​Sai Cofrinho, entra Cofrinho Jr.

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Chico Rodrigues, DEM, o senador cuja história entrou para os anais, tirou 121 dias de licença do Senado. Assim, a decisão do ministro Barroso – que nome predestinado! – de afastá-lo do cargo, por 90 dias, foi suspensa pelo próprio ministro, por ter-se tornado desnecessária. Mas o importante nem é isso: é que, licenciando-se por 121 dias, um senador automaticamente passa o cargo ao suplente. No caso, o suplente é Pedro Arthur Ferreira Rodrigues, também do DEM, e também filho de Chico Rodrigues e herdeiro, pelo menos temporário, de seu mandato. E passa a desfrutar das mordomias do cargo. Citando a frase clássica, a família é a base da sociedade. E ninguém, claro, criticará tão belo exemplo de solidariedade entre pai e filho.

A história, claro, não termina por aqui. Chico Rodrigues insiste em dizer que o dinheiro localizado no insólito esconderijo era destinado ao pagamento de seus empregados. Vá lá, vá lá – mas que é que pode ocorrer se suas empresas crescerem, graças a seu trabalho e seu tino gerencial, e contratarem mais funcionários? Chico Rodrigues, em vídeo que enviou aos senadores, também diz que, ao enfiar o dinheiro no providencial esconderijo sob suas cuecas, tomou “a decisão mais irracional de sua vida”. Engano: a decisão mais irracional de sua vida foi candidatar-se; e a dos eleitores, dar-lhe o voto. Mas aceitemos. Só que, quando alguém está prestes a ser preso, costuma mastigar e engolir as provas. Errar o lado do aparelho digestivo é novidade.

Quem topa a aposta?

Este colunista aposta que, daqui a 120 dias, não vai acontecer nada com o senador Chico Rodrigues. Daqui a 240 dias, ou 360, também não. Mas a aposta só vale se a Polícia Federal sair de cena. Lembrando a frase imortal de Mané Garrincha, falta combinar com os russos. Tirando a Federal, todos os demais envolvidos no caso, ou os que deveriam envolver-se, vão deixar claro que não é com eles. Por que os senadores vão se mexer, abrindo caminho para que o STF afaste outros que forem suspeitos de crime? E quem pode atirar a primeira pedra? Se a Federal mantiver as investigações, aí as coisas mudam: sai o senador Cofrinho, entra o senador Cofrinho Jr.

Todos bonzinhos

Em princípio, o pacote comercial acertado entre Brasil e Estados Unidos é uma ótima notícia: desburocratiza as trocas entre os dois países, reduz as restrições, abre caminho para, no futuro, um acordo de livre comércio. Mas é preciso ver se, na prática, o acordo não é apenas a contribuição brasileira para mostrar que a política externa do presidente Trump, a duas semanas das eleições americanas, funciona bem. Os exemplos anteriores não chegaram a ser brilhantes: o Brasil, que produz álcool de cana (mais barato que o álcool de milho americano), abriu o mercado para importar álcool dos EUA, sem tarifas, mas o açúcar brasileiro continua enfrentando barreiras. Bolsonaro deu todas as demonstrações de deferência para com Trump, recebeu promessa de apoio à entrada do Brasil na OCDE, Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, mas até hoje continuamos fora. O filho 03 de Bolsonaro, aquele que queria ser embaixador em Washington, chegou a usar bonés eleitorais de Trump, mas os EUA, rompendo longa tradição, resolveram apresentar candidato à presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento, para isso afastando o candidato brasileiro. Em resumo, até agora houve muito toma-lá e pouco dá-cá.

A boa notícia

A única coisa efetivamente concreta que aconteceu na visita da delegação dos EUA ao Brasil foi a assinatura, pelo ministro Paulo Guedes e a presidente do Eximbank (banco de importação e exportação), Kimberly Reed, de um memorando sobre abertura de financiamento de produtos americanos, até um bilhão de dólares. É bom; mas no momento é melhor para os EUA do que para o Brasil. O Governo americano faz pressão forte e aberta para que o Brasil não permita a participação da chinesa Huawei na licitação da faixa de 5G de telecomunicações, prevista para o ano que vem. Como a Huawei já tem ampla participação nas telecomunicações do país, afastá-la pode fazer com que nossa Internet, já caríssima, fique ainda mais cara, com a troca de sistemas inteiros que hoje integram a rede. Os EUA já falaram em financiar a troca (e sem exigir que a Qualcomm americana seja beneficiada: aceitam também a finlandesa Nokia e a sueca Ericsson). Só não querem a Huawei.

...mas

O primeiro problema é que neste momento a Huawei é a líder mundial da tecnologia 5G, seguida por Nokia e Ericsson, e só então pela Qualcomm. O segundo problema é mais sério: a China é hoje o maior parceiro comercial do Brasil. Afastar da concorrência a sua representante pode gerar algum tipo de retaliação – até porque o que se levanta contra a Huawei é a possibilidade de que o Governo chinês utilize a rede para fazer espionagem. Boicotar a Huawei significa, em outras palavras, desconfiar do maior parceiro do país.

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​Operação Ducha Íntima

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Já não há quem não saiba da operação que obriga a Polícia a lavar dinheiro e leva um senador, como gato, a se esconder com o rabo de fora. Ainda por cima, desmentiu uma frase clássica do imperador Vespasiano, de Roma, a seu filho Tito: “Pecunia non olet”, “Dinheiro não cheira”. Mas cheira, sim.

Coincidência: Quem mandou afastar o senador do cargo foi o ministro Barroso.

Pediu para sair: O senador Chico Rodrigues, DEM de Roraima, era vice-líder do Governo. Bolsonaro tirou-o do cargo, mas, gentilmente, “a pedido”.

Isso a Globo não mostra: todo o trabalho da Polícia Federal foi gravado. O ministro Barroso determinou que o vídeo fique num cofre da PF, por exibir demasiadamente a intimidade do senador.

Os anais do caso: como a PF chegou ao esconderijo? O senador pediu ao delegado para ir ao banheiro. O delegado percebeu que, na parte traseira do short do pijama do senador, havia um volume grande, estranho. Pareceu-lhe que o senador ocultava algo. O senador disse que não havia nada. A PF fez então uma busca pessoal no senador e encontrou pouco mais de R$ 32 mil.

A defesa: Chico Rodrigues disse que vai provar que nada tem a ver com qualquer ato ilícito. “Acredito na Justiça dos Homens e na Justiça divina”.

