações em favor do ex-presidente. Na última, em seu reduto de São Bernardo, com todo o comando petista, não havia nem mil pessoas.

Nos tempos da ditadura

Agora, que está meio na moda negar que tenha havido ditadura militar, vale a pena ler a revista Zumbido, editada pelo SESC: em boa reportagem de Chico Spagnolo e Wagner Amorosino, surgem os pareceres da Censura vetando letras de músicas de que os censores não gostavam. E é de graça: está no site https://medium.com/zumbido. Vale a pena.

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​Ruiu a barragem, rui a imagem

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Aquele festival de fintas e de fumaça nos olhos que poupou a Samarco, após a tragédia de Mariana, de maiores aborrecimentos (a ponto de até hoje não ter pago sequer as multas que lhe foram impostas), não deve se repetir com a Vale, na tragédia de Brumadinho. A deputada Joice Hasselman já tem mais de 200 assinaturas para instaurar uma CPI, Comissão Parlamentar de Inquérito, na Câmara Federal; e já há quase 40 senadores que assinaram a CPMI, comissão mista do Senado e da Câmara, sobre o mesmo assunto. A Vale é o alvo. Há novos parlamentares interessados em projetar-se nas investigações. Há muitas coisas para explicar. Quem a conhece sabe como será difícil enfrentar uma Joice, rápida e agressiva, estreando em CPI.

Como explicar o relatório da empresa alemã Tüv Sud, de agosto último, que mostra que a base da barragem estava no limite de segurança? E, no mesmo relatório, outros 15 pontos que exigiam atenção?

O Senado também está pronto: Carlos Viana, um dos autores do pedido de CPMI, diz que “vai para cima da Vale”. A seu ver, a empresa, embora alertada, não acionou seu plano de emergência. “Irresponsabilidade”, diz. No Senado e na Câmara, a ideia é que a Vale menosprezou fatores que deveria ter considerado. Tenham ou não razão, a tragédia ocorreu.

Pode haver panos quentes? Pode – em outros casos, já houve. Mas quem estiver de alguma forma envolvido na tragédia pagará caro para se livrar.

Perigo espalhado 1

Brumadinho? Ali perto, em Itabira, a Vale tem uma barragem com 20 vezes a capacidade de Brumadinho. A enorme barragem, revela o repórter Rodrigo Hidalgo, da Band, que teve acesso a documentos da Vale, ostenta uma trinca de 130 metros no alto; em baixo há afundamento de mais de meio metro. Itabira tem 120 mil habitantes. Providências? Rigorosíssimas!

Perigo espalhado 2

Em São Paulo, a maior cidade do país, seis pontes e viadutos correm risco de colapso, segundo estudo oficial da Prefeitura. Essas estruturas estão em regiões densamente povoadas e são essenciais para que o trânsito da cidade continue, bem ou mal, fluindo. Mas já houve pelo menos uma providência: a frase “risco iminente de colapso” foi substituída por “risco desconhecido”. Claro: talvez não aconteça nada, apesar de em algumas dessas obras passarem dez mil veículos por hora. Se ocorrer, “é fatalidade”.

Renan perdeu. E perdeu

Ulysses Guimarães, lendário líder da campanha Diretas Já, sempre dizia que não se deve pensar com o fígado. “Raciocínio não é função hepática”.

Um político de cabeça gelada, capaz de transformar uma guerra com o senador Sarney numa aliança proveitosíssima, foi incapaz de suportar a derrota numa votação que considerava ganha. Depois de batido na luta pelo comando do Senado, Renan Calheiros perdeu o sangue-frio, a compostura e os bons modos. Atacou grosseiramente a jornalista Dora Kramer, de Veja, e o falecido senador Ramez Tebet. O pecado de Dora foi dizer que, na eleição perdida, Renan tinha sido arrogante. O do falecido senador Tebet foi ser pai da senadora Simone Tebet, que apoiou seu adversário na disputa.

O ataque

Renan disse, pelo twitter: “A @DoraKramer (Veja) acha que sou arrogante. Não sou. Sou casado e por isso sempre fugi do seu assédio. Ora, seu marido era meu assessor, e preferi encorajar Geddel e Ramez, que chegou a colocar um membro mecânico para namorá-la. Não foi presunção. Foi fidelidade”. Ah, 2007!. Qual leitor se recorda da bela Mônica Veloso?

