Tudo será como dantes

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Hoje é feriado nacional, 128º aniversário da Proclamação da República. A República foi proclamada pelo marechal Deodoro, amigo do imperador D. Pedro 2º e antirrepublicano (um de seus ministros, Ruy Barbosa, era um dos maiores defensores da monarquia). O povo, disse Aristides Lobo, “assistiu bestializado” à Proclamação – e Aristides Lobo, além de líder republicano, era ministro de Deodoro. Por que Deodoro, monarquista, virou líder republicano? Porque o convenceram de que Silveira Martins chegaria a primeiro-ministro do Império. Deodoro e Silveira Martins se detestavam: ambos disputaram a baronesa do Triunfo (que escolheu Silveira Martins).

Claro, houve a questão financeira: o Império tinha prometido obter um empréstimo no Exterior para indenizar os donos de escravos pela Abolição. O empréstimo foi obtído, mas o dinheiro jamais chegou ao destino.

O DNA do Brasil é antigo. Já se sabe, portanto, quem ganha as eleições de 2018. É bom acompanhar o processo para saber quem fica com os cargos, com a caneta das nomeações, com a possibilidade de viajar em boa companhia e conseguir um Porsche ou outro e alegrar as atuais Baronesas do Triunfo. Mas é bom saber também que, seja qual for o resultado na urna, o povo poderá  “assistir bestializado” ao triunfo de Jucá, Renan, Eunício, Geddel, Jader, Moreira, Padilha, nesta terra descoberta por Cabral. Não nos espantemos com mais do mesmo. Quem sai aos seus não degenera.

Tudo junto...

Houve quem duvidasse quando esta coluna informou que PT e PMDB estavam negociando um acordo para 2018, e que Lula tinha mandado parar a campanha contra “o golpe”. Agora é tudo oficial: Lula diz que “perdoou os golpistas”; Dilma disse na Alemanha que era preciso perdoar “os que bateram panelas, equivocadamente”, contra ela. Uma curiosidade: quem foi o intérprete que traduziu o português de Dilma para o alemão? É gênio!

...e misturado

Eunício Oliveira, PMDB, um dos primeiros-amigos de Temer, quer porque quer chegar ao Governo do Ceará. José Guimarães, PT, o deputado cearense cujo prestígio no partido é imenso? Pois José Guimarães disse ao jornal Valor que Eunício ligou para Lula no dia 27, para cumprimentá-lo pelo aniversário e oferecer-lhe apoio à candidatura presidencial. Jader Barbalho, PMDB, que já teve de renunciar ao mandato de senador para não ser cassado por seus pares, cacique maior do Pará, diz: “Minha relação com o Lula não é boa, é excelente. Lula é um candidato fortíssimo. Como a classe política em geral está sob suspeição, o eleitorado vai dizer: ‘Todos não prestam, mas ele fez’. Se concorrer, ninguém ganha do Lula”.

Há negociações também, além de Ceará e Pará, em Minas (onde o governador petista Fernando Pimentel tenta lançar a candidatura de Dilma ao Senado), Piauí, Paraná (o dirigente peemedebista Roberto Requião está há muito tempo aliado ao PT), Sergipe e Tocantins, onde a senadora Kátia Abreu, antes ferrenha antipetista, virou ministra e amiga de Dilma. Requião está tão petista, e há tanto tempo, que até apoia o governo venezuelano de Nicolás Maduro; e se interessa tanto em agradar Lula que, quando o então presidente lhe mostrou uma semente de mamona, ele imediatamente a mordeu, imaginando que fosse uma oleaginosa como amendoim ou nozes.

Cadeia de comando

O PMDB do Mato Grosso do Sul está enfrentando um problema sério: no sábado, faria a convenção para entregar o comando estadual do partido ao ex-governador André Puccinelli, que seria candidato de novo em 2018. Ontem, terça, surgiu um contratempo: Puccinelli foi preso preventivamente na Operação Papiros de Lama, suspeito do desvio de R$ 235 milhões. Seu filho também foi colocado em prisão preventiva, e houve bloqueio de contas bancárias. A situação de Puccinelli está piorando na operação: na fase anterior, teve de usar tornozeleiras, mas não tinha sido preso. De acordo com os investigadores, houve uso de documentos falsos, compra irregular de produtos e obras e concessão de créditos tributários aos amigos. E agora? Ainda não se sabe: fazer a convenção na cadeia não é possível; e fora seria engraçado, ainda mais quando o vencedor não tivesse condições de discursar. Mas o PMDB local saberá lidar com o problema: um de seus dirigentes é o deputado federal Carlos Marun, aquele que vivia na TV defendendo Temer e, antes, era o maior defensor de Eduardo Cunha. Tem experiência com políticos enrolados.

Modéstia

A Polícia Federal anunciou que três deputados do Rio são suspeitos de receber propina. Três? Só se a Polícia Federal considerar que boa parte dos nobres parlamentares já ultrapassou a fase das suspeitas. Sua situação está estabelecida – nada de suspeitas - e só falta completar o trabalho.

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Vencer o inimigo invencível

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Um Governo grande, caro, metido na vida de todo mundo; ou, depois de mais de 500 anos, um Governo enxuto, leve, que libere a criatividade dos brasileiros e se preocupe em exercer as funções típicas de Governo, sem a tentação de regulamentar até os quadros que cada museu pode exibir.

Um balanço dos candidatos e seus assessores econômicos parece indicar que o Governo, enfim, deixará de sufocar o país. Alckmin deve ter a seu lado um dos pais do Plano Real, Pérsio Arida. Aécio, antes da queda, pensava em Armínio Fraga (também companheirão de Luciano Huck e de João Amoêdo, fundador do Partido Novo, ligado ainda a Gustavo Franco). Amoêdo é sócio da Casa das Garças, centro liberal de estudos político-econômicos. O Pastor Everaldo, do PSC, tem Paulo Rabello de Castro, presidente do BNDES (fala-se até na candidatura de Rabello, no lugar do Pastor Everaldo). Bolsonaro, conservador linha-dura na área de costumes, reserva a Adolpho Sachsida, do Instituto Liberal, seu programa econômico. Henrique Meirelles, ex-tucano, ex-Lula, hoje Temer e Kassab, pode ser ele mesmo o candidato. E Lula? Não se sabe – mas já usou Palocci.