Os amigos: Bolsonaro é o amigo mais próximo do senador. Em vídeo, referindo-se aos 20 anos de amizade com Chico Rodrigues, o presidente disse: “É quase uma união estável, hem, Chico?”

Os bons companheiros

Justo no dia da busca e apreensão, Bolsonaro tinha dito que, se soubesse de algum ato de corrupção, iria “dar uma voadora”. OK, aplicar recursos em seus próprios fundos não é crime; pode ser só um hábito derivado, digamos, de... bem, de... bem, sabe-se lá. Talvez haja algum crime, mas ainda terá de passar pelos tribunais. É injusto dizer que Bolsonaro não deu a tal voadora apenas porque o senador, que pode perder o mandato por excesso de fundos, é seu amigo. Mas é amigo mesmo! Vejamos este ano: Chico Rodrigues, embora represente um Estado pequeno, é o oitavo entre 81 senadores no volume de emendas liberadas pelo Governo, com R$ 15,5 milhões. A busca e apreensão se refere à suspeita de desvio dessas verbas. Antes do delicioso batismo de Operação Ducha Íntima, o nome era Desvid 19, pela suspeita de que tenha ocorrido desvio em verbas destinadas a combater a pandemia.

Amigos de fé

Chico Rodrigues não é amigo apenas de Bolsonaro, com quem partilhou mais de 20 anos de Câmara Federal. É também amigo fiel da família. É em seu gabinete que trabalha Leonardo “Léo Índio” Rodrigues de Queiroz, filho da irmã de Rosângela Bolsonaro, (salário, R$ 22.900 mensais) primo-irmão do 01, 02 e 03, os filhos mais velhos do presidente. Trabalha, não: trabalhava. Pediu demissão assim que o caso das cédulas estranhamente alojadas estourou. Léo Índio é muito amigo dos três filhos políticos do presidente, e chegou a morar no Rio com Carluxo, o 02. Frequenta o Palácio do Planalto e tem livre acesso ao círculo íntimo da família presidencial.

Os companheiros

Chico Rodrigues não limita seus contatos aos Bolsonaro. Publica, em suas redes sociais, fotos com o vice, general Mourão, e vários ministros, como Jorge Oliveira, Onyx Lorenzoni, Ernesto Araújo, general Luiz Ramos. Não é olavista, nem pertence a ala alguma do bolsonarismo: é Bolsonaro, e só.

A vida como ela é

Está bem, o senador Chico Rodrigues inovou na área de armazenagem de dinheiro (embora o escritor Olavo de Carvalho já tivesse sugerido o mesmo tipo de recipiente ao presidente Bolsonaro, para guardar a condecoração que lhe era oferecida). Mas, tirando o esconderijo das cédulas, nunca foi muito diferente do que é hoje. A ótima repórter Thaís Oyama conta que, em 2006, O Globo mostrou que parlamentares usavam falsas notas fiscais de postos de gasolina para embolsar a verba. Chico Rodrigues disse que emitia R$ 30 mil mensais frios para cobrir despesas sem nota. O prejuízo completo: R$ 41 milhões, dele e de seus colegas. Não deu em nada. Em 2014, foi cassado e virou ficha-suja. Mas, sabe como é, né? Continuou concorrendo, na boa.

Aqui e lá fora

A coisa chega a ser grotesca, mas não fique triste imaginando que tudo só ocorre aqui no Brasil. Um jatinho brasileiro foi apreendido no Aeroporto de Lisboa com 170 kg de cocaína (valor aproximado, uns R$ 40 milhões). Três brasileiros e dois portugueses foram presos, mas os nomes estavam sendo mantidos em sigilo. Pelo menos a cocaína estava acondicionada em esconderijos convencionais: eram oito malas bem recheadas.

Trump x Biden

Joe Biden tem ampla diferença de voto popular sobre Trump – mas, nos EUA, o que vale é o voto de cada Estado. Nos Estados, a votação está quase empatada. Biden, creio, é favorito, mas tão apertado que Trump pode ganhar.

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​Queiroz é para os fracos

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Ainda quer saber por que o Queiroz depositou R$ 89 mil na conta de Michelle? Coisa antiga, esqueça. Antiga e micha. Agora o Governo usa o nome de Michelle para pedir doações dos portos de Santos e do Rio de Janeiro, ambos controlados pelo próprio Governo, ao Pátria Voluntária, programa beneficente coordenado pela esposa do chefe de Governo, a própria Michelle. O pedido à autoridade portuária de Santos, Santos Port Authority, pode render R$ 200 mil, e está sendo avaliado. A Cia. Docas do Rio também está analisando o pedido, mas não informou valores.

O objetivo do programa Pátria Voluntária é incentivar o voluntariado e as iniciativas beneficentes da sociedade. Dinheiro estatal não lhe falta: há pouco, uma doação de R$ 7,5 milhões do frigorífico Marfrig para a compra de cem mil testes rápidos para a Covid foi repassada pelo Governo para o programa de financiamento do Pátria Solidária, o Arrecadação Solidária (depois de consulta à Marfrig, que concordou: afinal, são todos solidários). Parte dos recursos arrecadados pelo Arrecadação Solidária foi encaminhada a ONGs missionárias evangélicas indicadas pelo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, dirigido pela ministra Damares Alves. O TCU, o Ministério Público e a oposição querem investigar esse repasse, a forma de escolha das ONGs que o receberam e as atividades que realizam com os recursos. Definitivamente não são tão solidários assim.

O nome das coisas

A antiga Cia. Docas, depois Codesp, é hoje Santos Port Authority. Terá sido privatizada e vendida a estrangeiros? Não: só trocou de nome, já no governo Bolsonaro. Afinal de contas, Brazil acima de tudo!

STF, todos com razão

O mais curioso na disputa entre o ministro Marco Aurélio, que libertou o acusado André do Rap, apontado como expoente do PCC, Primeiro Comando da Capital, e o ministro Luiz Fux, presidente do Supremo, que anulou a ordem de libertação e mandou capturar e prender André do Rap, é que os dois têm razão e nenhum dos dois tem razão. Diz a lei, recentemente aprovada, que os juízes têm de renovar a ordem de prisão preventiva a cada 90 dias. Correto: evita-se o que ocorreu muito durante a Operação Lava Jato, as prisões preventivas que só eram suspensas em condições específicas. O empresário Marcelo Odebrecht, por exemplo, ficou preso mais de um ano, sem sentença condenatória, e só teve a situação definida depois que fez sua delação premiada. Milagre: não muito tempo depois, estava preso em sua magnífica mansão, sem os aborrecimentos da vida na cadeia. Pois bem: o ministro Marco Aurélio cumpriu a lei. O acusado foi libertado e não cumpriu nenhuma das ordens que recebeu: sabia o que teria de enfrentar e fugiu tão logo teve a oportunidade. O ministro Luiz Fux, para evitar que um acusado tão perigoso ficasse em liberdade, cumpriu seu dever: anulou a ordem de libertação. Demorou um pouquinho, e não foi possível capturar o cavalheiro.