Grosseria, claro. Se foi assediado, e isso o incomodou, poderia pedir que o assédio fosse suspenso. Se continuasse, poderia tomar medidas judiciais. O que não se faz é guardar o caso, se é que ocorreu, por mais de dez anos, para desmerecer uma pessoa (Ramez Tebet morreu em 2006). E o decoro?

Quanto a Ramez Tebet, se teve ou não um caso, se usou ou não algo artificial, não é problema de Renan. E atacar um falecido. isso não se faz.

O castigo

Logo após ter desistido da candidatura, imaginou-se que Renan seria o presidente da poderosa Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Após as grosserias, está fora. E quem deve ocupar o posto é Simone Tebet.

Humor de extrema

O colunista Ancelmo Góis, de O Globo, é acusado via Internet de ter  sido treinado pela KGB para espião comunista e doutrinador de colegas. Já tentou me doutrinar, sem êxito, a respeito das vantagens do bolo de rolo, de Pernambuco, sobre o rocambole; e me revelou onde comprar bolo de rolo.

Já acusaram William Waack de espião americano, por ter almoçado com o embaixador dos EUA. E Bóris Casoy de provocar comunistas, ficando de pé numa moto que fazia malabarismos. Justo Bóris, que teve poliomielite.

Dá para levar a sério esses extremistas idiotas?

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A hora dos profissionais

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​Há alguns anos, numa das periódicas ondas de preocupação sobre a tomada do poder pelo comunismo, perguntaram ao deputado pernambucano Thales Ramalho quem seria o chefe da revolução se os comunistas fossem vitoriosos. Thales, que conhecia como poucos a política, respondeu: “O chefe militar, não sei. Mas o primeiro-ministro será Marco Maciel”. Maciel era hábil, bom de manobra, sem inimigos – gente do ramo, como os que hoje botam a cabeça de fora. Só que era leal e honesto.

O tufão Bolsonaro provocou renovação de quase 50% na Câmara e de 85% dos que disputaram vaga no Senado. Mas, entre os que ficaram, estão os profissionais que conhecem o caminho das pedras. Deles depende muita coisa: por exemplo, o destino da reforma da Previdência, a mãe de todas as reformas, a chave que abrirá (ou fechará) o cofre dos investidores. E a sorte de Flávio Bolsonaro, importantíssima: se a questão for mal resolvida, ou o presidente ficará sob fogo ou correrá o risco de perder Sérgio Moro, seu aval. Talvez não ocorra nenhuma das hipóteses – mas vale a pena correr o risco de ter a seu lado um Sergio Moro que deixou de ser Sergio Moro?

O regime militar tinha um profissional como Petrônio Portela para negociar com os profissionais da oposição – Thales, Tancredo, Montoro – a anistia e a redemocratização. Onyx Lorenzoni está longe de ser um deles. Sem gente sua, Bolsonaro está nas mãos dos profissionais do Congresso.

Buscando a liberdade

E, já que falamos no regime militar, uma lembrança: nesta última terça, 29 de janeiro, um episódio tocante de solidariedade e competência fez 40 anos. Neste dia, os advogados Orlando Maluf Haddad, Ivo Galli, Gérson Mendonça Neto e José Francisco Martins Jr. venceram a batalha contra a ditadura uruguaia (e a brasileira) e conseguiram libertar o jornalista Flávio Tavares, que havia sido sequestrado por militares uruguaios e estava preso ilegalmente já por 200 dias.

A história como ela foi: logo após a deposição de João Goulart, Tavares, colunista de O Estado de S.Paulo, foi preso por ligações com Leonel Brizola. Saiu logo e passou à luta armada. Foi preso, torturado por longo período e condenado em 1967. Em 69, integrou o grupo libertado em troca do embaixador americano Charles Burke Elbrick.

Foi para o México, onde trabalhou no jornal Excelsior e no Estadão – aí com o pseudônimo de Julio Delgado. Mudou-se para a Argentina. No dia em que visitou Montevidéu, foi sequestrado, torturado e enviado para local desconhecido por militares uruguaios. Orlando Maluf Haddad, Martins, Galli e Mendonça o localizaram. Estadão e Excelsior iniciaram campanha por sua libertação, até que a ditadura uruguaia concordou em soltá-lo e expulsá-lo do país, a pedido do Brasil. Não podia voltar a nosso país, por ter sido banido em 1969; foi então para Portugal, via Argentina.