Terá chegado a hora de desmontar os empregões estatais? Talvez – mas Roberto Campos, Delfim e Simonsen, defensores da iniciativa privada, tentaram controlar até o preço do cafezinho. Falharam; é fantástico o poder da maquina estatal de gerar nomeações. Mas nunca desistiram do cargo.

Irmãos Bobagem

Aécio Neves, mesmo com o prestígio abaixo dos rastros da cascavel que destrói candidatos, continua ostentando o título de presidente do PSDB. Era só para constar, para não parecer que o próprio partido o tinha abandonado. Mas a falta de poder subiu-lhe à cabeça: afastou o dirigente interino, Tasso Jereissati, colocou Alberto Goldman no lugar e implodiu o partido que já tinha explodido. Goldman detesta Dória, que pode ser candidato a alguma coisa, embora não a presidente – e que lhe retribui a ojeriza; e é ligado a José Serra, que candidato à Presidência também não será. E abriu mais uma divergência: quem vai controlar o PSDB e tentar uni-lo de agora em diante, Fernando Henrique, Alckmin ou o senador Antonio Anastasia? Aécio, sem dúvida, só herdou do avô Tancredo, um sábio, o sobrenome Neves.

Parente é serpente

Muitos colunistas disseram que o PSDB vive uma luta fratricida, e foram criticados: luta, sim, mas não fratricida, já que todos ali se odeiam. Mas é fratricida, sim: afinal de contas, Caim e Abel eram irmãos.

Os jardins do Paraíso

Por falar em Bíblia, em Gênesis conta-se a história do fruto proibido, da Árvore do Bem e do Mal. Adão e Eva viviam no Paraíso, livres da fome e da morte. Um dia, convencida pela serpente, Eva colheu o fruto proibido e o ofereceu também a Adão. A Humanidade foi então expulsa do Paraíso, conheceu a morte e a fome; e Deus determinou que os seres humanos tivessem de trabalhar para comer – “ganhar o pão com o suor de seu rosto”.

Avancemos no tempo. O desembargador Vulmar de Araújo Coêlho e o juiz trabalhista Domingos Sávio Gomes dos Santos, de Porto Velho, Rondônia, foram punidos: o desembargador, por deslocar uma ação de R$ 5 bilhões da 2ª para a 7ª Vara, onde o juiz trabalhista manteria a causa sob controle. O Conselho Nacional de Justiça determinou a aposentadoria compulsória de juiz e desembargador – e só. Ambos continuarão a receber integralmente seus vencimentos, embora sejam proibidos de trabalhar.

Ambos têm deuses poderosos: ganham o pão sem o suor de seu rosto.

Juntos de novo

A informação que chegou a ser recebida com desdém – o grande acordo eleitoral entre PMDB e PT – já está publicamente confirmada. Em Minas, o PMDB informou ao diretório nacional que pretende se aliar ao governador Fernando Pimentel – o mais próximo aliado de Dilma Rousseff, alvo de diversas investigações. Objetivo: aumentar as bancadas estadual e federal do partido, esquecendo as divergências recentes. Serão eleições curiosas: Aécio Neves terá fôlego para concorrer? E votos para ser levado a sério?

Paz nas ruas

Se depender das manifestações da oposição para mostrar força, Temer pode avançar tranquilo nas reformas: o protesto contra a reforma trabalhista, amplamente divulgado, organizado com grande antecedência,  com apoio de todas as centrais sindicais, reuniu menos gente que os jogos de futebol das equipes mais mal colocadas na tabela. Os congestionamentos de trânsito foram raros e rápidos; mais problemas eventuais do que muita gente nas ruas. A manifestação de sexta-feira, ocorrida na véspera da entrada em vigor da nova lei trabalhista, não chegou sequer a incomodar quem dela não participava. E, não esqueçamos, não houve qualquer acordo sobre o imposto sindical. Neste momento, e desde ontem, está extinto.

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Trabalhar dá trabalho

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O ministro da Justiça, Torquato Jardim, disse o que todos que não estão implicados gostariam de dizer: o crime não teria tomado as proporções que tomou, no Rio, sem muita cumplicidade oficial e policial. Jardim sabe de coisas que muita gente deve saber, mas: a) tem informações do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, ou seja, do general Sérgio Etchegoyen; 2) como ministro, tem obrigação legal de agir. Portanto…

Portanto, não se sabe. O caro leitor deve lembrar-se de que vive sob o auriverde pendão de nossa terra. O presidente Temer já pediu ao ministro que aja com discrição, o máximo de discrição (se não agir, melhor ainda). Jardim é velho amigo, Temer espera dele que compreenda seus problemas.

O fato é que PMDB e PT tentam rearticular a velha aliança, só rompida pela inabilidade da presidente Dilma. Lula já mandou um recado: é hora de parar com o “fora Temer”. O PMDB de Temer (e de Sérgio Cabral, e do governador Pezão) enfrenta as mesmas dificuldades do PT do Mensalão, do Petrolão e do Quadrilhão; ambos ficariam felizes com medidas legislativas como a proibição da delação de réus presos, condução coercitiva só em caso de recusa ao depoimento e fim de prisões temporárias que, pela longa duração, funcionam sem julgamento como antecipação de pena.

Juntos, PT e PMDB, calcula a repórter Lydia Medeiros, de O Globo, ficam com ¼ do dinheiro de campanha. Esta linguagem ambos entendem.

O trabalho eleitoral

É cada vez menos lógico, portanto, imaginar a eleição polarizada entre Lula e Bolsonaro. Lula dificilmente será candidato, Bolsonaro dificilmente terá fôlego para ir muito longe. Há outros nomes possíveis, na perspectiva de uma chapa PT/PMDB: Luiz Felipe d’Ávila, por exemplo; ou, no caso de a economia crescer bem, Henrique Meirelles. Meirelles tem boa entrada na área empresarial, foi presidente do Banco Central com Lula, ministro da Fazenda com Temer (e Lula cansou de indicá-lo a Dilma, que o rejeitou). D’Ávila, professor respeitado, é genro do empresário Abílio Diniz (que há tempos mantém boas relações com o PT). Do outro lado, o nome provável é o do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Caso algo semelhante ocorra de fato, a campanha será muito mais tranquila do que se espera hoje.