STF, todos sem razão

Naturalmente, nenhum dos dois tem razão. Se a lei existe, é para ser cumprida. E por que o juiz que determinou a prisão preventiva não renovou a ordem após 90 dias? A história de que o Judiciário está sobrecarregado não é aceitável. Basta ter controle das datas e mandar um estagiário redigir o ato. Marco Aurélio poderia ter pedido a um dos auxiliares que tem no STF para telefonar ao juiz e cobrar providências. Quanto a Fux, será que só soube da iniciativa de Marco Aurélio um dia depois que até este colunista leigo já a conhecia pelo jornal? Terão as vaidades superado aquilo que os ministros sabem que poderiam fazer? Data maxima venia, assim não é possível.

Cortando o dos outros

Sabe aquele grupo de ministros e assessores que vive reclamando da vida, porque não consegue cortar salários, aposentadorias, direitos adquiridos? Pois não se preocupe: parece que o grupo vive muito bem, obrigado. Talvez os salários não sejam tão bons quanto os pagos pela iniciativa privada, mas andam ganhando mais que o teto constitucional (muda-se o nome do penduricalho, mas é dinheiro a mais que entra). No Ministério da Economia, os jetons (pagamentos para comparecer a reuniões) podem chegar a mais de R$ 14 mil por mês. Soma-se a isso um salário bem razoável, próximo dos R$ 30 mil. E os penduricalhos, claro: auxílio-moradia, auxílio-alimentação, passagens. Lá, só o ministro Paulo Guedes não embolsa extras. 

A arte de volta

Com a redução de casos da Covid, o belíssimo Museu de Arte Sacra de São Paulo reabre depois de amanhã, sexta-feira, às 10h da manhã, com uma excepcional exposição de fotografia, Nós, da Etiópia – crônicas de uma viagem, do ótimo Daniel Taveira. De acordo com o diretor do Museu, José Marçal, não dá para perder. Ingressos em www.museuartesacra.org.br. Vale a pena.

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​Kassio korreto e seu bom kurríkulo

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Qual o problema de alguma imprecisão no currículo de Kassio Marques? Isso é com certeza o que o torna mais palatável para um Governo que nega as fotos dos satélites e as informações de seu próprio Instituto Nacional de Atividades Espaciais e garante que o desmatamento na Amazônia é muito menor do que o que foi documentado; que, diante de incêndios cuja fumaça atrapalha até o sobrevoo da região, põe a culpa nas rocinhas de caboclos e de índios; que, com quase 150 mil mortos pela Covid, ainda acha que é uma gripezinha. Kassio tem outras qualidades, não verificáveis pelo currículo. Por exemplo, compartilha uma Dolly gelada com o presidente nas horas de folga, pode discutir com ele as virtudes da cloroquina, talvez degustem juntos um pãozinho com leite condensado ou, quem sabe, ovos coloridos? E quem se preocupa em saber se os pós-doutorados exibidos pelo pós-doutor são mesmo cursos, ou só algumas palestras, ou se as universidades citadas, ao contrário do que dizem oficialmente, oferecem esse tipo de cursos?

Tudo besteira. Falaram o diabo da formação jurídica de Dias Toffoli, e daí? Daí que ele é ministro, com todos os poderes da função, se articula com o ministro Gilmar Mendes, e se tudo correr bem, sobram-lhe 22 anos de mandato no Supremo. Tem auxiliares para puxar-lhe a cadeira, colocar-lhe a toga, servir-lhe petiscos (e aí é coisa boa, nada de bolsonarismo). Se quiser se aposentar antes da hora, terá salário integral. Por ke não o Kassio?

Vossas Curriculências

Uma crônica de Ruy Castro:  http://www.chumbogordo.com.br/34830-politicos-e-seus-curriculos-de-araque-por-ruy-castro/

Faltam modos

Os caros leitores mais idosos certamente se lembram de uma advertência típica de mães e avós: “Tenham modos!” Pois é: isso incluía certa sobriedade na escolha de palavras. Nenhum garoto, na frente de mulheres, diria frases como as do ideólogo do bolsonarismo, Olavo de Carvalho, tipo “os bostinhas do MST”. Referência a rachadinhas valeria a boca lavada com sabão – isso se mamães e vovós a entendessem. “Fura teto” daria briga. Ninguém diria, na frente das mães, a frase de Bolsonaro, quase sufocando de tanto rir, sobre a mulher que queimou os ovos do marido. O vocabulário usado pelo presidente e por vários de seus ministros é de gente sem modos. A propósito, um sinônimo excelente para “modos”, ou “bons modos”, é “educação”.

Tem precedente

Citando o bom político baiano Octavio Mangabeira, tudo, por absurdo que pareça, no Brasil tem precedente. Um vereador do PT de Ilhéus, Carlos Augusto “Augustão” Cardoso da Silva, fez forte discurso contra um projeto que seria votado em seguida, considerando-o absurdo. Bravo, votou contra. Só que o projeto era de sua autoria. Um colega perguntou como explicava ter votado contra seu próprio projeto. Ele negou que o projeto fosse seu, e só se convenceu ao ler a assinatura. Mas manteve o voto.

Pois é: em São Paulo, certa vez, o deputado estadual Chiquito Franco, que havia apresentado um projeto, votou contra ele. Os repórteres o cercaram, e ele disse que era um homem de palavra: tinha assinado, mas não tinha dito que era a favor, e o que valia era a palavra. A palavra e, é claro, os muitos argumentos que lhe foram transmitidos pelo governador do Estado.

O melhor dos casos; o vice-presidente do Supremo, Cézar Peluso, criticou duramente a juíza que obrigara um réu a manter-se algemado perante o júri. O problema é que a juíza era filha de Peluso – ele nem deveria participar do julgamento. Imagina-se que o estagiário que redigiu seu voto não soubesse do parentesco. A propósito, o tal júri foi anulado por unanimidade pelo STF.