Final feliz

Em mensagem enviada agora a Orlando Maluf, Tavares lembra que foi acompanhado o tempo todo por ele – seria perigoso deixá-lo sozinho. Maluf também cuidou de seu filho Camilo, de seis anos. Em Buenos Aires, mais um risco: interrogaram-no sobre “as armas que levava”. Não havia nada. Todos, esposa, advogados, o embaixador de Portugal, o levaram até o avião. Hoje, aos 84 anos, Flávio Tavares vive (e escreve) em Porto Alegre.

Está no Talmud: quem salva uma vida salva o mundo inteiro.

A Vale e o Vate

Os romanos atribuíam aos poetas (vates) o dom de prever o futuro (vaticínios). Não é à toa que dominaram o mundo por mil anos: sabiam das coisas. Eis um poema de Carlos Drummond de Andrade, Lira Itabirana, que saiu em 1984 no jornal O Cometa Itabirano, de sua cidade, Itabira:

“I – O rio? É doce. / A Vale? Amarga. / Ah, antes fosse/mais leve a carga.

II- Entre estatais/ E multinacionais/ Quantos ais!

III- A dívida interna. / A dívida externa/ a dívida eterna.

IV- Quantas toneladas exportamos/ De ferro? / Quantas lágrimas disfarçamos/ Sem berro?”

Palpite infeliz

Do presidente da Vale, Fábio Schvartsman, explicando por que a sirena de alarme não soou: porque estava submersa pela lama. Ou seja, quando a sirene não toca, é sinal de perigo, pois ela pode estar submersa. Quando toca, fique mais tranquilo: se há enchente, não deve ser tão grande assim.

Imaginemos: que diria Dilma a esse respeito?

Inovando

De vez em quando, há inovação: uma loja de carros de luxo (vendas e oficina), Carelli Multimarcas, há pouco aberta em São Paulo, usa a Internet para que os clientes sigam seu trabalho. Nem é preciso saber o endereço: o carro é apanhado e devolvido em casa, orçamento e conserto estão no site. Também se pode pedir um carro em casa para estudar a compra.

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​Histórias de horror e ódio

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Uma tragédia como a de Brumadinho tem tudo para unir o país. Tirando os responsáveis por ela, que devem ser identificados e processados, o Brasil todo, sem distinção ideológica, torcendo para que mais sobreviventes sejam encontrados, e enaltecendo todos os que participam das buscas. Só que não.

E o ódio ideológico não está apenas na Internet: transparece também nos jornais. Israel mandou uma força-tarefa para ajudar nas buscas? Junta-se o antissemitismo (“o dono da Vale é judeu, Israel usou a chance para ocupar Brumadinho”) – o dono da Vale não é judeu, a Vale não tem um dono, mas pertence a grupos econômicos e a fundos de pensão estatais – mas isso não é problema: o importante é espalhar o mal. O senador Roberto Requião diz que o grupo israelense veio é para derrubar o Governo da Venezuela. Desde quando Minas está perto da Venezuela? O importante é desmerecer a ajuda, como se fosse fruto de um pacto entre Bolsonaro, a quem odeiam, e os judeus, a quem têm horror. Têm de culpar alguém pelos problemas de Maduro – por que não Bolsonaro e os israelenses da equipe de salvamento?

Antissemitismo existe faz tempo. Mas torcer para que o equipamento de Israel não funcione, e assumir essa torcida, é coisa que não se via desde o nazismo. Como não se via alguém torcer contra as vítimas só para culpar o presidente que odeiam. Citando Nelson Rodrigues (a quem essa gente também odiava) há situações em que até os idiotas perdem a modéstia.

O horror

Enquanto se perde tempo discutindo se o equipamento israelense de busca é ou não melhor que o brasileiro (não faz a menor diferença: no caso, mais equipamento e mais gente é melhor do que menos), vai-se perdendo o foco da discussão – ou os focos: a) quem deveria manter a barragem em boas condições; b) quem atestou que a barragem estava em boas condições; c) várias pessoas disseram que esse tipo de barragem é inadequado – é ou não é?; d) um empresário disse que ofereceu à Vale uma nova solução em que os rejeitos de minério são separados da água, que é tratada e lançada de novo nos rios, e transformados numa pasta, que ocupa menos espaço e não está sujeita a mudanças no regime de chuva ou a pequenos abalos de terra. É claro que ele quer vender seu produto. Mas, se o produto contribui para reduzir os riscos da mineração, por que não? A Vale tem recursos para estudar essas soluções e escolher a melhor. Nos últimos três anos não o fez.