O trabalho cansa

Todas as articulações estão ocorrendo nos níveis mais altos de cada sigla e provavelmente provocarão algumas exclamações de horror se, e quando, se confirmarem. E estão ocorrendo longe do Legislativo – até porque quem deveria trabalhar contra o acordo ou a seu favor optou pelo repouso. Não, nada a ver com as férias disfarçadas de diplomacia parlamentar oferecidas, com dinheiro público, às Excelências que viajaram à Europa e ao Oriente Médio; é coisa mais bem distribuída. A Câmara prepara um recesso branco de dez dias – agora, quando pouco mais de um mês nos separa do recesso oficial do fim do ano. Funciona assim: há sessões marcadas para a próxima semana, de segunda a sexta. Mas não é para valer: é só para que o número de sessões atinja o mínimo e seja possível folgar de 13 a 21, sem que haja qualquer tipo de desconto. O Senado deve seguir o exemplo da folga.

O trabalho pacífico

Um acerto entre PT e PMDB deverá provocar a queda de muita gente do PSDB instalada no Governo. O ministro Antônio Imbassahy, bom político, por isso mesmo caiu em desgraça junto à bancada franciscana (a que segue a oração de São Francisco, “é dando que se recebe”). Aloysio Nunes e Bruno Araújo não despertam grande emoção no partido; Luislinda Valois, no Governo, mais retira prestígio do PSDB do que lhe acrescenta. Mas o desembarque do PSDB deve ser ameno, com garantia de apoio às reformas econômicas, sem brigas – até porque, embora em menor escala, os tucanos enfrentem os mesmos problemas que PT e PMDB tentam resolver.

O trabalho escravo

Livrar-se de Luislinda Valois, a inacreditável ministra que escreveu 207 páginas para dizer que ganhar pouco mais de R$ 33 mil por mês, como ela, se assemelha a trabalho escravo, é tarefa urgente para o Governo e o PSDB. Justificar-se alegando que é preciso vestir-se com dignidade, alimentar-se e usar maquiagem já é escárnio. Se a ministra acha baixos seus vencimentos, ninguém a obriga a ficar no Governo: pode ir embora. E será aplaudida.

O trabalho necessário

Mesmo que o ministro Torquato Jardim se aquiete, atendendo aos apelos de Temer, a acusação ao Governo e à PM fluminenses deve gerar efeitos. O secretário da Justiça e da Segurança do Mato Grosso do Sul cobra também o Governo Federal, pelo frágil combate ao tráfico nas fronteiras. “O crime no Rio é diretamente ligado ao tráfico de drogas”, diz, em ótima entrevista ao repórter Paulo Renato Coelho Netto, do UOL. E que faz a União para combater o narcotráfico? O Ministério da Justiça não respondeu à pergunta.

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Finados? Imagine! Todos Santos

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​O ministro da Justiça, Torquato Jardim, mudou o jogo: no país em que bois voadores fizeram a fortuna de Eduardo Cunha, em que fazendas de muitos andares abrigaram os bois de apartamento de Renan Calheiros, no país dos bois anônimos e de hábitos pouco comuns, Jardim deu nomes aos bois e apontou seu papel na insegurança pública do Rio. Em notável entrevista a Josias de Souza (https://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/), Jardim disse que o governador Pezão e seu secretário da Segurança perderam o controle das forças de segurança e que o que define o comando da PM é um acerto com deputados estaduais e o crime organizado. Disse mais: “Comandantes de batalhão são sócios do crime organizado no Rio”.

Há o que fazer? O ministro acredita que ações com tropa federal podem ajudar um pouco, mas que só haverá condições para um combate efetivo ao crime organizado a partir de 2019, com outro governador, outro secretário. Com os atuais dirigentes, não há jeito: disse Jardim que ele, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, e o secretário do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, general Sérgio Etchegoyen, já tiveram duras conversas com Pezão, sem êxito. Antes que a situação melhore, ainda deve piorar: na opinião do ministro, os atuais bandidos estão cedendo espaço às milícias, quadrilhas que envolvem policiais. Cada milícia tem seu espaço, dificultando ainda mais o restabelecimento da segurança pública no Estado.

Nós, não

O ministro Torquato Jardim diz estar convencido de que o assassínio do tenente-coronel Luiz Gustavo Teixeira, comandante do 3º Batalhão da PM carioca, que emocionou o país, não está bem contado. Não foi, acredita, a consequência de reação a um assalto. “Ninguém me convence de que não foi acerto de contas”. O governador Pezão e o secretário da Segurança, Roberto Sá, garantiram que o Governo do Rio não negocia com criminosos.

O rigor da lei

O ministro da Justiça é uma autoridade e se responsabiliza pelo que diz. Fez acusações pesadas ao governador do Rio, incluindo opiniões sobre um assassínio que a Polícia fluminense diz estar empenhada em esclarecer. Neste momento, está reunida na Câmara dos Deputados a Comissão de Segurança Pública, que convidou o ministro Torquato Jardim a depor. Hoje? Amanhã, embora seja feriado? Não, nada disso: imagina-se que ele vá falar no dia 8, quarta-feira que vem. Morre mais gente no Rio, nas mãos das quadrilhas, do que em países onde há guerra civil. Para que pressa?

Poderes unidos

E não é só o Legislativo – inclusive as Excelências da oposição ao governador, que deveriam estar interessados em desdobrar rapidamente o caso – que se recusam a qualquer esforço extraordinário. O alto comando da Câmara, sob a chefia do presidente Rodrigo Maia, está no Oriente Médio, diz-se que a serviço – embora nada esteja acontecendo de diferente por lá, embora Maia seja o substituto legal do presidente Michel Temer, que acaba de deixar o hospital. O Poder Judiciário, no momento em que o governador de um dos principais Estados do país sofre pesadas acusações de um ministro, entrou de folga (e, ainda por cima, legalizou-a)

O Direito em repouso

O Dia do Servidor Público, 28 de outubro, caiu num sábado. Como não dá para repousar duas vezes no mesmo dia, o Supremo transferiu o feriado para esta sexta, dia 3, em que supostamente haveria trabalho normal. Com isso, a folga do STF já começa hoje, porque 1º de novembro é feriado para o Judiciário; o dia 2, amanhã, é Finados; e o dia 3, que não era feriado, agora é um supremo feriadão. E não vale só para o Supremo: o STJ aderiu. Não é por ter 60 dias anuais de férias e cinco feriados além dos válidos para o restante da população que as togas devam sofrer a perda de um feriado.