Ótima notícia

Não é análise, nem interpretação: são números. As vendas do varejo em agosto subiram pelo quarto mês seguido e alcançaram o maior volume da série do IBGE, que se iniciou em 2000. As vendas superaram em 8,2% as do último mês sem coronavírus, fevereiro. Houve o auxílio de emergência, que ajudou a alavancar as compras, e mudanças nos hábitos de consumo devidas à pandemia (automóveis perderam espaço; material de construção, móveis, eletrodomésticos e alimentos puxaram o consumo; livros e material de papelaria sofreram grande queda). Uma possibilidade: como caiu o consumo de serviços, houve sobra para novas compras. Uma boa análise de Zeina Latif em http://www.chumbogordo.com.br/34817-castelo-de-areia-por-zeina-latif/

Enfrente o calor

Alguém ainda tem dúvidas sobre o papel das árvores na regulagem do clima? Aqui está a prova final: na Foz do Iguaçu, no mesmo dia, no mesmo horário, foi medida a temperatura de duas ruas de largura semelhante, uma próxima da outra, uma arborizada, outra sem árvores. Na rua sem árvores, 36 graus na calçada, 50 graus no meio da rua. Na rua com árvores, 18 graus na calçada, 26 graus no meio da rua. Não é só meio-ambiente: é bem-estar. 

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Os caminhos do capitão

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É fácil, não requer prática nem tampouco habilidade. Lembra de Toffoli, advogado do PT e de José Dirceu, que entrou no STF com a missão, diziam, de amaciar tudo para os antigos clientes e confrontar Gilmar Mendes? Então? Ele anda aos abraços com Gilmar e Bolsonaro, apesar da Covid. E Rodrigo Maia, que bolsonaristas chamavam de “Nhonho” ou “Nhonhô”, ou algo mais pesado quando ninguém estava gravando? Isso: aquele que disse que Guedes está desequilibrado. Hoje é íntimo do Imposto Ipiranga e só não o ajuda a manipular a mangueira de novas taxas para não pegar mal. Até, dizem, chama Bolsonaro de capetão – nem deve ser verdade, falta de respeito!

Lembra de Olavo de Carvalho, amigo de Bolsonaro até mandá-lo enfiar uma condecoração naquele lugar que, comenta-se, Paulo Guedes chama de as complacentes pregas do Tesouro? Ficou amigo de novo. E brigou de novo, mas só até fazer as pazes. E de Sara Winter, aquela feroz feminista nua que, em contato com a Dama da Goiabeira, a ministra Damares, virou defensora de hábitos terrivelmente conservadores e montou um grupo armado? É agora crítica dura do Governo ao qual, diz, “entregou a sua vida”. Tudo pode mudar de uma hora para outra, mas hoje Bolsonaro faz refeições mais requintadas com novos amigos mais agradáveis e que mantêm os ouvidos (e não só eles) abertos a seus argumentos. Entre os convivas, ministros do STF que logo julgarão imparcialmente seus processos, com o rigor implacável da Lei.

O mundo gira

Em certa época o ministro Gustavo Bebbiano, homem forte da campanha, perdeu o cargo por receber oficialmente, no desempenho de suas funções, um diretor da Rede Globo. Nenhum dos novos inimigos de Bolsonaro havia discordado de medidas do Governo: todos foram acusados de traidores desde antes da campanha. Rodou o general Santos Cruz, rodou o ministro Moro. Não, Paulo Guedes não rodou. Seria injustiça se rodasse: ele não fez nada!

Bamboleio que faz gingar

A escolha do ministro Kassio Marques, dizem que indicado por Frederick Wassef, aquele em cuja casa se alojava o famoso Queiroz das Rachadinhas (a turma dos apelidos não tem piedade!), foi aprovada previamente pelos ministros Gilmar Mendes e Toffoli, sacramentando os vários acordos de paz. Os bolsonaristas de raiz (aqueles mais radicais, como Silas Malafaia, como Sara Winter), souberam pelos jornais – e devem ter ficado furiosos porque foram obrigados a ler a @mídialixo, a @imprensapodre, veículos que nunca publicaram aquele aval de qualidade @bolsonaro tem razão, para saber quais seriam seus próximos amigos. Olavo de Carvalho bateu duro, mas os olavistas, pelo jeito, ainda não receberam as instruções do intelectual do grupo. E os outros grupos, tipo bolsopetistas, lulobolsonaristas, @andar com fé eu vou que a fé não costuma falhar, parecem ainda desarticulados. Tudo está tão esquisito que um defensor público da União, contrariando os colegas, exige do Magazine Luíza o pagamento de R$ 10 milhões por abrir programa de treinamento só para negros. Empresário aqui nunca acerta. Sempre há alguém do Governo cobrando indenizações.

A cereja e o creme

As mais divertidas manifestações contra a escolha de Kassio Marques para o STF vieram de empresários que acusam Bolsonaro de perder a chance de optar por um conservador. Marques não é muito conhecido, não se sabe ainda o que pensa, mas partiram do princípio de que Bolsonaro, ao agir sem consultá-los, escolheu um progressista – talvez até comunopetista, daqueles que deveriam mudar-se para a Coreia do Norte, Cuba ou Venezuela, junto com Joe Biden, Lula, José Dirceu (e, naturalmente, Chico Buarque).

Quem nomeou

Nos 15 anos de PT anteriores a Bolsonaro, Kassio Marques foi nomeado duas vezes pelos petistas – e por quem seria nomeado, se os petistas estavam no poder? Era advogado no Piauí e ficou amigo do petista Wellington Dias, hoje governador. Horror dos horrores! Bolsonaro o apresentou não apenas a Gilmar e Toffoli, mas também ao presidente do Senado, David Alcolumbre, que os bolsonaristas aprenderam a odiar. Alguns dos empresários que criticaram Bolsonaro: Winston Ling, Gabriel Kanner, sobrinho de Flávio Rocha (Riachuelo), Luciano Hang, das Lojas Havan. Frase de Leandro Ruschel: “Acabou, porra! O presidente deixa claro que a sua sustentação política se dará pelas forças que controlam o país desde 88, aglutinadas no vulgo Centrão, se afastando da militância conservadora que o elegeu”. O grupo Vem pra Rua ensaia passeatas “Fora, Bolsonaro” para o dia 25.

Entendendo tudo

O deputado federal Alexandre Frota encaminhou à Polícia Federal dados que, diz, ligam Eduardo Bolsonaro, o filho 03, a esquemas de notícias falsas. É por isso que o presidente precisa se reforçar no Congresso e Supremo. Os amigos antigos que aceitem, apoiem ou rompam. Para ele não faz diferença.