O ódio

E, no momento em que é preciso pensar em salvar vidas, localizar quem não pôde escapar, há cretinos discutindo “o plano judaico de conquistar o mundo”, ou sugerindo que 132 israelenses ocuparam parte do território nacional. Reclamam até da bandeira brasileira no ombro da farda, ao lado da israelense. Mas ajudar no trabalho, doar algo – ah, isso não, isso é caro.

Rigoroso inquérito

Claro, claro, há multas gigantescas aplicadas à Vale, além da realização de um rigoroso inquérito para apurar responsabilidades. Multa? Então, tá. Há três anos, a barragem da Samarco matou gente, poluiu rios, destruiu o meio-ambiente. A Samarco – pertencente à Vale e à BHP Billiton – foi pesadamente multada, em R$ 350 milhões. Hoje, a Samarco deve R$ 350 milhões em multas. Perguntar não ofende – que é que pagou em três anos? E não foi por falta de dinheiro: o lucro da empresa no ano anterior foi de R$ 7,6 bilhões. Mas, convenhamos, é melhor não pagar do que pagar, né?

Nenhum executivo da Samarco foi condenado criminalmente. Há processo contra 21 réus na Justiça Federal em Minas (depois há recursos!), ainda na fase de ouvir testemunhas. Há muito, muito tempo pela frente.

E citemos Luís Fernando Veríssimo quanto ao rigoroso inquérito: não é a mesma coisa que inquérito rigoroso. É exatamente o contrário.

Acredite se quiser

O ministro do Desenvolvimento Regional, Gustavo Canuto, disse que o Governo dará prioridade à fiscalização das 3.386 barragens de alto risco. No Brasil há mais de 20 mil barragens, supostamente menos perigosas.

Renovação

No dia 1º, sexta-feira, Senado e Câmara elegem seus novos presidentes. O caro leitor certamente se lembra da surpresa com o índice de renovação das Casas do Legislativo, o que incluiu a derrota de nomes eternos como Romero Jucá, Eduardo Suplicy, Eunício Oliveira, Magno Malta. Pois bem, a renovação tem agora seu primeiro teste: o favorito para presidir a Câmara é Rodrigo Maia, que está no cargo desde 2016; e o favorito na disputa pelo Senado é Renan Calheiros, que tenta seu quinto mandato como presidente.

A grande frase

Do venezuelano Nicolás Maduro, que tenta se segurar no poder: “Já fui ao futuro, voltei e vi que tudo está bem e a união cívico-militar garante a paz e a felicidade ao nosso povo”.

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​O caminho do dinheiro

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Deep Throat, o Garganta Profunda, deu aos repórteres do Washington Post a informação que lhes permitiu investigar o escândalo de Watergate: “Sigam o caminho do dinheiro”. Eles seguiram e demoliram um presidente.

Boa parte de aliados importantes e de membros do Governo Bolsonaro se dedicou, até agora, a tentar desmoralizá-lo. A ministra Damares talvez seja a campeã, não só pelo que disse como ministra mas pelo que dizia nos tempos em que nem pensava nisso. Pois não é que descobriram um vídeo de 2013 em que dizia a seus fiéis que na Holanda os pais eram instruídos a masturbar bebês a partir de sete meses, para que crescessem sexualmente saudáveis, tanto meninos quanto meninas? Maluquice total – e ela o disse.

E, claro, há Flávio, o filho que era deputado e se elegeu senador. Um de seus assessores precisou explicar problemas com a movimentação da conta bancária e Flávio, cuja ligação com o assessor oficialmente era apenas a de patrão e empregado, talvez amigo, foi ao Supremo pedir que a averiguação fosse suspensa, já que ele, como senador eleito, teria foro privilegiado. Em resumo, chamou a si uma questão que não era dele. Há mais, muito mais.

Muitos dos aliados de Bolsonaro seriam grandes poetas, se calados. Mas falam. A sorte do presidente é que também no Brasil o Garganta Profunda tem razão: siga o caminho do dinheiro. Se a economia for bem, os bolsonaristas falastrões nem serão lembrados. Terá sido um bom Governo.