Bico fechado, tá?

O caro leitor não deve reclamar da nova folga dos togados. Se tivesse se dedicado mais aos estudos, em vez de ficar reclamando do pouco empenho dos supremos escolhidos, poderia ter alcançado o conhecimento jurídico de um Dias Toffoli; ou, versando-se em comunicação, talvez pudesse igualar-se à esfuziante oratória de um Marco Aurélio. Esforçando-se na arte do bom relacionamento, emularia, é possível, um Gilmar Mendes, E, caso tivesse mergulhado na leitura do clássico de autoajuda Como fazer amigos e influenciar pessoas, de Dale Carnegie, ficaria em melhores condições para pleitear um lugar de destaque, como o de Ricardo Lewandowski. Não conseguiu tão boa posição? Quem mandou não estudar o que deveria?

É coisa deles

Um fato da maior importância para o Brasil ocorreu no Exterior: dois dirigentes da campanha de Trump são investigados pelo FBI por permitir interferência de outros países na eleição. Um já está preso, outro ainda não.

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Na contramão do caminho

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​Foi uma vitória suada; suada, difícil e cara. Neste momento, dez entre dez analistas dizem que o Governo acabou, que Michel Temer não tem força nem para se livrar da obstrução urinária sem fazer shopping parlamentar. Ficará manquitolando à espera do último dia de seu mandato.

Só que não é assim: vitória suada e cara também vale três pontos. Se, no momento em que enfrentava uma denúncia que poderia afastá-lo do cargo, ele sobreviveu, tem tudo para ganhar forças depois de livrar-se de Janot. O presidente tem muitos fatores a favor: o exercício do poder, que lhe permite preencher o Diário Oficial e dar apoio a algum candidato à Presidência, o fim das denúncias e esplêndidos resultados econômicos. Depende dele: não adianta usar Moreira Franco, Padilha e Eunício para divulgar boas notícias, porque neles ninguém vai acreditar. Mas, abrindo seu Governo à luz do Sol e tirando os suspeitos de sempre de seu lado, terá tudo para virar o jogo.

As exportações por Santos se aproximam de 100 milhões de toneladas, e vão batendo recordes. A balança comercial deve ter superávit de US$ 70 bilhões até o final do ano – recorde absoluto. A taxa de juros, em um ano e pouco de Temer, caiu à metade do que era com Dilma: foi de 14,25% a 7,5%. Há leves sinais de melhora da atividade – que ficarão mais visíveis a partir da taxa de juros mais baixa, que facilita os investimentos. Afastando a turma vetusta para que a equipe econômica cresça, Temer cresce com ela.

A vista...

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-Rio) acha que Temer não terá força para votar a reforma da Previdência. Maia deve entender bem os sentimentos parlamentares, ou não se elegeria presidente; mas é verdade, ao mesmo tempo, que sua maior credencial é o pai, César Maia. Antes dos atuais episódios, poucos tinham ouvido falar de Rodrigo Maia.

O fato é que Temer está disposto a votar, ainda neste ano, a reforma da Previdência. Temer também conhece os sentimentos parlamentares, tanto que, sem apoio familiar externo, se elegeu três vezes presidente da Câmara. E, tendo sido quem convenceu Suas Excelências a ficar a seu lado, sabe perfeitamente quanto custa um voto, e qual seu prazo de validade.

...e a prazo

Quem foi abençoado com cargos para votar contra a aceitação da denúncia contra Temer pode, de uma hora para outra, perdê-los: não tem como retirar seu voto. Não pode, portanto, virar oposição a Temer, sem entrar no prejuízo, de uma hora para outra. Para aprovar a reforma, Temer precisará de 308 votos – os 251 que rejeitaram a denúncia contra ele, mais 57. Temer acredita que, entre os 107 deputados governistas que votaram contra ele, há pelo menos 57 favoráveis à reforma. E Suas Excelências sabem que, ao votar contra a reforma, estarão votando contra os cargos que seus partidos tiverem recebido; estarão contra a equipe econômica, bem na hora em que a economia mostra sinais de recuperação; e estarão contra um possível – e forte – candidato à Presidência, o ministro Henrique Meirelles.

A hora do sonho

Quando Meirelles voltou para o Brasil, depois de boa carreira no Banco de Boston, tinha um plano em duas etapas: primeiro, eleger-se governador de seu Estado, Goiás; segundo, tentar a Presidência. Entrou no PSDB, com a proposta de pagar sua própria campanha, sem doações. Havia, entretanto, um obstáculo intransponível: o cacique tucano de Goiás, Marconi Perillo. Meirelles então se elegeu deputado federal. Nem tomou posse: Lula, eleito ao mesmo tempo, convidou-o para presidente do Banco Central. Mas seu sonho se manteve: está no PSD de Kassab, seu trabalho na Fazenda vai bem, Temer não tem outro nome. Entre Lula (ou poste de plantão), Alckmin e Bolsonaro, Meirelles pode ser o candidato-novidade, sem processos, capaz de viajar a Curitiba a passeio, sem medo, e com Temer.

Atenção em Lula

Lula disse que está na hora de parar de gritar “Fora, Temer”. Por que?

Amigos...

Lula não se transformou, de uma hora para outra, em apreciador de Temer. Soltou até, em Minas, uma frase venenosa (que, embora atinja a posta de sua escolha, derrama mais peçonha no adversário): “Como Deus escreve certo por linhas tortas, as pessoas que diziam que a Dilma era uma desgraça perceberam que Temer era desgraça e meia”.

...inimigos

Na verdade, Lula não tinha como falar isso sem atingir aliados. Quem foi que montou a chapa Dilma-Temer que ganhou a eleição?"

Mas Lula provavelmente está estudando o terreno, escolhendo os adversários de campanha. Pois sua caravana, que deve percorrer o país inteiro, não está repetindo o sucesso da Caravana da Cidadania, de antes de se eleger presidente. É pouca gente e muita vaia.

