Ansiedade acomete entre 9% e 15% das crianças de cinco a 16 anos, diz estudo

Em suas formas mais severas, a ansiedade pode afetar o raciocínio, o aprendizado e a concentração

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As crianças são, por natureza, ansiosas. Todo pai sabe que vai ouvir mais de 20 vezes a pergunta sobre quanto tempo falta para acabar a viagem ou chegar o dia do aniversário. Na escola, podem sentir dor de barriga em dias de prova. Em casa, ficam rondando a cozinha até o jantar ser servido. A vontade de antecipar situações e a excitação pelo que está por vir fazem parte do desenvolvimento infantil — mas até um limite. Quando começam a gerar sofrimento e atrapalhar o dia a dia, pode ser sinal de um problema maior.

“Quando a gente dizia que ele iria visitar um amigo, o Bruno ficava perguntando quando ia ser, como ia ser. Se preocupava com tudo, com a roupa que ia, quem ia levar, que horas ia voltar. Isso às vezes semanas antes”, diz a auxiliar administrativa Eliane Borges da Costa, mãe de Bruno, de seis anos. Por conta do comportamento do filho, ela começou a prestar mais atenção em alguns detalhes e, em conversa com uma amiga psicóloga, descobriu que o filho sofria de transtorno de ansiedade. “Foi difícil admitir no início, mas a melhor coisa que aconteceu foi levar o Bruno para começar terapia. Hoje, cinco meses depois, é muito raro ver sinais de ansiedade nele”, conta Eliane.

O distúrbio que acomete Bruno é cada vez mais frequente. De acordo com a Associação Americana de Transtornos de Ansiedade, entre 9% e 15% da população de cinco a 16 anos sofre do distúrbio. Na falta de estudos que mostrem se esse porcentual varia de um lugar para outro, os psiquiatras brasileiros trabalham com a mesma estimativa. Há sinais de que o mundo moderno tenha agravado o problema, que é caracterizado por um conjunto de reações físicas, psicológicas e comportamentais que antecedem uma situação real ou imaginária.

Um grave problema

O transtorno é grave. Em suas formas mais severas, a ansiedade pode afetar o raciocínio, a habilidade de tomar decisões, a percepção de seu ambiente, o aprendizado e a concentração. Além disso, vem se formando entre os médicos o consenso de que muitas desordens da vida adulta, desde dificuldades de relacionamento até a depressão, têm suas primeiras manifestações na infância – e em muitos casos poderiam ser evitadas com tratamento precoce. Esse tratamento é simples. “A dificuldade é o diagnóstico. Apesar de serem tão comuns, os distúrbios de ansiedade costumam passar despercebidos aos pais – talvez porque seus sintomas comportamentais sejam tão parecidos com virtudes”, observa a psicopedagoga Anamaris Beatriz Duarte, lembrando que os sintomas podem surgir subitamente ou de forma gradual. “Possivelmente por isso, passam despercebidos por muitos pais”, alerta.

É o caso de Roberta Padrão Soares, de 10 anos. Ótima aluna, ela não se conforma com notas menores que 9. Está sempre preocupada com a saúde dos avós. Quando eles adoecem, pergunta o tempo todo à mãe sobre a saúde deles. Não deixa o quarto desarrumado e preza a pontualidade, a ponto de exigir isso dos pais. Parece uma menina exemplar. Mas suas características dão sinais de uma espécie de sofrimento. “É difícil atinar que as qualidades tão prezadas nos filhos possam indicar problemas. Tão difícil que mesmo os sintomas físicos costumam ser ignorados”, diz Anamaris, acrescentando que em 80% dos casos a ansiedade vem acompanhada de manifestações como náusea, vômitos, dores de barriga, úlcera, diarreia, falta de ar, fraqueza ou até queda de cabelo. “Em geral, os pais procuram pediatras queixando-se do problema orgânico e a ansiedade fica mascarada”, salienta a psicopedagoga.


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