O tempo do jogo

Outro problema do Governo é que algumas autoridades não só falam, mas também agem. O número de funcionários autorizados a determinar o sigilo de documentos subiu para perto de 1.300. Pode até estar certo, apesar de o Governo defender a transparência. Estuda-se a eliminação do valor de pagamentos que devem ser obrigatoriamente enviados ao Coaf e o fim do monitoramento especial de parentes de políticos. Pode estar certo, também: imagine-se o número de comunicações ao Coaf e o custo de processá-las.

Mas todas as medidas bem na hora em que o filho do presidente está com problemas nessas áreas, e em que seria ótimo poder tornar secreto um documento? Que é que querem que o cidadão pense a esse respeito?

A oposição, em compensação

Gleisi Hoffman, presidente nacional do PT, vai à posse de Maduro para prestigiá-lo, num momento em que não há dúvidas de que a democracia foi varrida da Venezuela. Fernando Haddad, candidato petista derrotado, agora se dedica a brincar de oposição com twitter, desafiando Bolsonaro – como se ainda estivesse disputando eleição. Palocci conta tudo e não se encontra ninguém do partido para desmentir suas denúncias. O PT parece engessado. Para um Governo que quando se mexe erra, é a oposição mais adequada.

O grande dia...

O deputado federal Jean Wyllys, do PSOL, há longo tempo desafeto de Bolsonaro, antes mesmo de iniciar um novo mandato, renunciou a ele, e não pretende ficar no Brasil. Bolsonaro, retornando de Davos, pôs no twitter a frase “Grande Dia!” Acharam que comemorava a saída de Wyllys.

Mas não era: Bolsonaro comemorava algumas boas notícias de Davos.

...Economia...

Jantou com empresários de ponta, com dinheiro para investir, e ocupantes de altos cargos. A lista: Tim Cooke, da Apple, Satye Nadela, da Microsoft, a família real da Bélgica (sem poder efetivo), a rainha Rania, da Jordânia (esposa do rei que concentra todo o poder), o presidente da Suíça,  Alain Bersel (sem poder efetivo), a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinta Ardern, e o presidente do Foro de Davos, Klaus Schwab.

...Meio Ambiente

Al Gore, Prêmio Nobel da Paz pelo trabalho em defesa da Ecologia, vice de Bill Clinton, elogiou publicamente a política de reflorestamento anunciada por Bolsonaro. O endosso de Gore é o mais importante da área.

Silêncio fora de hora

E no caso Wyllys faltou a Bolsonaro sensibilidade para perceber seu papel como presidente. Ao saber da renúncia de Jean Wyllys, que se disse ameaçado de morte, teria que dar garantia de vida ao deputado eleito, de quem foi adversário, mas do qual é presidente. Silenciou na hora errada.

O motivo da fuga

Jean Wyllys disse que deixava o país devido às ameaças de morte. Mas é ameaçado faz tempo: por que sai só agora? Há três anos, disse a desembargadora Marília Castro Alves: “Sou a favor de um ‘paredão’ profilático para determinados entes… O Jean Wyllys, por exemplo, embora não valha a bala que o mate e o pano que limpe a lambança, não escaparia do paredão…” Adversários espalham que Wyllys teria motivos outros para sair do país, relativos a uma investigação que envolve seu partido, o PSOL, ao qual foi filiado o responsável pela facada em Bolsonaro, Adélio Bispo.

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​A favor do bem, contra o mal

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Havia amplo tempo disponível, mais de meia hora, dos quais Bolsonaro usou só nove minutos para mostrar suas ideias à cúpula da economia mundial. Nada contra falar pouco: um dos melhores discursos da História mundial, a consagração do Cemitério de Gettysburg por Lincoln, durou menos de dois minutos (“o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desaparecerá da face da Terra”). Mas Bolsonaro não é Lincoln, sabe disso, e não se arriscou à eloquência. Em Davos, fez um discurso simples e colocou diante do público suas ideias básicas de Governo – que, de maneira geral, coincidem com o pensamento liberal do Fórum Econômico Mundial.

Confirmou, internacionalmente, o papel predominante de Sérgio Moro e de Paulo Guedes em seu Governo. Prometeu fazer “as reformas que o mundo espera”, “transformar o Brasil num dos melhores países do mundo para fazer negócios”, investir pesado em segurança pública para permitir que turistas se sintam à vontade para conhecer regiões como o Pantanal e a Amazônia, simplificar impostos para facilitar a vida dos empreendedores.