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Black Quarta, dia de compras

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Neste país todo mundo se queixa. Só porque o Governo volta a investir, colocando uns R$ 12 bilhões de capital em ações de apoio ao presidente Temer, ficam criticando vendedores de votos e compradores de opiniões.  

Injustiça! Muito dinheiro trocou de mãos, mas civilizadamente, sem que até agora alguém tenha sido apanhado em flagrante, como o senhor ridículo que corria com a mala na rua. Uma transferência contábil – como a  do Refis, em que o Governo deixará de faturar pouco mais de R$ 2 bilhões, em favor de Suas Excelências – não é tão inconveniente. Os de sempre são beneficiados e transferem parte dos ganhos a seus parlamentares de estimação, sem que bons amigos do presidente tenham de rechear e entregar pacotes com suas próprias mãos. É, convenhamos, mais chique. O efeito é o mesmo, garantir ao presidente os votos de que precisa para garantir aos amigos, e aos amigos dos amigos, que a garantia continua. É algo sólido: nada de la garantía soy yo. Emendas parlamentares de R$ 15 milhões, cada? Dinheirinho para pequenas obras. É uma boa economia: só se distribui a parte de cada um, sem que se gaste um centavo na tal obra.

Há o desconto de 60% nas multas ambientais. Justo: o prejuízo do Governo com as multas não pagas será 60% menor. O Governo desiste de privatizar o aeroporto de Congonhas: uma vaca com mais tetas tem mais a oferecer a quem quer mamar. E sobra até para nós: cabe-nos pagar a conta.

Mamãe eu quero

O caro leitor pode ficar tranquilo: Temer ultrapassa mais essa denúncia, que deve ser votada hoje. Mas, se o resultado é certo e sabido, por que tanta gentileza com os senhores deputados? Porque não ficaria bem, para Temer, derrubar a denúncia com menos votos do que teve ao derrubar a  denúncia anterior. Para evitar que ele se mantenha no cargo dando a impressão de que perdeu apoio, fez-se a Grande Queima Pré-Natalina de Votos. Sabe como é, se prevalece a impressão de que o presidente se enfraqueceu, vários parlamentares passarão a exigir ainda mais por seu apoio. Evita-se então o vexame pagando adiantado para o presidente parecer forte. Muda algo? Muda: o dinheiro, por exemplo, muda do Tesouro para bolsos ávidos.

Mamãe, eu quero mamar

É claro que, aparentemente, é mais fino oferecer favores transformáveis em dinheiro do que dinheiro propriamente dito. Nem é preciso, por mais substanciosas que sejam as quantias transferidas, alugar apartamentos-cofre com um geddel de área construída para abrigar a fila de caixotes de notas novinhas. Mas, por maior que seja a tolerância com que se observe o mafuá das Excelências, o que está ocorrendo ultrapassa largamente a fronteira do decoro: o PMDB, por exemplo, partido de Temer, liberou seus deputados para apoiá-lo ou não. Traduzindo, o apoio ao presidente é negociado voto por voto com seus correligionários, mesmo sabendo-se que Temer foi presidente do PMDB, seu candidato em aliança com Lula e Dilma, e é a única possibilidade que o partido tem de permanecer no poder. Como esta é a última chance de derrubar o presidente, cada deputado exige o que pode. O Governo não se preocupa com isso: afinal, nós é que pagamos.

De tanto piscar olho

Na luta contra a denúncia, Michel Temer já convenceu todos os que poderia ter convencido (a oposição, convencida da derrota, decidiu tentar impedir o início da sessão, negando o número necessário de deputados). Mas há uma luta que Temer ainda terá de lutar, e com amplas chances de ser derrotado: as centrais sindicais não aceitam a reforma trabalhista. O motivo é o de sempre: com a extinção do Imposto Sindical, hoje cobrado de todo assalariado do país, seja ou não sindicalizado, e entregue aos sindicatos, só terá receita quem prestar serviços aos associados. Receber, sim; trabalhar para ter sócios contribuintes é outra coisa, dá trabalho. Centrais sindicais e sindicatos programam manifestações em todo o pais em 10 de novembro, véspera da entrada em vigor da reforma trabalhista. Só voltam atrás se o Governo lhes der outra receita no lugar desta.

E não se fale mal apenas de centrais e sindicatos de assalariados. Centrais e sindicatos patronais também estão pendurados no imposto.

Frase notável

Do ótimo site gaúcho Espaço Vital (www.espacovital.com.br): “Depois do apartamento de Geddel, entendi por que Lula queria um tríplex”.

Ficha imaculada

Preocupado com o assassínio da turista espanhola María Esperança Jiménez Ruiz, na Favela da Rocinha? Tranquilize-se: a Justiça concedeu liberdade provisória ao PM que a alvejou. 

Diz a decisão: “O custodiado estava trabalhando, possui imaculada ficha funcional, não havendo indícios de que solto possa reiterar o comportamento criminoso ocorrido à luz do dia”.

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O vento e os tempos

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Pois são tempos estranhos, estes; tempos em que se descobre que um antigo político, que se supunha afastado do ramo desde que foi condenado pelo Mensalão, controla um robusto partido com 37 deputados federais. O presidente Temer, naturalmente, sabia de tudo; e sabia ainda que o preço do ex-deputado federal Valdemar Costa Neto, Boy, comandante-chefe do PR, era a manutenção do Aeroporto de Congonhas em mãos do Estado. Nada de privatização: Congonhas continua estatal, prometeu Temer a Boy. Em troca de tão patriótica atitude, Temer ganha o apoio do PR para continuar no cargo, livre das desagradáveis denúncias da Procuradoria da República.

OK, Valdemar Costa Neto pediu, Temer concedeu. Mas por que estará Boy tão interessado na permanência de Congonhas em mãos do Governo?

Talvez alguma vertente brizolista em sua ideologia, por que não? Seria novidade, porque: a) parte dos políticos brasileiros acha que Boy não tem ideologia, guiando-se sempre pelos resultados, estes sempre excelentes; b) outra parte dos políticos brasileiros acha que Boy tem ideologia, sim, mas menos brizolista e muito mais petista, da ala ligada ao empresariadão. Talvez esteja preocupado em garantir a eficiência do aeroporto, já que, como se sabe, as estatais tradicionalmente produzem melhores resultados – e, sem dúvida, os bons resultados são sempre seu objetivo, um objetivo sempre alcançado. Temer e Boy, políticos experientes, sabem conversar.