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​A vitória nos debates

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No debate americano, só faltou um candidato pular no pescoço do outro. Nos debates brasileiros, houve mais educação, mais civilidade, apesar do gigantesco número de debatedores. Mas o resultado de ambos foi igual: em todos os casos, não houve um vitorioso no debate. Quem apoiava Joe Biden acha que ele venceu; quem apoiava Trump o viu como claro vencedor. O que se pode imaginar é que, como os pesquisados apontam como vitorioso o seu preferido, Joe Biden leva alguma vantagem no número de votos – algo como 10%. Isso não quer dizer que esteja ganhando as eleições: o pleito americano é decidido Estado por Estado, e o número de delegados eleitorais, decisivo, é dificílimo de calcular. Apenas como exemplo, Hillary venceu Trump no número de votos, e foi derrotada na contagem dos delegados eleitorais.

O sistema brasileiro é mais simples, um eleitor, um voto. Mas é muito cedo ainda para prever o vitorioso. Primeiro, faltam os outros debates. Falta a tomada de posição de alguns eleitores importantes – Bolsonaro, por exemplo. Martha Suplicy, dizem, deve dar apoio a Bruno Covas. Martha Suplicy criou o Bilhete Único de transporte e investiu pesadamente em CEUs, excelentes escolas gratuitas de período integral. Falta que o candidato preferido de Martha saiba divulgar esse apoio, falta esperar eventos que influenciem o resultado. Erundina era terceira e em três dias virou o jogo, derrotando o favorito Maluf. Erundina, agora, é vice de Boulos.

Lembrando a História

No final de seus discursos, Bolsonaro diz que prefere os candidatos que se comprometam com o lema Deus, Pátria, Família. É o lema da Ação Integralista Brasileira, cópia do fascismo italiano. O dirigente máximo da Ação Integralista Brasileira, Plínio Salgado, tentou um golpe contra Getúlio Vargas, até então seu aliado. E poucos anos depois o Brasil enviou tropas à Itália, comandadas pelo marechal Mascarenhas de Moraes, para lutar contra o fascismo, inspirador do integralismo. Ou Bolsonaro não sabe o que está falando, e isso é péssimo, ou sabe, e é pior ainda.

Os problemas argentinos

Tenho uma opinião firmada sobre os problemas argentinos: um dos países mais ricos do mundo, com analfabetismo próximo de zero, autossuficiente em carne, trigo e petróleo, não resistiu à devastação peronista. Pior: a coisa foi tão longe que há peronistas de esquerda, de direita, extremistas. É normal que as eleições envolvam disputas entre peronistas de um lado e de outro. Já vi eleições em que o hino peronista de direita louvava a segunda mulher de Perón (“Perón, Isabelita, la Patria peronista”); o peronismo de esquerda era favorável à primeira mulher de Perón, (“Perón, Evita, la Patria socialista”). E Cristina Kirchner dificilmente poderia ser pior do que já é. Bom, mas isso não significa que sejam verdadeiras as notícias sobre a vida na Argentina. A informação de que a pobreza atinge 40,9% da população argentina é falha. Pobreza, lá, significa receber menos de 45 mil pesos mensais – R$ 3.300,00. E indigente é quem ganha abaixo de 18.500 pesos, R$ 1.370,00. Estão mal, mas há pelo menos um país vizinho que está bem pior.

O custo de vida

A empregada doméstica de um brasileiro da área internacional do Banco do Brasil ganha 20 mil pesos mensais, trabalhando seis horas por dia. Cabe ao patrão pagar condução, almoço e o seguro-saúde (dois mil pesos) que garante a ela e aos filhos o atendimento hospitalar. Os três filhos estudam em boas escolas públicas, a filha faz Direito na Universidade de Buenos Aires, e ela se queixa, dizendo que a Argentina é um desastre. Quanto à situação do Brasil, ela simplesmente não acredita no que lhe contam.

Mudando a Coca-Cola

A informação de que a Coca-Cola está deixando a Argentina também não é bem assim. O que sai da Argentina (com destino ao Rio) é o escritório regional da América Latina. As fábricas continuam produzindo onde estão.

Super liberal

Tanto o presidente Bolsonaro quando seu superministro da Economia, o Imposto Ipiranga, cansaram de dizer que os preços são determinados pela lei da oferta e da procura. Cansaram de dizer – e o Procon de São Paulo não concordou. Já notificou quase 600 estabelecimentos no Estado, “na operação de enfrentamento ao aumento injustificado de preços de alimentos”. O Procon exige que as lojas apresentem notas fiscais de compra e venda de itens da cesta básica, para verificar “eventual prática de preços abusivos”.

Pois é: no Governo Sarney, o secretário da Receita Federal, xerife Romeu Tuma, foi aos pastos intimar os bois a se apresentar dentro normas dos preços congelados. Não resolveu nada. O Plano Real, sem congelamento, sem “teje preso” no pasto, derrubou a inflação. E justo um ministro que se considera liberal, e que sabe perfeitamente que não adianta tabelar preços, aceita de bom grado trabalhar com órgãos estatais que querem controlar preços.

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​A reforma saiu! Volta mais tarde.

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Essa é pra tapar a boca de quem já não acreditava que o Governo iria, um dia, apresentar seu projeto de reforma tributária. Pois bem, está lá. Um tanto, digamos, desconjuntado: a base do projeto elaborado pela equipe de Paulo Guedes era a volta da CPMF, que agora seria chamada de Digitax, taxa sobre operações financeiras digitais. Era, mas não foi: Guedes e Bolsonaro enfim se convenceram de que um novo imposto não passaria pelo Congresso.

Nem o novo, nem o resto: primeiro, porque o tempo é curto. A campanha eleitoral já começou e um projeto oficial só passaria na Câmara e no Senado se estivesse fechadinho, previamente combinado. Não é o caso. Segundo, na véspera das eleições, só se vota projeto que renda votos, não que os tire. Há outro problema: na Câmara já tramita o projeto apresentado pelo deputado Baleia Rossi (MDB-SP), redigido pela equipe do economista Bernard Appy, que muita gente considera melhor que o de Guedes. Ao que tudo indica, o projeto fica para o início do ano que vem. E, seja qual for o aprovado, entra em vigor em 2022, já que impostos vigoram só um ano após a aprovação.