Salientou, enfim, a interrelação entre agropecuária e meio-ambiente, um dependente do outro; ressaltou a vontade do Brasil de exercer a diplomacia sem nenhum viés ideológico; e se referiu à busca de novos mercados. Considerando-se o público a que se dirigiu e com quem o Brasil vai lidar, foi como se dizer a favor da saúde e contra a doença. Deve ter funcionado.

Aceno

Davos é uma reunião de expoentes do capitalismo; mas fazem questão de se considerar expoentes do capitalismo moderno, com preocupações ambientais e sociais. Bolsonaro fez citação específica sobre o tema: que o Brasil é o país que mais preserva florestas no mundo (há um estudo com os números, para que não restem dúvidas). Faz parte da postura moderna.

Sob nova direção

Com Jair Bolsonaro em Davos, o Brasil tem novo presidente: Hamilton Mourão, que continua despachando do gabinete de vice. Bolsonaro volta e, logo depois, faz uma nova cirurgia, para retirar a bolsa de colostomia que usa desde o atentado e religar o intestino. Embora Bolsonaro tenha pedido que seja montado um escritório para que possa despachar em seu apartamento no Hospital Albert Einstein, SP, Mourão deve continuar em exercício até que o presidente tenha alta médica e possa voltar ao Planalto.

Quanto tempo isso leva? Depende da evolução do caso. Mas não será surpreendente que demore de dez dias a duas semanas, se tudo correr bem.

Herança maldita

O eleitorado goiano derrotou os tucanos de ponta a ponta: elegeu para o Governo o oposicionista Ronaldo Caiado, contra José Elinton, o tucano candidato à reeleição, e surrou exemplarmente o tucano-chefe, Marconi Perillo, que se julgava favorito na disputa pelo Senado (no lugar dele, quem se elegeu foi o jornalista Jorge Kajuru). Mas as marcas do tucanato ainda estão vivas: o governador Ronaldo Caiado, diante do déficit fiscal, causado pelo aumento das despesas públicas nos governos anteriores, teve que decretar situação de calamidade financeira, por 180 dias. Só assim poderá combater o aumento das despesas públicas e reduzir o déficit que herdou.

O tempo tudo encobre

Um dos homens mais influentes do Brasil, Jorge Serpa, que atuou na política desde o segundo governo Vargas até o segundo governo Fernando Henrique (e talvez no primeiro de Lula), morreu neste domingo, dia 20, aos 96 anos. Serpa foi possivelmente o principal assessor de Roberto Marinho desde o início do regime militar. Quem o conhecia preferia não se referir a ele pelo nome (indício de respeito por sua atitude discreta): era O Onça, um mago capaz de conversar com todos os envolvidos em qualquer questão.

Sinal dos tempos: não havia políticos no sepultamento. Nem integrantes da família Marinho. Nem representante das Organizações Globo.

Serpa deixou viúva dona Vicentina, neta do ex-presidente Eurico Dutra.

Os dias de hoje

Serpa influiu poderosamente em todos os veículos de imprensa de Roberto Marinho. Hoje não há ninguém, nos meios de comunicação, que se aproxime de seu porte. O jornalista Fernando Albrecht, em seu ótimo blog (http://fernandoalbrecht.blog.br/), descreve a imprensa, hoje: “Foram-se os tempos em que as direções dos jornais controlavam as redações. Há muitos anos as direções perderam o controle das redações. Pior: não sabem lidar com isso, não sabem recuperá-lo. Todos falam línguas diferentes e o resultado – óbvio – é a formação de nichos ou de tribos que controlam até territorialmente um determinado espaço das redações.”

O próximo passo

Do promotor Roberto Livianu, sobre corrupção empresarial: a pena mais importante para empresários corruptos é fazer com que percam suas ações.

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​Gente que muito pula

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Parafraseando Abraham Lincoln, é melhor ficar quieto e deixar que pensem que você talvez tenha errado do que mexer-se e tirar a dúvida.

*O problema era com um assessor, sem que Flávio Bolsonaro estivesse em jogo. Agora, ao recorrer ao privilégio de foro, Flávio está no jogo. Pior: levou o jogo para dentro do Governo e criou problemas para Bolsonaro. Este caso, propriamente dito, e a questão Sérgio Moro. Se Moro se cala, perde força e capital político. Se esperneia, ou sai, quem perde é Bolsonaro.