Ventos uivantes

Nesse tipo de bate-papo entre velhos amigos, entre xícaras de bom café e biscoitinhos, a conversa sempre deriva para assuntos paralelos. No caso, decidiu-se reativar o antigo aeroporto de Pampulha, em Belo Horizonte, para voos interestaduais. Pampulha, é certo, também trará bons resultados.

Blowin’ in the Wind

Não se assuste: esta coluna não trará aos leitores nenhuma nova versão do clássico de Bob Dylan na interpretação de Eduardo Suplicy. Para evitar más interpretações da história dos aeroportos, o ministro dos Transportes, Maurício Quintella, apresentou a Michel Temer estudos da aviação civil e análises de consultorias independentes que demonstram que, sem a receita de Congonhas, a Infraero perde sua base financeira, e outros aeroportos do sistema no país ficam inviáveis. Que tal privatizá-los? O aeroporto da ilha de Santa Elena, entre América do Sul e África, está num lugar tão ruim que só um modelo de avião no mundo, um Embraer, lá chega e decola. É um aeroporto privado e dá lucro. A resposta, diz Bob Dylan, é soprada pelos ventos. Mas, que pena, o aeroporto dá lucro, embora só aos investidores!

Palavras ao vento

A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, disse que Geddel Vieira Lima é o chefe da quadrilha. Renan Calheiros, que conhece tudo do partido e do Governo – o que é preciso saber e o que nem fica bem pensar que ele sabe – rebateu: “Engraçado. Nunca soube que Geddel era o chefe. Para mim, o chefe dele era outro”. Renan se conteve: já pensou se ele conta e de repente descobrimos que aquilo já não é mais surpresa?

Depois do vendaval

No interior de São Paulo, há uma frase feita a respeito de chefe: “Quem tem chefe é índio”. Coincidência: o presidente do Senado, Eunício Oliveira, fiel dos fieis de Michel Temer, tem o apelido de Índio. Ele acaba de dizer que é eleitor de Lula e é nele que, “obviamente”, deve votar nas eleições do ano que vem, se o PMDB não tiver candidato próprio e com acordos locais para decidir quem indica quem para cada cargo. Traduzindo, se não estiver garantida a ele, Eunicio, uma candidatura forte ao Senado pelo Ceará. 

Livre como o vento

Segundo Eunício, o PMDB é um partido livre. “Livre” é uma palavra bonita, uma das preferidas deste colunista. Mas não é em todos os lugares, nem em todas as épocas, que “livre” é uma palavra elogiosa. Conforme o lugar, conforme a época, dizer que uma senhora tem comportamento livre é tudo, exceto um elogio. Em certos partidos, também. Pode significar que, a menos que haja garantias de sucesso em certas áreas, as palavras “livre” e “traidor” se transformam em sinônimos perfeitos.

O vento sabe a resposta

E, a propósito, há lógica na união, ao menos regional, de PT e PMDB. No Nordeste, Lula é o político mais popular; e o PMDB tem de longe a melhor estrutura, com mais prefeituras e mais tempo de televisão. Ambos são pragmáticos, digamos. Unir-se e ganhar juntos, muito, é o que querem. 

Onde o vento faz a volta

Aeroportos, bons lucros – como na cobrança do transporte das malas, que segundo a Anac geraria uma tendência para reduzir o custo das passagens. Resultado: as passagens subiram 35,9% - cálculo da Fundação Getúlio Vargas, obtido pelo Diário do Poder (www.diariodopoder.com.br)

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O país do molha a mão

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A procuradora-geral Raquel Dodge disse, ao tomar posse, que o povo “não tolera a corrupção”. Sua Excelência está certa, mas na frase faltou um pedacinho que lhe daria mais precisão: o povo não tolera “a corrupção dos outros”. O problema não somos nós, mas aqueles safados que condenamos.

Uma entidade séria, a Transparência Internacional, em pesquisa agora divulgada, mostrou que 11% dos brasileiros admitiram pagar propina para ter acesso a serviços públicos como saúde, educação, segurança, emissão de documentos. Detalhe interessante: a pesquisa se realizou na época do impeachment da presidente Dilma Rousseff, com manifestações de massa contra a corrupção do Governo. Petrolão, não; mas tudo bem molhar a mão.

As respostas positivas, em que tanta gente confessa não apenas seu hábito de transgredir a lei como o desprezo pelos que protestam contra isso, são obviamente verdadeiras: ninguém mente ao confessar que age fora da lei. Portanto, se as autoridades pensam ter apoio do povo para combater os atos mais comuns de corrupção, podem ir desde logo mudando de ideia.

A pesquisa, porém, traz aspectos mais positivos. Dos brasileiros, 81% garantem que, se presenciassem um ato de corrupção, iriam denunciá-lo. Claro que até agora ninguém o fez, exceto em troca de algum tipo de perdão dos suculentos – em alguns casos, tão bons que vale a pena até assumir a culpa de um crime. Mas é um bom sinal. Quem sabe um dia?

Fica a dica

Conhecendo-se o que já se conhece, sabendo como pensa boa parte da população, acompanhando a disputa entre parlamentares e procuradores (tendo alguns ministros do Supremo, surpreendentemente, na mediação do jogo) vale a pena mergulhar um pouco na Operação Lava Jato. De duas, uma: ou a ofensiva contra a Lava Jato consegue sufocá-la, ou o cruzamento de delações premiadas, combinado com enxurradas de investigações bem-sucedidas, vai gerar tantos processos que ninguém conseguirá acompanhá-los (e, de um ou outro jeito, vamos perder o fio da meada). É hora de pegar um bom livro que sistematize o que se sabe da ladroeira geral e irrestrita. Uma sugestão: República dos Acarajés, do gaúcho Walter Soares, e-book Amazon em https://www.amazon.com.br/Rep%C3%BAblica-dos-Acaraj%C3%A9s-pa%C3%ADs-esse-ebook/dp/B01N2WYZ2W/ref=sr_1_4?ie=UTF8&qid=1503459046&sr=8-4&keywords=walter+soares

Catalunha, só lá

O movimento catalão ameaçou repercutir no Brasil, com grupos sulistas querendo separar do Brasil o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. É daquelas ideias que parecem ótimas à primeira vista, mas não resistem mais do que isso; ninguém ganha nada e os custos são fantásticos. No caso, o Sul teria de importar todo o petróleo que consome, construir nova refinaria, ou importar derivados; e não haveria nem o sal grosso, que teria de ser levado de Mossoró, para o churrasco nosso de cada dia. E, como na Catalunha, o plebiscito é ótimo, bonito, mobilizador, mas só funciona quando os sonhadores perdem. Quando ganham, como agora na Espanha, que fazer?