A propósito, há algo que precisa ser ajustado antes de se votar um projeto de reforma tributária, qualquer que seja. Ou se define como será financiada a Renda Básica ou se desiste da Renda Básica (Alexandre Schwartsman explica em http://www.chumbogordo.com.br/34369-rifando-o-jantar-por-alexandre-schwartsman/) .   Estourar o teto de gastos é trazer a inflação de volta. Ruim para todos – em especial os mais pobres, sempre as primeiras vítimas.

A dança das verbas

A ideia de pagar a Renda Básica com recursos do Fundeb (Educação) e dando calote nos precatórios (dívidas da União que já passaram em julgado) repercutiu mal: o dólar subiu, a Bolsa caiu. E, na opinião quase geral, o truque é ilegal e não se sustenta– é equivalente, digamos, às pedaladas fiscais que deram base jurídica ao impeachment de Dilma. Finge-se respeitar o teto dos gastos e se joga a dívida dos precatórios para a frente, provocando processos e gastando receita futura. E retirar verbas do Fundeb daria uma nova trava na Educação. Hoje não há dúvida de que países subdesenvolvidos como China, Índia e Coreia do Sul cresceram investindo no estudo.

Nariz crescendo

A melhor frase a respeito da Renda Básica é do presidente Bolsonaro, ao se defender da crítica de querer turbinar a Bolsa Família, pagando mais a mais gente, para facilitar sua candidatura à reeleição. Disse Bolsonaro, no twitter: "Nunca me preocupei com reeleição."

Prisões de alto nível

Ontem foi o dia do Pará: a Polícia Federal prendeu 13 investigados por fraude na contratação de unidades hospitalares e na instalação de hospitais de campanha. A Operação SOS começou com investigações sobre compra de respiradores (segundo informam, houve pagamentos antecipados aos vendedores, sem nota e sem garantia de entrega, que muitas vezes não ocorreu) e descobriu mais irregularidades. O ministro Francisco Falcão, do STJ, que autorizou a Operação SOS, disse que o governador Helder Barbalho “foi essencial para o sucesso da empreitada criminosa”.

Na Band, começa a campanha

A Band promove amanhã, às 22h30, o primeiro debate entre candidatos à Prefeitura. Serão 16 debates: São Paulo, Rio, Barra Mansa (RJ), Belo Horizonte, Uberaba (MG), Salvador, Porto Alegre, Curitiba, Maringá (PR), Manaus, Natal, São Luís, João Pessoa, Campinas, Presidente Prudente e São José dos Campos, as três em São Paulo. Mantém-se a tradição: a Rede Bandeirantes é a primeira a promover debates. Em São Paulo, está escalado como mediador o jornalista Eduardo Oinegue. Foram convidados Andrea Matarazzo (PSD), Arthur do Val (Patriota), Bruno Covas (PSDB), Celso Russomanno (Republicanos), Filipe Sabará (Novo), Guilherme Boulos (PSOL), Jilmar Tatto (PT), Joice Hasselmann (PSL), Márcio França (PSB) e Orlando Silva (PCdoB). Houve rumores de que Russomanno, em primeiro lugar nas pesquisas, não compareceria, mas ficou por isso mesmo. O debate paulistano será transmitido simultaneamente pela BandNews TV, pelo canal Band Jornalismo do You Tube, pelas rádios Bandeirantes e BandNews FM, pela internet no www.band.com.br, pelo aplicativo da Band para celulares. É hora de observar os candidatos e começar, caro eleitor, a definir seu voto.

Os cuidados

Haverá uma série de cuidados, em todos os debates, por causa da Covid. Cada candidato ficará afastado dos outros, com álcool-gel à disposição, e o uso de máscaras será obrigatório durante o debate. Será permitido retirá-las no momento em que o candidato, caso o queira, estiver falando. E o número de assessores no estúdio fica limitado a dois por candidato.

As normas

A previsão é de cinco blocos. As perguntas terão no máximo 30 segundos; as respostas, até 45 segundos. Réplica e tréplica serão em 30 segundos.

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​A dança do sobe e desce

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A pesquisa do Ibope foi uma das melhores que Bolsonaro já teve: 40% de aprovação, 29% de reprovação. Se a eleição presidencial fosse hoje, não apenas estaria no segundo turno: teria chance de vencer no primeiro. Mas a eleição não é hoje. E outra pesquisa, publicada praticamente ao mesmo tempo pela Exame, é bem pior para ele: desaprovação de 42%, aprovação de 35%. As duas pesquisas chegam a resultados diferentes por causa dos mesmos fatores: basicamente, a ajuda de emergência a pessoas carentes, iniciada com R$ 600 mensais e que, agora, cai a R$ 300. A coronavoucher explicaria a alta dos índices do presidente, embora no Nordeste, onde se concentra boa parte dos eleitores mais carentes, esse crescimento não tenha sido tão acentuado. A mesma coronavoucher, caindo para R$ 300, com a promessa de Bolsonaro de não pensar em Renda Brasil até o ano que vem, e aliada à subida da cesta básica, estaria puxando seu prestígio para baixo.

Bolsonaro, ao dizer que só pensaria em Renda Brasil no ano que vem, não quis dizer que a ajuda vai parar: está garantida até dezembro, e janeiro já é o ano que vem. Mas era fácil ser mal interpretado. Como é fácil interpretar mal as propostas de Paulo Guedes de substituir alguns impostos por outros. Num país como o nosso, supõe-se que vão criar impostos sem eliminar nenhum.

E as pesquisas? Serão úteis ao Governo e à oposição para definir táticas e estratégias. Para as eleições, não querem dizer nada. Estão longe demais.

Pesquisa mais próxima

Em São Paulo, informa o DataFolha, Bolsonaro é rejeitado por 46% dos eleitores, pouco acima do empate técnico com o governador João Dória, que 39% rejeitam. Ou seja, no momento, o apoio público de um ou de outro não é bom para candidato nenhum. Claro que o mundo é diferente: o apoio de um governador ou um presidente vai-se refletir de outra maneira na força de seus candidatos. As máquinas oficiais e partidárias existem e ajudam. Mas, com campanha curta, quem está bem atrás terá um caminho muito difícil.

Covid menos, Covid mais

Os índices da Covid no Brasil estão mais amenos. São Paulo teve forte redução em contaminações e mortes. Há perspectivas reais de que, em pouco tempo – janeiro, talvez – haja vacinas disponíveis. Ótima notícia. Mas em outros países, o vírus, após um período de menor atividade, voltou com tudo. Israel fechou de novo, há forte aumento de casos na Espanha. É preciso tomar cuidado – até agora, a melhor maneira de enfrentar a pandemia foi não contrair a Covid. E esperar que as vacinas (já são onze na terceira e última etapa de testes) sejam apresentadas, aprovadas e aplicadas tão logo possível.