*Tanto Flávio Bolsonaro quanto o Ministério Público do Rio dizem que ele não é investigado. Mas Flávio disse ao Supremo que a investigação (a que não existe) violaria sua prerrogativa de foro. Luís Fux matou no peito.

*A questão fica para o relator, ministro Marco Aurélio, resolver. Ele disse a Andréia Saddi, da Globo, que tem negado petições assim.

*Este colunista é do tempo em que juiz não antecipava decisões.

*Disseram que os deputados eleitos do PFL erraram ao ir à China. Não poderiam ter a viagem paga por um Governo estrangeiro nem elogiar um produto chinês que querem que o Brasil importe. Coisas sem muito fôlego. Mas afirmar que a China é comunista light, ditadura, só que boazinha, é meio muito. Light? Boazinha? Só porque os convidou e pagou tudo? 

*O sistema de identificação da China deve ser ótimo. Imagine, é capaz de identificar um chinês no meio de multidões de chineses!

A chave...

Bolsonaro tem problemas mas dispõe de bons trunfos, Moro e Guedes. Se ambos tiverem êxito, outros ministros podem até passar o tempo brigando entre si que o Governo surfará na onda da luta anticorrupção e da economia em ordem. Se Moro não der certo, por algum motivo, mas a economia estiver bem, as coisas andam – não tão boas, mas andam. 

A primeira grande chance de Bolsonaro se mostrar ao mundo é o Fórum Econômico de Davos, Suíça, a partir de amanhã, com a elite econômica mundial. Bolsonaro abre os trabalhos e tem longos 30 minutos para falar.

...o tempo

Se convencer governantes e empresários de que tem bons planos e força para implementá-los, Bolsonaro cresce. O tempo que lhe dão e a honra de abrir os trabalhos indicam boa vontade. Mas nem sempre o tempo é aliado. Um discurso ralo indicará ao mundo um líder de pouca consistência, que vai demorar para conseguir ser levado a sério. Este é hoje o trabalho de Paulo Guedes: montar um discurso forte, com ideias bem trabalhadas.

As armas e os cidadãos

Pesquisa da Toluna, multinacional que busca e fornece informações sobre desejos do consumidor, mostra que a maioria da população (54%) não acredita que facilitar a posse de armas de fogo a deixe mais segura. Creem na eficiência do decreto 39% da população. Para 61%, a medida aumentará a violência no país; para 29%, irá reduzi-la.

Marabraz replica...

A Marabraz enviou-nos o seguinte texto: “Informamos que a notícia divulgada sobre uma possível fraude por parte dos sócios da Marabraz não é verdadeira e que as informações sobre o processo não procedem. As informações constantes de cadastros em sites públicos estão à disposição do público leitor. A empresa pede à mídia que cheque a veracidade das informações antes de publicá-las, como por exemplo: fazendo uma simples consulta no site do INPI, pode-se verificar que a marca Marabraz pertence à Marabraz Comercial Ltda desde 1986, sendo que foi veiculado um boato de que pertenceria a uma outra empresa, dentre outros erros da matéria. Como o processo corre em segredo de justiça, a empresa não pode dar nenhuma informação sobre o caso. A Marabraz possui um rígido compromisso com a legalidade de seus negócios e segue à disposição para eventuais esclarecimentos.”

...mas não é bem assim

A notícia da coluna é verdadeira: a IstoÉ Dinheiro tem a pauta, há advogados de prestígio na causa – Nelson Nery Jr. com os controladores da Marabraz; André Frossard dos Reis Albuquerque com o irmão que faz a denúncia; Lilia Frankenthal com a Átina. A nota nada diz sobre o processo. O pedido da Marabraz (“A empresa pede à mídia que cheque a veracidade das informações antes de publicá-las, como por exemplo: fazendo uma simples consulta no site do INPI, pode-se verificar que a marca Marabraz pertence à Marabraz Comercial Ltda. desde 1986, sendo que foi veiculado um boato de que pertenceria a uma outra empresa, dentre outros erros da matéria”), já tinha sido atendido: pelo site do INPI, em 23 de dezembro de 2005 – quase 20 anos depois de 1986 – a marca Marabraz era da Átina.  Hoje é da Marabraz Comercial. Como ocorreu o retorno? Houve recompra? Quando? Por quanto? Essa questão é discutida no processo. 

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