O mundo gira

E essas histórias de independência não são as únicas coisas estranhas que acontecem no Brasil. Há dias, em Brasília, o ex-presidente Lula foi embora bem cedo de um churrasco na casa do deputado Paulo Pimenta, do PT gaúcho. Comeu e  bebeu pela metade, não esperou o evento petista que deveria ocorrer logo após o churrasco, e disse que iria fazer acupuntura.

Não faz muito tempo, quem acreditaria que Lula iria suspender um churrasco, com todos os acompanhamentos de que gosta, seguido por um ato público, quase um comício, para fazer um tratamento médico?

Volta ao lar

Césare Battisti, condenado à prisão perpétua na Itália por quatro homicídios, com a extradição do Brasil aprovada pelo Supremo e suspensa pelo então presidente Lula no último dia de seu mandato, está a ponto de ser mandado de volta a seu país. Pelo que se comenta, falta pouco: só que o Governo italiano aceite reduzir a pena que vai cumprir na Itália à que ele sofreria no Brasil, 30 anos no máximo. O presidente Temer está disposto a devolvê-lo, caso os italianos cumpram as exigências da lei brasileira.

Evo, última chance

O presidente boliviano Evo Morales luta para conseguir disputar mais um mandato – seria o quarto em seguida. Morales se elegeu e logo tratou de reformar a Constituição, permitindo-se disputar o terceiro mandato. Mas as coisas, agora, estão difíceis: em nove das onze maiores cidades da Bolívia houve manifestações contra ele, exigindo que respeite o resultado da última votação a que concorreu (em fevereiro, sua proposta de disputar o quarto mandato foi derrotada). Mas Morales promete lutar até o fim

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Os dias friamente quentes

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Choque entre poderes: a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal impôs ao senador Aécio Neves, do PSDB mineiro, algumas medidas cautelares – por exemplo, obrigá-lo a passar a noite em casa. Na prática, sem que o senador tenha sido julgado e condenado, é obrigado a cumprir medidas que dificultam o exercício de seu mandato. O Senado ameaçou reagir, mas se acalmou quando o plenário do Supremo, mais poderoso que uma turma, resolveu analisar o caso. O julgamento é hoje. Se o plenário mantiver a decisão, o STF entrará em choque com a Advocacia Geral da União, ligada ao Executivo, e o Congresso: ambos, citando a Constituição, sustentam que parlamentares só podem ser presos em flagrante e por crime inafiançável. No próprio STF há ministros em favor dessa tese.

Choque entre poderes? Como diria um famoso líder político, menas, menas. A AGU é ligada ao Executivo, mas não é todo o Executivo. O STF já tem a postos a turma do deixa-disso. E o julgamento do Supremo gira em torno de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade proposta por três partidos que fizeram parte dos Governos Lula e Dilma: PP, Solidariedade e PSC (e que, a propósito, também fazem parte do Governo Temer) – o que indica que falam em nome de todos. Os partidos defendem a tese de que tudo que atinja mandatos tem de ser examinado pela Casa em 24 horas.

Palpite deste colunista: entre mortos e feridos, salvam-se todos.

Análise a frio

Por mais que alguém não goste de Aécio (e por melhores que sejam os motivos para isso), é difícil entender a obrigação de ficar em casa à noite. Como medida cautelar, é estranha: Aécio representa algum perigo ficando fora de casa? Qual perigo? Aécio, ao que se saiba, tem pago suas despesas noturnas e não tem dirigido depois de pagá-las. Ou então é antecipação de pena – pena que só poderia ser-lhe imposta após o julgamento.

Gelo morno

A segunda denúncia do ex-procurador-geral Rodrigo Janot contra Temer também não deve provocar tumulto institucional. Temer, não esqueçamos, foi deputado por seis mandatos e exerceu por três vezes a Presidência da Câmara. Em resumo, conhece o jogo e o ambiente. Não é fácil vencê-lo na área que melhor domina. E ele trabalha duro: distribui cargos, convence partidos a escolher deputados amigos para as votações importantes, abre esperanças para quem ainda não foi contemplado ou acha que recebeu pouco.

Imoral? Claro. Mas, em política, imoral mesmo é ser derrotado.

Irmãos camaradas

A guerra santa entre João Dória Jr. e Alberto Goldman só poderia ocorrer no PSDB, um partido de amigos formado apenas por inimigos. Goldman, como seus aliados Serra e Andrea Matarazzo, não engoliu a vitória de Dória, apoiado por Alckmin, nas prévias do partido. E, nove meses após sua posse, disse que Dória como prefeito nem tinha nascido.

Dória reagiu dizendo que Goldman era fracassado e vivia de pijama em casa. Goldman disse que era velho mas não velhaco. Ufa! para ouvir alguém falar bem de tucanos, só mesmo procurando inimigos. Se o caro leitor não acredita, basta procurar algum tucano que defenda o senador Aécio Neves.

Amores odiados

Se ambos pensassem mais, talvez tivessem ofensas mais sólidas para dirigir um ao outro. Goldman errou ao dizer que Dória não tem ligação com o PSDB, Dória era ligado a um tucano de raiz, o governador Montoro, e trabalhou com outro tucano bicudo, o prefeito e governador Mário Covas. Na época, quem não era tucano era Goldman, escudeiro do governador Quércia, responsável pela saída de Montoro e Covas do PMDB. E Dória errou ao dizer que Goldman está aposentado. Tem 80 anos, vinte mais que Dória, e é incansável como ativista tucano. Para o bem ou para o mal.