Carnaval, desengano

A Liga Independente de Escolas de Samba, Liesa, decidiu suspender os desfiles de Carnaval no Rio. A associação de blocos decidiu suspender o carnaval de rua. Pode ser que, proclamado o fim da pandemia, haja nas ruas um Carnaval espontâneo (foi o que ocorreu há cem anos, quando terminou a epidemia de gripe espanhola). Pode ser que se designe uma nova data para os desfiles e a festa nas ruas. Mas isso depende da vacinação em massa.

Sem fantasia

O prefeito do Rio, Marcelo Crivella, que odeia Carnaval, poderia comemorar – ele nem apareceu no Sambódromo, nem entregou as chaves da cidade ao Rei Momo, como ocorre todos os anos. Mas está preocupado em se livrar dos tribunais: condenado por uso da máquina pública em favor da candidatura de seu filho, Marcelo Hodges Crivella, foi declarado inelegível por oito anos. Certo, aqui é Brasil, talvez mesmo assim ele continue sendo candidato à reeleição. Mas os partidos oposicionistas já pediram que seja impedido de se candidatar, embora haja a possibilidade de recurso.

Dançando

Já o governador Wilson Witzel está ameaçadíssimo: está afastado do Governo, o pedido de seu impeachment foi aceito, não tem apoio na Assembleia e depende de uma decisão do Supremo para ganhar uma chance de voltar ao cargo. Bolsonaro, que foi seu aliado e hoje é inimigo, já comemorou as dificuldades do governador fluminense. Mas o mundo gira.

Tá faltando um

O advogado Frederick Wassef, de longa relação com a família Bolsonaro – até recentemente era advogado do presidente e de seu filho 01, Flávio – foi denunciado por peculato e lavagem de dinheiro pela Lava Jato. Com Wassef, foram denunciados Orlando Diniz, ex-presidente da Federação do Comércio do Rio de Janeiro, Marcelo Cazzo, responsável pela aproximação dos dois, e as advogadas Marcia Carina Zampiron e Luiza Nagib Eluf.

E tem mais

O Antagonista informou que Bolsonaro se reuniu com o concessionário do aeroporto de Viracopos, que tinha problemas com o Governo. O encontro, diz a revista, após conversa do presidente com Wassef, foi produtivo.

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​Só porque ele quer

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É preciso entender o presidente Bolsonaro. Na ONU, ele não mentiu, só disse a verdade como ele a vê. Por exemplo, floresta úmida não pega fogo. Os índios e os caboclos, explorados por comunistas maconheiros do Exterior e ONGs de maconheiros (como cantou seu filho Flávio, “todo maconheiro dá o toba”), forçados a trocar o precioso nióbio amazonense pela maconha à qual se afeiçoaram, jogam guimbas acesas de maconha no mato e pimba! – começa a fogueira. Não é só isso: o índio não entende direito o sotaque de um norueguês comunista. Quando o norueguês pergunta “onde terr a fumo da bom?”, o índio taca fogo no mato e mostra uma enorme fumaceira da boa.

Os mil dólares de auxílio a 65 milhões de carentes? Tá bom, só alguns vão pegar mil dólares, isso até dezembro. Para a maior parte dos ajudados, a quantia não chegou a mil dólares. Mas, convenhamos, também os carentes não eram 65 milhões – ou eram, um dia talvez saibamos o número certo. Mas só um dos agentes da distribuição de renda, um certo Queiroz, ajudou dona Michele com uns 20 mil dólares à cotação da época, ou 89 mil reais, talkey?

Propôs na ONU o combate à cristofobia. Cristãos não sofrem de cristofobia. Os islâmicos têm Cristo entre os profetas. Jesus era judeu, Israel cuida dos santuários cristãos. Mas Bolsonaro deve ter pensado no Brasil, onde Jesus é unanimidade. Mas colocar Seus símbolos nos palácios do Governo e Sua estátua sobre as milícias do Rio – isto é ou não é perseguição?

É dando que se recebe

Outros pontos criticados do discurso de Bolsonaro também devem ser entendidos a partir de seu ponto de vista. Elogiar publicamente um chefe de outro Estado a poucas semanas da eleição, como fez com Trump, não tem nada a ver com aquele cordão que cada vez aumenta mais. Trump retribui um a um os elogios de Bolsonaro. Lembre-se do I love you. Em troca, Trump reduziu a quantidade de aço brasileiro que pode entrar nos EUA sem tarifas. Bolsonaro escancarou boa parte do mercado nacional para o álcool de milho dos Estados Unidos. Em troca, Trump elogiou Eduardo “Bananinha”, que queria virar embaixador em Washington. A Sig-Sauer americana foi trazida ao Brasil por Eduardo, o filho 03. Em troca, o embaixador americano disse que se o Brasil negociar a 5G com os chineses terá problemas com os EUA.

Não é puxa-saquismo: é, como acredita Bolsonaro, um toma-lá-dá-cá.

A grande dúvida

E não é só Bolsonaro que pensa assim: há uma boa parcela do eleitorado que o chama de Mito e está disposta a trabalhar por sua reeleição. Acreditam nele. A dúvida é outra: para raciocinar assim, qual será a cloroquina que Bolsonaro e seus assessores andam tomando?

Chove, chuva

Um bom exemplo de como estão as coisas foi a visita de Bolsonaro ao Pantanal. O ministro-chefe da Secretaria de Governo, general Luiz Ramos, que deixou o comando militar do Sudeste ao ser chamado para o Governo, foi iluminado pela Verdade: Bolsonaro visitou a região no dia 18, no dia 19 choveu. “Deus está com nosso Pres”, disse no twitter, “e continuará a abençoar o Brasil, em que pese todas as campanhas contra esse governo!”

Sou caipira. Sei que nos meses com “r” é mais provável que chova, nos meses sem “r” é mais provável que não chova. Estamos em setembro, que tem “r”. O general não tem nada de caipira: é carioca. Mas bem que podia saber, como general, que chover em setembro não é milagre, já que é época de chuva. Milagre seria se do céu viesse o maná, alimentando os mais pobres.