El nombre del hombre

Dória levou um susto ao ver sua avaliação como prefeito cair, sem que suas intenções de voto para a Presidência subissem em outras regiões do país. Poderia recuar, dizer que jamais se proclamou candidato, que todos os seus esforços foram feitos para eleger Alckmin. Ninguém iria acreditar, mas quem acredita em políticos? Vai continuar, pelo mesmo motivo que levou Ulysses Guimarães a se candidatar em 1989, com os índices lá em baixo: era sua única chance. Talvez marque mais presença em São Paulo, em especial quando iniciativas suas de privatização derem certo. E manterá o ritmo de viagens.

Eleger-se é outra coisa – e quem pode se eleger por um partido em que os aliados são seus irmãos de sangue, e querem bebê-lo?

A hora de Bolsonaro

 Jair Bolsonaro tem tudo para repetir a trajetória de Marina Silva: sai na ponta e chega na ponta, só que na outra ponta. Há entrevistas gravadas em que defende a tortura (com estas palavras) e diz que sonega impostos.

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Nosso povo é ingrato

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Desculpe, mas é preciso registrar que nossos concidadãos só reclamam, e quando suas reclamações são atendidas reclamam do mesmo jeito.

Carlos Arthur Nuzman, supremo cacique olímpico e chefão do vôlei, foi preso há dias. E está todo mundo indignado com ele. Lembremos: durante 50 anos, o país só viu o ouro olímpico em 1920 (Guilherme Paraense, tiro). 1952 e 1956 (Adhemar Ferreira da Silva, salto triplo). Não ganhávamos ouro olímpico nem no futebol. Enquanto isso, americanos, russos, cubanos, alemães orientais e chineses se entupiam de medalhas de ouro. Com a prisão de Nuzman, descobrimos que em seu poder tinha 16 barras de ouro. Mais ouro que todas as medalhas de todos os gringos, em todos esses anos, somadas. Agora reclamam dele por realizar nossos sonhos de medalhas!

E Geddel, então? Geddel, mais que uma pessoa, é legião; aqui o citamos como símbolo de tantos colegas que, como ele, se dedicam ao bem. E essa nobre atividade é desempenhada com tanto desvelo que, em poucos anos de carreira, os mais competentes entre eles já acumularam bens de sobra. Geddel, nosso exemplo, tinha R$ 51 milhões em casa. 

Temos ainda o túnel construído para roubar R$ 1 bilhão do banco. Nós nos queixamos de obras superfaturadas e malfeitas. Este túnel foi bem feito em três meses, é sólido, custou R$ 4 milhões. Não temos do que reclamar: apenas reconhecer que os bandidos dos outros são melhores que os nossos.

Sem fantasia

Devido à prisão de Nuzman, acusado de pingar pixulecos para trazer ao Brasil os Jogos de 2016, o Comitê Olímpico Internacional suspendeu o Comitê Olímpico Brasileiro. Indignação por essa coisa tão feia, suborno!

Mas, desde que se concluiu que a Olimpíada é um grande evento turístico-econômico, Governos dos mais diversos países entraram na disputa para atraí-la. Devemos acreditar que, apesar dos abundantíssimos interesses comerciais em jogo, jamais algum Governo acenou com um “por fora” a dirigentes olímpicos que o apoiassem? Serão os dirigentes da Olimpíada tão fiéis ao amadorismo no esporte que não queiram, para usar o termo da moda, “monetizar” seu voto e influência? Devemos? Então, tá.

Vem que eu te quero tolo

As primeiras investigações indicam que Nuzman duplicou seus bens nos dois anos anteriores aos Jogos. Deve ter feito excelentes negócios, que lhe deram muito dinheiro, mais algum para gringos que poderiam ser úteis ao país. Ou isso, ou recebeu o dinheirão da turma lá de cima, separou uma boa parte para si (quem parte e reparte sempre fica com a melhor parte) e deu o restante a gulosos futuros aliados internacionais. Fica faltando identificar a turma lá de cima. É só procurar nos jornais da época quem é que estava mais feliz com a vitória política que era trazer ao Brasil a Olimpíada. 

Este colunista não vai pesquisar, não: já está cansado de ouvir o “é górpi!”

Vem prender-te em meus braços

Pegar aquele túnel tão bem feito no momento em que já estava debaixo do cofre do banco foi uma bela vitória. Só resta uma dúvida: por que não esperar os bandidos começarem a parte final do trabalho, o corte do cofre, para prender todos juntos? Há várias hipóteses: ou os bandidos detectaram a movimentação da polícia e caíram fora ou, pior, tinham informantes bem situados que lhes contaram que a Polícia já havia descoberto tudo. 

O erro dos afobados

O deputado Ricardo Tripoli, líder do PSDB na Câmara Federal, acha que o governador Geraldo Alckmin erra ao aproximar-se do presidente Michel Temer. Alckmin, possível candidato do PSDB à Presidência, quer minar as resistências do PMDB, o partido de Temer, a apoiar um candidato tucano. Tripoli acha que o Governo Temer já está com a popularidade perto de zero e, no ano que vem, terá virado pó. E seu apoio, em vez de ajudar o candidato tucano, irá é prejudicá-lo. Tripoli é um bom deputado, correto, estudioso, mas está se deixando levar por pesquisas fora de hora.

Número é número

Neste 6 de outubro, foram divulgados os números da inflação. A alta em setembro foi de 0,16% – um número baixíssimo, a ser festejado até na Suíça ou Alemanha. No acumulado do ano, de janeiro a setembro, a inflação foi de 1,78%. Fazendo-se a conta de 12 meses, de outubro de 2016 ao final de setembro de 2017, a alta de preços atinge 2,54%. A meta de inflação definida pelo Banco Central é de 4,5% ao ano, e Dilma jamais conseguiu mantê-la nesse nível. 

No momento, o Brasil discute ladroeira, está em crise política, Michel Temer sofre com processos. Na hora em que o país descobrir que o dinheiro está mantendo o valor, o apoio oficial volta a ser bom. Claro que Meirelles pode sair candidato, capitalizando o fato de ter comandado o time que segurou os preços, mas é sempre melhor estar do lado da inflação baixa, e não da desvalorização do dinheiro do eleitor.

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