O tempo voa

Luciano Huck finalmente assumiu (mais ou menos). Embora não o tenha dito diretamente, quando lhe perguntaram se participaria da eleição de 2022, respondeu: “Estou aqui”. Huck participava da reunião do Cops, Conselho Político e Social da Associação Comercial de São Paulo. Mas sua ambição no momento, disse, é “mobilizar, liderar e fomentar uma geração”, de tal maneira que pessoas mais qualificadas e interessadas entrem na política. Seu país dos sonhos é o que consiga o desenvolvimento sustentável, uma nação agroindustrial verde. A seu ver, esse objetivo já atrai investimentos.

Guerra à cultura

O cineasta sudanês Hajooj Kuka e quatro outros artistas foram presos no Sudão, por “causar incômodo público”. Kuka é membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e seu trabalho é internacionalmente elogiado. O Festival de Berlim (Berlinale) pediu ao Sudão que liberte os artistas. Kuka nasceu no Sudão, estudou no Líbano e nos EUA; mora no Sudão. Seu filme “Beats of the Antonov” sobre guerra, música e a resiliência do povo do Nilo Azul e das Montanhas Nuba ganhou o People’s Choice Award no Festival de Toronto em 2014, mais seis outros prêmios em festivais. Seu primeiro filme narrativo de longa metragem, AKasha, foi financiado pelo Fundo de Cinema da Berlinale e participou do Festival de Veneza de 2018. Em 20 anos, foi o primeiro filme a ser feito no Sudão.

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​Mas a festa continua

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Na época em que o Macaco Tião, chimpanzé nascido e alojado no Zoológico carioca, fez sucesso como candidato no Rio, um dos seus slogans era ótimo: “Vote no Macaco Tião. O único que já vem preso”.

Pois o Macaco Tião, 14 anos após sua morte, 32 anos após ser candidato, acaba de perder a exclusividade: Cristiane Brasil, presa preventivamente, foi aprovada como candidata do PTB à Prefeitura carioca. Mesmo se acontecer uma condenação, diz o partido, ela continua candidata, já que a Lei da Ficha Limpa só a atingiria se fosse condenada em segunda instância. Cristiane é acusada de participar do núcleo político de uma organização especializada em fraudar licitações entre 2013 e 2017. Já teve problemas anteriores, por outras acusações. Em 2018, foi escolhida ministra pelo presidente Michel Temer, que retribuía o apoio de seu pai, Roberto Jefferson, supremo cacique do PTB, mas sua posse foi vetada pela Justiça.

Cristiane Brasil pode ser eleita para a Prefeitura? Não está entre as favoritas. Mas Wilson Witzel também não estava entre os favoritos e ganhou a eleição para governador. Além disso, o eleitorado do Rio tem caprichado nas eleições: dos ex-governadores do Rio, cinco foram presos (sendo que um, Sérgio Cabral, continua na cadeia), e outro, Wilson Witzel, foi afastado, com risco real de impeachment e acusações que podem levá-lo a processo penal. Cristiane Brasil pode ser eleita para a Prefeitura, por que não?

Três vezes cloroquina

Está tudo documentado no processo do Tribunal de Contas da União: em dois meses, o grupo Sul Minas multiplicou quase por três o preço dos ingredientes vendidos ao Laboratório Químico do Exército para produzir cloroquina. Em março, o difosato de cloroquina custou ao Exército R$ 488 o quilo. Em maio, o preço atingiu R$ 1.300 o quilo. Os vendedores explicam: dizem que o IPCA, fabricante do produto, elevou os preços em 300% em março e 600% em abril. Dizem também que o frete internacional subiu 300% e o Real caiu 45%. Restam, claro, duas perguntas: se a compra é grande (e o presidente Bolsonaro determinou a produção de 1,75 milhão de comprimidos de 150 mg), por que comprar de importadores e não do fabricante? E para que tanta cloroquina, se o próprio presidente Bolsonaro comemorou a doação de dois milhões de comprimidos dos Estados Unidos para o Brasil?

Bolsonaro, Lula e Moro

A pesquisa de agora é do PoderData: se a eleição fosse hoje, Bolsonaro iria para o segundo turno, com previsão de alcançar 41% de votos. Dois de seus adversários possíveis empatariam com ele: Lula (também 41%) e Sérgio Moro (40% a 37%, empate técnico – na última pesquisa, ambos tinham 41%). Os demais, ele venceria: Fernando Haddad, 42% a 34%; Ciro Gomes, com 15 pontos percentuais de diferença; João Dória, 13 pontos de diferença.

Validade

Só que as pesquisas valem para agora, não para daqui a dois anos. Em 1992, o senador Fernando Henrique me disse que temia não se eleger nem deputado federal nas eleições seguintes. Pensava em voltar à Universidade. Dois anos depois, foi eleito presidente no primeiro turno. Marconi Perillo, o grande cacique goiano, várias vezes governador, tinha certeza de se eleger senador, ainda mais que havia duas vagas. Ficou em quarto lugar, sem cargo, e nas eleições municipais do mês que vem nem tem candidato em Goiânia.

Citando Magalhães Pinto, “eleição e mineração só depois da apuração”.

Fogueira das vaidades

A política de meio-ambiente de Bolsonaro, na opinião deste colunista, é uma tragédia. Pior do que ela só as declarações oficiais sobre florestas, água, índios, incêndios – que frequentemente contradizem as informações dadas por órgãos sérios e bem equipados do próprio Governo. Mas, convenhamos, o incêndio no Pantanal nada tem a ver com as ações de Bolsonaro. Há fogo também na Bolívia, onde o presidente não é ele. Na repressão à derrubada ilegal da floresta, seu Governo falha (e deixa à vontade ocupantes ilegais que põem fogo na mata). Quanto aos governos europeus, é mais fácil dificultar o acesso do agronegócio brasileiro a seus mercados do que buscar eficiência na produção. Não há santos nesta área. Mas que é burrice deixar autoridades oficiais falar o que falam para dar argumentos ao adversário, isso é.

Chineses fazendo casas

A construtora Brosz, de Paulínia, SP, chamou a atenção de um grupo de investidores chineses, interessado no mercado imobiliário. A Brosz trabalha com construção a seco, quase industrializada: perfis de aço, paredes externas de placas de cimento ou polietileno expandido encaixadas nos perfis, paredes internas de gesso – algo semelhante às casas americanas ou canadenses, em que o aço dá a estrutura e as paredes são leves. No Brasil, utiliza-se muito o perfil metálico, mas com tijolos, o que exige mais trabalho manual e preparo local de argamassa. O custo pode cair muito, o que interessou os chineses.

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